TRICÔ NO METRÔ

Um aviso inicial. Esta não é apenas uma rima.

São 8 da manhã e o metrô segue bem cheio em direção à Vila Madalena. Na situação de não ter paisagem nem companhia para olhar, meus olhos vagueiam pelos poucos espaços livres do trem. Noto, entre todas aquelas pessoas em pé, um movimento de agulhas de tricô. Tem alguém usando um desses bancos laterais, antigamente chamado “banco dos bobos”, e fazendo tricô em pleno metrô! Há uma faixa de tecido já tricotado de cerca de dez centímetros. É uma lã de um vermelho coral e meu primeiro pensamento é “eu gostaria de ter uma malha dessas ao meu lado…”. Depois penso que também gostaria de usar uma malha daquela cor. É muito bonita.

Uma pessoa salta na estação e eu já consigo ver as mãos que tricotam. No anular direito um anel de ouro, no anular esquerdo uma aliança. Mãos rechonchudas que me parecem pouco femininas. Imagino que tipo de mulher será essa tricoteira. Mais algumas pessoas descem na próxima estação e já é possível ver quem está tricotando. Ainda bem que eu estava sentado! Era um homem! Um tanto obeso, talvez na casa dos seus 55 anos, com um boné cheio de pins, cachecol enrolado no pescoço, ganchinho preso na lapela para guiar a linha. Tinha uma mochila no colo e ao lado uma sacola de onde a linha saia do novelo, dava a volta no pescoço e chegava aos dedos ágeis que não paravam de tricotar com habilidade.

Fiquei criando histórias. Ele não se parecia, nem tinha jeito, de ser um costureiro ou estilista. Poderia ser um artesão, mas também não tinha aquele ar de “bicho grilo” artesanal. Começou a me dar muita vontade de saber quem ele era, de fato. Enquanto eu procurava uma explicação interessante, já imaginando que seria um bom assunto para uma crônica, o trem finalmente chegou na estação terminal da Vila Madalena. Descemos e nós fomos nos aproximando juntos da escada rolante. De perto, tive certeza de que tratava-se de alguém muito especial. Pisamos juntos no mesmo degrau e não resisti:

– Desculpe a curiosidade. Estava observando você tricotar no metrô. Você é um artesão ou faz isso para se distrair?

Ele deu uma enorme e gostosa gargalhada e respondeu:

– Faço por que gosto. Tricoto desde os cinco anos. Aprendi com meu avô, que era pastor de ovelhas em Firenze e fazia tricô para preencher o tempo.

E, naturalmente sabendo dos preconceitos que essa sua atividade desperta, acrescentou:

– Dos meus filhos só um se interessou e também faz tricô. Já minha mulher não tem o menor interesse.

Ainda ousei perguntar:

– As pessoas devem achar um pouco estranho um homem fazer tricô, não é?

E ele, rindo novamente:

– Isso mesmo. Mas quando percebo, sempre digo “meu namorado não se importa”.

E caímos na gargalhada.

Sentamos lado a lado na van da Ponte ORCA, pois ambos íamos para a estação Cidade Universitária. A conversa não parou:

– Mas você vende seu trabalho ou é só para seu consumo?

– Eu faço pra mim. É como se fosse “tricoterapia”.

– Eu já havia falar disso. Um tio meu fazia tricô como terapia, depois que ficou muito doente.

– Há alguns anos meu cunhado sofreu um transplante cardíaco e eu o convenci a começar a fazer tricô. Ainda no hospital, na longa internação que esses casos requerem, levei todo o material e ele começou. Com isso ele evitou que sua mente se tornasse oficina do capeta. Os médicos ficaram impressionados com a velocidade da sua recuperação. A internação normal para transplantados é de cerca de noventa dias, mas ele só ficou quarenta e cinco. Hoje ele está aposentado e faz umas cinco toucas por dia, que vende por dez reais.

Aí ele resolveu contar um pouco sobre sua vida:

– Minha avó era de Pádua e meu avô, de Firenze. Os padovanos e os fiorentinos não se dão muito bem, pois ambos gostam de falar muito e a disputa é grande (risos). Já minha avó era quieta e meu avô fazia tricô bem sossegado. Ele era uma pessoa com aquele comportamento bem de pastor. Sem preconceitos, observando as coisas para tirar suas conclusões.

– Eu me lembro de um vizinho napolitano, que trabalhava com peles de animais, contando que ao chegarem ao Brasil, logo após a Segunda Guerra, ficou espantando de ver os negros. As filhas pensavam que fossem feitos de chocolate… mas não tinham preconceito.

– Minha mãe era filha de índio. Meu avô nunca criou qualquer problema por isso. Ele só dizia: “com tanta italiana, por que você foi escolher uma índia?” Mas gostava muito dela. Ele vinha sempre comer na minha casa, pois ela tinha aprendido a cozinhar as receitas da minha avó e as fazia melhor que as irmãs dele. Nós brasileiros é que temos muitos preconceitos. Uma vez, fui fazer um curso no Texas, tirei um documento aqui no Brasil onde me identifiquei como negro e o funcionário relutou muito em aceitar.

– Bem, mas você tem um tipo de italiano do sul, onde se nota a influência da África e da Grécia. Não parece ser negro.

– Mas é assim que eu gosto de me identificar.

Chegamos à estação da CPTM. Descemos à plataforma:

– Para que lado você vai? – Perguntei. – Da minha parte, vou para o Morumbi.

E aí, nova surpresa:

– Vou até o Jaguaré, para a UNIP. Sou “Braillista” e faço trabalhos lá.

– Você faz o quê? Compõe livros em Braille?

– Não. Eu traduzo livros para o Braille. Gosto muito de fazer isso.

E acrescentou rindo muito, com aquele porte de tenor italiano:

– Além do que ganho muito bem para isso…

O trem dele chegou e nos despedimos como se fossemos velhos conhecidos e nos veríamos logo mais à noite. Fiquei olhando enquanto o… o… entrava no trem. Nossa!, só agora me dei conta: nem sequer nos perguntamos os nomes. Mas eu acho que ele tinha cara de Leonardo.

Foi bom ter tricotado com você, Leonardo.

Escrito em 02 de junho de 2008

Publicado em 29/08/2021

Tricô no Metrô – O DESFECHO

No dia 4 de junho encontrei a figura novamente, na van para retornar da estação Cidade Universitária da CPTM para a estação Vila Madalena do Metrô. Foi uma grande coincidência? Talvez… Claro, a primeira coisa que fiz foi perguntar o nome dele. É… não era Leonardo. Ele me falou que se chama S.C. (vou abreviar para que ele não seja, eventualmente, identificado).

Brinquei com ele:

– Sabe que você virou personagem de uma crônica minha? Batizei-a de “Tricô no Metrô”.

