DESFILE DE CIRCO

Como sua família fazia há gerações, Quincas Camargo organizava o desfile do Gran Circus Camargo em uma nova cidade. Como sempre, a banda viria à frente, logo seguida dos trapezistas, malabaristas e contorcionistas. Depois, os animais de porte: elefantes, cavalos, tigres, leões. O próprio Quincas (QC, como alguns o chamavam veladamente) desfilava numa plataforma armada no alto do primeiro elefante, usando o megafone para anunciar as atrações do circo. Bem atrás dos animais, os palhaços e, em seguida, o restante da troupe oferecia aos assistentes uma amostra grátis caprichada dos números que seriam exibidas nas diversas funções a se realizarem a partir de logo mais à noite.

Mais uma vez, QC fazia seu trabalho pensando nos por quês dessa ordem, sempre a mesma há tantas décadas. A banda tinha que abrir o desfile, para despertar a atenção do distinto público. As formosas (ainda que à custa de quilos de maquiagem e roupas extravagantes…) trapezistas, malabaristas e contorcionistas tinham a missão de estimular os marmanjos a levarem seus filhinhos para assistir aos espetáculos. Os grandes animais representavam a força do circo e acenavam com os riscos que seus domadores correriam a cada exibição. E os demais artistas, com o caminho aberto por essa impressionante vanguarda, eram um aperitivo e um estímulo à curiosidade sobre o que seria possível ver sob a lona do Gran Circus Camargo.

E, outra vez, Quincas se perguntava por que os palhaços desfilavam logo após os animais e não no final, fechando o desfile, onde seria o lugar mais correto para seu papel de coadjuvantes. Até que, um dia…, QC entendeu essa lógica. Que não era do seu circo ou da sua família, mas de toda a atividade circense.

Quincas tinha um ego maior que o próprio circo. Não era à toa que ele desfilava no alto de um elefante e usava um megafone. Ninguém poderia ignorá-lo! E foi do alto desse pedestal que ele começou a perceber o que o incomodava nos palhaços que vinham, como já se sabe, bem atrás dele. Percebeu o seguinte: em vários momentos, os populares que, na calçada, a tudo assistiam, riam muito com os palhaços e pareciam não dar a devida atenção ao que ele anunciava. Quando se certificou que isso de fato ocorria, QC tomou uma decisão drástica. E nem discutiu sua idéia com qualquer outra pessoa do circo. Afinal, ele era o dono e ninguém sabia dirigir seu circo como ele.

Simplesmente informou a todos que, a partir da próxima cidade, os palhaços ficaram no final, encerrando o desfile. Alguns artistas não concordaram com isso, mas, por várias razões, preferiram ficar ajuizadamente quietos…

E veio o próximo desfile. Tudo começou bem. Quincas certificou-se que, agora, o público não mais deixava de ouvi-lo por causa dos palhaços. Mas… numa dessas olhadas para trás, para ver como as coisas iam, sentiu que algo esquisito estava acontecendo. O mágico deixara o coelho fugir da cartola. O comedor de fogo não conseguia cuspir aquela enorme chama de sempre. Os equilibristas pareciam… desequilibrados. Com essa amostra, muitos não iam querer pagar para ver a continuação, pensou QC.

E assim, de fato, aconteceu. A venda de ingressos foi diminuindo a cada espetáculo. QC se esmerava cada vez mais na redução de custos. O que – todos reconheciam – ele sabia fazer muitíssimo bem. Mas não adiantava. As dívidas, primeiro foram aparecendo. Depois, deram de ir aumentando! O dono do circo sentiu que poderia perder o que gerações da família Camargo haviam construído.

Numa tarde calorenta e empoeirada, estava sentado à porta de seu trailer, pensando nos problemas do circo, quando o Palhaço Germano se aproximou. Germano era um dos melhores palhaços da região e vinha comunicar sua decisão de abandonar o Gran Circus Camargo. Quincas, que, entre outras coisas, já havia renovado várias vezes a equipe de palhaços, na ânsia de resolver o problema, ficou furioso. Perguntou a Germano, arrogantemente:

– Quanto você quer para não sair?

Ao que Germano respondeu com firmeza:

– Não se trata de “quanto”, mas “o quê” eu quero para ficar aqui mais algum tempo.

– E o que é que você quer? Respondeu QC, mal segurando uma explosão de raiva.

