Estava na modorra (como disse Monteiro Lobato em “O Saci”) depois do almoço, lutando para manter os olhos abertos que teimavam em fechar. Numa dessas fechadas ouvi uma voz dentro da minha cabeça:
– Boa tarde, Paulo. Tá dormindo?
Era a Gui-Gui!
– Ei, Gui-Gui! Como você está? Por onde tem andado, minha amiga?
– Não tenho circulado muito por aí. Com as chuvas das últimas semanas tive que me proteger. Mal começava a escurecer eu já entrava numa casa e ia me esconder em algum cantinho alto para fugir da chuva e da possível inundação. Deu certo e vim te ver. Como você está?
– Estou bem, graças a Deus. Como você sabe, aqui raramente tem novidade. E quando tem é sempre mais do mesmo. É morador que chega, é morador que morre, é funcionária que sai, funcionária que chega. E assim vai indo a “trepidante” rotina deste local. Desde nossa última conversa só escrevi um texto, mas não era uma história. Era uma ideia como seriam as UTI’s do futuro. Nem sei como tive essa ideia. Tomara que você tenha uma boa história para me contar.
– Não tenho uma história. Tenho uma dúvida que acho que você pode me explicar. Durante o tempo dentro das casas vi muito noticiário e uma palavra me chamou a atenção, pelo número de vezes que apareceu. O que é feminicídio?
– Gui-Gui, esta é uma palavra nova para um problema muito antigo da Humanidade. Na verdade, um problema quase tão antigo quanto a própria Humanidade. Vou te resumir o que entendo do assunto.
Tudo começou na Idade da Pedra. Os seres humanos, recém alçados ao status de animais inteligentes, foram morar nas cavernas para se protegerem do mau tempo e dos animais. Para ter o que comer, bastava andar um pouco em volta da caverna e recolher folhas, raízes e frutas. De quando em vez se deparavam com animais de pequeno porte e os usavam como alimento. Com o crescimento da população tiveram que procurar mais longe, tanto plantas como animais. Logo perceberam que o que conseguiam era pouco. E tiveram que ir mais longe e caçar mais animais, de maior porte. E aí, tudo começou. Quem seria mais indicado para sair da caverna e buscar alimento? As mulheres eram de porte menor, tinham que parir e cuidar das crianças; então foram os homens encarregados de buscar alimento, em excursões que podiam demorar semanas. Com o tempo, por diversas razões, em cada família o homem assumiu a figura do provedor e a mulher foi relegada a uma posição secundária.
Desde então, de forma escancarada ou disfarçada, a mulher foi considerada como alguém frágil e dependente do homem. Conforme a época essa dependência tem sido justificada de diversas formas. “A mulher é fisicamente mais frágil. A mulher tem que cumprir seu dever matrimonial de procriar e obedecer ao homem. A mulher não é tão inteligente quanto o homem. A mulher tem que ser a doçura da sociedade. A mulher é boa escrava”. Se você mergulhar no estudo da sociologia de cada época, em cada uma vai encontrar uma forma de justificar esse papel reservado às mulheres. A única dessas justificativas parcialmente verdadeira é que a mulher é, fisicamente, mais frágil que o homem. Ou, se se mostrassem fortes, eram tidas como bruxas ou eram martirizadas e canonizadas como santas. Hoje sabemos que isso não justifica o preconceito às mulheres. Depois volto a isso.
Nos últimos séculos, eu diria nos dois ou três últimos, essa posição das mulheres tem mudado, passo a passo. Inicialmente, pequenos passos; mas a cada passo o próximo era mais firme e a figura da mulher vem se alterando com maior velocidade e consistência. Por exemplo, só em 1918 as mulheres passaram a ter direito ao voto na Inglaterra, mas só as proprietárias… Só em 1893 a Nova Zelândia se tornou o primeiro país do mundo a reconhecer o direito das mulheres ao voto. No Brasil, depois de meio século de luta das mulheres, seu direito a voto foi reconhecido só em 1932!! De lá para cá têm se aberto muitas portas para as mulheres. Na política, nos cargos mais altos das empresas, em atividades tidas com exclusividade masculina como, por exemplo, motorista de caminhão e até soldadora. Nos esportes vem o melhor exemplo de que as mulheres podem superar seu menor porte físico. Vemos isso em todos os esportes, mas acho halterofilismo mais exemplar. Claro que uma mulher não vai levantar 510 kg, mas pode levantar 265 kg… (São recordes reais).
Mas ainda há aspectos negativos da discriminação das mulheres. É uma batalha que todos devemos enfrentar no dia a dia, na educação, na política, na justiça. E, finalmente chegamos à sua palavra. FEMINICÍDIO é quando uma mulher é morta por ser mulher. Exemplifico: se uma mulher é morta num assalto, é homicídio; se é morta pelo ex-companheiro por terminar a relação é Feminicídio. E eu sou capaz de apostar que esse crime é muito antigo, pelo jeito que as mulheres sempre foram tratadas. Então, por que só agora se fala nisso? Primeiro porque essa distinção entre esses tipos de crime é recente. E também só recentemente as mulheres têm tido coragem para denunciar. Sabe-se lá quantas mulheres sofreram feminicídio além de diversas formas de violência, na maior parte das vezes dentro das próprias casas.
Então, amiga Gui-Gui, é um longo caminho a percorrer. O importante é que os primeiros passos já estão sendo dados.
– Nossa, Paulo! Que história triste. Você tem ideia do que pode ser feito?
– Bem, a primeira ideia para combater preconceitos é começar em casa, onde de verdade os preconceitos são aprendidos. Criar meninos que tratem bem as meninas e meninas que se sintam em igualdade com os meninos. Criar meninos e meninas que tratem bem quem for diferente, na cor, no sexo, na religião, no país ou região de origem, etc.
– Obrigado, Paulo. Vivendo e aprendendo… Já vou indo para aproveitar que hoje não está com cara de chuva
Escrito em 16/03/2026
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