TERREMOTOS

Já faz algum tempo que fiz amizade com a Gui-Gui. Ela bem que me alertou que poderia demorar para voltar. Mas estou ansioso para escrever alguma coisa e, para variar, estou pobre de inspiração. Várias vezes vi formigas andando pela escrivaninha, nas imediações do notebook. Para estimular visitas, procuro deixar iscas, apoiando na escrivaninha coisas que estou comendo. Pão, bolacha, bombom. Até que aparecem algumas visitantes. Penso:

– Gui-Gui?

Silêncio total. Não é ela…

Hoje, enquanto eu tomava café, vi uma formiguinha andando aqui, próxima do note. Mais uma vez falei com meus botões:

– Não deve ser ela…

Se enganou, Paulo. Sou eu mesma, de volta. Como estão as coisas por aqui?

– Gui-Gui!!! Que bom te rever! Você está bem?

Estou sim, meu amigo. Passei alguns “perrengues”, como vocês dizem, mas sobrevivi. Acho que não comentei com você: quase todo formigueiro tem pelo menos uma formiga telepata. Então sabemos coisas que aconteceram aqui perto ou muito longe. Por isso, vou te contar tanto fatos deste quarteirão como outros que ocorreram em lugares muito distantes. E você escolhe o que vai contar.

E ela me contou esta história que reproduzo a seguir:

“Omar  era um afegão na casa dos seus 50 anos. Já haviam se passado 4 anos desde que sua esposa, Aisha, morrera num dos costumeiros terremotos que abalam o Afeganistão. Logo depois que Aisha partiu, seus dois filhos tinham emigrado para a Europa, fugindo da guerra civil que há tanto tempo assolava o país. Omar ficou sozinho, tentando achar um novo sentido para sua vida, agora tão solitária. Um dia, sentado num banco de jardim, teve sua atenção despertada por uma linda moça, que parecia soluçar, sentada sozinha em outro banco bem próximo. Hesitou um pouco, temendo ser inconveniente, sentou-se ao lado da moça.

– Bom dia. Me chamo Omar. Posso te ajudar de alguma forma?

Enxugando os olhos e assoando o nariz, ela respondeu:

– Bom dia. Meu nome é Zahra. Você pode me ajudar sim. Basta ficar aqui e conversar um pouco comigo. Me sinto tão sozinha…

– Zahra, também estou sozinho. Sei bem com está se sentindo. Você quer me contar por que está sozinha?

– Obrigada. Talvez me faça bem extravasar um pouco desta tristeza. Lembra-se do último terremoto, aquele de dois meses atrás? Não foi tão severo e só três pessoas morreram. Infelizmente uma dessas pessoas era o meu marido, Hassan. Nos casamos um pouco tarde e, apesar de eu já ter completado 40 anos, tínhamos o desejo de termos filhos. Com a morte do Hassan fiquei sem chão e ainda não sei o que vou fazer da minha vida.

– Zahra, temos histórias parecidas. Naquele grande tremor de terra de há 4 anos eu e minha família estávamos em casa, pois foi de madrugada. A casa desabou e eu e meus filhos sofremos ferimentos leves, mas minha esposa, Aisha, foi atingida por uma parede do quarto e faleceu. Logo depois meus filhos resolveram emigrar para a Europa, para escapar da guerra civil. Desde então ainda não me acostumei com a solidão.

– Que coisa, Omar. Como nossas vidas mudam com os terremotos! Só nos resta erguer a cabeça e seguir em frente. Mas é difícil e muitas vezes me faltam forças.

– Zahra, tenho uma ideia. Costumo vir a este parque para espairecer. Se nos encontramos novamente podemos bater um papo. Que você acha?

-Acho uma boa ideia. Não costumo vir sempre aqui, mas quando vier e você estiver por aqui podemos, sim, conversar.

Desse dia em diante, sempre que se encontravam ficavam em longas conversas. Tinham muitos interesses em comum. Ler, ouvir música, cinema, teatro, boas comidas e até posturas muito semelhantes em relação a religião. Logo passaram a se ver diariamente. Combinavam almoços, jantares, outros passeios. Com o tempo estabeleceram um vínculo muito forte. Num desses passeios Omar quis conhecer a casa da Zahra. Ficou chocado, pois a casa ainda não tinha entrado no programa de recuperação do governo e estava semidestruída pelo mesmo terremoto que matou o marido dela. Omar pensou um pouco, mas acabou falando sua ideia, seu pedido:

– Zahra, nos últimos meses construímos uma relação muito gostosa. Eu estava para te propor uma coisa e acho que é um bom momento. Vendo o estado precário da sua casa e esse elo que se estabeleceu entre nós, estou seguro de lhe propor o seguinte: quer vir para minha casa e passarmos juntos o resto de nossas vidas?

Zahra não fez cara de surpresa. E respondeu:

– Já há algum tempo tenho pensado nessa possibilidade, mas não quis te falar porque não tinha certeza de como você receberia essa ideia. Então, sim, aceito sua proposta!

E selaram esse compromisso com abraços e beijos apaixonados, ali mesmo no meio da rua.

