ALESSANDRA E MIRTES

Alessandra era filha de um político de pouca projeção e de uma artista em crescimento no mercado de artes. Era o que os economistas chamam de “classe média alta”.  Apoiada nessa situação financeira, ela estudava numa das melhores escolas da cidade de São Paulo. Como a única exigência para vestimenta durante as aulas era o blusão com as cores e o nome da escola, Alessandra estava sempre com roupas de grife, perfume francês, cabelo muito bem cortado e penteado. Sua mochila se destacava entre tantas de alto padrão; sempre com material escolar muito bem cuidado e lanches que pareciam terem sido preparados por um chef . Como era de se esperar, estava sempre alegre e brincando com as colegas sobre tudo: as roupas, os lanches, os passeios no final de semana, as viagens de férias.

Como é comum em escolas desse padrão, havia um acordo com algumas ONG’s que davam assistência às pessoas menos favorecidas, economicamente, das periferias da cidade. Por esse acordo, eram concedidas todos os anos algumas bolsas de estudo, a custo zero para os estudantes. Mirtes era uma dessas bolsistas, na mesma escola que Alessandra. Uma das patroas da mãe gostava muito dela e indicou a Mirtes para bolsa  de uma dessas ONG’s. Filha única de uma mãe solo que ralava seis dias por semana fazendo faxinas em residências e escritórios. Ganhava o suficiente para comer, pagar aluguel, vez outra uma roupa nova e, quando possível algum pequeno luxo (geralmente um sorvete ou um chocolate). Nos intervalos das aulas ficava afastada dos colegas, comendo o lanche que sua mãe tinha preparado e tomando água do bebedouro.

Alessandra adorava zoar os colegas, mas desde que descobriu a Mirtes, o que ela mais gostava era zoar dela.

– Gente, olha só a saia dela, da butique Feira…

– Os sapatos parecem que já deram a volta ao mundo. E não adianta disfarçar com graxa.

Mas o que ela mais gostava de fazer era comentar sobre o lanche da Mirtes, desembrulhava e mostrava para todo:

– Pessoal, parece que hoje foi de dia de festa. Um ovo frito inteiro só para ela se esbaldar na nossa frente.

Um dia ela se superou, ao olhar pão:

– Gente, que é isso?! Parece uma nova sobremesa! O pão lambuzado com margarina e açúcar espalhado por cima.

Mirtes não falava nada. Simplesmente se calava, pegava o lanche e ia para o banheiro para chorar enquanto comia.

Certo dia, ao tirar o lanche das mãos da Mirtes, viu que era meio pãozinho já bem duro e embrulhado numa folha de caderno com alguma coisa escrita. Resolveu ler em voz alta, para todos ouvirem:

-Bom dia, Mirtes, minha filha. Hoje não esperei você para tomarmos café juntas. Porque esse pedaço de pão amanhecido era a única coisa que tinhamos para comer aqui em casa. Então sai sem comer. Amanhã devo receber o pagamento de um escritório que limpo e compro alguma coisa. Mamãe te ama. Beijo.

Alessandra mal conseguiu ler o bilhete até o fim; derramava grossas lágrimas e soluçava. Porque esse jeito dela era fruto da sua educação. Fazia uma semana que não via o pai e só via a mãe tarde da noite quase todos os dias. Quem fazia os lanches, arrumava suas roupas e penteava seu cabelo eram as empregadas e quem a levava para a escola era o motorista da família. Mas ela tinha um coração de ouro. Sentiu pena da Mirtes e de si mesma. Da Mirtes, pelas dificuldades financeiras. De si, porque gostaria de ter dos pais o mesmo carinho que a Mirtes recebe da mãe.

Todos ficaram em silêncio, emocionados. Alessandra abraçou Mirtes, abriu sua lancheira e deu seu lanche para ela. Mirtes cortou o lanche ao meio e ficou com metade. Alessandra, num misto de alegria e tristeza, foi até a cantina e trouxe um copo de suco para cada uma. Desse em dia em diante passaram a ficar juntas em todo o recreio e comendo os lanches, uma ao lado da outra. Quando Alessandra percebia que o lanche da Mirtes era muito pobre, dava para ela metade do seu.

Pouco tempo depois o pai da Alessandra foi cassado por corrupção. Passaram a contar só com a renda da mãe. E ela teve que sair da escola. Anos depois, Mirtes muito esforçada para dar melhores condições de vida para a mãe, entrou na faculdade de direito. Quando estava no segundo ano, foi participar da recepção aos calouros e lá reencontrou a Alessandra.

Escrito em 01/03/2026

Deixe um comentário