Um aviso inicial. Esta não é apenas uma rima.
São 8 da manhã e o metrô segue bem cheio em direção à Vila Madalena. Na situação de não ter paisagem nem companhia para olhar, meus olhos vagueiam pelos poucos espaços livres do trem. Noto, entre todas aquelas pessoas em pé, um movimento de agulhas de tricô. Tem alguém usando um desses bancos laterais, antigamente chamado “banco dos bobos”, e fazendo tricô em pleno metrô! Há uma faixa de tecido já tricotado de cerca de dez centímetros. É uma lã de um vermelho coral e meu primeiro pensamento é “eu gostaria de ter uma malha dessas ao meu lado…”. Depois penso que também gostaria de usar uma malha daquela cor. É muito bonita.
Uma pessoa salta na estação e eu já consigo ver as mãos que tricotam. No anular direito um anel de ouro, no anular esquerdo uma aliança. Mãos rechonchudas que me parecem pouco femininas. Imagino que tipo de mulher será essa tricoteira. Mais algumas pessoas descem na próxima estação e já é possível ver quem está tricotando. Ainda bem que eu estava sentado! Era um homem! Um tanto obeso, talvez na casa dos seus 55 anos, com um boné cheio de pins, cachecol enrolado no pescoço, ganchinho preso na lapela para guiar a linha. Tinha uma mochila no colo e ao lado uma sacola de onde a linha saia do novelo, dava a volta no pescoço e chegava aos dedos ágeis que não paravam de tricotar com habilidade.
Fiquei criando histórias. Ele não se parecia, nem tinha jeito, de ser um costureiro ou estilista. Poderia ser um artesão, mas também não tinha aquele ar de “bicho grilo” artesanal. Começou a me dar muita vontade de saber quem ele era, de fato. Enquanto eu procurava uma explicação interessante, já imaginando que seria um bom assunto para uma crônica, o trem finalmente chegou na estação terminal da Vila Madalena. Descemos e nós fomos nos aproximando juntos da escada rolante. De perto, tive certeza de que tratava-se de alguém muito especial. Pisamos juntos no mesmo degrau e não resisti:
– Desculpe a curiosidade. Estava observando você tricotar no metrô. Você é um artesão ou faz isso para se distrair?
Ele deu uma enorme e gostosa gargalhada e respondeu:
– Faço por que gosto. Tricoto desde os cinco anos. Aprendi com meu avô, que era pastor de ovelhas em Firenze e fazia tricô para preencher o tempo.
E, naturalmente sabendo dos preconceitos que essa sua atividade desperta, acrescentou:
– Dos meus filhos só um se interessou e também faz tricô. Já minha mulher não tem o menor interesse.
Ainda ousei perguntar:
– As pessoas devem achar um pouco estranho um homem fazer tricô, não é?
E ele, rindo novamente:
– Isso mesmo. Mas quando percebo, sempre digo “meu namorado não se importa”.
E caímos na gargalhada.
Sentamos lado a lado na van da Ponte ORCA, pois ambos íamos para a estação Cidade Universitária. A conversa não parou:
– Mas você vende seu trabalho ou é só para seu consumo?
– Eu faço pra mim. É como se fosse “tricoterapia”.
– Eu já havia falar disso. Um tio meu fazia tricô como terapia, depois que ficou muito doente.
– Há alguns anos meu cunhado sofreu um transplante cardíaco e eu o convenci a começar a fazer tricô. Ainda no hospital, na longa internação que esses casos requerem, levei todo o material e ele começou. Com isso ele evitou que sua mente se tornasse oficina do capeta. Os médicos ficaram impressionados com a velocidade da sua recuperação. A internação normal para transplantados é de cerca de noventa dias, mas ele só ficou quarenta e cinco. Hoje ele está aposentado e faz umas cinco toucas por dia, que vende por dez reais.
Aí ele resolveu contar um pouco sobre sua vida:
– Minha avó era de Pádua e meu avô, de Firenze. Os padovanos e os fiorentinos não se dão muito bem, pois ambos gostam de falar muito e a disputa é grande (risos). Já minha avó era quieta e meu avô fazia tricô bem sossegado. Ele era uma pessoa com aquele comportamento bem de pastor. Sem preconceitos, observando as coisas para tirar suas conclusões.
– Eu me lembro de um vizinho napolitano, que trabalhava com peles de animais, contando que ao chegarem ao Brasil, logo após a Segunda Guerra, ficou espantando de ver os negros. As filhas pensavam que fossem feitos de chocolate… mas não tinham preconceito.
