NINA E ZECA

O dia amanhecera garoento e com a temperatura um pouco mais baixa que o normal para dezembro. Nina e Zeca acordaram e trocaram algumas carícias antes de saírem da “cama”. Esta era algumas folhas de papelão para evitar o frio do chão. Levantaram-se e saíram para fora da “casa”. Era uma folha grande plástico amarrada numa árvore nos baixos da passarela que passa sobre o minhocão, formando como que uma cabaninha. Estava começando mais um dia de dura luta pela sobrevivência.

Nina atravessou a rua enquanto um senhor saia pela porta do prédio 23 da Rua Cardoso de Almeida. Nina se dirigiu a ele:

-Oi tio, bom dia. Pode me dar um dinheirinho para o café da manhã? Estou grávida e aquele é o meu marido, apontando para um homem na esquina que mexia numa dessas carrocinhas de coleta de papelão.

Por alguma razão, contrariando seu princípio de não dar esmola, este senhor deu-lhe o trocado que tinha na carteira. Foram cinco reais. Ela entrou no boteco ao lado, enquanto o senhor continuava seu caminho pensando qual a expectativa de uma moradora de rua grávida.

Enquanto isso o marido dela começava seu trabalho diário. Puxava a carroça enquanto procurava restos de papelão. Ele costumava achar bastante papelão resultado das embalagens descartadas pelos comerciantes. Até já sabia quais eram as ruas mais promissoras. Porém, com a pandemia e a mudança dos hábitos de consumo, sua tarefa ficou mais difícil e trabalhosa. Muitas vezes, ao final de um dia inteiro de trabalho, ele não conseguia juntar papelão suficiente para vender e ganhar o dinheiro para o jantar. O almoço dependia da caridade de donos de bares e restaurantes. Muitas vezes ele deixava de almoçar para poder comprar o jantar.

Enquanto isso Nina, perambulava pelas redondezas fazendo pequenos favores em troca de uns trocados. Ajudar uma idosa a atravessar a rua, ajudar uma pessoa a carregar sacolas de compras, etc. Fazia isso com um sorriso no rosto e tratando as pessoas com muita alegria. Nem sempre ela conseguia juntar mais que suficiente para um pão com manteiga e um café com leite. Mas ela continuava a busca do seu sustento, enquanto aguardava a volta do Zeca e torcia para que ele tivesse tido um bom dia.

Quando o sol já estava se pondo ela estava na porta de casa esperando pela chegada do Zeca. Dali a pouco ele chegava. Tinha sido um dia ótimo! Ele trazia trinta reais no bolso. O suficiente para o jantar de hoje e para o dia seguinte, caso o resultado do trabalho não fosse tão. Entraram no boteco e pediram uma quentinha com um comercial. Custava dezessete reais mas o dono fez por dez e ainda colocou um ovo a mais. Foram para a porta da sua casa e comeram seu banquete.

Da janela do seu apartamento aquele mesmo senhor obsevava atentamente a cena quando foi surpreendido por algo inesperado. Terminada a refeição, o casal se abraçou e se beijou com muito carinho. Daquele modo que só pessoas de bem com a vida conseguem. E entraram ma casa como estivessem entrando num motel de luxo. E o senhor pensou “como as pessoas podem ser felizes com tão pouco…?”.

Escrito em 25/01/2021

PÉ DE MOLEQUE

Você já sentou numa roda de chopp com vários piadistas no grupo?  É muito divertido. Funciona assim: alguém começa contando uma piada; aí outra pessoa diz “isso me faz lembrar daquela que…”. Assim você pode passar várias horas tomando chopp e ouvindo piadas. Foi mais ou menos o que me aconteceu ontem quando eu escrevia sobre Capivari. Então me lembrei da história a seguir.

Primeiro tenho que explicar aos mais novos que naquela época era muito complicado usar o telefone. De Capivari para São Paulo era preciso pedir a uma telefonista local. Ela então dava uma previsão de quando a ligação seria feita. Geralmente era preciso esperar dois a três dias!… E era preciso ficar de plantão no dia e hora marcados, se não sua ligação voltava ao fim da fila. Mais para a frente você vai entender o por quê desta explicação aparentemente fora do contexto.