Ele riu muito e me contou:

– Eu também gosto de escrever. Quando eu morava no interior, era proprietário de uma funerária. Estou escrevendo um livro de crônicas que estou chamando “Histórias da Funerária”.

E me contou uma dessas histórias durante o caminho. Um pouco antes de chegarmos ao fim do trajeto, trocamos os números de celulares. Pronto! Já sabíamos nossos nomes e os números dos nossos celulares. Afinal, nunca se sabe que outras coincidências fariam nossos caminhos se cruzarem outra vez. E não é que nos encontramos novamente? Uns 15 dias depois, tomamos novamente a mesma van em direção à Cidade Universitária. Ele estava tricotando uma malha linda, com umas tranças, do jeito que gosto:

– Que belo trabalho você está fazendo, S.! É pra você?

– Não, respondeu. É uma encomenda.

– Ah! E quanto você cobra para fazer uma para mim?

– A coisa funciona assim: você vai a uma loja de linhas, escolhe uma lã e pergunta quantos novelos são precisos para fazer uma malha para você, com trança, decote V, etc. Aí, você compra a mesma quantidade de novelos de uma lã qualquer e os dá para mim, em troca do meu trabalho.

– Que interessante. E poderia ser o mesmo modelo que essa que você está fazendo?

– Como você quiser.

– E como eu faço para te entregar as lãs?

– Quando você comprar as lãs, me liga e nós combinamos para nos encontrarmos numa estação do Metrô. Aí eu já tiro as suas medidas e levo as lãs.

– ‘Tá bem. Combinado. Te ligo.

Demorei umas duas semanas para comprar os oito mais oito novelos. Escolhi, para mim, uma linha muito especial, num verde-garrafa que eu há muito tinha vontade de ter uma malha. Liguei para marcar:

– Oi, S. Já estou com as lãs. Quando podemos nos encontrar?

– Hum, vejamos… Pode ser na quarta-feira da próxima semana, às 19h na estação Vila Madalena?

– Sim, podemos marcar. E onde nos encontramos?

– Descendo a escada rolante, em frente à bilheteria, ao lado das catracas.

– Tudo bem. Nos vemos lá.

No dia combinado, lá vou eu com os pacotes de lã no trem superlotado e na fila da Ponte Orca. Chego ao local, aguardo um pouco e logo chega o S. e começa a tomar minhas medidas. Era uma situação um tanto ridícula, com todo mundo passando e olhando para a cena inesperada. Para cúmulo do acaso, minha filha Camila passa por ali bem na hora. Explico o que está acontecendo e ela dá risada, mas logo vai embora pois estava atrasada.

– E agora, S.? Será que ainda vou usar essa malha neste inverno?

– Claro! Ainda não está fazendo muito frio, por sorte. Mas a malha deve ficar pronta dentro de uns 30 dias. Aí eu te ligo e eu combino para você experimentar. Se não tiver que fazer algum ajuste, você já fica com ela.

Saí dali sonhando com a minha maravilhosa malha verde-garrafa, com tranças. Depois de 40 dias, o sonho começou a se tornar um pesadelo. Em 60 dias, nenhuma notícia do S. Resolvi ligar e perguntar. Mas o número que eu tinha não atendia. Tentei inúmeras vezes, sem sucesso. Liguei até para a UNIP mas não consegui localizá-lo Aos poucos fui desanimando. Terminou o inverno, a primavera, o verão, e chegou o outono de 2009. A história, o prejuízo financeiro e a decepcção já estavam quase apagados da minha mente quando aconteceu novamente.

Eu estava num ônibus, no meio da manhã, indo pela Av. Paulista em direção à Rua da Consolação. Um trajeto e horário que não fazem parte da minha rotina. Estava um pouco frio para época. De repente sobe uma pessoa no ônibus e senta-se no banco à frente do meu. Fiquei em dívida, mas perguntei:

– S.?

Ele olho para mim, surpreso, e respondeu:

– Paulo! Como vai?

– Eu vou bem, e você? Sumiu! Tenho tentado falar com você, mas não consigo. Gostaria de saber sobre a malha.

Aí ele me desfiou um rosário de desgraças:

– Meu celular foi roubado e nem sequer tinha seu número em outro lugar para avisar. Depois, meus dois filhos morreram num acidente de carro. Eu fiquei muito mal e só recentemente retomei meu trabalho na UNIP. Parei até de fazer sua malha, pois não sabia como te achar. Mas agora vou retomar.

Ele me passou seu novo número de celular e prometeu uma prova da malha para dentro de 15 dias. Eu desci do ônibus e ele continuou. Passados os 15 dias, liguei, bem ressabiado:

– E aí, S.? Quando vou receber a minha malha?

– Olha, atrasei um pouco por que estou sobrecarregado de trabalho. Mas podemos marcar na próxima terça-feira, às 19h na estação Vila Mariana?

– Está bem. Nos encontramos lá.

Na terça, pela manhã liguei para confirmar:

– S., está confirmado para hoje?

– Olha, eu estava para te ligar. Eu até trouxe a malha comigo no trabalho e mostrei para os colegas, que a acharam linda. Mas, nisso eu percebi um pequeno defeito e preciso desmanchar uma parte da malha e refazer.

– Mas, se for um defeito muito pequeno você pode me entregar assim mesmo, retruquei bem desalentado.

– Nem pensei nisso! Não entregarei nada que não esteja perfeito.

Com suspiro, respondi:

– Então aguardo você me ligar para marcarmos a entrega.

Aguardei mais de um mês, a irritação aumentando. Comigo e com ele. Quem conhecia o caso me dizia que era tudo um golpe. Eu relutava em acreditar nisso, mas tudo indicava que era isso mesmo.  Resolvi mandar um SMS:

– “S., alguma notícia da minha malha?”.

– “Tenha paciência, estou sobrecarregado de trabalho”.

– “Depois de tanto tempo minha paciência não dá mais para esperar por uma malha que já nem tenho certeza se existe mesmo”.

– “Se você não leva em consideração minhas desgraças, sinto muito”.

– “S., já cansei de tudo isso. O assunto agora fica, literalmente, em suas mãos. Aguardo notícias sobre malha”.

O inverno de 2010 já está às portas e não recebi mais qualquer notícia. Ainda fiz uma tentativa, enviando um SMS de Boas Festas no Natal de 2009 e ele respondeu simplesmente dizendo que estava viajando.

Sinto-me decepcionado e tenho que dar a mão à palmatória para quem me diz que fui vítima de um golpe. Sinto-me triste por isso. E sinto-me, acima de tudo, frustrado comigo mesmo por ter me deixado envolver por tanto numa história como essa. Fui assim a vida inteira, procurando acreditar nas pessoas e apostando na sua sinceridade. Sei que isso me prejudicou, pessoal e profissionalmente e estou lutando por mudar. Mas ainda, lá no fundinho do meu coração, sei que eu ficaria muito feliz e esqueceria tudo isso, e talvez até fizesse um epílogo feliz para essa história se meu celular tocasse e:

Paulo, é o S. Encontre-me amanhã, às 19h, na estação Paulista. Vou te entregar a malha, finalmente. Ficou linda.

