BEIJOS DE HORTELÃ

Arlindo resolveu abrir os olhos enquanto se espreguiçava lentamente para não acordar Ivete que dormia profundamente ao seu lado. A contragosto, olhou para o rádio relógio que continuava impassível sobre o criado-mudo ao lado da sua cabeceira. Ele mostrava o que Arlindo não queria ver: eram 6 horas da manhã. Pela terceira vez, só naquela semana, a cabeça de Arlindo começava a funcionar muito antes que a música anunciasse o início de um novo dia. Fazia contas e projeções. A matrícula das crianças no próximo mês, o material escolar, a prestação do carro, os débitos das compras de Natal no cartão de crédito, o condomínio, os seguros, as parcelas da próxima viagem de férias, o…, as… Definitivamente, seu salário de subgerente de agência bancária, embora bem razoável, não iria ser suficiente. Mais um mês de cheque especial para cobrir a diferença. Mais algumas noites de sono terminando mais cedo.

Levantou-se com todo o cuidado para não acordar ninguém. Passou pelo quarto da Clarice e do Pedro, que dormiam com aquele ar angelical das crianças que vão se avizinhando da casa dos dez anos. Fez a barba, pôs a mesa para o café da manhã, ficou lendo o jornal até que a música despertadora da 7h ressoou por todo o apartamento. Logo a Ivete chegou à cozinha e lhe lascou nos lábios um longo beijo úmido e apaixonado. As crianças, embora em férias, vieram e lhe sapecaram beijos estalados nas bochechas. Eram beijos de hortelã, como esses momentos sempre o faziam lembrar-se da música “Cotidiano”, do Chico Buarque de Holanda. Era um momento feliz, um modo gostoso de começar o dia. As crianças faziam questão de levantar cedo, mesmo sem precisar ir para a escola, só para estar com o pai que só veriam outra vez lá pelas oito da noite. A Ivete, sem a pressão do horário das aulas, caprichava no suco, nos sanduíches e nas frutas para a primeira refeição do dia.

Dali a pouco, já a caminho do trabalho, preso em mais um congestionamento, Arlindo pensava: “Sou feliz, afinal… Eu a Ivete nos amamos. Amamos nossos filhos e eles gostam de nós. Temos uma boa condição de vida, embora a um preço acima do que posso. Se eu resolvesse minhas questões financeiras viveria num verdadeiro Paraíso”. Nesse dia, como fazia sempre que possível, almoçou com vários colegas da sua equipe de trabalho. E durante o almoço surgiu a conversa que era comum em muitas mesas daquele restaurante e de tantos outros restaurantes pelo Brasil todo.

– Nossa! Esse prêmio da Mega da Virada parece que vai passar dos 190 milhões!

– Quanta grana! É difícil até pensar no que fazer com tanto dinheiro…

– Dá para virar um grande empresário. Ou sócio do próprio banco…

– Que tal fazer um bolão na agência? Cada um entra com dois reais, como se fosse fazer o jogo sozinho, e todos juntos fazemos um bolão com mais chance de ganhar.

Arlindo nunca jogava e resolveu nem dar opinião. Mas, no retorno do almoço, em poucos minutos a ideia circulou entre todos e acendeu o interesse geral. Entre 16h00 e 16h30 todos já haviam contribuído para o bolão e definido os números. Só Arlindo continuava absorto no encerramento dos assuntos do dia. De repente, todos vieram à sua mesa:

– Arlindo, queremos que você entre também no nosso bolão.

– Não, obrigado – respondeu ele. Não entendo nada disso.

– Ora chefe, fazemos questão. Você é pé quente. Desde que veio para cá, há menos de seis meses, nossa agência já subiu 15 posições no ranking do banco. E os negócios continuam bombando. Não só queremos que você entre, como pedimos que leve o volante para apostar na lotérica.

Para não bancar o chato, Arlindo acabou aceitando. Pegou o volante e ficou de fazer o jogo no caminho para casa. Quando encostou no balcão de apostas, atrapalhou-se todo e acabou fazendo dois jogos: o do bolão e um com apenas seis dezenas que nada tinham a ver com as demais. Para não criar confusão, pagou esse jogo adicional e foi para casa. Lá chegando, guardou o jogo extra no fundo da gaveta do criado-mudo, fazendo um comentário vago sobre tudo isso com a Ivete. No dia seguinte entregou o volante para o organizador do bolão da agência, que o guardou no cofre, pois valia 190 milhões… Como ainda faltavam duas semanas para o sorteio, Arlindo deixou o assunto meio esquecido, por baixo de suas preocupações do dia a dia.

No dia primeiro do ano, como fazia todos os sábados e domingos, Arlindo acordou e foi buscar um pão quentinho e crocante para o café da manhã. E, é claro, deu de cara com as portas fechadas da padaria. Um pouco ainda acordando, foi até o jornaleiro da esquina e perguntou:

– Ei, “seu” José, o que houve com a padaria que ainda está fechada a esta hora?