Minha mãe era uma excelente cozinheira, como boa Mamma de descendência italiana. Ela fazia um pé de moleque como não se faz mais. Eu tirava a casca dos amendoins que ela mesma torrava. Era um trabalho de muita paciência. Valia a pena pelo resultado. Mas o primeiro pé de moleque foi inesquecível. E foi em… Capivari. Minha mãe e minhas tias Alzirinha e Jandira resolveram fazer pé de moleque. Algo que nunca tinham feito. O pé de moleque é feito numa panela e despejado numa superfície lisa para endurecer e depois ser quebrado. Bem, neste caso, elas julgaram que já era hora de despejar. Viraram a panela e… nada. Aquela massa se recusou a sair da panela. Por mais que fosse puxada, nada! Então a panela foi para cima da mesa e nós fomos autorizados a pegar com uma colher. Chegamos a quebrar o cabo de algumas colheres. Quando conseguíamos um bocadinho ficávamos vários minutos mascando aquele grude até que se derretesse na boca. Agora entra a história do telefone. Durante uma sessão coletiva de degustação imperava o silêncio de todos enquanto esperavam o pé de moleque derreter na boca. Nessa hora tocou o telefone. Era o dia D, hora H (rsrs) para uma ligação de São Paulo. Era meu tio Bindo respondendo ao pedido de ligação. Foi um Deus nos acuda para cuspir o que tínhamos na boca e atender ao telefone.

Mas se você acha que a história acabou assim, está muito enganado (ou enganada). Aquelas mulheres eram determinadas! Resolveram fazer nova receita, ajustando o que tinha dado errado. Na hora de virar a panela, vitória! Aquele melado todo escorreu e se espalhou sobre a mesa de madeira da cozinha. Ainda faltava esperar esfriar para quebrar em pequenos pedaços e irmos saboreando aos poucos. O doce esfriou e chegou a hora de terminar. Tentamos levantar com as mãos e nada aconteceu. Tentamos enfiar por uma faca por baixo daquela rocha e… nada! Tentamos o batedor de carnes e só conseguimos tirar umas míseras lasquinhas. Para resumir, era preciso recuperar a mesa da cozinha. Qual foi a solução? Cada vez que chovia a mesa era levada para fora e ficava na chuva. Depois nós íamos lamber o pouco que a chuva tinha derretido. Não me lembro de quanto tempo demorou para a mesa ficar livre do pé de moleque. Mas seguramente não foram poucos dias.

Escrito em 22/01/2021

CAPIVARI

Hoje, enquanto eu esperava pacientemente (até porque não tinha outra alternativa…) a consulta com a cirurgiã que vai operar minha catarata, me veio a ideia de escrever, de vez em quando, minhas memórias da infância e juventude. Então aqui vai a primeira dessas lembranças.

Quando eu era um menino, meu avô Bindo tinha uma fábrica de adubo na cidade de Capivari. Ficava um pouco fora da cidade. Chegava-se ao terreno da fábrica por uma rua de terra que passava por uma ponte de madeira. Em frente ao enorme portão de entrada o tráfego (quase nenhum) tinha que dobrar à direita e passar por cima da estrada de ferro e assim entrar na estrada que ia para outra cidade. Antes desse portão, do lado esquerdo, havia com correr de cinco ou seis casinhas geminadas que eram a residência de vários operários da fábrica e suas famílias. Era o costume dos industriais da época. Passando o portão, ao lado esquerdo ficava o escritório e ao lado uma casa muito grande que abrigava os diretores e suas famílias em férias. Para nós, crianças, era o sitio de Capivari onde passávamos muitas férias. Eram muitas coisas diferentes do que estávamos acostumados na cidade grande. Tudo era diferente.

Por aquela rua de terra e na estrada passavam caminhões carregados de cana de açúcar para um engenho da região. Quando os caminhões tinham que parar, para esperar o trem passar, pedíamos cana e o pessoal do caminhão nos jogava algumas. Eram cortadas pelos nós, descascadas e cortadas em palitos, que íamos chupando e mascando. Por esse mesmo caminho passavam boiadas tocadas por vaqueiros a cavalo. Vez por outra um boi escapava e entrava pelo portão. Ficávamos apavorados, corríamos para casa e nos escondíamos até que os vaqueiros entrassem e tocassem o boi de volta.

Esse portão foi palco de algo que não me esqueço: meu primeiro e único banho de lama. Na época da seca a prefeitura fazia circular pela cidade um caminhão pipa com um chuveirinho atrás, para molhar as ruas e diminuir a poeira. Não sei por que cargas d’água um dia esse caminhão parou bem do lado do portão e ficou escorrendo água até formar uma poça de lama. Eu e meus primos, com autorização das mães, entramos nessa lama, só de cueca, e nos esbaldamos em rolar na lama.

