{"id":662,"date":"2025-06-26T18:24:11","date_gmt":"2025-06-26T21:24:11","guid":{"rendered":"http:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=662"},"modified":"2026-04-13T14:16:55","modified_gmt":"2026-04-13T17:16:55","slug":"posso-o-que-quero-ou-quero-o-que-posso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=662","title":{"rendered":"POSSO O QUE QUERO? \u2013 OU QUERO O QUE POSSO?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos \u00faltimos cinco anos meu estado de esp\u00edrito tem oscilado bastante. Por causa da disson\u00e2ncia entre projetos que imaginei para minha vida, logo ap\u00f3s minha viuvez, e os obst\u00e1culos que foram aparecendo para realiz\u00e1-los. Ora eu estava entusiasmado com o projeto, ora estava triste com a impossibilidade de concretiz\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas \u00faltimas semanas de vida, a Viviane me falou que eu poderia morar no apartamento que ela tinha em Sorocaba pelo tempo que eu quisesse, o que foi depois ratificado pelo Renato, seu \u00fanico filho e herdeiro. Era algo que eu sempre sonhei: morar fora de S\u00e3o Paulo, preferencialmente numa cidade menor. Pois na v\u00e9spera de eu iniciar minha mudan\u00e7a, tive uma queda e fraturei a patela do joelho esquerdo em tr\u00eas peda\u00e7os. Cheguei a passar uma semana em Sorocaba mas sentia muita dor e, para resumir, passei tr\u00eas meses morando na casa do Edgar, com a perna imobilizada. Ao final desse tempo fui convencido a desistir de mudar devido ao risco de n\u00e3o ter como ser acudido rapidamente pelos filhos, no caso de problemas com minha sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aluguei um apartamento no bairro de Perdizes, muito pr\u00f3ximo do primeiro endere\u00e7o em que residi quando vim para o bairro, h\u00e1 mais de 35 anos. Era um pr\u00e9dio misto de residencial e comercial. Assim eram tamb\u00e9m as quadras pr\u00f3ximas. Tinha toda facilidade para compras durante o dia e tranquilidade durante a noite. Logo comecei a me relacionar com alguns vizinhos do pr\u00e9dio e comerciantes das redondezas. Quando entrava na lanchonete ao lado, s\u00e1bado sim, s\u00e1bado n\u00e3o, o chapeiro j\u00e1 sabia: \u201cJ\u00e1 sei, uma feijoada pequena, para hoje e para o pr\u00f3ximo s\u00e1bado\u201d. Tinha de tudo por perto: farm\u00e1cia com entrega em domic\u00edlio, ag\u00eancia banc\u00e1ria, hortifruti, casa de ferragens, jornaleiro, supermercado Dia%, loja de produtos naturais que acompanhei a montagem e me tornei amigo dos propriet\u00e1rios, loja Japa (de guloseimas), lot\u00e9rica, lojinha de miudezas como, por exemplo, capa para celular e outros acess\u00f3rios para celular e inform\u00e1tica, restaurante Ponto Chic, onde nasceu o sanduiche Bauru, papelaria cujos donos eram meus vizinhos de andar, lojas de roupas e sapatos. Eu me sentia como numa cidade de interior, onde todos se conhecem. Ainda n\u00e3o me sentia seguro para pegar \u00f4nibus e passear pela cidade. Isso porque, devido \u00e0 fratura do joelho, ainda usava bengala para dar seguran\u00e7a ao caminhar. Antes que eu estivesse pronto para dispensar a bengala, levei um tombo, na entrada do pr\u00e9dio, e fraturei a cabe\u00e7a do f\u00eamur esquerdo, onde foi colocada uma haste.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante minha convalesc\u00eancia, j\u00e1 em casa depois de dois meses num Residencial para idosos, foi contratada uma cuidadora para trabalhar durante o dia \u00e0s segundas, quartas e sextas feiras. Pela avalia\u00e7\u00e3o das minhas limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas pelos meus filhos, a cuidadora passou a ir a semana toda. Eu s\u00f3 ficava sozinho \u00e0 noite e aos fins de semana. Depois de algumas semanas, num consenso com os filhos, mudei-me para o Residencial onde j\u00e1 moro h\u00e1 um ano e meio. Mais uma vez aparecia um obst\u00e1culo para a concretiza\u00e7\u00e3o dos meus desejos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passado um per\u00edodo de adapta\u00e7\u00e3o, comecei a me sentir infeliz com a ideia de que eu nunca mais sairia daqui. Por v\u00e1rias raz\u00f5es. Mas, principalmente, porque me sentia com energia e disposi\u00e7\u00e3o para fazer muito mais do que comer, dormir, ler, ver