PARA A TURMA DO MIMIMI

Ontem, domingo de Carnaval, tive a alegria de receber do meu amigo Rivaldo (primo da Viviane e pai de um amigão do meu filho Edgar) um vídeo com 30 marchinhas de carnaval, com uma hora de duração. Enquanto eu me deleitava com as lembranças dos alegres carnavais de outrora, fiquei me divertindo sozinho, pensando que a turma do mimimi não permitiria certas músicas tocarem em nossos dias por serem politicamente incorretas. Comentei isso com ele e ele me estimulou a fazer uma lista. Então hoje de manhã ouvi as músicas outra vez e fiz a lista. Para minha surpresa listei 19 das 30 músicas! Eu mesmo fiquei impressionado. Então, aqui vai a lista:

O TEU CABELO NÃO NEGA – racismo

ME DÁ UM DINHEIRO AÍ – estímulo ao alcoolismo

JARDINEIRA – crime ambiental

QUEM SABE, SABE – assédio sexual

TAÍ – assédio sexual

MARCHA DA CUECA (“eu mato quem pegou minha cueca pra fazer pano de prato…”) – violência doméstica

MARIA SAPATÃO – homofobia

A CABELEIRA DO ZEZÉ – homofobia

PÓ DE MICO – tráfico de drogas

ALLAH-LA-O – preconceito religioso

TOURADAS DE MADRID – assédio sexual

SACA-ROLHA – estímulo ao alcoolismo

CACHAÇA – estímulo ao alcoolismo

TURMA DO FUNIL – estímulo ao alcoolismo

TEM NEGO BEBO AÍ – estímulo ao alcoolismo

HINO DO FLAMENGO – estímulo a drogas (esta foi zoação…rs)

TRANSPLANTE CORINTHIANO – estímulo a drogas (esta também…)

CIDADE MARAVILHOSA – propaganda enganosa

MÁSCARA NEGRA – assédio sexual

Todas estas músicas estão disponíveis no Youtube, para quem não se lembrar da letra. Agora volto para meu carro alegórico (sofá) com meu adereço de mão (controle remoto).

Escrito em 28/02/2022

SINTO-ME UM CYBORG

Um necessário preâmbulo, para quem não sabe ou não conheceu. “Cyborg – O Homem de Seis Milhões de Dólares” é o título de uma série de TV de 1973. Nela o ator Lee Majors faz o papel de um astronauta altamente treinado que sofre um grave acidente num teste de foguete. Nesse acidente ele perde, se bem me recordo, as duas pernas, um braço, a outra mão e um olho. Nessa época o exército americano estava desenvolvendo próteses biônicas, no valor de seis milhões de dólares. Então resolvem implantar essas próteses nele. Assim ele passa a possuir capacidades de força, velocidade e visão que passam ser utilizadas em missões especiais. Agora que todos estamos na mesma página, vejamos a razão do título deste texto.

É o seguinte: quem olhar minha história apenas sob o ponto físico pode pensar que a vida me atropelou. Nos últimos 25 anos me tiraram a próstata, a vesícula, o esôfago, colocaram uma tela no meu ventre para reduzir uma hérnia, implantaram três pinos de aço no colo do meu fêmur esquerdo e me deram cinco pontos no supercílio. Sem contar a patela rompida em três pedaços, o que me fez ficar quase quatro meses em repouso com a perna esquerda imobilizada.