Como falei, a estrada de ferro passava ao lado da fábrica. A locomotiva era Maria-fumaça e fazia ligação com a capital. Eu adorava quando o trem passava à noite e podíamos ver as fagulhas saindo da chaminé. Esse trem também era motivo de outra aventura. A fábrica contava com um desvio ferroviário para carga e descarga. Eu adorava ver a locomotiva manobrar, entrando de ré deixando vagões com matéria primas (geralmente ossos de boi ou um produto em pó que vinha do Chile) ou levando vagões com sacos de cimento.

Pois foi exatamente aí que aconteceu o que vou contar. Uma vez meu tio Jairo, irmão caçula da minha mãe, que morava na casa e tomava conta da fábrica, levou eu e meus primos Antonio Carlos (Tonino) e Junior (Nelson) para lá. Tio Jairo era muito brincalhão e punha apelido em todos os sobrinhos. O meu era Paulo Salsa… Durante a viagem ele dizia que estávamos no caminho certo porque sentia um cheiro de papel amassado; depois, que estávamos bem perto porque dava para sentir cheiro de papel rasgado… Então, um dia eu e meus primos entramos no depósito onda havia sido descarregada uma verdadeira montanha daquele produto em pó, que parecia areia. Não deu outra. Passamos a subir no monte e vínhamos escorregando ladeira abaixo. Tínhamos inventado a diversão das dunas do Rio Grande do Norte! Mas alguns operários viram o que estávamos fazendo e foram avisar meu tio. Ele veio muito bravo e nos tirou imediatamente dali e nos mandou tomar banho. E ameaçou: “Isso é adubo! Agora vocês vão ter que cortar a unha três vezes por dia…”. Confesso que passei vários dias observando o que estava acontecendo com a minha unha.

Escrito em 21/01/2021

SANTA OLÍMPIA

Minha vida foi marcada por mudanças e inovações. A maior parte por circunstâncias e nem sempre por meu desejo. Hoje vou contar a primeira dessas mudanças.

Em 1966 fui aprovado no vestibular da FEI. Além do fato da aprovação em si fiquei muito feliz porque a FEI ficava na Rua São Joaquim, no bairro da Liberdade. A 15 minutos a pé da minha casa. E lá fui eu todo lampeiro fazer minha matrícula. Quando cheguei lá, surpresa! A FEI tinha oferecido 300 vagas para o primeiro ano. Por um lado foi bom porque possibilitou minha classificação. Por outro, o primeiro ano teria que ser cursado no campus novo que estava sendo em construído em São Bernardo do Campo. Eu só sabia que São Bernardo ficava no caminho de Santos. Bem longe… E só os veteranos continuavam no campus da Liberdade.

E lá fui eu para aquela lonjura. Saia de casa muito cedo para pegar o ônibus para São Bernardo. Ou ia a pé até a Av. do Estado ou tomava o ônibus elétrico e fazia baldeação na Av. Nazaré. (Uma curiosidade: na Nazaré passava um ônibus da Viação Urubupungá, com destino a São Sebastião. Ao lado, externamente, levava penduradas pás e picaretas…). Em São Bernardo descia ao lado do paço municipal e começava a aventura de verdade. Tomava uma jardineira que passava ao lado da FEI. Tínhamos ainda que andar uns 100 metros por um caminho de terra. E quando chovia a jardineira parava mais longe, para não atolar. E aí íamos todos amassando barro e chegávamos imundos para a aula. Esse campus ficou conhecido como Santa Olímpia. Porque a área tinha sido doada pelo dono do Haras Santa Olímpia que estava bem ao lado.

Para se ter uma ideia sobre quanto era longe, aconteceu a história mesmo que eu quero contar. Acho que eu já estava no segundo ano quando a antiga TV Excelsior, canal 9, decidiu encenar a novela “As Minas de Prata”, de José de Alencar, escrita em 1865. Para locação externa eles procuraram o lugar mais perto de São Paulo que não tivesse sons modernos. E adivinha? Alugaram o Haras Santa Olímpia… Além de tomarmos ônibus com vários artistas (como a Débora Duarte…), todos os dias convivíamos com os artistas caracterizados, que vinham almoçar no imenso restaurante do campus. Tudo ia bem até que… A FEI ganhou alguns ônibus para fazer a linha de Santa Olímpia para São Paulo. Os ônibus ficavam estacionados nos fundos do campus, bem próximos do Haras. E na hora da saída, tocavam estridentemente a buzina para chamar os alunos. Se, nessa hora, estivesse havendo gravação o trabalho era perdido. Foi preciso negociar o horário exato para tocação das buzinas para que as gravações fossem interrompidas por alguns minutos. Até hoje me divirto com essa lembrança.