televis\u00e3o; comer, dormir, ler, ver televis\u00e3o; comer, dormir, ler, ver televis\u00e3o. S\u00f3 consigo conversar com as cuidadoras que quase nunca, l\u00f3gico, t\u00eam tempo para conversas. Eu estava sentindo cada vez mais necessidade de sair deste ambiente, mesmo que por algumas horas por dia. Comecei a fazer for\u00e7a para me recuperar fisicamente e poder ir mais para a rua. Progredi bastante. Fazia fisioterapia, subia dois andares pelas escadas para exercitar as pernas. Andava pela casa toda sem apoiar a bengala. As cuidadoras at\u00e9 brincavam que eu s\u00f3 levava a bengala para passear. Andei v\u00e1rias vezes na rua, fui a um caf\u00e9 a duas quadras daqui e cheguei a dar uma volta no quarteir\u00e3o, em duas oportunidades. E s\u00f3 n\u00e3o fui mais vezes por falta de acompanhante. Mais ainda n\u00e3o era tudo que eu precisava, Eu precisava de companhia para conversar. Recebi, j\u00e1 n\u00e3o lembro como, um convite para participar de um grupo da Terceira Idade. Entrei, escolhi algumas pessoas que achei interessante e comecei a troca de mensagens. Sa\u00ed do grupo depois de ter come\u00e7ado conversas com algumas pessoas, com algumas das quais troco mensagens at\u00e9 hoje. Pelo menos eu tinha ampliado um pouco o n\u00famero de pessoas com quem conversar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a\u00ed come\u00e7ou meu novo sonho. De forma muito inesperada, com uma dessas pessoas as conversas come\u00e7aram a se tornar mais constantes. Ela era de fora de S\u00e3o Paulo, pois eu dei prefer\u00eancia a fazer novas amizades de fora de S\u00e3o Paulo para n\u00e3o ter nenhuma outra conota\u00e7\u00e3o. Mas, neste caso, o contato foi evoluindo e se intensificando ao longo dos meses. Conversas por v\u00eddeo foram se tornando cada vez mais frequentes e longas. Logo nos pareceu que poder\u00edamos pensar numa vida compartilhada, n\u00e3o apenas pela internet. Eu estava me preparando para passar uns dias com ela, para termos certeza das nossas afinidades e disposi\u00e7\u00e3o para tolerar nossos pontos dif\u00edceis. Eu estava s\u00f3 aguardando a festa de 15 anos da minha neta Sophia, no come\u00e7o de maio. E apareceu um obst\u00e1culo absolutamente inesperado. Poucas semanas antes do anivers\u00e1rio levei um tombo idiota e fraturei o cotovelo esquerdo. Poucos dias depois, possivelmente devido ao desequil\u00edbrio causado pela tala no bra\u00e7o esquerdo, torci fortemente o tornozelo esquerdo e fraturei. Para resumir, estou com um fixador externo no tornozelo, chamado de \u201cgaiola\u201d. Acabei nem indo no anivers\u00e1rio. Novamente o projeto dos meus sonhos, de sair daqui do Residencial e mudar para uma cidade menor, associado \u00e0 possibilidade de construir uma vida nova e agrad\u00e1vel est\u00e1, pelo menos por enquanto, suspenso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, nos \u00faltimos dias, para superar minha frustra\u00e7\u00e3o, comecei a pensar no que deu origem ao t\u00edtulo deste texto. Geralmente ficamos aborrecidos quando n\u00e3o podemos fazer o que queremos. Normal. A quest\u00e3o me propus \u00e9: ser\u00e1 que um dia poderei o que quero? Devo me conformar ao que posso e n\u00e3o pensar no que quero? Depois de me debater com essas quest\u00f5es cheguei a uma decis\u00e3o que me aliviou e tem at\u00e9 me feito dormir melhor. Se eu quero algo que n\u00e3o posso, \u00e9 poss\u00edvel vir a poder algo que quero? Sim, digo a mim mesmo, devo buscar condi\u00e7\u00f5es que me tornem poss\u00edvel o que quero. Vou fazer todo os esfor\u00e7os que estiverem ao meu alcance para tornar poss\u00edvel o que quero. Mesmo que seja necess\u00e1ria alguma adapta\u00e7\u00e3o. Faz parte do meu esp\u00edrito capricorniano. N\u00e3o desistir enquanto houver esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Escrito em 26\/06\/2025<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos cinco anos meu estado de esp\u00edrito tem oscilado bastante. Por causa da disson\u00e2ncia entre projetos que imaginei para minha vida, logo ap\u00f3s minha viuvez, e os obst\u00e1culos que foram aparecendo para realiz\u00e1-los. Ora eu estava entusiasmado com o projeto, ora estava triste com a impossibilidade de concretiz\u00e1-lo. 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