{"id":466,"date":"2023-06-25T16:17:12","date_gmt":"2023-06-25T19:17:12","guid":{"rendered":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=466"},"modified":"2024-11-27T16:08:32","modified_gmt":"2024-11-27T19:08:32","slug":"viagem-ao-fundo-do-poco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=466","title":{"rendered":"VIAGEM AO FUNDO DO PO\u00c7O"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caro leitor, cara leitora, n\u00e3o se preocupe. N\u00e3o estou falando do fundo do meu po\u00e7o, mas de outros po\u00e7os que vi. Explico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia 29 de mar\u00e7o \u00faltimo, ao retornar de uma pequena excurs\u00e3o ao banco, a duas quadras do meu pr\u00e9dio, levei um tombo inexplic\u00e1vel, na recep\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio. Ca\u00ed de lado, sobre o quadril esquerdo. Apesar de ajudado, n\u00e3o conseguia firmar a perna esquerda. O zelador trouxe uma cadeira com rod\u00edzios e foi me empurrando at\u00e9 eu sentar no sof\u00e1 do meu apartamento. Quem me acudiu foi minha nora, Luciana. Ela chamou o SAMU. Mas passou-se uma hora e eles n\u00e3o davam mostras de reconhecer a urg\u00eancia. Ent\u00e3o ela desceu e dali a pouco retornou com uma cadeira de rodas, que achou indo de loja em loja daqui das vizinhan\u00e7as achar uma que tinha a cadeira. Me p\u00f4s no carro e levou para o hospital. Passei por consulta, fiz Raio-X e fui encaminhado para o ortopedista. Foi identificada uma fratura no colo do f\u00eamur. Onde eu j\u00e1 tinha tr\u00eas pinos, fruto de outra queda h\u00e1 alguns anos. A decis\u00e3o do m\u00e9dico foi por uma cirurgia para retirar os pinos e colocar uma haste no f\u00eamur. No dia seguinte tive que aguardar at\u00e9 as 17h por uma vaga no centro cir\u00fargico. A previs\u00e3o foi de duas a tr\u00eas horas de cirurgia. Acordei na UTI, como previsto. Passei l\u00e1 dois dias. O cirurgi\u00e3o, em suas visitas, disse que estava tudo bem e que eu poderia ir para um leito no setor de cirurgia. Fiz uma s\u00e9rie de exames, quando j\u00e1 estava no leito da enfermaria, porque estava com oxigena\u00e7\u00e3o baixa, que s\u00f3 melhorava quando fazia uso de oxig\u00eanio. O cirurgi\u00e3o disse que, por ele, eu estava de alta, mas a m\u00e9dica do Setor de Cl\u00ednica M\u00e9dica ainda estava analisando os resultados dos meus exames. Quando o Edgar estava comigo, a m\u00e9dica entrou no quarto e falou:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Tenho uma novidade. Voltamos para a UTI, porque identificamos um princ\u00edpio de pneumonia e uma pequena embolia pulmonar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fiquei chocado, por mais que o Edgar procurasse me acalmar, dizendo que era o melhor para mim. Passei a tomar medica\u00e7\u00e3o para evitar trombose, diur\u00e9tico e algumas outras medica\u00e7\u00f5es, das quais j\u00e1 n\u00e3o me lembro. Tamb\u00e9m precisei tomar duas bolsas de sangue, porque estava um pouco an\u00eamico pela perda de sangue na cirurgia, o que foi considerado previs\u00edvel. Acho que passei mais uns dois dias na UTI e fui transferido para um leito no setor de cl\u00ednica m\u00e9dica de onde eu deveria ter alta em mais um ou dois dias, que viraram tr\u00eas ou quatro&#8230; A m\u00e9dica me prescreveu o uso de concentrador de oxig\u00eanio, pois eu ainda estava com oxigena\u00e7\u00e3o um pouquinho baixa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse meio tempo o Edgar teve uma conversa comigo:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Pai, a Cami e eu achamos melhor voc\u00ea ir para um residencial para se recuperar com cuidados adequados. O que voc\u00ea acha?