{"id":278,"date":"2021-07-19T11:12:54","date_gmt":"2021-07-19T14:12:54","guid":{"rendered":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=278"},"modified":"2021-07-30T17:02:18","modified_gmt":"2021-07-30T20:02:18","slug":"chico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=278","title":{"rendered":"<strong>CHICO<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode ser pequeno ou crian\u00e7a, em espanhol. No caso do meu padrinho Francisco de Assis Affonso, era o apelido. Muito poucas vezes ouvi algu\u00e9m cham\u00e1-lo pelo nome. At\u00e9 para minha madrinha Wilma ele era o Chico. De \u201cchico\u201d ele s\u00f3 tinha o lado crian\u00e7a. No mais, ele era um homem grande. Corpulento, sempre muitos quilos a mais que o ideal. Cabelos quase sempre desgrenhados e as m\u00e3os sujas de graxa e restos de piche. Um cora\u00e7\u00e3o inocente e enorme o fazia parecer uma crian\u00e7a, mesmo com os cabelos e o bigode fininho logo acima dos l\u00e1bios j\u00e1 branqueando. Tinha pouco estudo, mas procurava se informar lendo bastante. Li muitos dos livros da sua pequena biblioteca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chico trabalhava com restaura\u00e7\u00e3o de baterias, para carros, caminh\u00f5es, motocicletas, embarca\u00e7\u00f5es, enfim o que aparecesse na oficina e precisasse de energia el\u00e9trica para se movimentar. Era um trabalho semi-artesanal, feito nos fundos daquele chal\u00e9 de madeira na rua Augusto Paulino, bairro do Campo Grande, em Santos. Acho que ele e o sogro Ameleto eram competentes, pois o movimento da oficina era intenso. Eu adorava ficar vendo como aquelas carca\u00e7as de bateria iam tomando nova vida, com novas placas e separadores, bornes de chumbo reconstru\u00eddos por fus\u00e3o em micro moldes e, finalmente, o que mais me fascinava: a veda\u00e7\u00e3o com piche derretido pelo ma\u00e7arico e despejado lentamente nos contornos da bateria. Quando eu n\u00e3o estava brincando com meus primos M\u00e1rcio e Mirian em baixo do chal\u00e9, suspenso em colunas de alvenaria estava xeretando o trabalho na oficina. Para desespero da minha madrinha, com medo do poss\u00edvel contato com \u00e1cido sulf\u00farico, chumbo derretido e piche aquecido escorrendo como mel (na \u00e9poca ningu\u00e9m falava de coisas como ecologia e seguran\u00e7a no trabalho&#8230;). Durante muitos anos, passei a maior parte das minhas f\u00e9rias de fim de ano na casa da minha madrinha. Primeiro naquele misto de chal\u00e9 e oficina. Depois, quando as coisas come\u00e7aram a melhorar, j\u00e1 adolescente, no apartamento da rua Vergueiro Steidel, no Embar\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tenho muitas lembran\u00e7as gostosas daqueles anos. O jipe Hansa (parecia muito com um Land Rover de hoje) que meu padrinho Chico usava para transportar carca\u00e7as velhas de baterias a serem recuperadas. V\u00e1rias vezes fui com ele em excurs\u00f5es de compra na regi\u00e3o do ABC. Era uma verdadeira aventura. A dire\u00e7\u00e3o do bicho tinha quase uma volta de folga e a viagem era pelas curvas \u00edngremes e fechadas do velho Caminho do Mar. Mais de uma vez o Chico tinha que manobrar (dar r\u00e9 e tudo!) para conseguir fazer curvas na descida, com a traseira do jipe cheia de baterias sucatadas. Nesse mesmo jipe Chico levava a fam\u00edlia para passear e at\u00e9 em viagens. Desse jipe eu cai no meio da rua, quando a porta se abriu numa curva, no dia do casamento da minha irm\u00e3 Maria L\u00facia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Teve tamb\u00e9m uma vez que, jogando bola com a molecada na rua de areia, chutou o muro da casa e o dedinho ficou \u201ccomo um estrup\u00edcio\u201d (termo que ele usava muito). Ele ficou muitos dias trabalhando e dirigindo o Hansa com esse dedinho atado com um peda\u00e7o de pano, at\u00e9 que foi ao m\u00e9dico e descobriu que estava quebrado. N\u00e3o me lembro que ele tivesse se queixado, embora devesse estar doendo bastante. De outra feita me lembro o quanto se preocupou e correu para