PS: Essa ligação nunca aconteceu.

Escrito em 25 /05/2010

Publicado em 29/08/2021

DOCES TARDES DE DOMINGO

Entre 1965 e 1968 a antiga TV Record levou ao ar, nas tardes de domingo, o programa Jovem Guarda. Foi um desses tiros no escuro que acabam por matar o elefante. Criado às pressas para substituir o futebol, cuja transmissão havia sido proibida pela Federação Paulista de Futebol. Tornou-se a expressão de uma nova tendência da música e do comportamento dos jovens. Foram convidados para apresentar: Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Cely Campello. A Cely não aceitou porque tinha decidido casar e abandonar a carreira. Fiquei muito triste porque era “gamado” nela, como se dizia na época. Entrou a Vanderleia, apelidada de “Ternurinha”. Mas as doces lembranças vão muito além do programa. Foi uma época muito intensa da minha vida. Entre outras coisas, entrei no curso de Engenharia em 1966. Mas o que acontecia em torno do programa marcou a minha vida e a de muita gente.

Eu assistia ao programa na casa do tio Armando e da tia Eunice. Só há pouco tempo descobri que ele não era meu tio e, sim, primo do meu avô Bindo. Portanto meu primo de terceiro grau. Eles tinham três filhas que, afinal eram minhas primas mesmo. Maria Inês, Maria Lucia e Maria Cecília, por ordem de nascimento. Não recordo como nem porque passamos a assistir a Jovem Guarda na casa da tia Eunice. Íamos eu, meu primo Nelson, meu quase primo Carlos Antonio e um agregado da turma, o José Antonio. Sentávamos distribuídos entre o sofá e o chão. Tio Armando numa poltrona e a tia Eunice na outra. Ela participava ativamente da plateia e ele ficava alheio, lendo o Estadão. Nos intervalos do programa invariavelmente a Tia Eunice servia um cafezinho na copa, muitas das vezes acompanhado por um bolo. Durante os três anos de vida do programa era essa a rotina de todos. Geralmente depois do programa ficávamos até a noite, jogando jogos de carta. Uma vez a Maria Inês estava se preparando para fazer um programa de intercâmbio nos Estados Unidos e a tia Eunice foi com ela ao Juizado de Menores para autorizar a viagem. Na volta ela falou para prestarmos atenção no próximo programa porque elas encontraram, no juizado, uma senhora autorizando a filha, menor, a se apresentar. O nome dela era Silvinha. Quem é da época há de se lembrar que a Silvinha fez sucesso e acabou se casando com o Eduardo Araújo, outro cantor da Jovem Guarda. Dessa convivência só resultou um namoro. Do Nelson com a Maria Lucia e acabaram se casando mais tarde, quando ele já estava em Portugal fazendo curso de Engenharia. Maria Inês, por causa do intercâmbio, conheceu um rapaz e começaram a namorar. Estive com ele algumas vezes na casa do tio Armando, jantando e “fazendo sala”. Depois de um tempo ele ganhou uma bolsa em Harvard e propôs a ela que se casassem e fossem juntos. Ela não aceitou e ele foi sozinho. Quando voltou ele se tornou um dos principais jornalistas de Economia. Encontrei com ele algumas vezes e sempre nos tratávamos como se fossemos primos…

Um parágrafo especial para o tio Armando. Ele foi muito especial na minha vida. Era um homem com formação diferenciada para a época. Formado em Direito e Economia. De uma sabedoria e pragmatismo invejáveis. Pela casa em que moravam e a escola em que as meninas estudavam, diria que era da classe média alta. Mas nunca teve carro e ia trabalhar de ônibus. Nunca soube onde ele trabalhava. Ele não falava. A única coisa que me contou, ao falar sobre a vaidade, foi que redigiu todos os discursos de um deputado na Constituinte de 1946. Depois de promulgada a Constituição, esse deputado, que ele se recusou a dizer o nome, lhe enviou um livro com o título “Discursos proferidos pelo Deputado xxx durante a Constituinte de 1946”. O Deputado teve o desplante de escrever uma dedicatória para ele sem sequer mencionar a autoria dos discursos. Como eu disse, ele era sábio. Na época mais quente da guerra fria, um dia ele me disse: “Você só pode escolher se vai ser jantado com molho russo ou molho americano”. E quando eu estava prestes a me formar, um dia ele me deu conselho que me arrependo de não ter seguido: “Entre no Rotary ou no Lions, ou algo assim. Porque para falar mal de você qualquer um fala. Mas para falar bem tem que ser você mesmo”. Voltando as tardes de domingo. Naquela época não era raro ficarmos sem energia elétrica. Quando isso acontecia na hora do programa, ele dobrava o jornal e dizia que era o melhor que podia acontecer, pois agora podíamos conversar. E conversava com aqueles jovens sobre o que lera no jornal. Tenho certeza que todos bebíamos da sua erudição.

Que saudade das doces tardes de domingo…

Escrito em 24/08/2021

WAN-WAN E O MAL ENTENDIDO

Ele mal podia esperar que os ponteiros do relógio formassem uma reta indicando as 6 da tarde. Era sexta-feira e ele havia aprendido rapidinho como são as happy hours das sextas-feiras em São Paulo. Desde que chegara, já há seis meses, do Rio Grande do Norte para estudar medicina na UNIFESP, ele aprendera a esperar e valorizar esse momento. Já saia de manhã do apartamento-república na R. Dr. Bacelar pronto para só voltar para lá na madrugado do sábado. Logo se enturmou com outros “estudantes-migrantes”, especialmente os do Norte/Nordeste que se apoiavam muito na ambientação à essa cidade que tanto acolhe como ameaça. O lugar que ele mais gostava de frequentar era o Genuíno, em frente à ESPM, na Vila Mariana. Ali ele passava horas conversando, comendo batata frita e tomando chopp. Enrolando até que a batata ficasse murcha e o chopp, choco. Era preciso esticar a grana, que vinha – contadissima – de Caicó. Valia a pena, pois o papo era imperdível e a turma muito alegre. Mas, nesse dia ia ser diferente. A “comunidade potiguar” ia se reunir no Genial, da Vila Madalena. Ele achou interessante variar de Mariana para Madalena e conhecer mais novos amigos e amigas.

Quando chegaram a conversa e o chopp já corriam soltos. Começaram as apresentações e ele não aguentava esperar a vez de se apresentar àquela loirinha miúda, sentada do outro lado da mesa e com a única cadeira vazia ao seu lado. Finalmente chegou a hora. Ela estendeu a mão e falou:

– Prazer. Meu nome é Wanderlise, mas os amigos me chamam de Wan.

