DESFILE DE CIRCO

Como sua família fazia há gerações, Quincas Camargo organizava o desfile do Gran Circus Camargo em uma nova cidade. Como sempre, a banda viria à frente, logo seguida dos trapezistas, malabaristas e contorcionistas. Depois, os animais de porte: elefantes, cavalos, tigres, leões. O próprio Quincas (QC, como alguns o chamavam veladamente) desfilava numa plataforma armada no alto do primeiro elefante, usando o megafone para anunciar as atrações do circo. Bem atrás dos animais, os palhaços e, em seguida, o restante da troupe oferecia aos assistentes uma amostra grátis caprichada dos números que seriam exibidas nas diversas funções a se realizarem a partir de logo mais à noite.

Mais uma vez, QC fazia seu trabalho pensando nos por quês dessa ordem, sempre a mesma há tantas décadas. A banda tinha que abrir o desfile, para despertar a atenção do distinto público. As formosas (ainda que à custa de quilos de maquiagem e roupas extravagantes…) trapezistas, malabaristas e contorcionistas tinham a missão de estimular os marmanjos a levarem seus filhinhos para assistir aos espetáculos. Os grandes animais representavam a força do circo e acenavam com os riscos que seus domadores correriam a cada exibição. E os demais artistas, com o caminho aberto por essa impressionante vanguarda, eram um aperitivo e um estímulo à curiosidade sobre o que seria possível ver sob a lona do Gran Circus Camargo.

E, outra vez, Quincas se perguntava por que os palhaços desfilavam logo após os animais e não no final, fechando o desfile, onde seria o lugar mais correto para seu papel de coadjuvantes. Até que, um dia…, QC entendeu essa lógica. Que não era do seu circo ou da sua família, mas de toda a atividade circense.

Quincas tinha um ego maior que o próprio circo. Não era à toa que ele desfilava no alto de um elefante e usava um megafone. Ninguém poderia ignorá-lo! E foi do alto desse pedestal que ele começou a perceber o que o incomodava nos palhaços que vinham, como já se sabe, bem atrás dele. Percebeu o seguinte: em vários momentos, os populares que, na calçada, a tudo assistiam, riam muito com os palhaços e pareciam não dar a devida atenção ao que ele anunciava. Quando se certificou que isso de fato ocorria, QC tomou uma decisão drástica. E nem discutiu sua idéia com qualquer outra pessoa do circo. Afinal, ele era o dono e ninguém sabia dirigir seu circo como ele.

Simplesmente informou a todos que, a partir da próxima cidade, os palhaços ficaram no final, encerrando o desfile. Alguns artistas não concordaram com isso, mas, por várias razões, preferiram ficar ajuizadamente quietos…

E veio o próximo desfile. Tudo começou bem. Quincas certificou-se que, agora, o público não mais deixava de ouvi-lo por causa dos palhaços. Mas… numa dessas olhadas para trás, para ver como as coisas iam, sentiu que algo esquisito estava acontecendo. O mágico deixara o coelho fugir da cartola. O comedor de fogo não conseguia cuspir aquela enorme chama de sempre. Os equilibristas pareciam… desequilibrados. Com essa amostra, muitos não iam querer pagar para ver a continuação, pensou QC.

E assim, de fato, aconteceu. A venda de ingressos foi diminuindo a cada espetáculo. QC se esmerava cada vez mais na redução de custos. O que – todos reconheciam – ele sabia fazer muitíssimo bem. Mas não adiantava. As dívidas, primeiro foram aparecendo. Depois, deram de ir aumentando! O dono do circo sentiu que poderia perder o que gerações da família Camargo haviam construído.

Numa tarde calorenta e empoeirada, estava sentado à porta de seu trailer, pensando nos problemas do circo, quando o Palhaço Germano se aproximou. Germano era um dos melhores palhaços da região e vinha comunicar sua decisão de abandonar o Gran Circus Camargo. Quincas, que, entre outras coisas, já havia renovado várias vezes a equipe de palhaços, na ânsia de resolver o problema, ficou furioso. Perguntou a Germano, arrogantemente:

– Quanto você quer para não sair?

Ao que Germano respondeu com firmeza:

– Não se trata de “quanto”, mas “o quê” eu quero para ficar aqui mais algum tempo.

– E o que é que você quer? Respondeu QC, mal segurando uma explosão de raiva.

– Basta que o senhor passe a utilizar os palhaços corretamente…

Quincas não acreditava no que ouvia. Como alguém se atrevia a lhe dizer como conduzir o seu circo? Ainda mais um palhaço! Porém, face à situação crítica dos negócios, fez um enorme esforço para se controlar e disse, com a máxima ironia de que foi capaz:

– Então, senhor sabichão, me fale alguma coisa sobre circo que eu ainda não saiba…

Germano, que se afeiçoara aos colegas do circo, respirou fundo e começou a falar, desejando que pudesse de alguma forma ajudar o QC e todos os artistas:

– Se o senhor tivesse trabalhado em outros circos, como eu e tantos outros aqui, já saberia a resposta. Que, na verdade, é muito simples.

– Não me diga!…

– Pois é, o que acontece é o seguinte. Quando os animais desfilam, a natureza continua funcionando… Aqui e ali, um animal ou outro defeca, e as fezes ficam no caminho de quem vem atrás. Por causa disso, os artistas ficam preocupados em não pisar na sujeira e perdem a concentração. Para não pisar nessas armadilhas que o grupo da frente vai deixando, cometem erros que normalmente não aconteceriam. É claro que a exibição fica pobre e o público acha que a qualidade dos números não será lá essas coisas.

– Bem – disse Quincas. E qual é a solução mágica? Fazer os bichos desfilarem de fralda, é?

– Não – respondeu Germano. É muitíssimo mais fácil. Quando os palhaços são posicionados corretamente, logo depois os animais, eles fazem o trabalho de limpeza. Ao perceberem que “a caca está feita” eles improvisam uma palhaçada qualquer e tiram a sujeira do caminho. Assim, os demais artistas podem tranqüilamente demonstrar suas habilidades.

– Ahn!… Foi tudo o que Quincas conseguiu balbuciar.

– Assim são os palhaços. Como o senhor bem sabe, quando algo sai errado no circo, são os palhaços que correm para disfarçar. Em certos momentos fazem isso tão bem que o público fica pensando que tudo faz parte do espetáculo, não é mesmo?

– Mas… mas.. e então?…

– É, senhor Quincas, os palhaços têm uma função mais importante do que só fazer graça. Eles desenvolvem a habilidade de rir quando poderiam chorar; contribuir para corrigir as falhas dos outros; e, principalmente!, colocar-se no papel de coadjuvante quando, de fato, são tão importantes quanto os demais.

Quincas estava absolutamente estupefato. Em poucas palavras Germano lhe dera várias lições. Primeiro, ninguém pode saber tudo. Segundo, é preciso valorizar o papel de cada um. Terceiro, vale a pena ouvir os outros antes de tomar uma decisão.

O Gran Circus Camargo começou a recuperar-se. Germano continuou sendo o Palhaço Germano e, junto com os demais palhaços, desfila agora logo em seguida aos animais.

Quincas já não mais aparece no alto do elefante. Ele desloca-se no meio do desfile, garantindo que cada um cumpra seu papel. Inclusive os garotos que distribuem os vistosos folhetos que falam sobre as atrações do circo. E continua sovina como sempre, no controle dos custos do tradicional Gran Circus Camargo.

Escrito em 04/09/2006

Publicado em 26/07/2021

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