– Basta que o senhor passe a utilizar os palhaços corretamente…

Quincas não acreditava no que ouvia. Como alguém se atrevia a lhe dizer como conduzir o seu circo? Ainda mais um palhaço! Porém, face à situação crítica dos negócios, fez um enorme esforço para se controlar e disse, com a máxima ironia de que foi capaz:

– Então, senhor sabichão, me fale alguma coisa sobre circo que eu ainda não saiba…

Germano, que se afeiçoara aos colegas do circo, respirou fundo e começou a falar, desejando que pudesse de alguma forma ajudar o QC e todos os artistas:

– Se o senhor tivesse trabalhado em outros circos, como eu e tantos outros aqui, já saberia a resposta. Que, na verdade, é muito simples.

– Não me diga!…

– Pois é, o que acontece é o seguinte. Quando os animais desfilam, a natureza continua funcionando… Aqui e ali, um animal ou outro defeca, e as fezes ficam no caminho de quem vem atrás. Por causa disso, os artistas ficam preocupados em não pisar na sujeira e perdem a concentração. Para não pisar nessas armadilhas que o grupo da frente vai deixando, cometem erros que normalmente não aconteceriam. É claro que a exibição fica pobre e o público acha que a qualidade dos números não será lá essas coisas.

– Bem – disse Quincas. E qual é a solução mágica? Fazer os bichos desfilarem de fralda, é?

– Não – respondeu Germano. É muitíssimo mais fácil. Quando os palhaços são posicionados corretamente, logo depois os animais, eles fazem o trabalho de limpeza. Ao perceberem que “a caca está feita” eles improvisam uma palhaçada qualquer e tiram a sujeira do caminho. Assim, os demais artistas podem tranqüilamente demonstrar suas habilidades.

– Ahn!… Foi tudo o que Quincas conseguiu balbuciar.

– Assim são os palhaços. Como o senhor bem sabe, quando algo sai errado no circo, são os palhaços que correm para disfarçar. Em certos momentos fazem isso tão bem que o público fica pensando que tudo faz parte do espetáculo, não é mesmo?

– Mas… mas.. e então?…

– É, senhor Quincas, os palhaços têm uma função mais importante do que só fazer graça. Eles desenvolvem a habilidade de rir quando poderiam chorar; contribuir para corrigir as falhas dos outros; e, principalmente!, colocar-se no papel de coadjuvante quando, de fato, são tão importantes quanto os demais.

Quincas estava absolutamente estupefato. Em poucas palavras Germano lhe dera várias lições. Primeiro, ninguém pode saber tudo. Segundo, é preciso valorizar o papel de cada um. Terceiro, vale a pena ouvir os outros antes de tomar uma decisão.

O Gran Circus Camargo começou a recuperar-se. Germano continuou sendo o Palhaço Germano e, junto com os demais palhaços, desfila agora logo em seguida aos animais.

Quincas já não mais aparece no alto do elefante. Ele desloca-se no meio do desfile, garantindo que cada um cumpra seu papel. Inclusive os garotos que distribuem os vistosos folhetos que falam sobre as atrações do circo. E continua sovina como sempre, no controle dos custos do tradicional Gran Circus Camargo.

Escrito em 04/09/2006

Publicado em 26/07/2021

MINHA AMIGA GUI-GUI

Eu estava aqui pensando que gosto de escrever, mas há um bom tempo não tenho tido inspiração. Isolado num apartamento deste Residencial para Idosos, fica difícil encontrar algo interessante para fazer, para pensar, para escrever. Gosto de contar histórias reais ou, quando muito, criar uma história baseada em fato real. E os fatos estão lá fora, no mundo real. Ficar contando sobre minha vida aqui dentro poderia soar como uma queixa, que existem, mas não interessam a ninguém. Escrever sobre sentimentos, especialmente um que estou vivendo, seria trocar uma sessão de análise por teclar no notebook. Além do que poderia ser inconveniente para alguns e incompreendido por outros. Até já escrevi para desabafar, mas não publiquei. Quem sabe um dia alguém ache esse texto e faça uma publicação póstuma se tiver a curiosidade de olhar meus arquivos. Certo, tenho muitos contatos no mundo das redes sociais. Quase a totalidade desses contatos são o que são. Contatos virtuais. Um ou outro, digamos, mais próximos. E outro que me dá ainda mais vontade de frequentar o mundo real.

Enquanto eu espero, não muito pacientemente…, que alguma coisa mude para melhor na minha vida estou zapeando meu olhar entre esta fria tela e o futebol na televisão, tenho a ilusão de ouvir uma vozinha:

– Oi, Paulo Celso, gostaria de te ajudar.