Então perguntariam: que tipo de Cyborg sou eu?? Não, não recebi nenhuma prótese. Mas a vida me compensou com outras coisas muito mais valiosas. Tenho dois filhos maravilhosos, um neto e uma neta incríveis e uma nora admirável. Meus filhos vão muito bem na profissão e, ao invés de eu os ajudar, são eles  que me ajudam sempre que necessário. Tenho ótimas relações com minhas duas irmãs, e tenho boas recordações das outras duas irmãs que já se foram. Vivi 12 anos maravilhosos com a Viviane, quando achei que já estava “aposentado” da vida sentimental; e esses anos deixaram doces lembranças que me fazem companhia no dia a dia. Fiz tantas amizades que nem dá para contar; algumas há mais de 60 anos, outras bem mais recentemente. Tenho tantas primas, primos, tios com quem sempre troco mensagens carinhosas. A Internet me trouxe a proximidade virtual de tanto amigos e parentes que estão fisicamente longe, mas ao alcance de um ou dois cliques. No Pará, na Itália, nos Estados Unidos, no Paraná, no Rio Grande do Sul, em Brasília, no Espírito Santo, em Sorocaba e em Santos… Tenho 13 sobrinhos, dentre eles três afilhadas, uma sobrinha-neta e uma sobrinha-bisneta. Tenho meu Kindle, uma quantidade de livros aguardando sua vez para serem lidos. Tenho meus esportes na TV, filmes e séries em streaming. Tenho minha cozinha onde me divirto quase todo dia. Tenho muitos recursos na vizinhança, incluindo o boteco onde pego minha feijoada de todos os sábados.

E agora criei este espaço onde coloco minha alma a nu. Agora que estou chegando ao fim, acho que tenho que voltar ao segundo parágrafo para lembrar porque escrevi este texto.

Escrito em 16/02/2022

MORREU SIDNEY POITIER

Essa notícia triste chegou no fim da manhã de hoje E com ela uma onda de sensações. Eu era fã, muito fã dele. O primeiro artista negro a receber o Oscar. Foi um pioneiro também na luta contra o racismo. Foi exemplo para tantos. Os três filmes que sempre estiveram em minhas recordações foram Ao Mestre com Carinho, Adivinhe Quem Vem Para Jantar e No Calor da Noite. Os três abordavam de forma distinta o preconceito racial. Para quem nunca assistiu vai aqui um micro resumo, sem spoiler. No primeiro ele é um professor negro que chega para dar aula numa escola de brancos problemáticos. No segundo, era namorado de uma moça branca que o convida para jantar em sua casa e apresentá-lo aos pais. No terceiro, para mim o melhor dos três, ele é um detetive que está na estação de trem de uma pequena cidade, aguardando a conexão. Nesse tempo acontece um crime na cidade e ele passa a ser suspeito, só por ser negro. Filmes imperdíveis!

Mas, como eu disse, a notícia me trouxe várias sensações. A primeira é que gosto de cinema desde a minha adolescência. Naquela época havia poucos bons cinemas no centro da cidade. Os melhores eram os de bairro. Mais ou menos perto de mim havia vários. O mais perto era o cine Climax, aonde mais eu ia, sempre que possível. Duas coisas me marcaram nesse cinema. A primeira foi reativa ao costume da época de exibir um noticiário antes de começar a sessão. Pois bem, apareci num desses noticiários. Foi assim. O jornal A Gazeta Esportiva (fundada por Cásper Líbero, idealizador da corrida de São Silvestre) organizou um torneio de futebol de salão (hoje conhecido como Futsal) e convidou o time onde eu jogava para representá-la. Eu era o goleiro e capitão. O noticiário falava sobre o torneio e fizeram uma filmagem da solenidade inaugural e, acredite, eu apareci puxando a fila do time da Gazeta… A segunda lembrança é de muito tempo depois. Eu já estava casado. Tinha dois filhos e morava na mesma calçada do Clímax. Ele tinha ficado fechado um tempo. Foi reformado e fizeram uma sessão inaugural convidando todos os vizinhos. Fui com a Heleninha, mas o filme mal começou e a plateia começou a vaiar e se levantar para embora. Eles estavam projetando um filme pornô, japonês, que seria indecente mesmo para os padrões atuais.

Mas, voltando aos cinemas de bairro. Na Av. Liberdade havia o Leblon. Muitos domingos meu tio Nelson levava a garotada para assistir aos festivais. Meus prediletos eram O Gordo e Magro, Tom & Jerry e Supermouse. Havia o cine Itapura, no Glicério. Os cines Lins e Riviera, na Av. Lins de Vasconcelos. Acho que tinha o cine Cruzeiro no Largo Ana Rosa. E tantos outros que as pessoas dessa época podem se lembrar.