A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

Charles Darwin formulou essa teoria bem conhecida. De uma forma extremamente simplificada ela diz que os seres vivos competem pela sobrevivência. E vence o que for mais forte. Para escrever este post fui pesquisar no Google. Fiquei impressionado com a profundidade da teoria e da sua interpretação em quase todos os campos do conhecimento e do debate acadêmico. Mas o que eu queria era saber sobre o negacionismo. Mais uma vez vou ser superficial, pois não me sinto preparado para analisar o assunto em sua profundidade.

Basicamente, o negacionismo significa negar a validade de um determinado conhecimento para validar uma tese contrária. No caso da teoria de Darwin, no que se refere à vacina em geral, a informação é simplesmente chocante! E esse chamado negacionismo vacinal é ou foi incentivado por um descendente de Darwin. Segundo esse movimento, que já existe há décadas na Europa, a aplicação de vacinas contraria a lei da evolução das espécies. Porque a vacina faz com que nem sempre o mais forte vença. Ou seja, a vacina protege os mais fracos das doenças que os matariam!!! É uma teoria terrível, que deseja a morte dos mais fracos para a melhoria da raça humana. Esse movimento tem influenciado a diminuição da vacinação, acarretando a volta ou recrudescimento de algumas doenças, muitas fatais ou incapacitantes. Nada mais nazista, né?

Então vejamos o que está acontecendo nos nossos dias com a vacina contra a COVID-19. Vamos deixar à parte as questões políticas e nos concentrar nos “negacionistas de carteirinha”. Eles estão atuando através de fake news e outros recursos alarmistas, que estão deixando todos em dúvida sobre a qual a melhor vacina ou qual a melhor origem das vacinas. Um enorme número de pessoas está em dúvida se devem ou não ser vacinadas. É isso que os negacionistas querem e, se deixarmos, vão conseguir fazer com que não nos protejamos adequadamente. Levam o debate paro campo da  discussão sem nenhuma base científica. E disseminam o medo.

Qual o antídoto? Não acreditar em tudo que está na Internet sobre o assunto. Tem que acreditar nos cientistas, muito competentes. Afinal, há mais de um século temos recebido vacinas que salvaram talvez bilhões de vidas. Sempre tomamos vacinas, levamos nossos filhos e netos para cumprir o calendário de vacinação. Nunca nos perguntamos se as vacinas vinham da China, da Índia, da Alemanha, do Japão. (Aliás, a Índia e a China são os maiores produtores mundiais de insumos para vacina). Nunca analisamos os resultados das pesquisas clínicas, seja para vacinas, seja para qualquer remédio.

 Então, EU me recuso a assumir o papel do mais fraco que vai sucumbir a uma doença por falta de vacina!!!!

Escrito em 18/01/2021

O CIRCO MAMBEMBE

EXPLICAÇÃO: hoje eu deveria falar sobre a vacina, né? Mas foi tanto tempo acompanhando o assunto que me faltou inspiração para o blog. Prometo que amanhã vou abordar o tema vacina. Então estou republicando um dos poucos textos que me sobraram do antigo blog. Foi escrito em maio de 2016 e eu estava começando a criar a personagem – Joca – que eu pretendia usar em certos textos. Então ai vai Joca falando sobre O CIRCO MAMBEMBE.

Pois é, ontem foi Dia dos Pais e é inevitável que as lembranças do meu flutuem novamente nos meus sonhos de olhos abertos. Enquanto eu assistia a um jogo de futebol (Futebol??? Isso??) pelo Campeonato Brasileiro eu lembrava dos tantos jogos que eu vi ao lado dele. Neste domingo me veio à mente a história do circo mambembe. Tínhamos acabo de ver um jogo da UEFA e estávamos olhando uma partida do Brasileirão (quando ainda havia bons jogos). E ele começou:

– Joca, você já ouviu falar de circo mambembe?

– Pai, já ouvi a expressão mambembe, mas não tenho certeza se sei o que significa.