Ele ficou indeciso. Tão indeciso que nem percebeu que a conversa parou e todos olhavam para eles. Com medo que pensasse que estava brincando, se apresentou:

– O prazer é meu… É… quer dizer… desculpe… isto é… meu nome é Wanderlei, mas os amigos me chamam de Wan…

Foi uma gargalhada geral. A turma já esperava por esse momento, pois, conhecendo os dois, sabiam que isso ia acontecer. Eles ficaram se olhando meio constrangidos enquanto as risadas iam arrefecendo. Olharam-se detida e profundamente e uma centelha invisível percorreu o éter entre os dois olhos. Ele logo se recuperou e tomou a iniciativa:

– Estudo Medicina na UNIFESP. Mora na Vila Mariana, desde que cheguei de Caicó há seis meses.

Aquela centelha não lhes permitiu perceber que a conversa estava suspensa outra vez. Agora foi a vez de ela hesitar:

– Faço Arquitetura na FAU. Moro aqui mesmo na Vila Madalena há um ano, desde que cheguei… bem… de… Caicó…

Nova explosão de risadas brindou a formação, planejada, do casal Wan-Wan. Além das coincidências de nome e origem, logo eles foram descobrindo uma longa série de interesses comuns. Passaram a se encontrar para, juntos, explorar tudo que a cidade lhes proporcionava em termos de cultura, lazer e diversão. Era um tal de passear nos parques: Ibirapuera, Aclimação, Burle Marx, Villa Lobos, Jardim da Luz e até na USP. Iam ao cinema, teatro, exposições, shows, museus. Carne de sol (“importada” de Caicó, a melhor que existe) com forró no Andrade, leitão pururuca, pizza no Castelões, cantinas na 13 de Maio. Tudo eles fizeram juntos durante os meses seguintes. Até que a Wan tomou uma decisão muito séria.

Ela morava sozinha, recatadíssima e solteiríssima, num pequeno apartamento na Vila Madalena. Desde que chegara a São Paulo vinha se protegendo da cidade que ameaça. Em seu apê só entrava homem que fosse para consertar alguma coisa e seu irmão, quando a vinha visitar. Era invicta de outras visitas masculinas. Mas achou que já era tempo de convidar o Wan para conhecer seu pedaço. Estava segura de que seu conterrâneo ia saber se comportar. Afinal, nesses meses em que haviam convivido ele nunca havia ultrapassado os limites invisíveis e desconhecidos que ela se havia proposto. Um dia, enquanto aguardavam para assistir ao filme “O segredo dos seus olhos”, ela tomou coragem e falou:

– Wan, você gostaria de jantar no meu apartamento no próximo sábado?

Pronto! Os dados haviam sido lançados. Ele, sem pensar duas vezes, aceitou:

– Wan, vai ser ótimo! Obrigado pelo convite. Qual seu endereço? E a que horas devo chegar?

Ela deu as informações, o filme começou e o coração deles já batia mais forte. O filme terminou, era domingo à noite e cada um foi para seu lado, depois de um beijo já bem menos formal que até então. Mas a semana foi de preparativos e expectativas. Wan resolveu caprichar no seu gosto pela cozinha e preparar um risoto de carne de sol na moranga, regado a manteiga de garrafa. Como sobremesa, queijo de coalho frito acompanhado de mel de engenho. Iam matar muita saudade do Rio Grande de Norte. Wan, até comprou uma roupa nova para impressionar a moça.

Já eram as 20 horas do sábado, o jantar estava praticamente pronto, mas nada do Wan. Logo o telefone dela tocou:

– Wan, sou eu, o Wan. Desculpe, estou um pouco atrasado, mas me perdi. Você pode ajudar?

– Ora, não se preocupe. A Vila Madalena é assim mesmo. É muito fácil se perder. Diga-me onde você está e eu te digo como chegar.

– Ah, sim… Estou aqui na Rua Ar…

Ele nem bem acabou de falar o nome da rua onde estava e ela desligou o telefone, furiosa. Wan tentou bastante tempo falar com ela, mas o telefone simplesmente não respondia. Ele não conseguia imaginar o que acontecera, até que percebeu que o problema fora com o nome da rua. Ele só conseguiu em falar com ela novamente depois de 15 dias, quando os amigos conseguiram mostrar a ela a foto que o Wan tirou da placa da rua onde estava quando ligou para ela no sábado à noite. Hoje eles riem muito cada vez que ele mostra a ela a foto armazenada no celular:

App5c Zoran

Escrito em 14/04/2010

Publicado em 21/08/2021

PINGO D’ÁGUA

UMA REFLEXÃO

São 8 da noite na Av. Paulista. Uma chuva forte, de verão, me surpreende quando começo a voltar para casa. Dou-me o direito de, simplesmente, aceitar essa chuva, sentar-me na mureta do prédio em que estava e esperar que a chuva passe. Sinto-me estranhamente envolvido com o que se passa em torno de mim enquanto espero. A chuva continua caindo forte. Os carros continuam seu caminho pela rua molhada. As pessoas continuam passando pela calçada, tentando a impossível tarefa de não se molharem. Algumas param alguns segundos, indecisas, mas decidem continuar seu caminho. Eu me sinto bem comigo mesmo por ter escolhido esperar e ficar observando a cena. Começo a prestar atenção na chuva. São pingos d’água que batem com força no chão, formando pequenos e artísticos chafarizes. Cada pingo forma seu chafariz, mas todos os pingos e seus chafarizes é que fazem com que a chuva seja chuva e molhe o chão, os carros, os prédios e as pessoas. Um pingo sozinho passaria despercebido, não formaria seu micro chafariz e teria um efeito quase nulo e apenas instantâneo; não faria a chuva que molha. Fico pensando que os carros também têm a sina do pingo d’água. Um carro sozinho não é trânsito; não precisa de ruas largas, nem regras de trânsito. A existência de um único carro tem quase nenhum efeito sobre a cidade. Mas é necessário todos os carros da cidade para fazer o trânsito caótico, justificar toda a infraestrutura viária e tanta atividade econômica relacionada. As pessoas que seguem seu caminho, no meio dos carros e sob a chuva, têm muito de pingo d’água. É preciso que duas pessoas se juntem para fazer uma dupla ou um par, são precisas muitas pessoas para fazer um grupo, são precisas centenas para fazer uma multidão e milhares para fazer uma população. A cidade precisa de todas as pessoas que nela vivem para que possa ser uma cidade; com seus problemas e suas conveniências. As pessoas são como pingos d’água: duplas ou pares, grupos ou multidões, toda a população, só existem por que as pessoas existem. Mas as pessoas têm uma grande diferença dos pingos d’água. Elas existem e são importantes na sua individualidade. Elas podem escolher se existem sozinhas ou junto com outras. Mesmo sozinhas elas podem fazer com que seus chafarizes tenham algum impacto sobre outras pessoas. Ao contrário dos pingos de chuva, as pessoas são importantes pelo que são e não por estarem incluídas num conjunto ou num contexto.