Meus Deus! Será que de tanto conviver com pessoas com vários graus de demência estou indo por esse caminho também? Presto atenção se há alguém no corredor ou há som vindo de outros quartos. Nada. O único ser vivo aqui no quarto, além de mim mesmo, é uma formiguinha que passeia pela escrivaninha, talvez procurando alguma migalha do bombom que comi ontem. Penso:

– “Esta formiguinha é que é feliz. Sem maiores preocupações além de achar alimento para si e para as demais formigas que moram no mesmo formigueiro”.

– Não é bem assim, Paulo. Também tenho meus problemas.

– “Francamente, fico muito preocupado. Será que estou imaginando vozes, de tanto querer conversar com alguém, aqui no meu isolamento?”

– Não, Paulo. Você não está imaginando. Sou eu, esta formiga que passeia pela escrivaninha, que estou me comunicando com você.

– Mas sua voz soa como estivesse dentro da minha cabeça.

– É uma longa história. Estamos nos comunicando pelo que vocês humanos chama de telepatia.

– Mas… como uma formiga fala comigo por telepatia?

– Acho que posso resumir a explicação para que você entenda que esta nossa conversa é real. Não é sua imaginação.

– Você conhece bem a Teoria da Evolução das Espécies. Essa evolução não ocorre só nos humanos e, talvez, para certos animais. A verdade é que a Evolução obedece a regras universais, que se aplicam a todos os seres vivos.  O resultado e a velocidade da evolução dependem do planeta em que ocorrem e da espécie inicial. Nós formigas também evoluímos. Sem saber como, nem porque, algumas de nós desenvolvemos a capacidade de nos comunicarmos por telepatia. Talvez por causa de alguma radiação atômica. Acredito que sejamos poucas que, atualmente, apresentam essa capacidade. Eu, de fato, estava farejando algumas micro migalhas de bombom quando comecei a prestar atenção nos seus pensamentos. Usualmente não nos comunicamos por telepatia, a não ser entre nós. ”Ouvindo” seus questionamentos resolvi verificar se posso te ajudar. Afinal eu posso circular livremente pelo que você chama ‘o mundo exterior’, a menos que ocorra algum acidente.

– Nossa!, custo a acreditar que estou conversando com uma formiga. Só me ocorre agradecer à Providência Divina pôr à minha disposição um auxílio que nem sei como usar.

– É fácil. Como eu não tenho limites, a não ser distâncias e acidentes, vou circular por aí prestando atenção em coisas que eu posso contar para você e que talvez possa servir de inspiração para seus textos.

– Puxa, isso é mesmo possível. Mas, como vou saber que é você?

– Me dá um apelido. Quando você vir uma formiga andando pela escrivaninha me chama pelo apelido. Se não for eu você não terá resposta.

– Tá bom. Você será minha amiga Gui-Gui.

-Fechado! E não se preocupe se eu demorar. Coisas interessantes não aparecem a toda hora. E o que são metros para você são quilômetros para mim. Fui…

Não vejo a hora que a Gui-Gui volte.

Escrito 05/12/2025

SEGUINDO EM FRENTE

Tantas vezes recebo mensagens sobre o Passado, o Presente e o Futuro que entendo, finalmente, por experiência própria, como esses três tempos influem nossas vidas.

Claro, não podemos mudar o Passado. Mas ele é importante na formação do nosso presente. O que somos hoje é o resultado do que aprendemos (ou não…) com a vida que já vivemos.  Aprendemos principalmente com as decisões que tomamos, algumas boas, outras nem tanto. O importante é considerar que não há decisões certas ou erradas. Sempre decidimos pelo que nos parecia o melhor para aquela situação. Algumas dessas decisões se mostram adequadas, ou não, imediatamente. Outras, principalmente as erradas, só vamos perceber a consequência muito tempo depois. Algumas, a tempo de corrigir os efeitos outras, irremediavelmente incorrigíveis. Com o passar do tempo vamos ficando mais sábios, à medida que entendemos nosso passado e como ele nos trouxe até aqui.

E o Futuro? Falando muito objetiva e racionalmente, o futuro não existe. O futuro será o resultado do que estamos fazendo agora. Como o hoje é o resultado que fizemos no passado. Mas a maioria das pessoas, inclusive eu mesmo, têm a tendência de querer determinar seu futuro, sem considerar que este será a consequência do que estão vivendo agora. E esse é o perigo. Criamos um cenário de futuro em que vários sonhos, desejos e expectativas se tornem realidade. Talvez até corrigindo erros do passado. É importante preparar futuro? Sim, desde que não nos esqueçamos que o futuro será, quase sempre, o resultado do que estamos fazendo e vivenciando hoje.

