(Nota do autor: texto apoiado em uma história real que a Viviane, minha esposa, me contou)
Ainda a bordo da Aero México, aguardando no corredor da primeira classe o desembarque para sua primeira visita a São Paulo, Dom Miguel Velazquez repassava mentalmente seus planos para os próximos dias. Primeiro, concluir as negociações com Geraldo, para abertura da filial da empresa na Ciudad de Mexico. Depois, um pouco de turismo gastronômico e cultural. E, para encerrar, comprar alguns presentes especialíssimos para amainar a doce saudade que já estava sentindo. Bem, a primeira etapa deveria se concluir naquela mesma tarde e seria comemorada com um jantar na casa de seu novo sócio. As outras, ele comentaria durante esse jantar para ouvir sugestões.
Concluídas as negociações comerciais, Dom Velazquez foi para o hotel, preparar-se para o compromisso noturno. Ao chegar à casa de Geraldo, este o apresentou a sua esposa Vanessa. Miguel ficou instantaneamente impressionado com a beleza e a elegância de Vanessa; após poucos minutos de conversa, já se encantava também com sua inteligência e perspicácia. Ao final da refeição, comentou sobre seus planos e pediu algumas sugestões, especialmente para as compras. Vanessa perguntou:
– O que você pretende comprar?
– Estou pensando, especialmente, em vestidos de festa. Mas não tenho nenhuma idéia sobre o que e onde comprar. Você poderia me ajudar?
Sabendo das posses de Miguel, Vanessa sugeriu:
– Consigo liberar minha tarde de amanhã para acompanhá-lo à Daslu. Ficaria bom apanhá-lo em seu hotel às 14h00?
Miguel pensou que a essa hora já teriam assinado os contratos e aceitou a oferta. Na hora combinada, lá estava Vanessa preparada para ser bem recebida na loja. Isso aumentou ainda mais o encantamento de Miguel. Logo Miguel se interessou por alguns vestidos de Valentino. Quando pediu para vê-los, comentou com Vanessa:
– Não sei como avaliar um vestido pendurado num cabide, nem que tamanho escolher.
– Sua esposa tem mais ou menos o porte de alguém aqui da loja?
Miguel olhou em volta, depois olhou mais detalhadamente para Vanessa e disse:
– Ela tem exatamente o seu porte. Inclusive tem o mesmo tom de pele e a cor dos cabelos. O que ficar bem em você ficará bem nela.
Com toda a cortesia que o novo sócio de seu marido merecia, Vanessa iniciou o “desfile”. Experimentou bem uns dez modelos. A cada um Miguel se dizia deslumbrado. Acabou escolhendo os três que Vanessa avaliou como os mais sensuais. Ele pagou em dólares, agradeceu muito a ela e retornou ao hotel. Na noite do dia seguinte partiu de volta para casa. Vanessa retomou suas atividades e tudo indicava que esse desfile ficaria apenas como lembrança de uma tarde diferente. Até que dois meses depois Geraldo chegou a casa com uma novidade:
– Don Miguel Velazquez vai fazer uma inauguração festiva do novo escritório e nos convida para o evento. Acho que não podemos recusar esse convite.
E, uma semana depois, lá se foram os dois para o México. Lá chegando, havia no hotel um envelope com um bilhete que dizia:
“Hoje é aniversário do meu marido. Gostaria de tê-los para o jantar surpresa que estou organizando. Meu motorista os buscará às 21h00. Se não puderem vir é só me avisar pelo telefone abaixo”.
Assinado: Esmeralda
Ao chegarem à casa de Miguel, foram recebidos por ele à porta, que logo lhes apresentou Esmeralda. Vanessa quase não conseguiu disfarçar sua surpresa. Esmeralda era uma mulher tipicamente mexicana. Em relação a Vanessa era uma mulher mais ou menos 10. Dez quilos a mais e dez centímetros a menos… Mas Esmeralda não se conteve:
– Miguel, foi esta mulher que experimentou os vestidos que você me trouxe?!
E, virando-se para Vanessa:
– Quando Miguel retornou do Brasil, suas malas se extraviaram. Uns dias depois elas foram entregues em casa. Ele me pediu para não abri-las, mas eu achei que não me custaria nada já ir guardando as roupas. Achei então os vestidos. Quando ele chegou, à noite, perguntei o que era aquilo.
– São uma surpresa que trouxe para você…
– Fui experimentar e nenhum serviu para mim, é lógico.
Esmeralda continuou:
– Perguntei: Miguel, como você comprou estas roupas?
– É… Eu pedi ajuda à esposa do Geraldo. Ela até vestiu algumas roupas para eu ver. Quando escolhi o que comprar, ela me perguntou seu tamanho. Como eu não soubesse, acabei trazendo estes, imaginando que pudessem ser ajustados, se necessário.
Esmeralda completou:
– Como você percebe, Vanessa, os vestidos acabaram sendo doados para um leilão. Ainda bem que não aconteceu o mesmo com brincos que ele me trouxe, que são exatamente do meu gosto.
Vanessa ia começar a falar, quando notou a expressão de Miguel. Os dedos crispados em torno do copo de whisky, o rosto pálido e olhos suplicantes. Então ela demonstrou toda sua classe, inteligência e habilidade social:
– Pois é, Esmeralda. Foi culpa minha. Nem sequer tive a curiosidade de pedir a Miguel uma foto sua para estimar o tamanho dos vestidos. Eu deveria ter tomado mais cuidado. Os homens são péssimos para compras! Desculpe, foi minha falha.
Geraldo logo conduziu a conversa para outros temas e o jantar transcorreu num ambiente bem descontraído. Ninguém mais falou sobre os vestidos.
Um mês após o retorno ao Brasil, Vanessa recebeu uma encomenda pela FEDEX. Dentro da caixa, enviada por Don Miguel Velazquez, havia um estojo com um lindo e sofisticado colar de prata mexicana. Suficientemente econômico para não despertar ciúmes em Geraldo, mas suficientemente belo para combinar com Vanessa. E um pequeno bilhete que dizia:
“Muchas gracias.
En mi nombre, de míos dos hijos e de los 23 años de mi matrimonio.
Miguel”.
Escrito em 06/05/2008
Publicado em 23/07/2021
Republicado em 18/03/2026
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