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi um al\u00edvio para mim, pois j\u00e1 vinha preocupado sobre como seria minha sa\u00edda. N\u00e3o queria ir para casa de ningu\u00e9m, especialmente pela falta de condi\u00e7\u00f5es de mobilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Acho \u00f3timo! Eu estava pensando mesmo que essa seria a melhor solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; N\u00f3s visitamos algumas casas e achamos uma perto de casa e na rua de tr\u00e1s do consult\u00f3rio dela. Amanh\u00e3 vir\u00e1 uma enfermeira de l\u00e1 para olhar seu prontu\u00e1rio, fazer uma avalia\u00e7\u00e3o do seu caso e definir as condi\u00e7\u00f5es para sua chegada nesse residencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confesso que entre eu sair da UTI e minha alta, os dias ficaram um pouco nebulosos para mim. Eu me lembro bem que a m\u00e9dica n\u00e3o quis me liberar sem estar ligado ao oxig\u00eanio. Ent\u00e3o a Lu conseguiu que o residencial emprestasse um bal\u00e3o de oxig\u00eanio. Foi uma epopeia, porque o bal\u00e3o era muto pesado e coloc\u00e1-lo e retir\u00e1-lo do carro foi muito dif\u00edcil. Mas afinal, aos trancos e barrancos, chegamos ao Residencial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>NOTA<\/strong>: <em>daqui para a frente, todas as pessoas e situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o reais, mas os nomes, por raz\u00f5es evidentes, s\u00e3o fict\u00edcios. At\u00e9 o nome da casa ser\u00e1 apenas Residencial.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed come\u00e7ou minha viagem ao fundo do po\u00e7o. Se a sa\u00edda do hospital foi um pouco confusa, a chegada ao Residencial foi, pelo menos, conturbada. Fomos, eu, o Edgar e a Lu para uma entrevista com a Gerente do local, que chamarei de Tania, e o enfermeiro Saulo. Come\u00e7aram a nos fazer v\u00e1rias perguntas e o Edgar foi ficando irritado, pois eram informa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 haviam sido dadas para a enfermeira que nos visitou no hospital. J\u00e1 n\u00e3o me lembrou por que, mas as coisas come\u00e7aram a desandar entre a Lu e a Tania. Foi uma conversa \u00e1spera. A uma determinada altura a Tania falou, arrogantemente, ao ser questionada pela falta de comunica\u00e7\u00e3o dela com a \u00e1rea de Vendas, que j\u00e1 tinha sido Superintendente de hospital. A temperatura subiu e eu resolvi intervir:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Gente, n\u00e3o interessa saber quem est\u00e1 errado. Temos que resolver o problema da minha chegada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed descobrimos que o Saulo n\u00e3o era o titular da Enfermagem. Ele era subordinado \u00e0 enfermeira. Esta foi chamada e me encaminhou para um apartamento no 2\u00ba andar, que ainda estava sendo preparado. Havia sido pedida uma cama hospitalar, que ainda estava sendo montada. Eu cheguei primeiro, na cadeira de rodas. Quando o Edgar e a Lu chegaram o caldo entornou de vez. Estava montada uma cama hospitalar com manivela, de forma que, sempre que eu quisesse reposicionar a cama, precisava chamar algu\u00e9m. E a cama era t\u00e3o alta que eu n\u00e3o conseguiria \u201cescal\u00e1-la\u201d sem ajuda. Al\u00e9m do mais, estava bem empoeirada e nem se deram ao trabalho de limp\u00e1-la. Foi outra confus\u00e3o. O Edgar come\u00e7ou a fotografar e dizer:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8211; Prometeram camar\u00e3o e est\u00e3o entregando girino&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A enfermeira Marta foi chamada, como respons\u00e1vel por me acomodar. Ent\u00e3o me levou para o 4\u00ba andar, a um apartamento usado como merchandising para mostrar a visitantes e ofereceu que eu ficasse l\u00e1, o que aceitamos. Mas era uma cama normal, sem grades ou ajustes. Resolvi ficar assim mesmo, pois no dia seguinte trariam uma cama hospitalar de verdade. Jantei no quarto e dormi muito bem nessa primeira noite, mesmo com tanta agita\u00e7\u00e3o. Estava bem cansado. Assim terminou o dia 12 de abril. Nas minhas ora\u00e7\u00f5es agradeci muito a Deus pelo Edgar, pela Camila e pela Luciana, que me socorreram e tomaram as melhores decis\u00f5es poss\u00edveis em cada momento. Dormi muito bem, mas precisei tomar analg\u00e9sico pois estava com dor na perna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No dia seguinte comecei a entender a