{"id":342,"date":"2021-10-09T15:41:49","date_gmt":"2021-10-09T18:41:49","guid":{"rendered":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=342"},"modified":"2022-02-16T21:25:31","modified_gmt":"2022-02-17T00:25:31","slug":"mariana-e-marieta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=342","title":{"rendered":"<strong>MARIANA E MARIETA<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o sete horas da manh\u00e3. J\u00e1 est\u00e1 quente, afinal \u00e9 fim de fevereiro. Estou fazendo minha caminhada habitual, numa pra\u00e7a da Vila Madalena. Ela \u00e9 inclinada, como tudo parece ser por aqui. J\u00e1 faz um ano que estou morando neste bairro e n\u00e3o me lembro de ter visto pelo menos 50 metros de rua plana. Com isso, o exerc\u00edcio \u00e9 praticamente compuls\u00f3rio. Cansativo, mas bom para a sa\u00fade&#8230; Enquanto caminho, absorto nesse esfor\u00e7o para achar o lado positivo deste sobe e desce, percebo \u00e0 minha frente uma mulher passeando com seu cachorrinho. Ela est\u00e1 vestida com uma dessas cal\u00e7as bem justinhas, que v\u00e3o at\u00e9 pouco abaixo dos joelhos. A parte de cima \u00e9 uma esp\u00e9cie de camiseta, ambas fazendo claramente um conjunto bem <em>fashion<\/em>. As cores e \u201cjusteza\u201d da roupa n\u00e3o deixam passar despercebida a real necessidade que a Mariana tem de fazer exerc\u00edcio. Sim, eu a \u201cbatizei\u201d como Mariana. Nem sei por que. Mas, resumindo, mesmo com um pequeno sobrepeso ela parece ser uma mulher interessante, do ponto de vista que a observo. Talvez na faixa de seus 45 anos. Enquanto vou criando essas informa\u00e7\u00f5es sobre a Mariana, ou\u00e7o que ela chama:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Marieta! Marieta!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Olho para os lados, buscando ver de onde vem essa amiga por quem ela chama. N\u00e3o consigo ver ningu\u00e9m. Ser\u00e1 que ela fala sozinha? E ela chama outra vez:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Marieta, vem!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a Marieta vem. Correndo e abanando o rabinho. Ent\u00e3o, n\u00e3o era cachorrinho. \u00c9 uma cachorrinha. Mas n\u00e3o \u00e9 uma cachorrinha qualquer, pois a Mariana fala novamente com ela:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Vem com a mam\u00e3e, Marieta!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso leva meus pensamentos para coisas mais s\u00e9rias do que simplesmente criar a hist\u00f3ria de Mariana. Como aumentou a quantidade de animais de estima\u00e7\u00e3o! H\u00e1 quase uma pet shop em cada quarteir\u00e3o. J\u00e1 h\u00e1 sal\u00e3o de beleza para c\u00e3es e gatos, hot\u00e9is, restaurantes e at\u00e9 psic\u00f3logos&#8230; E, o que mais me intriga: por que essa forma de tratar os bichinhos (e mesmo os bicharr\u00f5es) como filhos, netos e sobrinhos. Ser\u00e1 que Darwin deixou escapar alguma coisa? Esse carinho pelos bichos, essa personifica\u00e7\u00e3o de um parentesco imposs\u00edvel, tem que ter uma raz\u00e3o. Do tipo que \u201cs\u00f3 Freud explica\u201d. Ser\u00e1 express\u00e3o de car\u00eancia afetiva? Ser\u00e1 a busca de uma rela\u00e7\u00e3o de dedica\u00e7\u00e3o sem cobran\u00e7a? Ou ser\u00e1 mais um exemplo do individualismo, do egocentrismo, da falta de comprometimento, comportamentos t\u00e3o comuns destes tempos que estamos vivendo? Bem, pelo menos nesse momento que estou descrevendo, uma poss\u00edvel resposta logo se apresentou. Como \u00e9 comum nas pra\u00e7as desta cidade monstruosa, um morador de rua come\u00e7ou a levantar seu acampamento noturno. Bem \u00e0 frente do caminho de Mariana e Marieta. Mariana prendeu Marieta na coleira, pegou-a em seus bra\u00e7os, desviou seu caminho para longe daquele maltrapilho, fedorento e faminto. E acelerou sua volta para casa, onde Marieta receberia \u00e1gua fresca, a ra\u00e7\u00e3o balanceada e iria dormir em sua cestinha almofadada. Esse animalzinho receberia, em momentos, mais do que aquele ser humano miser\u00e1vel teria em todo seu dia de marginalidade social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Escrito em 04\/03\/2008<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>PS. Esta minha opini\u00e3o \u00e9 muito antiga e n\u00e3o mudei at\u00e9 hoje. Antes que me entendam mal: adoro animais de estima\u00e7\u00e3o. J\u00e1 tive gatos e cachorros. S\u00f3 n\u00e3o tenho hoje porque n\u00e3o tenho espa\u00e7o nem condi\u00e7\u00e3o para cuidar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Publicado em 09\/10\/2021<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o sete horas da manh\u00e3. J\u00e1 est\u00e1 quente, afinal \u00e9 fim de fevereiro. Estou fazendo minha caminhada habitual, numa pra\u00e7a da Vila Madalena. Ela \u00e9 inclinada, como tudo parece ser por aqui. 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