{"id":98,"date":"2021-02-05T20:21:10","date_gmt":"2021-02-05T23:21:10","guid":{"rendered":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=98"},"modified":"2022-02-16T21:39:54","modified_gmt":"2022-02-17T00:39:54","slug":"anestesia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/paponavaranda.blog.br\/?p=98","title":{"rendered":"<strong>ANESTESIA<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou lendo o livro \u201cEscravid\u00e3o\u201d de Laurentino Gomes. \u00c9 o primeiro volume de uma trilogia que deve ser publicada ao longo deste ano. Gosto muito dos livros dele, porque aborda temas hist\u00f3ricos usando profunda e ampla pesquisa, usando linguagem atrativa. Ao contr\u00e1rio de muitos autores herm\u00e9ticos e de dif\u00edcil compreens\u00e3o para leigos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estou chocado com o que estou aprendendo. Que a escravid\u00e3o n\u00e3o come\u00e7ou mo s\u00e9culo XV. J\u00e1 existe desde a Gr\u00e9cia e Roma. Possivelmente at\u00e9 muito antes. Que a escravid\u00e3o n\u00e3o se limita aos pa\u00edses do Novo Mundo. Pa\u00edses da Europa e \u00c1sia tamb\u00e9m t\u00eam ou tiveram escravos. Que n\u00e3o s\u00f3 negros foram escravizados. Mu\u00e7ulmanos, asi\u00e1ticos e at\u00e9 mesmo europeus j\u00e1 foram escravizados. Que do s\u00e9culo XV ao final do s\u00e9culo XIX o tr\u00e1fico de escravos foi um dos melhores neg\u00f3cios do mundo, envolvendo comerciantes de m\u00e3o de obra escrava, donos de enormes frotas de navios negreiros, governos europeus e reis africanos. Ao contr\u00e1rio do que eu pensava, eram os pr\u00f3prios africanos que arrebanhavam e vendiam escravos. Havia regulamenta\u00e7\u00e3o desse mercado e a pr\u00f3pria Igreja apoiava e traficava escravos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu lia as informa\u00e7\u00f5es friamente, como se fossem meramente uma cole\u00e7\u00e3o de dados estat\u00edsticos. Como que anestesiado. At\u00e9 que cheguei ao ponto em que o autor descreve os escravos como moeda de troca, tantos escravos por um barril de cacha\u00e7a do Brasil. D\u00edzimos pagos com escravos, sendo alguns utilizados para trabalho das ordens religiosas (especialmente os Jesu\u00edtas, para minha decep\u00e7\u00e3o) e outros eram uma poupan\u00e7a para quando fosse necess\u00e1rio comprar alguma coisa. No pre\u00e7o final dos escravos j\u00e1 estava inclu\u00edda uma previs\u00e3o de perdas. Por morte, no transporte do interior para o litoral para serem vendidos aos capit\u00e3es dos navios negreiros, durante a navega\u00e7\u00e3o ou nos dep\u00f3sitos em que ficavam &#8220;estocados&#8221; enquanto aguardavam, \u00e0s vezes por meses, para embarque. Certos escravos eram descritos como \u201cpe\u00e7as da \u00cdndia\u201d. Por s\u00e9culos, milh\u00f5es e milh\u00f5es de africanos foram escravizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o me dei conta que a escravid\u00e3o era considerada como \u201cum dado do problema\u201d, n\u00e3o um problema em si. As pessoas n\u00e3o tinham qualquer veleidade em ter escravos. N\u00e3o s\u00f3 na lavoura como nas cidades. Acabei de reler v\u00e1rios contos de Machado de Assis, do s\u00e9culo XIX. Todas as casas tinham \u201cnegros\u201d para todos os servi\u00e7os: lavar, cozinhar, arrumar a casa, fazer limpeza, levar recados, etc. (E olha que ele mesmo era da ra\u00e7a negra!).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Extinta a escravid\u00e3o expl\u00edcita, herdamos escravid\u00e3o impl\u00edcita: o preconceito. E, embora os negros sejam face mais vis\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Tendemos a aceitar, mesmo que inconscientemente, alguns fatos\/r\u00f3tulos como \u201cnaturais\u201d. O nordestino pregui\u00e7oso, o baiano que s\u00f3 quer fazer festa, o portugu\u00eas que \u00e9 padeiro, o japon\u00eas pasteleiro, o chin\u00eas da lavanderia. Pode pensar em muitos etc. etc. E as cidades, especialmente as grandes, t\u00eam uma multid\u00e3o de <strong>Pessoas<\/strong> cuja condi\u00e7\u00e3o de vida \u00e9 similar ou pior que a dos escravos. Os negros escravos, como for\u00e7a de trabalho, tinham que ser abrigados, vestidos e alimentados. Os \u201cescravos\u201d modernos, dos quais muitas vezes nem nos damos conta, s\u00e3o  <em>os invis\u00edveis<\/em>. S\u00e3o os moradores rua&#8230; Eles n\u00e3o t\u00eam onde morar, diariamente t\u00eam que batalhar por comida e quando ficam doentes dependem de almas caridosas para chamar aux\u00edlio (no mais das vezes, a pol\u00edcia ou os bombeiros).&nbsp; N\u00e3o podemos fazer muito, e h\u00e1 gente, gra\u00e7as a Deus, que faz. Como o Padre J\u00falio Lancellotti. O que podemos fazer \u00e9 ter compaix\u00e3o por eles. Prestar aten\u00e7\u00e3o por que est\u00e3o nos pedindo alguma coisa. Se \u00e9 um morador habitual da sua vizinhan\u00e7a, cumprimente-o (a) quando passar; depois de um tempo pode ser que ambos se sintam familiarizados um com o outro. Voc\u00ea pode perguntar algumas coisas (\u201cmelhorou do resfriado?\u201d, \u201ccomo vai seu filho?\u201d, \u201cj\u00e1 comeu hoje?\u201d). E talvez voc\u00ea descubra que pode dar alguma coisa antes que seja solicitada. Talvez aten\u00e7\u00e3o seja o que mais precisam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right wp-block-paragraph\">Escrito em 05\/02\/2021<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou lendo o livro \u201cEscravid\u00e3o\u201d de Laurentino Gomes. \u00c9 o primeiro volume de uma trilogia que deve ser publicada ao longo deste ano. Gosto muito dos livros dele, porque aborda temas hist\u00f3ricos usando profunda e ampla pesquisa, usando linguagem atrativa. 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