Jorge começou a mexer bastante os olhos, sem abrir as pálpebras. Na fase denominada REM (Random eyes movement. Movimento randômico dos olhos). Evento que se manifesta quando estamos sonhando, no final do sono normal. Nesse momento há intenso movimento dos olhos, acompanhando o que se passa no sonho, e sinaliza grande atividade do cérebro. Nesse momento sentiu como se alguém o estivesse balançando. Abriu os olhos lentamente e não sabia onde estava. Era uma sala grande e ele estava numa cama, em frente a uma janela e o que parecia ser uma enorme tela de televisão. Do seu lado esquerdo havia uma espécie de um painel, cheio de portas e luzes. Quando acabou de abrir os olhos, sentiu alguma coisa enfiada na sua boca. Nesse instante uma daquelas portas se abriu, de dentro saiu como um braço mecânico que foi se esticando em direção a ele ao mesmo tempo que ouvia uma voz que dizia: “Tussa, tussa, tussa”. Na segunda vez que tossiu aquele braço puxou como que uma mangueira da sua boca. Ele entendeu logo que estava sendo desintubado. A voz falou novamente:
– “Olá, Jorge. Que bom que você acordou. Sua Marina, a enfermeira de plantão, neste turno. Eu te vejo e você pode me ver nessa tela a sua frente. Você está numa UeTI, que significa Unidade eletrônica de Terapia Intensiva. Durma mais um pouco e mais tarde volto a te ver. Até já”.
Ele estava tentando entender como tinha vindo parar ali. E o que era uma UeTI? Tudo que se lembrava era que estava parado com sua moto no sinal, ouviu uma sirene da polícia tocando atrás dele e uma sensação como se estivesse voando. Quando teria sido isso? Ontem? Anteontem? Será que estava sozinho na moto? Isso ele iria descobrir aos poucos. A imagem da Marina apareceu outra vez na tela.
– “Tô de volta. Daqui a pouco o Dr. Alberto, médico do plantão, vem conversar com você. Enquanto isso vou medir seus sinais vitais e fazer alguns exames de sangue e urina. Nesse painel ao lado da cama vão aparecer várias luzes, de diversas cores. Algumas ficam acesas alguns segundos e apagam. Outras piscarão em intervalos diferentes e uma ficará o tempo todo acesa.”
– Mas não tem agulha? O que você medirá?
– “Será medida a pressão, oxigenação, temperatura. Farei hemograma completo, alguns exames de sangue específicos, urina, antibiograma, eletrocardiograma e eletroencefalograma.”
– Nossa! E quantos dias demora para sair os resultados?
Marina sorriu e informou:
– “Estamos falando de minutos, não dias…rsrs. Os exames mais demorados ficam prontos em 20 minutos. Quando o Dr. Alberto vier conversar com você já terá os resultados no tablet. Tchau, nos vemos mais tarde”.
A tela fechou e Jorge começou a ficar preocupado. “Essa modernização da UTI (ou UeTI??) não dá para ser feita de um dia para o outro… Ou será que estou sonhando sob efeito de anestesia?”. Enquanto ele pensava, as luzes que a Marina prometera começaram a pipocar do enorme painel ao lado da cama. A única coisa que ela não falara é que certas luzes, as que ficavam mais tempo acesas, causavam um leve aquecimento do local sobre o qual incidiam. Começou a tentar entender o que se passava, mas não lhe ocorria nenhuma ideia. Aos poucos as luzes foram se apagando e uma suave música preencheu a sala. A iluminação diminuiu um pouco, a tela abriu e apareceu um jovem vestido de azul. Ele imaginou que fosse o dr. Alberto.
– “Bom dia, Jorge. Sou o Dr. Alberto. Vou cuidar de você neste turno, junto com a enfermeira Marina. Vamos conversar bastante, pois acho que você deve estar cheio de perguntas, né? Vamos começar pelos seus exames. Oxigenação, pressão e temperatura, normais. Hemograma muito bom, com pequena queda dos glóbulos vermelhos, dentro do esperado no seu caso. Nada que um tratamento simples não corrija. Você não tem nenhuma infecção, nem no sangue e nem na urina. Eletrocardiograma normal. Tem ainda marcas de cicatrização no cérebro e na coluna cervical. Tudo em função do acidente e devem desaparecer com o tempo. Enfim, pronto para a alta. Vamos começar com suas perguntas.”