É fundamental que prestemos atenção no que estamos vivendo hoje. Pois pode ser que uma decisão errada, o um acontecimento fortuito, pode mudar o Futuro para uma realidade não desejada, uma frustração que vai afetar nosso presente. É como se estivéssemos caminhando pensando no passado ou projetando nosso futuro e esquecemos do prestar atenção no chão onde pisamos. Num décimo de segundo pisamos num buraco e quebramos o tornozelo. E todo aquele futuro maravilhoso que imaginávamos, com grandes viagens, passeios e novas companhias, fosse tornado quase impossível, devido à perda de mobilidade. E temos que fazer como o waze, “Recalculando a rota”. E talvez a nova rota seja completamente diferente do que imaginavamos e exija muita coragem para seguir em frente.

Escrito em 28/10/2025

ESCREVER PARA DISTRAIR

Quando eu fui morar sozinho, no mundo exterior, sentia muita solidão. Para afastar um pouco desse isolamento, comecei a escrever. Procurava contar coisas da minha vida. Da divulgação limitada desses textos surgiu a ideia de publicá-los num blog, como me animou minha saudosa sobrinha Tania Regina. Acho que já há mais de 200 textos publicados e me senti sempre como tendo atingido meu objetivo. Depois que vim morar neste mundo recluso tenho tido dificuldade para escolher assuntos. Talvez porque aqui dentro não acontecem novidades que valham a pena contar. Mas continuo com vontade escrever para me distrair. Estou tentando fazer um pouco de ficção. Ontem à noite, pensando nisso, lembrei de um recurso que já usei algumas vezes. Usar um texto pronto que expresse um sentimento meu.

Eu tinha uma boa coleção de LP’s bem variados. Iam de Beatles a música andina; de música de câmara a sambas enredos; passando por Carlos Drummond da Costa, um dos meus poetas prediletos. Sim, eu tinha um álbum duplo com poesias dele, maior raridade!, declamadas pelo próprio. Alguns textos mexem mais comigo. Assim, parando de encher linguiça, aqui vai o poema.

AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros

estendidos na mais estreita cama,

que se torna a mais larga e mais relvosa,

roçando, em cada poro, o céu do

corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,

o prêmio subterrâneo e

coruscante,

leitura de relâmpago cifrado,

que, decifrado,

nada mais existe

valendo a pena e o preço

do terrestre,

salvo o minuto de ouro relógio

minúsculo, vibrando no

crepúsculo.

amor é o que se aprende no

limite,

depois de arquivar toda a

ciência

herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Texto escrito em 16/10/2025

ANALOGIAS

É muito comum que, nas raras vezes em que perco o sono, acordo de madrugada com alguma ideia para um novo texto para o meu blog. Foi o que aconteceu esta noite. Já me aconteceu que essa ideia era tão boa que não me deixava dormir e eu levantei para escrever para conseguir dormir novamente; não foi o que aconteceu hoje. Cumpridas minhas “tarefas” matinais (banho, café da manhã e curativo na gaiola do tornozelo esquerdo) eu estava aguardando o horário do almoço, relembrando a ideia da madrugada e me perguntando se ia escrever sobre o que pensei naquele momento de insônia. Então minha musa inspiradora pediu uma ligação por vídeo. Foi a conta. As analogias sobre as quais eu havia pensado voltaram fortes à minha mente e aqui estou para colocá-las “no papel”. (Na verdade transformá-las em digitação…).

Gosto de considerar minha vida como um caminho, uma estrada, uma trilha em direção a algum objetivo. Aprendi com essa musa inspiradora (por enquanto, uma grande e inesperada amiga da rede social…) a não criar expectativas para não me decepcionar com a eventualidade de não poder realizá-las. Ela apareceu numa curva do meu caminho, num momento em que meu único objetivo era continuar vivo, mesmo sem saber por quê.

Meu caminho em busca por uma realização afetiva tem sido cheio de percalços e surpresas. Por escolhas erradas; na saída de um entroncamento, logo no início do caminho; pela ilusão de um desvio que me levou, afinal, para mais longe do meu objetivo. Quando achei um caminho promissor me deparei com uma queda de barreira que interrompeu a estrada. E novamente estava um caminho de destino incerto, numa estrada sem acostamento para um descanso. Aqui está uma outra analogia. Minha luta por uma realização afetiva se compara a um casamento em que a busca por constituir uma família termina com dois abortos e um parto prematuro de natimorto.

Mas, outra coisa que estou aprendendo, é me entregar ao caminho traçado por Deus. Só tentando entender as sinalizações. E eis que percebo que minha estrada era uma subida de serra. E, numa curva, me deparo com uma praia ao longe e a estrada começa a descer. Ainda não sei se a estrada em que estou me leva para a paisagem avistada. Não sei que percalços posso encontrar. Não sei se será possível chegar lá. Mas, só a existência daquela paisagem, e a possibilidade de chegar lá já me dá um novo alento. Como já falei, não crio mais expectativas. Mesmo que eu não chegue, a paisagem jamais sairá da minha mente. E minha vida já tem novo significado.

