{"id":73,"date":"2021-01-22T01:54:08","date_gmt":"2021-01-22T04:54:08","guid":{"rendered":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=73"},"modified":"2022-02-16T21:34:11","modified_gmt":"2022-02-17T00:34:11","slug":"capivari","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=73","title":{"rendered":"<strong>CAPIVARI<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, enquanto eu esperava pacientemente (at\u00e9 porque n\u00e3o tinha outra alternativa&#8230;) a consulta com a cirurgi\u00e3 que vai operar minha catarata, me veio a ideia de escrever, de vez em quando, minhas mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia e juventude. Ent\u00e3o aqui vai a primeira dessas lembran\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando eu era um menino, meu av\u00f4 Bindo tinha uma f\u00e1brica de adubo na cidade de Capivari. Ficava um pouco fora da cidade. Chegava-se ao terreno da f\u00e1brica por uma rua de terra que passava por uma ponte de madeira. Em frente ao enorme port\u00e3o de entrada o tr\u00e1fego (quase nenhum) tinha que dobrar \u00e0 direita e passar por cima da estrada de ferro e assim entrar na estrada que ia para outra cidade. Antes desse port\u00e3o, do lado esquerdo, havia com correr de cinco ou seis casinhas geminadas que eram a resid\u00eancia de v\u00e1rios oper\u00e1rios da f\u00e1brica e suas fam\u00edlias. Era o costume dos industriais da \u00e9poca. Passando o port\u00e3o, ao lado esquerdo ficava o escrit\u00f3rio e ao lado uma casa muito grande que abrigava os diretores e suas fam\u00edlias em f\u00e9rias. Para n\u00f3s, crian\u00e7as, era o sitio de Capivari onde pass\u00e1vamos muitas f\u00e9rias. Eram muitas coisas diferentes do que est\u00e1vamos acostumados na cidade grande. Tudo era diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por aquela rua de terra e na estrada passavam caminh\u00f5es carregados de cana de a\u00e7\u00facar para um engenho da regi\u00e3o. Quando os caminh\u00f5es tinham que parar, para esperar o trem passar, ped\u00edamos cana e o pessoal do caminh\u00e3o nos jogava algumas. Eram cortadas pelos n\u00f3s, descascadas e cortadas em palitos, que \u00edamos chupando e mascando. Por esse mesmo caminho passavam boiadas tocadas por vaqueiros a cavalo. Vez por outra um boi escapava e entrava pelo port\u00e3o. Fic\u00e1vamos apavorados, corr\u00edamos para casa e nos escond\u00edamos at\u00e9 que os vaqueiros entrassem e tocassem o boi de volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse port\u00e3o foi palco de algo que n\u00e3o me esque\u00e7o: meu primeiro e \u00fanico banho de lama. Na \u00e9poca da seca a prefeitura fazia circular pela cidade um caminh\u00e3o pipa com um chuveirinho atr\u00e1s, para molhar as ruas e diminuir a poeira. N\u00e3o sei por que cargas d\u2019\u00e1gua um dia esse caminh\u00e3o parou bem do lado do port\u00e3o e ficou escorrendo \u00e1gua at\u00e9 formar uma po\u00e7a de lama. Eu e meus primos, com autoriza\u00e7\u00e3o das m\u00e3es, entramos nessa lama, s\u00f3 de cueca, e nos esbaldamos em rolar na lama.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como falei, a estrada de ferro passava ao lado da f\u00e1brica. A locomotiva era Maria-fuma\u00e7a e fazia liga\u00e7\u00e3o com a capital. Eu adorava quando o trem passava \u00e0 noite e pod\u00edamos ver as fagulhas saindo da chamin\u00e9. Esse trem tamb\u00e9m era motivo de outra aventura. A f\u00e1brica contava com um desvio ferrovi\u00e1rio para carga e descarga. Eu adorava ver a locomotiva manobrar, entrando de r\u00e9 deixando vag\u00f5es com mat\u00e9ria primas (geralmente ossos de boi ou um produto em p\u00f3 que vinha do Chile) ou levando vag\u00f5es com sacos de cimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pois foi exatamente a\u00ed que aconteceu o que vou contar. Uma vez meu tio Jairo, irm\u00e3o ca\u00e7ula da minha m\u00e3e, que morava na casa e tomava conta da f\u00e1brica, levou eu e meus primos Antonio Carlos (Tonino) e Junior (Nelson) para l\u00e1. Tio Jairo era muito brincalh\u00e3o e punha apelido em todos os sobrinhos. O meu era Paulo Salsa&#8230; Durante a viagem ele dizia que est\u00e1vamos no caminho certo porque sentia um cheiro de papel amassado; depois, que est\u00e1vamos bem perto porque dava para sentir cheiro de papel rasgado&#8230; Ent\u00e3o, um dia eu e meus primos entramos no dep\u00f3sito onda havia sido descarregada uma verdadeira montanha daquele produto em p\u00f3, que parecia areia. N\u00e3o deu outra. Passamos a subir no monte e v\u00ednhamos escorregando ladeira abaixo. T\u00ednhamos inventado a divers\u00e3o das dunas do Rio Grande do Norte! Mas alguns oper\u00e1rios viram o que est\u00e1vamos fazendo e foram avisar meu tio. Ele veio muito bravo e nos tirou imediatamente dali e nos mandou tomar banho. E amea\u00e7ou: \u201cIsso \u00e9 adubo! Agora voc\u00eas v\u00e3o ter que cortar a unha tr\u00eas vezes por dia&#8230;\u201d. Confesso que passei v\u00e1rios dias observando o que estava acontecendo com a minha unha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escrito em 21\/01\/2021<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, enquanto eu esperava pacientemente (at\u00e9 porque n\u00e3o tinha outra alternativa&#8230;) a consulta com a cirurgi\u00e3 que vai operar minha catarata, me veio a ideia de escrever, de vez em quando, minhas mem\u00f3rias da inf\u00e2ncia e juventude. Ent\u00e3o aqui vai a primeira dessas lembran\u00e7as. Quando eu era um menino, meu av\u00f4 Bindo tinha uma f\u00e1brica &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=73\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;<strong>CAPIVARI<\/strong>&#8220;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_crdt_document":"","advanced_seo_description":"","jetpack_seo_html_title":"","jetpack_seo_noindex":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-73","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livro"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/s4SGe6-capivari","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/73","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=73"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/73\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":74,"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/73\/revisions\/74"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=73"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=73"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=73"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}