Escrito em 16/03/2008

Publicado em 19/08/2021

O QUE O DINHEIRO NÃO COMPRA

Carla chegou com seu carrão importado, zerinho, para ir à cabeleireira. Num relance viu uma excelente vaga, numa rua com raros lugares para estacionar. Além de tudo, praticamente em frente ao salão da Joana. Não pensou duas vezes. Parou ali mesmo. Nem sequer reparou que o lugar estava disponível porque, de fato, não era uma vaga. Era o início do acesso dos carros que buscavam ou deixavam os alunos na Escola Viva, da Vila Olímpia.

Não tardou para que confusão se instaurasse. Os carros que iam entrar na área de embarque e desembarque tinham que desviar daquele veículo estacionado irregularmente. Logo estava formada uma fila dupla, o congestionamento cresceu e com ele o barulho das buzinas e a irritação dos motoristas. Um marronzinho aproximou-se para ver o que estava acontecendo. Foi informado por um segurança do colégio que a motorista daquele estorvo havia entrado no salão da Joana. Tentando evitar maiores confusões, o marronzinho tocou a campainha do salão e mandou chamar a proprietária do veículo. Quando Carla chegou à porta, com o cabelo já preparado para receber a tintura, ele disse:

– A senhora pode, por favor, retirar seu carro? Ali é proibido parar e está atrapalhando o trânsito.

– Olha aqui, seu guardinha – respondeu Carla – eu não posso parar meu tingimento de cabelo por causa de meia dúzia de mães histéricas.

– Mas, senhora, vou ter que multá-la e talvez até solicitar guinchamento do seu veículo!

Carla deu de ombros, mostrando não estar nem um pouco preocupada com o problema que estava causando. Um aglomerado de passantes e alunos começou a gritar:

– Multa! Multa!

O marronzinho não teve alternativa a não ser puxar seu bloco de multas e começar a autuar a motorista. Carla, que ainda estava à porta do salão da Joana, gritou para o agente de trânsito, no outro lado da rua:

– Pode multar. Multa mesmo. É a sua obrigação. Não me importo. Eu tenho dinheiro para pagar quantas multas eu levar. E se o carro for guinchado, peço ao meu motorista trazer outro. Dinheiro não é o meu problema…

Debaixo dos olhares indignados de todos, Carla simplesmente voltou para dentro do salão e continuo a reforçar a cor de seus cabelos. Mas… alguém olhara tudo aquilo com olhar muito diferente daquela pequena multidão que estava se dispersando.

Passada cerca de uma hora, quando toda agitação já havia se encerrado e os portões do colégio já estavam fechados, Carla saiu do salão para ir embora. A rua estava deserta e apenas seu carro continuava ali, estacionado no local proibido. Enfiou a chave e abriu a porta. Foi quando sentiu algo muito duro comprimindo suas costelas e uma voz de homem, vinda de trás, dizendo com muita firmeza:

– Calma, não grite. Não faça nenhum movimento rápido. Sente no carro com cuidado e ponha as duas mãos sobre o volante. Não se mexa, se não quiser levar um tiro agora mesmo.

Então ela o viu. Era um homem de seus trinta anos, branco, alto e musculoso. Nenhuma característica que o destacasse no meio de um grupo de pessoas. Ele tirou a chave que ainda estava na porta e deu a volta no carro, sem deixar um segundo de apontar o revolver para sua cabeça. Sentou-se ao seu lado, passou-lhe a chave e mandou:

– Dirija com cuidado. Não chame a atenção de ninguém. Vá pela marginal Pinheiros e depois pela marginal Tietê até que eu dê alguma outra ordem.

Colocou o revólver no colo e pegou a bolsa dela para escondê-lo. Começou a mexer na bolsa. Encontrou as fotos do filho, da filha e do marido. Um bilhete do colégio das crianças, convidando para a festa do dia das mães. Uma conta de telefone. Uma carteirinha da assistência médica, da empresa do seu marido. Foi separando essas coisas todas e enfiando no bolso do seu casaco.

– Agora entre na Via Anhanguera e saia no trevo para o Horto Florestal.

Depois de alguns minutos, mandou que ela entrasse numa estreita picada e ordenou que parasse o carro. Carla estava absolutamente aterrada, com medo de ser morta. Como que adivinhando seus pensamentos, o homem lhe disse:

– Não tenha medo, não vou matá-la. Vou fazer algo melhor. Algo que eu não conseguiria, mesmo que eu tivesse tanto dinheiro como a senhora. Passe para o banco de trás e tire toda a roupa.

Terminado o estupro, o homem empurrou-a para fora do carro, jogou-lhe a bolsa com o resto do que tinha dentro e disse:

– Vou levar só seu carro. Mas não me denuncie. Não se esqueça que eu tenho no meu bolso coisas que seu dinheiro não compra. Você tem dois lindos filhos, que estudam num bom colégio e um marido rico com quem mora numa casa de um bairro de gente milionária. Cuidado para não perder alguma dessas coisas…

Escrito em 26/058/2008

Publicado em 18/08/2021

VENCENDO O MEDO

Nos últimos anos estou tendo que aprender algumas lições difíceis, mas, como vou contar mais para frente, estou tendo a oportunidade de crescer com essas lições. Há duas coisas que sempre me deram prazer. A comida e a caminhada.

Sempre fui tido como “um bom garfo”, como se dizia antigamente. Comia de tudo e bastante (até abobrinha aprendi a comer…). Cheguei a pesar pouco menos de 90 kg. Pois por aí veio a primeira lição. Em 2016 tive retirar o esôfago, devido a um início de câncer. O esôfago foi reconstruído com uma parte do estômago. Foi como se tivesse feito cirurgia bariátrica. A recuperação foi longa e sofrida. Primeiro, alimentação por sonda; depois só líquidos. Já em casa passei para alimentação pastosa e, enfim, alimentos sólidos em pequenos pedaços e em pouca quantidade de cada vez. Tudo que eu comia me deixava “cheio”. Ficava também “cheio” de humor. Não tinha vontade de comer para não me sentir mal. A Viviane me incentivava e eu comia porque senão poderia adquirir alguma doença. Emagreci 26 kg. Fiz de tudo para recuperar uma parte do peso, mesmo tomando tudo quanto era suplemento nutricional, sob orientação da nutricionista do próprio hospital. Foram mais de 5 anos para recuperar uma certa normalidade na alimentação. Hoje como de tudo, incluindo feijoada e churrasco. Sempre respeitando os limites de quantidade para não me pesar na digestão. Comecei a fazer acompanhamento com uma nutricionista que me colocou em dieta de 2000 cal por dia e tomando suplementos hipercalóricos usados por atletas. Desde o começo do ano já recuperei 6 kg. Primeira lição, primeira vitória.