Escrito em 19/09/2025

A ÚLTIMA MILHA

Deitado na penumbra do seu quarto, Clóvis olhava para o teto pensando no momento que vivia em sua vida e reconstruía alguns dos caminhos que trilhara para chegar até aqui. Veio, então, à sua mente um conceito que aprendera nas empresas norte-americanas em que trabalhara na sua carreira. Era “a última milha”; em inglês, “the last mile”. Essa expressão, originalmente significava a última etapa para atender ao pedido de um cliente. O momento entre o produto ou serviço pronto e sua entrega ao cliente. Um erro ou problema nessa etapa pode significar prejuízo e até a perda do cliente. Por isso, seria necessário não “abrir a guarda” nesse momento final causando, muitas vezes, problemas que poderiam por a perder tudo o que tivesse sido feito até o momento. Aos poucos a expressão passou a ser usada em muitas situações, enfatizando o cuidado necessário para que “a última milha” não viesse a prejudicar o resultado dos esforços desenvolvidos até então.

Clóvis sentiu que poderia estar vivendo a última milha de sua vida. Muitos dos seus caminhos mostraram erros na “última milha”. Esses erros o levaram para desvios indesejados. Alguns desses erros formam devidos à escolha do caminho errado, outros foram devidos a situações fora do seu controle, causados por fatores independentes de sua vontade, como o fechamento do caminho que havia escolhido. Ele fizera um esforço sincero para adaptar-se ao novo caminho, recalibrando seus objetivos, reformando seus sonhos e corrigindo seus erros. Para esta última milha da sua vida ainda tentava amenizar as consequências das más decisões e dirigir seus esforços para os novos sonhos possíveis. Eram desafios que ele estava enfrentando, mas, como sempre, não recuaria até que a luta lhe mostrasse que eram sonhos impossíveis. Ele haveria de lutar enquanto tivesse forças e saúde para cumprir bem essa “última milha”, mesmo que só conseguisse entregar ao Cliente boas lembranças.

Escrito em 03/08/2025

POSSO O QUE QUERO? – OU QUERO O QUE POSSO?

Ao longo dos últimos cinco anos meu estado de espírito tem oscilado bastante. Por causa da dissonância entre projetos que imaginei para minha vida, logo após minha viuvez, e os obstáculos que foram aparecendo para realizá-los. Ora eu estava entusiasmado com o projeto, ora estava triste com a impossibilidade de concretizá-lo.

Nas últimas semanas de vida, a Viviane me falou que eu poderia morar no apartamento que ela tinha em Sorocaba pelo tempo que eu quisesse, o que foi depois ratificado pelo Renato, seu único filho e herdeiro. Era algo que eu sempre sonhei: morar fora de São Paulo, preferencialmente numa cidade menor. Pois na véspera de eu iniciar minha mudança, tive uma queda e fraturei a patela do joelho esquerdo em três pedaços. Cheguei a passar uma semana em Sorocaba mas sentia muita dor e, para resumir, passei três meses morando na casa do Edgar, com a perna imobilizada. Ao final desse tempo fui convencido a desistir de mudar devido ao risco de não ter como ser acudido rapidamente pelos filhos, no caso de problemas com minha saúde.

Aluguei um apartamento no bairro de Perdizes, muito próximo do primeiro endereço em que residi quando vim para o bairro, há mais de 35 anos. Era um prédio misto de residencial e comercial. Assim eram também as quadras próximas. Tinha toda facilidade para compras durante o dia e tranquilidade durante a noite. Logo comecei a me relacionar com alguns vizinhos do prédio e comerciantes das redondezas. Quando entrava na lanchonete ao lado, sábado sim, sábado não, o chapeiro já sabia: “Já sei, uma feijoada pequena, para hoje e para o próximo sábado”. Tinha de tudo por perto: farmácia com entrega em domicílio, agência bancária, hortifruti, casa de ferragens, jornaleiro, supermercado Dia%, loja de produtos naturais que acompanhei a montagem e me tornei amigo dos proprietários, loja Japa (de guloseimas), lotérica, lojinha de miudezas como, por exemplo, capa para celular e outros acessórios para celular e informática, restaurante Ponto Chic, onde nasceu o sanduiche Bauru, papelaria cujos donos eram meus vizinhos de andar, lojas de roupas e sapatos. Eu me sentia como numa cidade de interior, onde todos se conhecem. Ainda não me sentia seguro para pegar ônibus e passear pela cidade. Isso porque, devido à fratura do joelho, ainda usava bengala para dar segurança ao caminhar. Antes que eu estivesse pronto para dispensar a bengala, levei um tombo, na entrada do prédio, e fraturei a cabeça do fêmur esquerdo, onde foi colocada uma haste.