din\u00e2mica do Residencial. Demorei mais ou menos duas semanas para me adaptar \u00e0 nova vida tempor\u00e1ria. Medicamento \u00e0s 6h da manh\u00e3. Acordava meio estremunhado e dormia outra vez. \u00c0s 8h vinha o caf\u00e9 da manh\u00e3 (uma x\u00edcara de caf\u00e9 com leite, um p\u00e3o de leite com manteiga e\/ou geleia, uma fruta, em geral banana ou mam\u00e3o) e os outros medicamentos da manh\u00e3. Entre 9h e 10h, banho sentado na cadeira de banho. Nos primeiros dias era muito dolorido mexer a perna esquerda. Tinha que ajudar com a m\u00e3o. Por volta de meio dia, almo\u00e7o no refeit\u00f3rio. Inicialmente eu s\u00f3 saia do quarto na horas das refei\u00e7\u00f5es, porque eu tomava diur\u00e9tico e achava muito complicado ir ao \u00fanico banheiro da \u00e1rea de estar, no andar t\u00e9rreo. Aos poucos fui me ajustando, com aux\u00edlio das cuidadoras. Ent\u00e3o passei a descer depois do banho e ficar at\u00e9 depois do jantar. Mais ou menos \u00e0s 15h, lanche da tarde (caf\u00e9 com leite e p\u00e3o de leite; de vez em quando, bolo e refrigerante). Perto das 19h, jantar. Ent\u00e3o eu voltava para o quarto e ficava assistindo notici\u00e1rio ou futebol. \u00c0s 8h, lanche da noite (caf\u00e9 com leite ou ch\u00e1, p\u00e3o com manteiga ou bolacha), servido no quarto, e os rem\u00e9dios da noite.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os rem\u00e9dios merecem uma men\u00e7\u00e3o especial. Muitas vezes vinham errado, no hor\u00e1rio ou na posologia. \u00c0s vezes n\u00e3o vinha um determinado medicamento, outra vezes vinham medicamentos de uso \u201cse necess\u00e1rio\u201d quando n\u00e3o eram necess\u00e1rios. Eu tinha que prestar muita aten\u00e7\u00e3o e alertar aa cuidadoras para prestar aten\u00e7\u00e3o no que a farm\u00e1cia enviava. Uma vez, inadvertidamente, tomei um medicamento para press\u00e3o quando n\u00e3o era necess\u00e1rio e minha press\u00e3o caiu para 9\/6 e tive que colocar dois sach\u00eas de sal embaixo da l\u00edngua. Gra\u00e7as a Deus, depois de umas duas semanas, os rem\u00e9dios passaram a vir corretos, mas eu sempre conferia. As cuidadoras j\u00e1 sabiam e traziam os comprimidos na embalagem para eu verificar. Eu ficava pensando, e preocupado com tantos moradores\/moradoras que n\u00e3o tinham consci\u00eancia do que estavam tomando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando comecei a ficar no andar t\u00e9rreo, aos poucos fui percebendo o ambiente terr\u00edvel em que teria que viver, afortunadamente por um per\u00edodo relativamente curto. Minha preocupa\u00e7\u00e3o era n\u00e3o me deixar contaminar pelo ambiente, mas isso vou contar aos poucos, nos pr\u00f3ximos textos. Com a experi\u00eancia da pandemia de COVID-19, criei rotinas para me proteger. Procurava sentar isolado, o que nem sempre era poss\u00edvel, como ver\u00e3o. Ficava lendo no Kindle ou no Skeelo, ouvindo m\u00fasica com fone de ouvido, ou usando meu celular para ver programas na Globoplay.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim que passei a observar o que se passava naquele fundo de po\u00e7o, tomando cuidado para n\u00e3o cair nele. Depois incorporei nas minhas rotinas, escrever notas para comentar mais tarde, como estou come\u00e7ando agora. N\u00e3o era todo dia que eu escrevia e inicialmente n\u00e3o registrava a data da anota\u00e7\u00e3o, o que passei a fazer um pouco mais tarde. Mas vou seguir rigorosamente a ordem dos dias em que escrevi. Em cada texto ser\u00e1 comentada uma anota\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Escrito em 23 e 24\/06\/2023<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caro leitor, cara leitora, n\u00e3o se preocupe. N\u00e3o estou falando do fundo do meu po\u00e7o, mas de outros po\u00e7os que vi. Explico. No dia 29 de mar\u00e7o \u00faltimo, ao retornar de uma pequena excurs\u00e3o ao banco, a duas quadras do meu pr\u00e9dio, levei um tombo inexplic\u00e1vel, na recep\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio. 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