Caminhar era outra coisa que me dava muito prazer. Andar, além dos efeitos sobre a saúde, eram momentos inspiradores. Construí muitos textos durante minhas caminhadas. Me desestressei para enfrentar reuniões e decisões difíceis. Andava muito e rápido. Em Santos, caminhava do canal 6 (Praia de Aparecida) até a ilha de Urubuqueçaba, já em São Vicente. Era uma caminhada de 2 horas, ida volta, chovesse ou fizesse sol. Na volta me dava o prêmio de uma caipirinha e um pastel. Quando morava com minha irmã Maria Rita, numa travessa da Av. Pompéia, quase esquina com a Heitor Penteado, fui vários domingos, à pé, almoçar no SESC Vila Mariana. Era uma forma de preencher meu tempo de solidão dos fins de semana. Quando casei com a Viviane, andava no Estádio do Pacaembu. A volta completa, por trás da piscina, era de mais um menos 800 m e eu dava 10 voltas em pouco mais de uma hora. Até que um dia, em 2018, voltando de uma dessas caminhadas, ao atravessar a rua, já em frente da casa, tropecei na calçada e cai de lado sobre o quadril. Para resumir, tive uma trinca no colo do fêmur e tive que colocar três pinos. Mais uma recuperação difícil. Quase sei meses andando com andador e sendo ajudado, outra vez, por cuidadoras. O banho era complicadíssimo e eu cheguei a pensar em tomar banho só dia sim, dia não. Depois de deixar o andador e fazer 30 sessões de fisioterapia voltei quase ao normal. Mas fiquei com medo de cair novamente. A Viviane já estava bem doente e não conseguia me acompanhar na caminhada que sempre se encerrava com café e pão de queijo. E eu tinha medo de ir sozinho. No dia da missa de sétimo dia da Viviane cai, em casa, sobre o joelho esquerdo e quebrei a patela. Isso alterou meus planos de mudar para Sorocaba e fiquei quase três meses na casa do Edgar, com a perna imobilizada por mais dois meses e mais 30 sessões de fisioterapia. Recentemente, já morando em Perdizes, saí para comprar um presente de aniversário para meu neto Pietro. Me desequilibrei na porta da loja, bati o supercílio no chão e levei 5 pontos. Com tudo isso desenvolvi muito medo de ir sozinho para a rua. Essa lição ainda estou aprendendo.

Então cumpro minha promessa lá do início do texto. No início da década de 1980 os chamados micro computadores, hoje evoluídos para PC’s, começaram a entrar nas nossas vidas. Recém saído da área de TI, percebi que era necessário aprender essa nova tecnologia. Comprei um desses de uma marca desconhecida, porque os da IBM eram muito caros. A marca, muito estranha, era APPLE… Basicamente era uma caixa com um teclado na frente e um pequeno monitor em cima, que podia mostrar as letras na cor âmbar ou verde. Não dava para fazer muita coisa, mas serviu de aprendizado. Nesse computador meus filhos deram os primeiros passos na nova tecnologia, que o Colégio São Luiz começava a usar. Uma das poucas coisas interessantes eram os joguinhos (predecessores jurássicos dos games de hoje). Tinha jogo de estratégia, de administração de reino e treinamento da habilidade dos dedos. Um que eu gostava de jogar era O Castelo do Dragão (minha tradução livre, porque não tinha nada em português). A gente se via numa sala com algum tipo de monstro e várias portas. Para abrir uma das portas, que daria acesso a outra sala com outro monstro, tinha que escolher entre “lutar” ou “fugir”. Com o tempo entendi que, para vencer, tinha escolher “lutar”. A alternativa sempre levava a uma derrota. “Lutar” poderia levar ou não à vitória; dependia das próximas etapas. O que aprendi? Se você não lutar, sempre perderá. Por isso resolvi lutar contra o medo de caminhar. Vai ser uma luta difícil, talvez longa. Mas aqui estou eu, né?

Escrito em 17/08/2021

ZELÃO

Acho que eu nunca soube se verdadeiro nome. Mas Zelão lhe caia muito bem. Era magro, mas não esquelético. Alto, para os padrões da época. Cabelos negros, encaracolados, pela morena como bom nordestino. Usava um macacão para dois Zelões. E empurrava um carrinho da marca Zeloso. Penso até que o apelido ele tenha herdado de seu equipamento de trabalho. Durante oito horas por dia, quando não eram necessárias algumas raras horas extras, ele trafegava com o Zeloso entre os fornos de têmpera que descarregavam um calor insuportável no ambiente. Todo mundo suava, menos Zelão. Parece que ele havia achado alguma forma de não sentir aquele calor de amolecer até o aço. De parada em parada, uma conversa aqui, uma piada ali, transportava incansavelmente pesados rolos de fitas de aço. De um forno para outro, do forno para o estoque, do estoque para a expedição. Um elo despercebido, mas indispensável para a continuidade do trabalho de todos. Nunca se queixava, nem rejeitava serviço, nem enrolava nas suas tarefas.

Conheci Zelão no começo do fim de uma época da vida no trabalho. Os trabalhadores pagavam o transporte com seu próprio salário. E quando o salário acabava, andavam longos trechos à pé, de casa para a fábrica e da fábrica para casa. Equipamentos de segurança eram olhados com desconfiança e o seu uso poderia significar uma suspeita quanto à masculinidade. E a comida do almoço vinha de casa, numa marmita que era colocada para esquentar no marmiteiro. E o almoço, num amplo refeitório, era abrir essa marmita e comer dentro dela mesmo. Muito arroz, feijão e alguma “mistura”, que nunca era muita e ia diminuindo dia a dia, até desaparecer nos últimos dias do mês. Pois o que me marcou Zelão na lembrança foi uma drástica mudança nessa forma de alimentação. A empresa, entrando nos padrões de uma multinacional, construiu um… restaurante! Uma enorme cozinha preparava comida de boa qualidade e quantidade. Quantas histórias curiosas esse restaurante cozinhou. Mas a primeira foi já no primeiro dia.

Tudo era tão novo. A curiosidade era grande. Coube à turma do Zelão, pela escala de trabalho, inaugurar essa baita novidade. Passados os trinta a quarenta minutos “regulamentares”, Zelão foi o primeiro a voltar para a seção. Com uma cara desconfiada, entrou, pegou o Zeloso e já foi se preparando para o segundo tempo. Os colegas, babando de curiosidade, não suportaram o silêncio e perguntaram:

– E aí, Zelão, como foi esse almoço?

Ele tentou se safar, mas a insistência foi maior que sua resistência.

– Sei não. Não gosto dessas coisas muito chiques.

– Mas conta homem! Do que você não gostou?

– Foi dessa história e comer arroz e feijão com frutas…

– Será que você não comeu a sobremesa antes da hora?

– Foi não. ‘Tava lá escrito: “ Hoje: arroz, feijão, bife, ovo frito e salada de frutas”!