Pois agora vem a outra sensação que me veio à mente. Os cinemas todos de bairro já enfrentavam uma certa decadência, que culminou, aos poucos em seu desaparecimento. Foi quando um exibidor começou a construir salas mais modernas. Era a rede Bruni. Fizeram o Cine Bruni Ópera, Rua José Getúlio. Inauguraram justamente com o filme No Calor da Noite. Logo fui assistir e fiquei encantado com as atuações do Sidney Poitier e do Rod Steiger. Pois aqui vai a ironia. Poucos dias depois o Cine Ópera, durante uma madrugada, foi destruído por um incêndio. Só ficou o anúncio do filme, na fachada que sobrou: No Calor da Noite… Nunca foi reconstruído.

 Escrito em 07/01/2022

MEIRE

Meire Belge D’Ávila. Esse era o nome inteiro dessa pernambucana arretada que foi minha colega de trabalho por muito tempo na ARMCO, meu primeiro emprego. Era de uma competência e assertividade inigualáveis, sem nunca perder a ternura. No início ela trabalhava no escritório da Rua Marconi, no centro de São Paulo; era o primeiro escritório da ARMCO em São Paulo, quando a sede da empresa era no Rio. Eu comecei na Vila Prudente na fábrica da COGERAL – Companhia Geral da Laminação – então recém-adquirida pela multinacional. Ela era responsável pelas viagens e transferências internacionais. Minha primeira lembrança dela foi quando fiz minha primeira viagem internacional de longa distância. Em 1976 fui participar de uma reunião na sede da empresa em Middletown, Ohio. Ela providenciou tudo: passagens, inclusive conexões, reserva de hotel, etc. E me colocou na 1ª classe de um DC10, da VARIG, então um avião moderníssimo, que estava começando a substituir os tradicionais Boeing 707. Mas o que mais me marcou foi a surpresa que a Meire me proporcionou na volta. Quando sai do desembarque encontrei a Heleninha com o Mauro, de poucos meses, no colo. E a Meire ao lado para dar apoio.

A segunda coisa que me vem à memória foi quando um diretor foi chamado para uma reunião no Escritório Central da ARMCO. Ele resolveu levar a esposa e emendar com as férias. Não sei por que, ele dispensou o serviço e resolveu tomar todas as providências sozinho. Para resumir, na hora do embarque a esposa não pode ir porque não tinha tirado o visto norte americano… Adivinha quem resolveu o problema e fez com que a esposa viajasse no dia seguinte? A Meire…

Mas a melhor vem agora. Chegou um americano para assumir a Gerência de Laminados. O Daniel (Dan) Carter. O Dan era uma pessoa muito sisuda e agressiva. O único sinal que ele dava de um certo calor humano era ir todo vestido de verde no dia de Saint Patrick. Já esposa, a Gretchen, era uma simpatia. Dava gosto participar das reuniões na casa deles. Ela chegou grávida do terceiro filho e resolveu fazer o parto no Brasil. Ficou encantada com a atenção recebida. Dizia que nos Estados Unidos não teria recebido um décimo da atenção que teve aqui. Ficou tão feliz que acabou tendo um quarto filho genuinamente brasileiro. Passaram-se alguns anos e chegou o momento da repatriação do Dan Carter. Eles resolveram embalar a maior parte da mudança e despachar com antecedência. O Dan foi antes e a Gretchen ficou com as crianças para as últimas providências. Até que chegou o dia do embarque e… os passaportes das crianças já tinham ido com a mudança. E, sem os passaportes, as crianças só poderiam embarcar com ambos os pais. Era um sábado… E Dan já estava nos Estados Unidos. Não lembro como, mas a Meire conseguiu que todos embarcassem com apenas dois de atraso.

Assim era a querida Meire. Há poucos dias recebi uma mensagem de alguém que não conheço, mas com certeza era um ex-funcionário da ARMCO, informando que a Meire tinha falecido. Então me vieram à mente tantas boas lembranças dela, além dessas que contei. Meire, que você tenha conseguido um ótimo lugar no céu.

Escrito em 22/01/2022