atender um empregado da oficina. Chico pediu que o Z\u00e9 (vou cham\u00e1-lo assim para simplificar) verificasse se o piche estava quente. Isto \u00e9, o que ele queria saber \u00e9 se o ma\u00e7arico j\u00e1 havia derretido o piche a ponto de poder ser derramado para selar a bateria. Pois n\u00e3o \u00e9 que o Z\u00e9 enfiou o dedo no piche derretido?! Foi uma loucura de berros de dor e o Chico saiu alucinado com o jipe, levando o Z\u00e9 para a Santa Casa, aonde chegou em poucos minutos, certamente com&nbsp; a ajuda daquele anjo da guarda especial que todas as crian\u00e7as t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o Chico tinha um problema. N\u00e3o um probleminha. Mas um problem\u00e3o. Ele n\u00e3o sabia resistir a um bom copo de bebida alco\u00f3lica. As garrafas e o balc\u00e3o dos bares tinham um fasc\u00ednio irresist\u00edvel sobre ele. Numa \u00e9poca em que alcoolismo era considerado um v\u00edcio e n\u00e3o uma doen\u00e7a, todos em volta do Chico sofriam com essa compuls\u00e3o, sem saber como fazer para ajud\u00e1-lo. Volta e meia minha madrinha percebia que o Chico sumira da oficina e chamava:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; M\u00e1rcio!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Mirian!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, \u00e0s vezes:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Paulo!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Sim?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Vai buscar seu pai (ou seu padrinho) na padaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem era chamado, ia. E, invariavelmente, l\u00e1 estava o Chico, encostado no balc\u00e3o tomando alguma. Ele n\u00e3o falava nada. Largava o que estivesse fazendo e voltava ao trabalho. Quando a madrinha Wilma bobeava um pouco esse tempo na padaria se alongava demais, especialmente no finalzinho do expediente, e o Chico ficava embriagado. Mas at\u00e9 a\u00ed o seu lado crian\u00e7a aparecia. Ele se tornava um cordeirinho inofensivo. Sentava num canto e \u201capagava\u201d. N\u00e3o tenho lembran\u00e7a de que tenha sido violento algum dia em que eu estivesse presente. Ele sabia que a esposa e os filhos o amavam, mesmo na embriaguez, e se desesperavam por v\u00ea-lo naquele estado. Talvez por isso, ele simplesmente desligava, para n\u00e3o machuc\u00e1-los ainda mais. Quando se mudaram para o Embar\u00e9, foi um problema. A oficina continuou no chal\u00e9 e a madrinha j\u00e1 n\u00e3o tinha mais como mandar buscar o Chico na padaria. E ele fazia um esfor\u00e7o para n\u00e3o exagerar. Quando passava da conta, aproveitava que estava na padaria e encomendava toneladas de frios e queijo e p\u00e3es para o lanche da fam\u00edlia. Ao chegar a casa com tais pacotes a madrinha j\u00e1 sabia:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Xi&#8230; a coisa \u2018t\u00e1 feia hoje&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E assim a vida foi seguindo seu caminho. Eu casei, meus primos casaram e tomamos caminhos que nos afastaram durante muito tempo. Um dia eu soube, pela minha m\u00e3e, que o padrinho Chico e a madrinha Wilma haviam se separado e ele foi para alguma outra parte deste mundo. Depois de um tempo, que j\u00e1 n\u00e3o sei quanto, soube que ele partira para outra parte do universo. Fiquei, l\u00e1 dentro das minhas mem\u00f3rias de inf\u00e2ncia e juventude, com uma sensa\u00e7\u00e3o de remorso por ter perdido o contato com ele. Por isso resolvi escrever esta homenagem ao Francisco de Assis Afonso. O Chico, meu padrinho. Um homem bom, de vontade d\u00e9bil mas de um cora\u00e7\u00e3o enorme.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">10 de julho de 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pode ser pequeno ou crian\u00e7a, em espanhol. No caso do meu padrinho Francisco de Assis Affonso, era o apelido. Muito poucas vezes ouvi algu\u00e9m cham\u00e1-lo pelo nome. At\u00e9 para minha madrinha Wilma ele era o Chico. 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