São oito horas da manhã de sexta-feira. Parado na Ver. José Diniz, esquina com Joaquim Nabuco, no coração comercial do Brooklin. Aguardo o sinal verde para continuar meu caminho para o trabalho. Como gosto de fazer, observo os pedestres que passam na sua faixa. Sempre há coisas interessantes. Nem sempre como desta vez. Minha atenção é despertada por uma figura que parece deslocada, no tempo e no espaço. Tentarei descrevê-la.
Sem dúvida, é uma moradora de rua. Afinal, está descalça e aparentemente há muito tempo. Parece uma mulher, mulata, mais por dedução do que por algum indicador óbvio. E a razão da minha dúvida é que ela está usando um vestido negro. Mas não um vestido negro qualquer. Parece ser composto por três peças diferentes que algum estilista juntou num traje único. Uma saia quase plissada, rodada, larga, que vai até os joelhos. Uma blusa simples, sem qualquer recorte ou detalhe, com decote moderado em forma de “U” e mangas que vão justas nos braços até a altura do cotovelo. E um capuz muito grande e largo, estilo capuchinho, que ela usa sobre a cabeça, escondendo-a completamente. Essa indumentária inusitada, aliada a uma esbeltez diferente da magreza faminta é que me fazem chegar à dedução inicial. Para tornar a aparição ainda mais surpreendente, ela parece flutuar seus cerca de 1,70m sobre o asfalto, com seus passos miúdos e elegantes que transformam a faixa de pedestres numa passarela. E, para arrematar, ela tem um surpreendente pudor. Sob esse vestido, que parece já ter se exibido em cenários sofisticados, ela usa uma surrada bermuda jeans. Conforme ela desfila, isto é…, passa, a saia esvoaça e deixa ver essa bermuda. E ela, nervosamente, puxa a saia para baixo para esconder a bermuda (ou as delgadas pernas?).
Ela some do outro lado da avenida e, enquanto continuo meu caminho, dou espaço à imaginação. Quem será Madalena? É, acabei de batizá-la assim, por uma série de razões que cada leitor pode imaginar. Ela foi uma dessas tantas moças que sonham com o sucesso da Gisele Bundchen. Ralou bastante e descolou uma grana para fazer seu book. Foi para a porta da agência cavar seu espaço. E encontrou o começo do seu destino tão difícil. Um descobridor de belezas a viu e achou que tinha potencial, no que não errou. Convidou-a para um teste. Pena que era o famoso teste do sofá. O teste foi muito bem, mas só ele se beneficiou. E o teste se repetiu muitas vezes. Ela passou a ser conhecida como “a menina do caça talentos”. Com essa imagem ela jamais conseguiu um trabalho como manequim. O mais longe que chegou foi ser ajudante em um atelier de alta costura. Um dia, ela acordou para a realidade. Olhou para tantas como ela, que acabaram indo para a prostituição e as drogas. Ela não quis isso. Tinha a dignidade que recebeu um dia como única herança dos pais. Ganhou, como agradecimento da modelo a quem ajudava, um vestido negro já sem serventia. Esse mesmo que chamou minha atenção. Com ele e uma inesgotável esperança, foi para a rua onde continua na expectativa que um caça talentos bem intencionado a redescubra. Mesmo que esteja desfilando um vestido velho “Das Ruas”, na passarela de asfalto. E imaginando um narrador dizendo: “Aí vem Madalena, que veste DasRu”.
Escrito por volta de 22/07/2021
NOTA
Quando escrevi este texto, fazia sucesso em São Paulo o espaço ultra luxuoso DasLu, derivado da Boutique batizada pelo nome DAS sócias LUcia e LUrdes.
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