– Minha mãe era filha de índio. Meu avô nunca criou qualquer problema por isso. Ele só dizia: “com tanta italiana, por que você foi escolher uma índia?” Mas gostava muito dela. Ele vinha sempre comer na minha casa, pois ela tinha aprendido a cozinhar as receitas da minha avó e as fazia melhor que as irmãs dele. Nós brasileiros é que temos muitos preconceitos. Uma vez, fui fazer um curso no Texas, tirei um documento aqui no Brasil onde me identifiquei como negro e o funcionário relutou muito em aceitar.
– Bem, mas você tem um tipo de italiano do sul, onde se nota a influência da África e da Grécia. Não parece ser negro.
– Mas é assim que eu gosto de me identificar.
Chegamos à estação da CPTM. Descemos à plataforma:
– Para que lado você vai? – Perguntei. – Da minha parte, vou para o Morumbi.
E aí, nova surpresa:
– Vou até o Jaguaré, para a UNIP. Sou “Braillista” e faço trabalhos lá.
– Você faz o quê? Compõe livros em Braille?
– Não. Eu traduzo livros para o Braille. Gosto muito de fazer isso.
E acrescentou rindo muito, com aquele porte de tenor italiano:
– Além do que ganho muito bem para isso…
O trem dele chegou e nos despedimos como se fossemos velhos conhecidos e nos veríamos logo mais à noite. Fiquei olhando enquanto o… o… entrava no trem. Nossa!, só agora me dei conta: nem sequer nos perguntamos os nomes. Mas eu acho que ele tinha cara de Leonardo.
Foi bom ter tricotado com você, Leonardo.
Escrito em 02 de junho de 2008
Publicado em 29/08/2021
Tricô no Metrô – O DESFECHO
No dia 4 de junho encontrei a figura novamente, na van para retornar da estação Cidade Universitária da CPTM para a estação Vila Madalena do Metrô. Foi uma grande coincidência? Talvez… Claro, a primeira coisa que fiz foi perguntar o nome dele. É… não era Leonardo. Ele me falou que se chama S.C. (vou abreviar para que ele não seja, eventualmente, identificado).
Brinquei com ele:
– Sabe que você virou personagem de uma crônica minha? Batizei-a de “Tricô no Metrô”.
Ele riu muito e me contou:
– Eu também gosto de escrever. Quando eu morava no interior, era proprietário de uma funerária. Estou escrevendo um livro de crônicas que estou chamando “Histórias da Funerária”.
E me contou uma dessas histórias durante o caminho. Um pouco antes de chegarmos ao fim do trajeto, trocamos os números de celulares. Pronto! Já sabíamos nossos nomes e os números dos nossos celulares. Afinal, nunca se sabe que outras coincidências fariam nossos caminhos se cruzarem outra vez. E não é que nos encontramos novamente? Uns 15 dias depois, tomamos novamente a mesma van em direção à Cidade Universitária. Ele estava tricotando uma malha linda, com umas tranças, do jeito que gosto:
– Que belo trabalho você está fazendo, S.! É pra você?
– Não, respondeu. É uma encomenda.
– Ah! E quanto você cobra para fazer uma para mim?
– A coisa funciona assim: você vai a uma loja de linhas, escolhe uma lã e pergunta quantos novelos são precisos para fazer uma malha para você, com trança, decote V, etc. Aí, você compra a mesma quantidade de novelos de uma lã qualquer e os dá para mim, em troca do meu trabalho.
– Que interessante. E poderia ser o mesmo modelo que essa que você está fazendo?
– Como você quiser.
– E como eu faço para te entregar as lãs?
– Quando você comprar as lãs, me liga e nós combinamos para nos encontrarmos numa estação do Metrô. Aí eu já tiro as suas medidas e levo as lãs.
– ‘Tá bem. Combinado. Te ligo.
Demorei umas duas semanas para comprar os oito mais oito novelos. Escolhi, para mim, uma linha muito especial, num verde-garrafa que eu há muito tinha vontade de ter uma malha. Liguei para marcar:
– Oi, S. Já estou com as lãs. Quando podemos nos encontrar?
– Hum, vejamos… Pode ser na quarta-feira da próxima semana, às 19h na estação Vila Madalena?
– Sim, podemos marcar. E onde nos encontramos?
– Descendo a escada rolante, em frente à bilheteria, ao lado das catracas.
– Tudo bem. Nos vemos lá.
No dia combinado, lá vou eu com os pacotes de lã no trem superlotado e na fila da Ponte Orca. Chego ao local, aguardo um pouco e logo chega o S. e começa a tomar minhas medidas. Era uma situação um tanto ridícula, com todo mundo passando e olhando para a cena inesperada. Para cúmulo do acaso, minha filha Camila passa por ali bem na hora. Explico o que está acontecendo e ela dá risada, mas logo vai embora pois estava atrasada.