Depois de alguns dias vivendo juntos, Omar fez uma proposta:

– Zahra, meu amor. Esta cidade nos traz algumas recordações boas e outras, nem tanto. O que você acha de nos mudarmos para outra cidade?

– Concordo com você. Vida nova, casa nova. Já tem alguma ideia sobre para aonde irmos?

– Não tenho. Vamos escolher juntos.

Depois de algum as pesquisas a escolha foi por Herat, pelo tamanho menor, pela sua arte e arquitetura. Combinaram que Omar iria para Herat escolher um local para morarem. Iriam conversando pelo celular e, quando uma boa alternativa aparecesse, Zahra iria se encontrar com para decidirem em conjunto. Omar se hospedou num hotel e, à noite, iam conversando e vendo fotos das casas visitadas. Em apenas duas semanas ele já tinha encontrado uma casa bem interessante. Ele voltou para hotel e pegou o celular para combinar com a Zahra a vinda dela. Ela atendeu a chamada, mas o celular dele estava mudo.

Um terremoto de intensidade 7,1 na escala Richter teve como epicentro a região onde se situa Herat. As comunicações cessaram por completo. Zahra ficou em estado de choque. Quis ir para lá, masas visitas à região estavam proibidas. Tentou várias vezes ligar para Omar, mas sempre recebia a mesma mensagem “celular fora de serviço”. Ela tentou consultar a relação de mortos, feridos e desaparecidos, mas em nenhuma achou o nome de Omar. Depois de várias semanas sem notícia resolveu procurar emprego e recomeçar, mais uma vez, sua vida. Sozinha outra vez.

E Omar? Com o terremoto, o hotel onde Omar estava hospedado ruiu quase completamente. Ele foi atingido por uma parede e ficou seriamente ferido. Quebrou a perna e o braço esquerdos e teve uma forte concussão cerebral. Devido a essa concussão ele perdeu totalmente a memória; seus documentos e seu celular se perderam no meio dos escombros. Os socorristas não tiveram como identificá-lo e o internaram como “Identidade desconhecida”. Passou longos meses se recuperando das fraturas, mas não conseguia restabelecer sua memória. Um persistente psiquiatra fazia esforços para ajudar nessa recuperação. E teve a ideia de mostrar fotos de várias cidades e atrações turísticas das quais ele pudesse se lembrar. Quando mostrou a foto de um parque em Cabul notou um certo brilho nos olhos de Omar. Começou a insistir em outras imagens da capital e cada vez mais Omar parecia reconhecer os locais. O psiquiatra começou a mostrar a ele uma lista com os nomes de homem mais comuns. De repente ele apontou para o nome Omar e falou “Eu… eu”. Aos poucos foi se lembrando de  mais coisas. Um certo dia ele lembrou do nome Zahra. O psiquiatra perguntou “Mãe? Filha? Irmã? Esposa?”. Depois de pensar um pouco falou ”Esposa”. Depois de quase 2 anos Omar já tinha condição de viver por si. Ainda não sabia o sobrenome e idade, mas isto viria com o tempo. Teve alta e recebeu uma verba do governo para vítimas de terremotos, para que pudesse se sustentar por algum tempo.

Tomou um ônibus para Cabul. Durante a viagem, vendo tantas paisagens familiares, foi recuperando muitas lembranças. Principalmente o endereço onde Zahra esperava. Tocou a campainha e atendeu uma moça estranha. Surpreso, ele perguntou:

– A Zahra está?

– Não, ela não mora mais aqui. O noivo estava em Herat quando houve aquele forte terremoto. Procurou por ele durante mais de um ano e não achou nenhuma informação sobre ele. Conheceu um rapaz no trabalho, começaram a namorar e se casaram há uns 4 meses. Puseram a  casa à venda e eu comprei.

Quando recuperou a voz, Omar perguntou:

– Você tem o endereço dela?

– Tenho sim. Até hoje ainda chegam correspondências para ela e eu as encaminho. Aqui está anotado neste papel.

– Obrigado. Boa tarde.

Omar caminhou lentamente, sem destino. Até que se achou naquele parque onde conheceu Zahra. Ficou um longo tempo pensando no que diria para ela. E chegou a uma decisão difícil. Se ele se a procurasse, com certeza causaria uma grande perturbação na vida dela. Ele a amava muito e decidiu não procura-la, para não destruir a felicidade que ela estava conquistando. Em nome desse amor, abriu mão sua própria felicidade. Na verdade, seria feliz por amar e saber que sua querida estava feliz. Dirigiu-se para o aeroporto e comprou uma passagem para ir encontrar seus na Europa”.

Paulo, como você melhorou a história que te contei!

– Pois é Gui-Gui, e assim que espero que seja a nossa parceria. Você me conta uma história ou comenta algo que viu nas suas andanças e eu coloco na forma de um texto a ser publicado.

Mas eu notei que, em vários  momentos você parou e respirou fundo.

– Verdade. Eu pensava em tantas pessoas que passam por terremotos em suas vidas. Alguns deixam marcas no corpo; outros deixam marca na alma. Mas sempre fica algum aprendizado.

Finalizado em 24/01/2025

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