– Ora, doutor, nenhuma padaria abre no primeiro dia do ano. Esqueceu? No ano passado foi a mesma coisa. Respondeu o José dando uma gargalhada.

Arlindo aproveitou para dar uma rápida olhada nas manchetes dos jornais do dia. Havia uma notícia que tinha destaque em todos eles: “APOSTADOR DE S. PAULO LEVA SOZINHO OS 193 MI DA MEGA DA VIRADA!” Enquanto o elevador subia, ele pensava: “Nossa! Bem que poderia ser o bilhete da turma da agência. Teríamos que fechar por uns dias até que uma nova equipe fosse contratada…” E sorriu ao pensar no problemaço que seria, para o banco e para os clientes. Comentou a notícia com a Ivete e ela lembrou:

– Você já conferiu aquela aposta que você fez sem querer e deixou na gaveta do criado-mudo?

– Nossa! Havia me esquecido. Depois do café vou lá olhar.

Enquanto a Ivete e as crianças davam um jeito na louça do café da manhã, Arlindo foi olhar o bilhete. Como estivesse demorando muito para voltar e ajudar, como sempre fazia, Ivete foi até o quarto ver o que havia acontecido. Encontrou o Arlindo pálido, suando frio, sentado na cama, com o bilhete na mão e o jornal com os números sorteados jogado em cima da cama. Ivete, preocupadíssima, perguntou:

– Arlindo, o que houve? Você está bem?

Arlindo balbuciou, olhando para um infinito confuso:

– Ga… ganhamos… N… não acredito…. Veja aí se é verdade… E estendeu-lhe o bilhete.

Ivete conferiu e era verdade! Ela começou a gritar, pular e chorar, quase histérica. As crianças correram para o quarto assustadas. Demoraram a entender o que tinha acontecido. Enquanto os pais tentavam retornar a um juízo um pouco mais equilibrado, Clarice e Pedro foram para a sala e continuaram a assistir a um filme que tinham começado a ver na véspera. Passada uma hora do choque inicial, finalmente começaram a raciocinar. Arlindo falou:

– Bem, para começar, vamos programar uma pizza para hoje à noite, pois o almoço já está pronto.

– Que legal! – Gritaram as crianças. -Vamos ao Castellões?

– Não, não. Falou Arlindo. Hoje vamos comer no Camelo, para ver como é pizza de gente grã-fina.

– Que pena… Lamentou-se Ivete, apoiada pela cara de desapontamento das crianças.

– Está bem. Na próxima vez vamos ao Camelo, rendeu-se Arlindo.

E a vida deles, como não poderia deixar de ser, começou a tomar novos rumos a partir daquele dia. Arlindo pediu demissão do banco logo na segunda-feira, negociando uma redução no tempo de aviso prévio. Aproveitando sua experiência bancária, abriu uma empresa de Consultoria em Investimentos e Desenvolvimento de Negócios. Logo a empresa começou a ter muito sucesso, pois Arlindo era muito competente no mercado de capitais.

– Ivete, acho que você poderia parar de dar aulas. É um trabalho desgastante e mal remunerado. Não precisamos mais disso.

– Mas, Arlindo, mesmo assim eu gosto muito do convívio com as crianças e os demais professores.

– Não, Ivete! Não quero que você trabalhe mais.

E Ivete concordou, em nome da preservação da afetividade entre os dois. Algum tempo depois, uma nova proposta do Arlindo:

– Vamos nos mudar para um apartamento nos Jardins. Quando você tem tempo para iniciarmos a procura?

– Arlindo, não poderíamos ficar por aqui mesmo, na Saúde? Iríamos para um apartamento maior, com há tantos aqui no bairro. Já conhecemos tudo e todos por aqui. E as crianças têm tantos amiguinhos na região…

– Não dá, Ivete. Tenho que oferecer muitas recepções, para gente importante da área empresarial, governo, sociedade, etc. E preciso de um lugar com aparência mais impressionante.

E Ivete, mais uma vez cedeu.

Dali a poucos meses, mudaram-se para uma cobertura na Padre João Manuel, quase esquina com Oscar Freire. No primeiro jantar na nova residência, a próxima decisão:

– Crianças, no próximo ano vocês passarão a estudar no Colégio São Luiz. É mais próximo daqui, vários filhos de conhecidos meus estudam lá e os pais estão muito satisfeitos.

Clarice e Pedro responderam quase um coro:

– Ah… pai… Queremos continuar no Arqui. Nossa turma toda está lá. Deixa, vai…

– Não! Está decidido. A matrícula já está feita e na próxima semana sua mãe os levará lá para uma entrevista e para vocês conhecerem o colégio.

