Eu estava aqui pensando que gosto de escrever, mas há um bom tempo não tenho tido inspiração Isolado num apartamento deste Residencial para Idosos, fica difícil encontrar algo interessante para fazer, para pensar, para escrever. Gosto de contar histórias reais ou, quando muito, criar uma história baseada em fato real. E os fatos estão lá fora, no mundo real. Ficar contando sobre minha vida aqui dentro poderia soar como uma queixa, que existem, mas não interessam a ninguém. Escrever sobre sentimentos, especialmente um que estou vivendo, seria trocar uma sessão de análise por teclar no notebook. Além do que poderia ser inconveniente para alguns e incompreendido por outros. Até já escrevi para desabafar, mas não publiquei. Quem sabe um dia alguém ache esse texto e faça uma publicação póstuma se tiver a curiosidade de olhar meus arquivos. Certo, tenho muitos contatos no mundo das redes sociais. Quase a totalidade desses contatos são o que são. Contatos virtuais. Um ou outro, digamos, mais próximos. E outro que me dá ainda mais vontade de frequentar o mundo real.
Enquanto eu espero, não muito pacientemente…, que alguma coisa mude para melhor na minha vida estou zapeando meu olhar entre esta fria tela e o futebol na televisão, tenho a ilusão de ouvir uma vozinha:
– Oi, Paulo Celso, gostaria de te ajudar.
Meus Deus! Será que de tanto conviver com pessoas com vários graus de demência estou indo por esse caminho também? Presto atenção se há alguém no corredor ou há som vindo de outros quartos. Nada. O único ser vivo aqui no quarto, além de mim mesmo, é uma formiguinha que passeia pela escrivaninha, talvez procurando alguma migalha do bombom que comi ontem. Penso:
– “Esta formiguinha é que é feliz. Sem maiores preocupações além de achar alimento para si e para as demais formigas que moram no mesmo formigueiro”.
– Não é bem assim, Paulo. Também tenho meus problemas.
– “Francamente, fico muito preocupado. Será que estou imaginando vozes, de tanto querer conversar com alguém, aqui no meu isolamento?”
– Não, Paulo. Você não está imaginando. Sou eu, esta formiga que passeia pela escrivaninha, que estou me comunicando com você.
– Mas sua voz soa como estivesse dentro da minha cabeça.
– É uma longa história. Estamos nos comunicando pelo que vocês humanos chama de telepatia.
– Mas… como uma formiga fala comigo por telepatia?
– Acho que posso resumir a explicação para que você entenda que esta nossa conversa é real. Não é sua imaginação.
– Você conhece bem a Teoria da Evolução das Espécies. Essa evolução não ocorre só nos humanos e, talvez, para certos animais. A verdade é que a Evolução obedece a regras universais, que se aplicam a todos os seres vivos. O resultado e a velocidade da evolução dependem do planeta em que ocorrem e da espécie inicial. Nós formigas também evoluímos. Sem saber como, nem porque, algumas de nós desenvolvemos a capacidade de nos comunicarmos por telepatia. Talvez por causa de alguma radiação atômica. Acredito que sejamos poucas que, atualmente, apresentam essa capacidade. Eu, de fato, estava farejando algumas micro migalhas de bombom quando comecei a prestar atenção nos seus pensamentos. Usualmente não nos comunicamos por telepatia, a não ser entre nós. ”Ouvindo” seus questionamentos resolvi verificar se posso te ajudar. Afinal eu posso circular livremente pelo que você chama ‘o mundo exterior’, a menos que ocorra algum acidente.
– Nossa!, custo a acreditar que estou conversando com uma formiga. Só me ocorre agradecer à Providência Divina pôr à minha disposição um auxílio que nem sei como usar.
– É fácil. Como eu não tenho limites, a não ser distâncias e acidentes, vou circular por aí prestando atenção em coisas que eu posso contar para você e que talvez possa servir de inspiração para seus textos.
– Puxa, isso é mesmo possível. Mas, como vou saber que é você?
– Me dá um apelido. Quando você vir uma formiga andando pela escrivaninha me chama pelo apelido. Se não for eu você não terá resposta.
– Tá bom. Você será minha amiga Gui-Gui.
-Fechado! E não se preocupe se eu demorar. Coisas interessantes não aparecem a toda hora. E o que são metros para você são quilômetros para mim. Fui…
Não vejo a hora que a Gui-Gui volte.
Escrito 05/12/2025
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