Durante minha convalescência, já em casa depois de dois meses num Residencial para idosos, foi contratada uma cuidadora para trabalhar durante o dia às segundas, quartas e sextas feiras. Pela avaliação das minhas limitações físicas pelos meus filhos, a cuidadora passou a ir a semana toda. Eu só ficava sozinho à noite e aos fins de semana. Depois de algumas semanas, num consenso com os filhos, mudei-me para o Residencial onde já moro há um ano e meio. Mais uma vez aparecia um obstáculo para a concretização dos meus desejos.

Passado um período de adaptação, comecei a me sentir infeliz com a ideia de que eu nunca mais sairia daqui. Por várias razões. Mas, principalmente, porque me sentia com energia e disposição para fazer muito mais do que comer, dormir, ler, ver televisão; comer, dormir, ler, ver televisão; comer, dormir, ler, ver televisão. Só consigo conversar com as cuidadoras que quase nunca, lógico, têm tempo para conversas. Eu estava sentindo cada vez mais necessidade de sair deste ambiente, mesmo que por algumas horas por dia. Comecei a fazer força para me recuperar fisicamente e poder ir mais para a rua. Progredi bastante. Fazia fisioterapia, subia dois andares pelas escadas para exercitar as pernas. Andava pela casa toda sem apoiar a bengala. As cuidadoras até brincavam que eu só levava a bengala para passear. Andei várias vezes na rua, fui a um café a duas quadras daqui e cheguei a dar uma volta no quarteirão, em duas oportunidades. E só não fui mais vezes por falta de acompanhante. Mais ainda não era tudo que eu precisava, Eu precisava de companhia para conversar. Recebi, já não lembro como, um convite para participar de um grupo da Terceira Idade. Entrei, escolhi algumas pessoas que achei interessante e comecei a troca de mensagens. Saí do grupo depois de ter começado conversas com algumas pessoas, com algumas das quais troco mensagens até hoje. Pelo menos eu tinha ampliado um pouco o número de pessoas com quem conversar.

E aí começou meu novo sonho. De forma muito inesperada, com uma dessas pessoas as conversas começaram a se tornar mais constantes. Ela era de fora de São Paulo, pois eu dei preferência a fazer novas amizades de fora de São Paulo para não ter nenhuma outra conotação. Mas, neste caso, o contato foi evoluindo e se intensificando ao longo dos meses. Conversas por vídeo foram se tornando cada vez mais frequentes e longas. Logo nos pareceu que poderíamos pensar numa vida compartilhada, não apenas pela internet. Eu estava me preparando para passar uns dias com ela, para termos certeza das nossas afinidades e disposição para tolerar nossos pontos difíceis. Eu estava só aguardando a festa de 15 anos da minha neta Sophia, no começo de maio. E apareceu um obstáculo absolutamente inesperado. Poucas semanas antes do aniversário levei um tombo idiota e fraturei o cotovelo esquerdo. Poucos dias depois, possivelmente devido ao desequilíbrio causado pela tala no braço esquerdo, torci fortemente o tornozelo esquerdo e fraturei. Para resumir, estou com um fixador externo no tornozelo, chamado de “gaiola”. Acabei nem indo no aniversário. Novamente o projeto dos meus sonhos, de sair daqui do Residencial e mudar para uma cidade menor, associado à possibilidade de construir uma vida nova e agradável está, pelo menos por enquanto, suspenso.

Então, nos últimos dias, para superar minha frustração, comecei a pensar no que deu origem ao título deste texto. Geralmente ficamos aborrecidos quando não podemos fazer o que queremos. Normal. A questão me propus é: será que um dia poderei o que quero? Devo me conformar ao que posso e não pensar no que quero? Depois de me debater com essas questões cheguei a uma decisão que me aliviou e tem até me feito dormir melhor. Se eu quero algo que não posso, é possível vir a poder algo que quero? Sim, digo a mim mesmo, devo buscar condições que me tornem possível o que quero. Vou fazer todo os esforços que estiverem ao meu alcance para tornar possível o que quero. Mesmo que seja necessária alguma adaptação. Faz parte do meu espírito capricorniano. Não desistir enquanto houver esperança.