Escrito em 14/02/2008

Publicado em 14/08/2021

MENINAS DE RUA TAMBÉM SÃO CRIANÇAS

Ontem, ao chegar a casa, encontrei meus quatro sobrinhos-netos. As gêmeas Victória e Geórgia e os irmãos Rodrigo e André, netos da Maria Rita. Crianças são crianças – só mudam de endereço?… – e logo uma das meninas estava chorando, abraçada ao pai, porque o primo havia brigado com ela. Era aquele choro típico, sem lágrimas que impeçam ver quem está prestando atenção, sem os soluços de quem está realmente sofrendo e que pais e mães rapidamente percebem ser pura manha. Não entendi bem qual foi o motivo da briga. O fato é que, em poucos minutos, qualquer que tenha sido a causa da briga, ele foi esquecido. E lá estavam todos eles juntos novamente para perpetrar a próxima traquinagem. Por alguma razão o som e o tom daquele choramingo ficou na minha memória mais tempo que o natural. Talvez eu estivesse lembrando do tempo em que eram meus filhos a fazer manha. Ou me ocorresse que manha bem pudesse ser falta de alguma coisa realmente séria afetando uma criança. Seria manha um comportamento de criança mimada?

A cena corta para hoje, festa do aniversário da cidade de São Paulo, no Vale do Anhangabaú. Desde cedo, o público – e eu como parte dele – foi chegando para assistir às muitas atrações programadas. A região é bem conhecida por “abrigar” uma grande população de moradores de rua. E no caminho, do metrô São Bento até o local da festa, pude passar por vários deles. E, claro, havia muitas crianças entre eles. Algo que sempre me incomoda, ver essas crianças com tão poucas esperanças. Tão cedo já expostas à dura realidade da luta pela sobrevivência, driblando a violência, batendo de frente com as drogas, escondendo-se dos preconceitos. Com poucas chances de escapar dessa armadilha que a vida lhes preparou. Pressionadas por ambiente tão hostil, desde cedo desenvolvem um comportamento adulto e abandonam rapidamente a inocência e as ilusões da infância. Passam a maior parte do tempo tentando acomodar comportamentos adultos em seus corpos ainda sendo formados.

Um pouco mais tarde, quando esses pensamentos já haviam caído no esquecimento, as apresentações iam a todo vapor. De repente, começo a ouvir um choro sentido. Com aquele mesmo tom e o som de manha que eu ouvira na véspera. Que só as crianças (mimadas, como pensei) sabem como chorar. Era o mesmo choramingo de véspera, que ainda estava fresco nos meus ouvidos. E era um choro de menina. Quando vi a menina que chorava senti quase que como um choque. Ela deveria ter uns 10 a 12 anos. Apoiava-se no ombro de um amiguinho, no meio de uma tropa de outras crianças que procuravam consolá-la. Um deles repetia: “mas eu não fiz nada…”. Eram todas crianças de rua. A menina que chorava era uma menina de rua! Elegantemente maltrapilha, ostentando uma flor pintada na bochecha, como tantas outras que participavam da festa. Ela chorava um choro de criança magoada. Igual àquele choro que eu ouvira ontem. Magoada, não com a vida, mas com algo que seu amiguinho fizera.

Então esse tipo de choro não era só de criança mimada? E como explicar esta menina sem teto chorando igualzinho à outra cheia de aconchego? Fiquei aturdido com a conclusão que comecei a tirar da situação. E na minha mente apareceu um fio de luz, como se um farol lampejasse na escuridão de uma tempestade. Como se fosse uma centelha disponível para acender sonhos quase impossíveis. Afinal, no meio da cruel realidade da sua vida, meninas de rua também choram por manha, como qualquer criança…!

25/01/2008

rev 16/07/2008

Publicado em 10/08/2021

O MATUTO DO TEMPO

O Diretor do filme, sobre a saga dos garimpeiros de diamante no interior de Minas, começava a se espreguiçar quando, de repente, seus olhos se abriram forçados pela intensa claridade que invadia o quarto pela veneziana. Ele pulou da cama ansiosamente, naquele hotelzinho tipicamente simples e honesto de interior. Abriu a janela escancaradamente e deu de cara com um céu azul como há muito não via. O sol já ia aquecendo com rapidez e um dia maravilhoso se prenunciava. Ainda de pijama e antes de qualquer visita ao banheiro, saiu pelos corredores batendo nas portas de todos os quartos e gritando:

– Levanta pessoal! Vamos ter o dia que temos pedido a Deus! Vamos rápido para a locação das cenas. São Pedro vai ser nosso iluminador. Vamos, vamos, cambada de dorminhocos. Todos em pé. Engulam o café e vamos.

Ninguém se queixou de acordar desse jeito, pois o que todos mais queriam era terminar logo com as filmagens naquela estradinha de terra nos arredores de Coromandel e voltar logo para um lugar onde houvesse mais agitação, vida noturna, etc., etc. Em menos de meia hora, aquele grupo estranhíssimo para os moradores da cidadezinha estava a caminho do local escolhido. Um comboio de carros, caminhão, vans, SUV’s e motos, carregados de pessoas, roupas, equipamentos, comida, guardas-sol estava a caminho, com um imenso alarido que fazia a população se divertir imensamente.

Chegando ao local da gravação começou uma quase guerra entre os operadores dos equipamentos, a maquiagem, as caracterizações, os chiliques dos astros, as reclamações dos coadjuvantes, os ataques histéricos de figurinistas, cabeleireiros e maquiadores, a pressão do diretor, do contrar-regra, do continuista, e toda a fauna envolvida na produção de um filme.

No auge desse caos, aproxima-se lentamente um habitante da região, encarapitado no seu pangaré, um cigarrinho de palha, apagado, no canto da boca. Ele freia a montaria, olha tudo aquilo com ar de pena, tira o chapéu marcado pelo suor de tantas cavalgadas, coça a cabeça, olha para o céu, olha para o diretor com ar de imensa pena e fala:

– Prá que toda essa correria? Logo vai chover e vocês terão que recolher tudo de novo…

O Diretor olha para ele com surpresa, olha para o céu azul de doer e responde mal disfarçando a ironia:

– Bom dia, senhor meteorologista. E onde estão as nuvens que vão jogar essa chuva para baixo?

– Sei não… Depois não diga que não avisei…

E continuou cavalgando naquele ritmo de quem não tem hora nem lugar para chegar. O Diretor deu um sorriso superior (todo o Diretor tem sorriso superior) e continuou a pressionar para que tudo estivesse pronto o mais rápido possível. Em uma hora estava quase tudo arrumado e ninguém mais estava olhando para o céu. De repente, para surpresa de todos, ouviu-se um barulho surpreendente:

– Bruuumm. Soou aquela nuvem que se formara sem que ninguém atentasse.

– Bruuumm. Soou de novo, agora uma segunda nuvem.