– Circo mambembe era um tipo de circo bastante comum nas cidades do interior e nos arrabaldes das cidades maiores. Tinham pouca estrutura. Uma lona pequena, arquibancas de madeira, alguns trailers onde moravam os artistas (troupe), algumas jaulas onde se guardavam animais injustamente anunciados como “feras”. O circo era transportado de maneira mais ou menos fácil e rápida, em função do sucesso ou insucesso em cada praça. O que manteve os circos ao longo dos séculos foi a habilidade e a genialidade dos seus artistas. Malabaristas, domadores, equilibristas, contorcionistas, mágicos, palhaços e outros. Cada um na sua especialidade, embora muitos exercessem mais de um papel. Era um mundo ao mesmo tempo duro e fantástico, alternando entre sonhos e desilusões. Alegrou tardes e noites de muita gente, como eu mesmo, que adorava ir ao circo.

Depois de um longo suspiro, meu encerrou:

– Pena que tudo isso acabou… você nem chegou a ver um circo mambembe…

Claro, logo perguntei:

– Que aconteceu, pai? Por que o circo sumiu?

– Não, Joca, o circo não sumiu. Ele se transformou. O que sumiu foram os circos mambembes, com suas troupes que trabalhavam por amor, quase em troca de casa e comida, em nome de tradições familiares. Hoje o circo se apresenta como um espetáculo plástico maravilhoso, amparado por produções milionárias, com estrutura profissional incomparável, empresas estruturadas, com orçamentos a cumprir e metas a serem atingidas. É a era do Cirque du Soleil. Os artistas trabalham com as mesmas técnicas milenares: mágicos, palhaços, trapezistas, etc. Hoje, no circo, talento ainda é fundamental, mas não basta. Os artistas precisam se reinventar, achar novas formas de usar seus talentos, treinar com afinco. São profissionais muito bem remunerados, em troca do espetáculo maravilhoso que entregam a um público muito exigente, todas as noites.

– Pai, acho que estou entendendo por que você me contou isso agora.

– Sim, Joca, você é bem esperto. O que acabamos de ver, a UEFA, é o Cirque du Soleil do futebol. Esse jogo medíocre que estamos vendo pelo Brasileirão, infelizmente, é o futebol brasileiro se tornando um circo mambembe…

Hoje, pensando na última Copa do Mundo no Brasil, e olhando a pobreza dos jogos que tenho assistido, fico pensando como meu pai era sábio e visionário em suas análises…

É DE PERDER O FÔLEGO…

Esse título, normalmente, é uma expressão usada para indicar que estamos deleitados ou surpresos com alguma coisa.

Só que hoje assume um significado triste. Relutei muito para fazer este texto. Afinal, a ideia do blog é escrever textos com os quais me distraia e possam distrair que os leem. Mas hoje não vai ser assim. Vai ser um texto triste, cheio de amargura e revolta. Tudo por causa dos sentimentos que me inspiram a situação de Manaus.

Ontem, durante um noticiário da TV, quando os acontecimentos de Manaus já estavam me causando aflição – que eu julgava só minha – fui surpreendido com o choro, ao vivo, de uma jornalista muito experiente ao começar a comentar sobre a situação na capital do Amazonas. E essa justa emoção dela mexeu comigo também. Eu posso avaliar com bastante clareza o que as famílias estão passando.

Eu nunca tinha estado com uma pessoa nos seus últimos momentos, até acontecer com a Viviane. Embora eu estivesse prevenido pelos médicos, foi muito difícil. Ao chegar ao hospital encontrei a Viviane com muita dificuldade para respirar. E ela estava sedada e ligada ao oxigênio. E logo se foi, em paz. Esse quadro me veio claramente à cabeça e acompanhei a jornalista. Sou capaz de avaliar o sofrimento dos infectados e suas famílias. A pessoa não está sedada e não pode respirar. Deve ser uma aflição infinita. É o que imagino que também deva ser a agonia de uma pessoa se afogando. Foi nessa hora que tive a ideia de escrever este texto. E com o passar das horas fui sedimentando uma sensação de revolta, até a hora do panelaço de ontem à noite. Fui para a janela e bati minha panela.

Então resolvi retomar uma atitude ativista que havia abandonado há anos. Não vou para rua, não vou encaminhar fake news, não vou apoiar este ou aquele político. Vou deixar de me manter neutro enquanto as coisas acontecem colocando nossa sociedade em risco. Nem direita, nem esquerda, nem centro. Nem socialismo nem liberalismo (embora a maioria dos meus amigos saiba minha inclinação).

Estou preparado para debater, ouvir críticas desapaixonadas. Mas não estou preparado, definitivamente, para ficar inerte.