Escrito em 26/06/2025

VISITA AO MEU AMIGO ZÉ CARLOS

Outro dia tive um sonho tão real que, ao acordar, fiquei em dúvida se tinha sido realmente um sonho ou realidade. Então resolvi registrar aqui antes que esse sonho de desvaneça, como tantos outros que já tive.

“Logo depois de me formar, resolvi fazer uma visita ao meu colega Zé Carlos, que mora em Presidente Epitácio, nas barrancas do Rio Paraná. Afinal, ele me descrevia sua cidade de uma forma tão positiva, que decidi visitá-lo, sem pensar que não existe nenhum lugar tão perfeito como ele descrevia. Ele sugeriu que eu fosse de trem, para aproveitar a paisagem com mais vagar. Aceitei a sugestão e fui para a estação de trens.

Lá chegando, me deparei com uma quantidade de trens de diversas cores e acomodações. Devido à minha inexperiência com esse tipo de viagem, embarquei no trem que me pareceu mais interessante, por suas cores e conforto das poltronas. Só esqueci de verificar qual era seu destino ou de onde vinha.  A viagem começou bem, passando por estações e regiões interessantes. Mas, depois de algum tempo, percebi que esse trem não era tão confortável e nem estava me levando para a cidade que eu queria conhecer. Resolvi, então, saltar na próxima estação.

Na próxima estação, por destino ou não, estava outro trem com a porta aberta bem em frente a mim. Como que dizendo: “vem, eu estava te esperando”. Sem pensar duas vezes, seguindo da minha “santa” ingenuidade e precipitação, embarquei outra vez sem analisar primeiro qual era o itinerário dessa composição. Afinal, o trem estava virado para o mesmo lado para onde eu estava indo. Logo percebi meu erro. No primeiro entroncamento o trem entrou para um desvio e logo eu percebi que não sabia mais onde eu estava. Depois de algumas estações, recebi um aviso sonoro: “Passageiros com destino a Porto Epitácio, favor descer por que seguiremos para outra estação”. Não tive jeito. Desci.

Perguntei ao chefe da estação se havia algum trem que fosse para Presidente Epitácio. Ele disse que era raro, mas de vez em quando, poderia passar algum que me interessasse. Já calejado pelos erros anteriores, resolvi ficar ali até que viesse um trem que pudesse me levar para meu destino. E se não viesse algum interessante, eu ficaria por ali mesmo. Depois de bastante tempo, chegou um trem que ia para uma cidade próxima a Presidente Epitácio. Pela proximidade, avaliei que valeria a pena embarcar nesse trem e chegar a um destino próximo ao que eu desejava. De fato, dessa vez eu tinha acertado. A viagem estava muito boa, e mesmo que o caminho fosse diferente do que eu havia imaginado, era ainda muito agradável. Eu estava satisfeito com minha escolha.  Eu estava curtindo a viagem quando houve o triste inesperado. Por uma falha mecânica, deveríamos descer naquela estação, pois o defeito não tinha conserto.

Resolvi, então, seguir viagem a pé. Poderia ser uma condição a que tivesse que me acostumar. Caminhar, e caminhar e me conformar em não chegar a Porto Epitácio. Depois de muito andar encontrei, por capricho do destino, uma estação de trem.

Resolvi entrar na estação para descansar um pouco. Vários trens passaram mas nenhum com destino interessante. Até que chegou um trem indicando, com letras garrafais: PORTO EPITÁCIO. Pulei da cadeira onde estava sentado e aguardei o trem parar. Estava cheio e eu precisava sentar. Mas tinha tanta gente, vinda de outras estações, que talvez não houvesse lugar para eu sentar. E eu não aguentaria continuar a viagem em pé. Fiquei ali parado, pensando se entraria ou não.”

Aqui eu despertei. Não sei como o sonho terminou. Talvez tenha continuidade, como outros que já tive.

23/06/2025

OS TRENS DA MINHA VIDA

Quem me conhece sabe que gosto de associar alguma música para ilustrar algum fato do dia a dia. Hoje, enquanto almoçava, estava pensando sobre o que escrever para cumprir meu compromisso de escrever com mais frequência. Me veio à mente uma música que gosto muito: Romaria; um lindo poema musical do Renato Teixeira. Vou reproduzir a letra integral, colocando em negrito os trechos que me inspiraram para escrever o blog de hoje.

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ROMARIA

É de sonho e de pó

O destino de um só

Feito eu perdido em pensamentos

Sobre o meu cavalo

É de laço e de nó

Da gibeira ao jiló

Dessa vida cumprida a sol

.

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

.

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

.

O meu pai foi peão, minha mãe solidão

Meus irmãos perderam-se na vida

A custa aventuras

Descasei, joguei, investi, desisti

Se há sorte eu não sei, nunca vi

.