– Realmente, dr. Alberto, estou achando tanta coisa estranha. Não sei como vim parar aqui. Só lembro de sentir um impacto por trás da minha motocicleta. É por isso que estou aqui no que a Marina disse ser uma UeTI? Até o nome do lugar me parece estranho. Há quanto tempo estou aqui?
– “Com minhas respostas você vai entender por que e há quanto tempo está aqui, numa Unidade eletrônica de Terapia Intensiva. O ‘e’ foi acrescentado porque a grande maioria das ações são tomadas com auxílio de diversas tecnologias eletrônicas. Se você tiver interesse, podemos voltar ao assunto mais tarde.
Sim, você está aqui por causa de um acidente de trânsito. Você estava com a sua moto, parado no semáforo. Estava havendo uma perseguição de ladrões, pela polícia. A viatura policial acionou a sirene quando chegaram ao cruzamento e os ladrões tentaram fugir, furando o sinal vermelho. E atingiram sua moto por trás, em alta velocidade. Você foi arremessado a 50m de distância, caiu de cabeça no chão e o capacete te salvou da morte instantânea. Mas a pressão do próprio capacete causou um grande estrago no seu cérebro e na sua coluna. Você veio direto para a UTI, e entrou em coma. Na época não tínhamos como tratar essas lesões que, felizmente, não eram mortais. Decidimos mantê-lo em coma induzido até acharmos uma solução”
– Pera aí, dr. Alberto… O que o senhor quis dizer com ‘naquela época’?
– “Prepare-se, Jorge. Acho que esta será sua maior surpresa de hoje. No mês passado completaram-se dez anos desde que deu entrada na UTI”.
Jorge ficou mudo durante vários minutos. De olhos fechados, pensando: ‘Como, dez anos?!?! Eu pensava que tivesse sido ontem… Posso entender por que acho tudo tão estranho. Na época do acidente o mundo estava passando por grandes transformações, especialmente no campo das tecnologias de informação, na medicina, no uso da energia limpa. Imagino que em dez anos deve ter havido um progresso incrível… Quando começou a se recuperar da surpresa, sua pergunta foi:
– Mas, dr. Alberto, como pude ficar aqui por mais de dez anos, sem sequer acordar?
– “Jorge, quando você sofreu o acidente sabiam os médicos que o atenderam que suas lesões não eram fatais, mas na época não havia como tratá-las. Como havia desenvolvimentos rápidos em várias áreas da ciência, inclusive na medicina, resolveram deixá-lo em coma induzido até que houvesse alguma forma de pelo menos atenuar os efeitos das lesões. Um grande ramo da medicina em desenvolvimento, batizada como biomedicina, unia recursos da eletrônica com a biologia unindo conhecimentos da eletrônica com a biologia. Daí surgiram várias novas formas de diagnóstico e tratamento de doenças. A partir do desenvolvimento desses, processos foi criado um novo modelo para as UTI’s, com o acrescimento de ‘e’ para designar uma UTI com recursos da eletrônica. Todas essas luzes que você viu são fruto dessa nova tecnologia. São equipamentos que acessam vários pontos do corpo, sem tocá-lo. Dessa forma eliminadas as desagradáveis agulhas, os fios que eram uma ameaça para o sistema imunológico, foi drasticamente reduzido o tempo de coleta das amostras e o tempo para apuração dos resultados. Assim, em poucos minutos o médico olha os resultados e pode até pedir a verificação de algum resultado ou pedir um exame complementar. E, imediatamente, determinar o processo terapêutico adequado.
Para o seu caso estava em andamento uma promissora pesquisa conduzida pela dra. Tatiana Sampaio, uma cientista brasileira, que focava lesões na medula espinhal. Logo no começo do seu coma ela começou os testes, em humanos, de um medicamento que atuasse nas lesões da espinha. Os resultados desses testes foram muito animadores, com resultados melhores que os esperados. Entramos em contato com ela e falamos sobre o seu caso. Ela disse que estava planejando o tratamento de lesões cerebrais e logo começaria esse estudo. Depois de alguns anos, como é comum em pesquisa, ela chegou a um medicamento que tinha potencial para trazer bons resultados. Começou os testes em animais, que deram resultados promissores. E a ANVISA autorizou o início dos testes em humanos. Conhecendo seu caso, perguntou se você poderia ser voluntário. A família concordou e os testes começaram. Em poucas semanas você, mesmo em leve coma, começou a mexer as pernas e responder a estímulos por voz. Resolvemos tirá-lo do coma para continuar os testes com mais efetividade. E aqui estamos nós.