Escrito em 16/01/2021

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OVO FRITO

Chegou a hora de revelar um dos meus presentes de aniversário. Era um sonho de consumo muito antigo. Foi um presente da família Lenzi de Toledo: Edgar, Luciana, Sophia e Pietro. Uma frigideira antiaderente. Primeiro quero agradecer aos que me deram essa joia da cozinha. Depois devo agradecer aos astronautas. Astronautas?! Sim, várias coisas que hoje fazem parte de nosso dia-a-dia foram desenvolvidas devido à antiga corrida espacial. Por exemplo, a miniaturização de tantas coisas: computadores, baterias, etc. E, voilà!, os materiais antiaderentes. Aliás, uma das coisas que a competição faz é desenvolver novos produtos. Em nossos dias vemos isso com as vacinas contra a COVID-19. A competição entre laboratórios e governos fez com fossem superados todos os recordes de investimentos e velocidade na produção. A população do mundo vai se beneficiar disso e daqui a alguns anos nem lembraremos de questionar de onde essa vacina vem ou onde foi produzida.

Mas o que tem isso a ver com ovo frito? Nada e tudo. Essa frigideira está me possibilitando fazer um ovo frito como eu gosto e nunca conseguia. Primeiro, as instruções de uso dizem para usar a frigideira com fogo baixo. E eu sempre fiz no fogo médio… Depois, fiquei na dúvida se devia por um pouco de óleo ou não. Optei por não pôr. Quebrei um ovo e fiquei na expectativa. A clara se espalhou pela frigideira e a gema ficou no meio. Aos poucos a clara foi ficando branca, e a gema continuava no seu amarelo ouro. Quando a clara ficou totalmente branca, usei uma espátula de bambu para cutucar as bordas para ver se se desprendia. E se desprendeu!! Agitei um pouco a frigideira, segurando pelo cabo. E o ovo se mexia como se estivesse boiando num mar de óleo. Então “derramei” o ovo sobre feijão com arroz e salpiquei um pouco de sal sobre a gema bem mole. Molhei o pão nessa gema e comi. Ao molhar, um pouco da gema escorreu sobre o arroz, que era o que esperava. Comi o tempo todo com água na boca. E o melhor de tudo é não ter comido fritura e a frigideira quase nem precisava ser lavada. Vou curtir muito ainda frigideira, fazendo ovo mexido, omeletes e outras coisas que me forem sugeridas.

Escrito em 15/01/2021

74 ANOS ISOLADO

Desculpe se te assustei, mas foi de propósito… Não, eu não vivi isolado durante 74 anos. Ainda bem, né? O que eu quero dizer é que completei 74 anos durante o período de isolamento social devido à pandemia. Sim, fiquei isolado durante três quartos do dia. Mas aprendi que ficar isolado não é a mesma coisa que estar sozinho. Bendita Internet e benditas séries na TV, que já foram por mim execradas por as pessoas se dedicavam mais ao celular e à TV do que às pessoas que estavam ao seu lado ou à sua frente. Foi justamente a Internet que me mostrou que isolamento é uma coisa, solidão é outra.

Graças aos meus contatos nas redes sociais, passei umas boas horas lendo e respondendo a dezenas de mensagens de cumprimentos. Recebendo ligações, pelo whatsapp e pelo celular. Senti-me muito abraçado e beijado e recebendo votos muito positivos para meu novo ano. E entre uma mensagem e outra assistia a série que estou acompanhando agora (Outlander).

Assim o dia foi passando sem que eu me desse conta da sucessão das horas. E então fui comemorar num jantar com os filhos, netos e nora. Já não os via desde 16 de dezembro, quando viajaram para comemorar o aniversário da Sophia e as festas de fim de ano. Para não negar o sangue italiano, fomos a uma cantina vizinha à casa do Edgar. E, acredite, a cantina se chama Vecchio Capeleti e Capeleti não se refere à massa e sim ao sobrenome do dono… Ele me convenceu a pedir fuzile com ragu de músculo e funghi seco. Uma delícia! Fez-me lembrar da minha avó Carmen, que fazia fuzile em casa, enrolando a massa em arames. Somado a um fantástico vinho tinto, aos presentes e, sobretudo à convivência com a família, foi uma noite perfeita! Sobre os presentes, além de uma escultura para minha coleção de imagens de São Francisco, ganhei outra coisa que não vou contar agora porque será tema do meu próximo post.

Grato pela atenção e companhia virtual no meu dia aniversário.

Escrito em 14/01/2021