Pode ser pequeno ou criança, em espanhol. No caso do meu padrinho Francisco de Assis Affonso, era o apelido. Muito poucas vezes ouvi alguém chamá-lo pelo nome. Até para minha madrinha Wilma ele era o Chico. De “chico” ele só tinha o lado criança. No mais, ele era um homem grande. Corpulento, sempre muitos quilos a mais que o ideal. Cabelos quase sempre desgrenhados e as mãos sujas de graxa e restos de piche. Um coração inocente e enorme o fazia parecer uma criança, mesmo com os cabelos e o bigode fininho logo acima dos lábios já branqueando. Tinha pouco estudo, mas procurava se informar lendo bastante. Li muitos dos livros da sua pequena biblioteca.
Chico trabalhava com restauração de baterias, para carros, caminhões, motocicletas, embarcações, enfim o que aparecesse na oficina e precisasse de energia elétrica para se movimentar. Era um trabalho semi-artesanal, feito nos fundos daquele chalé de madeira na rua Augusto Paulino, bairro do Campo Grande, em Santos. Acho que ele e o sogro Ameleto eram competentes, pois o movimento da oficina era intenso. Eu adorava ficar vendo como aquelas carcaças de bateria iam tomando nova vida, com novas placas e separadores, bornes de chumbo reconstruídos por fusão em micro moldes e, finalmente, o que mais me fascinava: a vedação com piche derretido pelo maçarico e despejado lentamente nos contornos da bateria. Quando eu não estava brincando com meus primos Márcio e Mirian embaixo do chalé, suspenso em colunas de alvenaria estava xeretando o trabalho na oficina. Para desespero da minha madrinha, com medo do possível contato com ácido sulfúrico, chumbo derretido e piche aquecido escorrendo como mel (na época ninguém falava de coisas como ecologia e segurança no trabalho…). Durante muitos anos, passei a maior parte das minhas férias de fim de ano na casa da minha madrinha. Primeiro naquele misto de chalé e oficina. Depois, quando as coisas começaram a melhorar, já adolescente, no apartamento da rua Vergueiro Steidel, no Embaré.
Tenho muitas lembranças gostosas daqueles anos. O jipe Hansa (parecia muito com um Land Rover de hoje) que meu padrinho Chico usava para transportar carcaças velhas de baterias a serem recuperadas. Várias vezes fui com ele em excursões de compra na região do ABC. Era uma verdadeira aventura. A direção do bicho tinha quase uma volta de folga e a viagem era pelas curvas íngremes e fechadas do velho Caminho do Mar. Mais de uma vez o Chico tinha que manobrar (dar ré e tudo!) para conseguir fazer curvas na descida, com a traseira do jipe cheia de baterias sucatadas. Nesse mesmo jipe Chico levava a família para passear e até em viagens. Desse jipe eu caí no meio da rua, quando a porta se abriu numa curva, no dia do casamento da minha irmã Maria Lúcia.
Teve também uma vez que, jogando bola com a molecada na rua de areia, chutou o muro da casa e o dedinho ficou “como um estrupício” (termo que ele usava muito). Ele ficou muitos dias trabalhando e dirigindo o Hansa com esse dedinho atado com um pedaço de pano, até que foi ao médico e descobriu que estava quebrado. Não me lembro que ele tivesse se queixado, embora devesse estar doendo bastante. De outra feita me lembro o quanto se preocupou e correu para atender um empregado da oficina. Chico pediu que o Zé (vou chamá-lo assim para simplificar) verificasse se o piche estava quente. Isto é, o que ele queria saber é se o maçarico já havia derretido o piche a ponto de poder ser derramado para selar a bateria. Pois não é que o Zé enfiou o dedo no piche derretido?! Foi uma loucura de berros de dor e o Chico saiu alucinado com o jipe, levando o Zé para a Santa Casa, aonde chegou em poucos minutos, certamente com a ajuda daquele anjo da guarda especial que todas as crianças têm.
Mas o Chico tinha um problema. Não um probleminha. Mas um problemão. Ele não sabia resistir a um bom copo de bebida alcoólica. As garrafas e o balcão dos bares tinham um fascínio irresistível sobre ele. Numa época em que alcoolismo era considerado um vício e não uma doença, todos em volta do Chico sofriam com essa compulsão, sem saber como fazer para ajudá-lo. Volta e meia minha madrinha percebia que o Chico sumira da oficina e chamava:
– Márcio!
Ou:
– Mirian!
E, às vezes:
– Paulo!
– Sim?
– Vai buscar seu pai (ou seu padrinho) na padaria.
Quem era chamado, ia. E, invariavelmente, lá estava o Chico, encostado no balcão tomando alguma. Ele não falava nada. Largava o que estivesse fazendo e voltava ao trabalho. Quando a madrinha Wilma bobeava um pouco esse tempo na padaria se alongava demais, especialmente no finalzinho do expediente, e o Chico ficava embriagado. Mas até aí o seu lado criança aparecia. Ele se tornava um cordeirinho inofensivo. Sentava num canto e “apagava”. Não tenho lembrança de que tenha sido violento algum dia em que eu estivesse presente. Ele sabia que a esposa e os filhos o amavam, mesmo na embriaguez, e se desesperavam por vê-lo naquele estado. Talvez por isso, ele simplesmente desligava, para não machucá-los ainda mais. Quando se mudaram para o Embaré, foi um problema. A oficina continuou no chalé e a madrinha já não tinha mais como mandar buscar o Chico na padaria. E ele fazia um esforço para não exagerar. Quando passava da conta, aproveitava que estava na padaria e encomendava toneladas de frios e queijo e pães para o lanche da família. Ao chegar à casa com tais pacotes a madrinha já sabia:
– Xi… a coisa ‘tá feia hoje…
E assim a vida foi seguindo seu caminho. Eu casei, meus primos casaram e tomamos caminhos que nos afastaram durante muito tempo. Um dia eu soube, pela minha mãe, que o padrinho Chico e a madrinha Wilma haviam se separado e ele foi para alguma outra parte deste mundo. Depois de um tempo, que já não sei quanto, soube que ele partira para outra parte do universo. Fiquei, lá dentro das minhas memórias de infância e juventude, com uma sensação de remorso por ter perdido o contato com ele. Por isso resolvi escrever esta homenagem ao Francisco de Assis Afonso. O Chico, meu padrinho. Um homem bom, de vontade débil mas de um coração enorme.
10 de julho de 2008
Republicado em 15/04/2026
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