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

.

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

.

Me disseram, porém, que eu viesse aqui

Para pedir de romaria e prece

Paz nos desaventos

Como eu não sei rezar, só queria mostrar

Meu olhar, meu olhar, meu olhar

.

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

.

Sou caipira, pira, pora

Nossa Senhora Aparecida

Ilumina a mina escura

E funda o trem da minha vida

.

oo-oo-oo

Nessa linha de pensamento, resolvi pensar na minha vida. Nas viagens que já fiz e nas que ainda preciso fazer para chegar ao destino com que sonho, talvez um sonho utópico.

“Ilumina a mina escura” me parece um pedido, um tanto desconsolado, a Nossa Senhora Aparecida para que ilumine seu caminho e o faça saber qual o melhor entre os com que se depara. Ele fala sobre uma vida intensa, cheia de desilusões, que ele quer abandonar mas não tem certeza sobre a nova vida que busca. “Funda o trem da minha vida” entendo como um pedido para embarcar num novo trem que o leve ao destino que deseja. É como colocar a vida num novo trem, diferente dos que o trouxeram até aqui.

Na vida real, muitas pessoas, como eu, passam por momentos em que pedem a inspiração divina para escolher o melhor caminho. Garanto que não é fácil. Muitas vezes sinto que devo me conformar com a realidade em que estou. Outras vezes me avalio estar com energia suficiente para encarar novos desafios. Sonho com uma vida nova, mas tenho receio que tenha impedimentos físicos que inviabilizem concretizar esse sonho. Outras vezes imagino que, mesmo vencendo minhas atuais dificuldades, poderia ser difícil ocupar algum espaço no coração e nas lembranças de outras pessoas. Enquanto espero que N.S. Aparecida me ilumine sobre o melhor caminho para o trem da minha vida, peço a ela que me dê força para aceitar o que eu não puder mudar.

Este não é o tipo de texto que gosto de escrever mas hoje é assim que me sinto. Prometo algum assunto mais interessante para as próximas publicações. Hoje foi como uma terapia.

21/06/2025

CONTRATO DE NAMORO

Nos últimos dias uma notícia chamou a atenção de muita gente. É sobre o aumento dos Contratos de Namoro. Esses contratos estabelecem uma série de obrigações e definições de um casal de namorados. Tanto durante a vida como namorados como no caso do rompimento da relação. Segundo consta, são definidas responsabilidades em situações do dia a dia, como tarefas domésticas, passando pela fidelidade e até divisão do patrimônio e a guarda dos pets. Há controvérsias sobre o assunto, provavelmente resultantes de um conflito geracional.

Para os maiores de 60 anos, como é o meu caso, o namoro é o tempo inicial de conhecimento de um casal. Em nosso tempo, o namoro começava com um pedido formal após a evolução de uma convivência como amigos. Durante esse tempo o casal se encontrava duas a três vezes por semana para longas conversas e pequenos passeios nas redondezas da residência da menina, além das festas de aniversário de um conhecido, nos bailinhos de garagem da turma ou nas domingueiras do clube. Após esse tempo de primeiro conhecimento, tendo havido amadurecimento dos sentimentos, o rapaz pedia aos pais da moça sua mão em casamento. O noivado geralmente incluía o uso de aliança na mão direita. Durante o tempo do noivado eram feitos os preparativos para o casamento: estabelecimento de data para o “enlace matrimonial”, definição do local de residência e sua mobília, escolha de padrinhos, etc. E, feito o casamento civil, a relação passava a ser objeto da legislação vigente e do judiciário.  Para nós que vivemos aquele tempo soa muito estranho que seja necessário um Contrato de Namoro.

Mas, atualmente, a palavra “namoro” adquiriu novo significado. É comum ouvirmos notícia dizendo “Fulana estava com seu namorado, com quem vive há dois anos”. Isto é, os casais assumem uma relação informal que chamam de namoro. Para isso, realmente, pode ser necessário um contrato que obriga ambas as partes. Para nós, mais antigos, assumir este tipo de relação era apelidado de “juntar os trapinhos”. Hoje o namoro, o flerte, a paquera são designados como “ficar” (os namorados são “ficantes”, acho), “crush” etc. Para os que ainda preferem ir viver juntos, sem formalizar um casamento, existe a figura da união estável, que tem o mesmo valor legal e previdenciário que o casamento civil. Só é necessário comprovar que é, de fato, uma união estável.

Em qualquer relação de união afetiva é essencial que haja confiança mútua, independente do que diz um contrato ou a lei.

15/06/2025