– E agora, S.? Será que ainda vou usar essa malha neste inverno?
– Claro! Ainda não está fazendo muito frio, por sorte. Mas a malha deve ficar pronta dentro de uns 30 dias. Aí eu te ligo e eu combino para você experimentar. Se não tiver que fazer algum ajuste, você já fica com ela.
Saí dali sonhando com a minha maravilhosa malha verde-garrafa, com tranças. Depois de 40 dias, o sonho começou a se tornar um pesadelo. Em 60 dias, nenhuma notícia do S. Resolvi ligar e perguntar. Mas o número que eu tinha não atendia. Tentei inúmeras vezes, sem sucesso. Liguei até para a UNIP mas não consegui localizá-lo Aos poucos fui desanimando. Terminou o inverno, a primavera, o verão, e chegou o outono de 2009. A história, o prejuízo financeiro e a decepcção já estavam quase apagados da minha mente quando aconteceu novamente.
Eu estava num ônibus, no meio da manhã, indo pela Av. Paulista em direção à Rua da Consolação. Um trajeto e horário que não fazem parte da minha rotina. Estava um pouco frio para época. De repente sobe uma pessoa no ônibus e senta-se no banco à frente do meu. Fiquei em dívida, mas perguntei:
– S.?
Ele olho para mim, surpreso, e respondeu:
– Paulo! Como vai?
– Eu vou bem, e você? Sumiu! Tenho tentado falar com você, mas não consigo. Gostaria de saber sobre a malha.
Aí ele me desfiou um rosário de desgraças:
– Meu celular foi roubado e nem sequer tinha seu número em outro lugar para avisar. Depois, meus dois filhos morreram num acidente de carro. Eu fiquei muito mal e só recentemente retomei meu trabalho na UNIP. Parei até de fazer sua malha, pois não sabia como te achar. Mas agora vou retomar.
Ele me passou seu novo número de celular e prometeu uma prova da malha para dentro de 15 dias. Eu desci do ônibus e ele continuou. Passados os 15 dias, liguei, bem ressabiado:
– E aí, S.? Quando vou receber a minha malha?
– Olha, atrasei um pouco por que estou sobrecarregado de trabalho. Mas podemos marcar na próxima terça-feira, às 19h na estação Vila Mariana?
– Está bem. Nos encontramos lá.
Na terça, pela manhã liguei para confirmar:
– S., está confirmado para hoje?
– Olha, eu estava para te ligar. Eu até trouxe a malha comigo no trabalho e mostrei para os colegas, que a acharam linda. Mas, nisso eu percebi um pequeno defeito e preciso desmanchar uma parte da malha e refazer.
– Mas, se for um defeito muito pequeno você pode me entregar assim mesmo, retruquei bem desalentado.
– Nem pensei nisso! Não entregarei nada que não esteja perfeito.
Com suspiro, respondi:
– Então aguardo você me ligar para marcarmos a entrega.
Aguardei mais de um mês, a irritação aumentando. Comigo e com ele. Quem conhecia o caso me dizia que era tudo um golpe. Eu relutava em acreditar nisso, mas tudo indicava que era isso mesmo. Resolvi mandar um SMS:
– “S., alguma notícia da minha malha?”.
– “Tenha paciência, estou sobrecarregado de trabalho”.
– “Depois de tanto tempo minha paciência não dá mais para esperar por uma malha que já nem tenho certeza se existe mesmo”.
– “Se você não leva em consideração minhas desgraças, sinto muito”.
– “S., já cansei de tudo isso. O assunto agora fica, literalmente, em suas mãos. Aguardo notícias sobre malha”.
O inverno de 2010 já está às portas e não recebi mais qualquer notícia. Ainda fiz uma tentativa, enviando um SMS de Boas Festas no Natal de 2009 e ele respondeu simplesmente dizendo que estava viajando.
Sinto-me decepcionado e tenho que dar a mão à palmatória para quem me diz que fui vítima de um golpe. Sinto-me triste por isso. E sinto-me, acima de tudo, frustrado comigo mesmo por ter me deixado envolver por tanto numa história como essa. Fui assim a vida inteira, procurando acreditar nas pessoas e apostando na sua sinceridade. Sei que isso me prejudicou, pessoal e profissionalmente e estou lutando por mudar. Mas ainda, lá no fundinho do meu coração, sei que eu ficaria muito feliz e esqueceria tudo isso, e talvez até fizesse um epílogo feliz para essa história se meu celular tocasse e:
– Paulo, é o S. Encontre-me amanhã, às 19h, na estação Paulista. Vou te entregar a malha, finalmente. Ficou linda.
PS: Essa ligação nunca aconteceu.
Escrito em 25 /05/2010
Publicado em 29/08/2021