Agora vou deixá-lo descansar porque já foi muita coisa para hoje. Logo chegará sua refeição já contendo os medicamentos prescritos. Na tela serão exibidos filmes relaxantes para ajudá-lo a dormir. Quando você dormir, a tela se desligará automaticamente. Boa noite”.
Jorge realmente estava absorvendo todas essas novidades. Na tela começaram a aparecer cenas da natureza, matas, rios, animais, mar, pôr do sol, com uma música de fundo bem suave. Aos poucos foi relaxando. Escutou a porta se abrindo e entrou um robô humanoide com uma bandeja na mão onde havia dois copos com uma espécie de mingau. Tomou devagar os dois copos e os devolveu à bandeja. Imediatamente o robô saiu do quarto. A luz diminuiu, a música baixou e uma voz suave disse “Boa noite, Jorge. Até amanhã”. Aos poucos foi fechando os olhos e dormiu. Assim que dormiu a tela se apagou e música parou. No dia seguinte a música começou a tocar e foi aumentando até Jorge abrir os olhos. Logo veio o robô com a bandeja com dois copos, mas com sabores diferentes da véspera; e agora também havia duas bolachas de água e sal. Assim que comeu tudo o robô se retirou e o dr. Alberto apareceu na tela novamente.
– “Bom dia, Jorge. Como está se sentindo? Hoje temos mais tempo para suas perguntas. Vamos lá.”.
– Bom dia, dr. Alberto. Dormi bem e estou, sim, muito curioso. Minha primeira pergunta é: por quanto tempo ainda ficarei aqui na UeTI?
– “Você está se recuperando muito bem. Melhor ainda que o esperado. Se não houver alguma surpresa, amanhã você vai para casa.”.
– Nossa, dr. Alberto! Eu estava me preparando para ficar aqui mais algumas semanas. Posso ir para casa amanhã!? Como pode ser isso depois de 10 anos internado?
– “Esta é uma das boas surpresas que você terá. O tempo de internação hospitalar, incluindo as antigas UTI’s, era muito grande e o risco de contrair infecções era muito grande. Todos trabalhamos duro para diminuir esse tempo ao mínimo. Foi um trabalho conjunto da medicina tradicional, da biomedicina e da IA. Com isso conseguimos reduzir o tempo médio de internação, acelerando a recuperação e permitindo a continuidade dos tratamentos com recursos facilmente disponíveis na residência. Na UTI, o tempo médio de internação era de 36 horas. Hoje, nas UeTI’s esse tempo médio de permanência é 24 horas. No seu caso, ultrapassamos essa média, como já era esperado. Você vai para casa amanhã. E seguirá sua recuperação assistido por sua esposa, com monitoramento da IA”.
– Nossa, que maravilha! Que mundo é esse que vou encontrar?!?! Mas isso não será um fardo para minha esposa? Essa IA, que estava no começo da implantação, hoje já consegue monitorar os pacientes em casa?
– “Jorge, você vai ter muitas surpresas, a maioria boas. Vai levar um tempo até que você se acostume com ‘esse mundo’. Lembra a trabalheira que você teve para consertar os efeitos de compras fraudulentas no seu cartão de crédito?. Ou quando invadiram os computadores da empresa dos seu irmão, pedindo resgate para liberar os arquivos? Já faz algum tempo que isso não existe mais. Num trabalho cooperativo entre as principais universidades do mundo e centros de pesquisa, foi desenvolvida uma IA antihacker, mais conhecida como IA² que protege qualquer computador, ou qualquer sistema de tratamento de dados, da invasão de hackers, com 100% de eficiência. Hoje é impossível hackear qualquer dispositivo protegido pela IA². Com certeza você vai demorar um pouco para se acostumar com o mundo depois de 10 anos ‘desligado’. Tenho certeza de que você logo se acostumará. Te desejo boa recuperação. Alguém da Clínica Médica vai te acompanhar à distância. Boa recuperação para você.”
Assim que o médico se despediu, a tela começou a mostrar telejornais, para ele ir tomando contato com o mundo que ia encontrar no dia seguinte.
Escrito em 10, 11 e 12/03/2026 (com ajuda da IA)
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