Já conhecedores do novo estilo de Arlindo, Ivete, Clarice e Pedro engoliram seus argumentos e seus desejos, que ficaram guardados num cantinho do coração que já não tinha mais quase espaço para novas decepções. E assim foram se sucedendo: o carro novo a cada ano, as férias em locais com gente metida e desconhecida, o Clube Pinheiros, o motorista que levava as crianças para o colégio, para as festas, para as compras. Arlindo tornava-se cada vez mais um empresário de sucesso e um destaque no mundo social. Mantinha-se fiel a Ivete, mas era tudo que concedia ao casamento. Sempre ocupado com reuniões, almoços, jantares, viagens e solenidades. As crianças saiam de casa antes de ele  acordar. E quase sempre ele chegava à casa depois que elas estavam dormindo. Ou ele dormia antes que elas chegassem das festas. Levadas e trazidas pelo chofer. Ivete se desdobrava para fazer bem o papel de coadjuvante de Arlindo e ser uma mãe companheira e presente na vida dos filhos. E assim essa vida de glamour foi se arrastando nos anos seguintes àquele primeiro de ano lotérico.

Até que chegou o aniversário de 15 anos da Clarice. Como não podia deixar de ser, Arlindo contratou uma empresa para organizar uma festa retumbante, que merecesse destaque em todas as colunas sociais dos jornais, revistas e TV. Nada escapou da atenção de Arlindo, exceto a atitude passiva e desinteressada da esposa e da aniversariante. Elas se limitavam a aceitar tudo que ele determinava. O dia do aniversário da Clarice cairia na terça-feira e a festa seria no sábado seguinte. No domingo, enquanto almoçavam no clube, Clarice ousou pedir ao pai:

– Pai, será que poderíamos comer uma pizza juntos, na terça? Eu gostaria de ir ao Castellões. É minha pizzaria preferida e nós nunca mais fomos lá.

– Minha filha, não vai dar. Nesse dia tenho um jantar com o presidente da FEBRABAN, para discutir um projeto enorme. Não tenho como desmarcar. Mas o seu presente já está comprado e a comemoração, afinal, será no sábado.

Arlindo olhava para uma mesa onde almoçava o dono de uma grande empresa e acenava para ele. Nem percebeu que os olhos da Clarice se encheram de lágrimas e a Ivete saiu com ela para ir ao banheiro. Coisa de mulher, ele diria se tivesse reparado. Na terça-feira, Ivete, Clarice e Pedro foram levados pelo chofer até o Castellões. Mas, pela primeira vez em sua vida, Clarice não gostou da pizza de lá. Entrava na sua boca úmida e salgada.

Na quarta-feira, Arlindo viajou para New York, onde teria vários contatos de negócio até sexta-feira, quando pegaria o avião de volta para chegar no sábado e participar da festa da Clarice. Mas o destino teima em nos colocar em caminhos que não planejamos. Uma nevasca histórica cancelou todos os voos por 48 horas. Aflito, Arlindo tentou falar com a família pelo celular, mas caía sempre na caixa postal.

Conseguiu chegar a casa só no domingo à noite. O apartamento estava deserto escuro. Sobre o seu travesseiro, um envelope, com um recado simples da Ivete:

Arlindo, a festa da Clarice foi cancelada, devido a sua ausência. Fui com as crianças passar uns dias na casa de mamãe, na Praia Grande. Peço que, enquanto isso, você pegue suas coisas e desocupe o apartamento. Meu advogado entrará em contato para tratar do divórcio”.

Dois anos se passaram.

Arlindo resolveu abrir os olhos enquanto se espreguiçava lentamente como se a Ivete dormisse profundamente ao seu lado e não devesse ser acordada. A contragosto, olhou para o rádio relógio que continuava impassível sobre o criado-mudo ao lado da sua cabeceira. Ele mostrava o que Arlindo não queria ver: eram 6 horas da manhã. Pela terceira vez, só naquela semana, a cabeça de Arlindo começava a funcionar muito antes que a música anunciasse o início de um novo dia. Lembranças, preocupações, sem planos. No flat, onde morava sozinho, só se ouvia o zumbido da geladeira, o clac-clac do relógio elétrico e o som do trânsito, que filtrava da rua. Nenhum som que ele gostaria de ouvir. Levantou-se, fez a barba e preparou-se para descer e tomar seu café, sozinho entre os demais frequentadores da padoca da esquina. Olhou em cima da mesa da sala, onde uma passagem para Paris o lembrava onde passaria o próximo réveillon, sozinho no meio da multidão no Champs Elisées. Baqueou, afinal. Deixou-se cair no sofá. Rasgou a passagem e deixou cair grossas lágrimas, soluçando de saudade daqueles beijos de hortelã…

Escrito em 28/29 dez 2010

Publicado em 25/07/2021

Republicado em 13/04/2026

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