A MAL AMADA

Marina era uma chef bem conhecida no mercado. Primeiro, porque adorava cozinhar. Sempre adorara. Desde pequenininha ficava muito tempo na cozinha ajudando sua mãe, preparando os ingredientes e, aos poucos, foi  fazendo seus próprios pratos. E, além disso, era muito curiosa. Gostava buscar novidades e aprender com outros chefs. Várias vezes passou férias em outros países para aprender sua culinária e seus costumes. Aos quarenta e cinco anos sentia que estava pronta para ter seu próprio restaurante. Começou a pensar no que seu restaurante se diferenciaria numa cidade com tantas opções de culinária.

Conversando com  amigas percebeu uma demanda bem escondida. Suas amigas gostavam de comer bem, mas tinham receio de engordar. Para não engordar acabavam optando pela comida “fit”, mas sentiam que não era uma comida que  atendia seus desejos. Então decidiu que iria servir comida muito saborosa, sem deixar de ser “ligth”. Além disso faria uma inovação revolucionária. Um restaurante voltado para o público feminino. Homem só entraria se acompanhando uma mulher. Equipe totalmente feminina: cozinheira, garçonetes, sommelière, manobristas e uma sala separada para as mães cuidarem das crianças ou deixá-las com babá, da casa ou próprias. Começou a montar seu cardápio, consultando vários endocrinologistas, nutricionistas, nutrólogos e outros chefs seus amigos. Enquanto isso, estava pensando que nome dar ao restaurante. O primeiro que ocorreu foi ELA’s, mas logo abandonou por causa da síndrome. Pensou em um nome que soasse igual, mas teve que desistir de HELLA’s porque já existia uma metalúrgica alemã, (do ramo automotivo) com esse nome. Que pena, ela pensou, seria um bom nome. De repente deu um estalo na sua cabeça e apareceu uma palavra que aprendera durante um estágio na California. É uma gíria americana  usada para dar ênfase; equivalente ao nosso “muito”, “realmente”, “muito mesmo”. O nome será Hella Delas. Muito delas mesmo!

Em seis meses achou um endereço adequado, contratou a cozinheira e testaram todas as receitas, mobiliou o Hella Delas e contratou o resto da equipe. Escolheu uma quinta-feira e convidou várias amigas para a primeira noite. Ouviu muitos elogios, sobre a ideia e sobre o cardápio. Convidou várias jornalistas que eram críticas gastronômicas para o almoço do sábado. Passou a sexta-feira fazendo ajustes sugeridos pelas amigas. Outra vez foi um sucesso! Em dois meses o restaurante era muito comentado e já era preciso fazer reserva. Tudo estava indo melhor do que imaginara. Até que…. Ana, sua melhor garçonete, pediu para falar com ela. Terminado o almoço foram para o escritório e Ana falou:

– Dona Marina, sinto muito, mas estou aqui para pedir minhas contas.

– O que aconteceu, Ana? Arrumou outro emprego? O salário está baixo? Alguém te maltratou?

– É essa última coisa. Eu não aguento mais as malcriações da Raquel.

– Nossa cozinheira Raquel? O que houve?

– Ela está sempre me ofendendo. Não posso falar nada que ela já vem de pau e pedra. Sempre brava. A senhora sabe, nós sempre contamos para a cozinheira as reações das clientes. “A comida está demorando”, “A comida está fria”, “Dá para pôr um pouco mais de sal?”, “Delícia de comida!” e assim por diante. Quando é queixa ela diz “Então venha você aqui cozinhar” ou “Fala para a moça ir comer no McDonalds, para ver o que é bom.” Eu procuro manter a calma, para não passar qualquer coisa negativa para as clientes. Mas agora cansei e quero sair antes que saia algum bate boca.

– Nossa! Ana. Isso é só com você?

– Não, dona Marina. Todas se queixam, mas evitam trazer para a senhora porque sabem que a senhora gosta dela.

– Eu gosto mesmo da Raquel, mas isso não quer dizer que ela pode destratar as colegas. Aliás, gosto de todas vocês. Por favor, não faça nada antes de eu conversar com a Raquel.

Marina chamou a Raquel logo após terminar os afazeres do almoço.

– Raquel, está tudo bem com você?

– Está sim dona  Marina.

– Você se dá bem com suas colegas?

Com essa pergunta, Raquel começou a chorar. Primeiro baixinho, depois soluçando. Marina esperou que ela se acalmasse. E perguntou:

– Raquel, pode me contar por que está chorando?

– Ah! Dona Marina, já sei que vou perder o emprego outra vez, por causa desse meu jeito.

– Que jeito, Raquel?

– Dona Marina, sei que sou explosiva, tento me controlar, mas tem dias que não consigo.

– O que acontece nesses dias?

Raquel começou a chorar novamente, bem forte. Demorou um pouco mais para parar. Depois de um tempo começou:

– É um problema que tenho e nunca contei para ninguém. Meu marido é alcoólatra. Às vezes ele passa do limite e bate em mim. Quase não durmo à noite e no dia seguinte estou um trapo. Explodo por qualquer coisinha.

– Você precisa de ajuda. E seu marido também. Vou te encaminhar para uma casa de atendimento a mulheres com problemas como o seu. Ali você terá atendimento profissional, com orientação sobre como se proteger e agir quando ele te bater.

Agora vá para casa e descanse. E quando você estiver num desses dias ruins, me avise para eu orientar o pessoal.

– Obrigado, dona Marina. Deus lhe pague.

No dia seguinte Marina reuniu toda a equipe e falou:

– Pessoal, a Raquel está passando por um problema sério na sua vida pessoal. Por isso ela fica irritada por qualquer coisa. Vocês podem ajudar, tendo paciência. Eu vou ajudá-la a resolver esse problema e logo ela estará bem. Tenham paciência com ela.

Escrito em 19/03/2026

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