– Clack. Estalou um raio.

E antes que se dessem conta da mudança do tempo, começou a chover! Foi um corre-corre, para proteger pelo menos os equipamentos e as roupas. Depois de meia-hora todos estavam ensopados e frustrados, tomando o caminho de volta para o hotel. Lá chegando, após recuperarem os estragos da chuva inesperada ficaram todos resignadamente tomando cerveja e unidos aos moradores para praticar o esporte mais popular da região: ver a grama crescer e jogar conversa fora.

Dois dias depois, tudo estava seco e aguardando as condições ideais para a retomada das filmagens. Novamente o Diretor foi acordado pela claridade que veneziana jogava para dentro do seu quarto. Esbaforido, retomou aquele ritmo estimulado por outro dia de céu azul e sol estalando.

Lá se foi aquele exército de Brancaleone, em busca da filmagem e da libertação do desterro naquele lugar esquecido do mundo glamoroso a que estavam habituados. Novamente se instalou aquela sofreguidão maluca que precede qualquer filmagem que se preze.

E, surpreendentemente, lá vem novamente o minerinho com seu calmo Roncinante. Parece que aquele era o caminho habitual que ele usava para ir a algum lugar, ou a lugar nenhum .Como da outra vez, parou, ficou meio que de banda na cela já puída pelo uso diário, tirou o cigarro da boca, cuspiu discretamente para o lado, tirou o chapéu, coçou a cabeça, pigarreou e falou para o Diretor:

– É… vai chover outra vez… tomem cuidado.

Dessa vez o Diretor já não estava tão arrogante (como se vê, esta é uma história de ficção…). Respondeu cético e seco:

– Obrigado. Boa viagem.

O mineiro agradeceu, puxou a rédea e seguiu seu caminho lentamente, olhando bem para toda aquela aparente bagunça. O trabalho continuou, mas desta vez todos olhavam para o céu de vem em quando, apenas para tirar a cisma. Assim, foram percebendo a formação de nuvens, o que eles de fato não acreditavam que pudesse acontecer. Mas aconteceu.

– Bruuumm.

Na primeira trovoada, sem que o Diretor sequer precisasse mandar, todos começaram a desmontar tudo rapidamente. De forma que quando improvável chuva caiu, o estrago foi muito menor que da primeira vez. E toca voltar para hotel, tomar cerveja e ver a grama crescer enquanto se joga conversa fora para esperar a retomada da filmagem. Choveu o dia todo. No dia seguinte a tal claridade entrou novamente pela veneziana da janela do quarto do Diretor. Mas ele continuou deitado, pensando com seus botões:

– Dessa vez a chuva não me pega assim, não. Vou esperar um pouco para que o tempo fique bem firme. Só então vou para a estradinha, filmo o que tenho de filmar e vamos embora deste fim de mundo, (para os Diretores, tudo que não é o “seu” mundo é fim de mundo…).

Durante três dias a claridade continuou entrando sem cerimônia nas manhãs do quarto do Diretor e não caiu uma só gota que não fosse de cerveja ou do chuveiro. No quarto dia, ele decidiu:

– Todo mundo: toca para a locação! Rápido!

Só que desta vez ele fez diferente. Ao chegar à modesta estradinha, por onde tantos garimpeiros haviam passado em busca da fortuna, ele deu ordem para ninguém começar os preparativos para a gravação. Ele ia esperar “o homem do tempo” passar e dar sua previsão. Afinal, durante as conversas dos últimos dias eles haviam comentado que esse pessoal da roça sabe prever o tempo como ninguém. Pelo vôo dos pássaros, pelo comportamento dos animais, pela cor das folhas das árvores, pelas brisas mal percebidas, etc. E o caipira dera mostras de sua capacidade. E ficaram todos ali, debaixo do sol escaldante, aguardando o esperado “prevedor de tempo”.

Não demorou e ele apontou no horizonte. Com a calma insuportável para aquela trupe toda, ele veio se aproximando. Dessa vez, mesmo ao perceber que todos aguardavam alguma coisa, ele não puxou as rédeas para deter o animal e foi passando batido. O Diretor, aflito, rapidamente se pôs à frente dele e o fez parar:

– E então, como é: hoje vai chover ou não?

– Sei não, moço… Meu radinho ‘ sem pi’a  e eu não ouvi a privisão do tempo…

Escrito em 24/02/2010

(história que ouvi há muitos anos, já não lembro contada por quem)

Publicado em 09/08/2021

EMPATIA

Com a Olimpíada mostrando grandes atletas com seu lado “fraco”, de mortais emotivos, começaram muitas avaliações desfavoráveis sobre como atletas de alto desempenho sucumbiram às suas emoções. Especialmente alvo de muitos comentários a super ginasta norte americana Simone Biles, despertou minha empatia. Entendo o que ela viveu, por me lembrar da minha própria experiência. Por trinta anos atuei como profissional em Recursos Humanos. Como executivo e como consultor. Nesse período começou a surgir a chamada Síndrome de “Burn Out”. Eram pessoas que sucumbiam às pressões cada vez mais intensas no ambiente de trabalho. À medida que as empresas começaram a competir de forma mais acirradas, que novas tecnologias e formas de trabalho iam apareciam, mais o “burn out” acontecia. O assunto adquiriu proporções globais e começou a constar como uma das principais causas de afastamento do trabalho. Junto com burn out veio a Síndrome do Pânico. E as empresas começaram perceber que, mais do que treinamento, era necessário apoio psicológico e até psiquiátrico aos seus colaboradores. Lidei muito com isso na segunda metade da minha profissional. Li, me aconselhei, aprendi. Até meu saudoso filho Mauro foi vítima de síndrome do pânico, talvez pela pressão na escola. Lembro de uma auxiliar administrativa na minha consultoria que deixou de aparecer por vários dias. Ligamos para a mãe dela para saber o que estava acontecendo. A mãe contou que ela se arrumava para sair para o trabalho, mas assim que punha o pé para fora de casa voltava chorando e não conseguia vir para o escritório. Para fazer a rescisão do contrato de trabalho, a mãe teve que vir junto. Assim fui levando o assunto de maneira um tanto fria e racional. Até que chegou minha vez…

Eu já estava trabalhando na consultoria de um super amigo, quando aconteceu. Eu acabava de terminar meu segundo casamento e andava bem aborrecido com tudo que me acontecera nos últimos anos. Mas ia tocando, achando que tudo estava dentro do previsível. Até que uma empresa nos chamou para resolver um problema de desempenho dos seus funcionários. Fui para lá fazer o diagnóstico. Descobri que o problema estava no relacionamento entre os sócios. Dois irmãos e um profissional. Então explicamos isso a eles e programamos um sábado inteiro no nosso escritório para discutir o assunto, só comigo e uma consultora que daria continuidade ao programa. Seria dali a dez dias. À medida que o dia foi chegando eu fui ficando mais e mais tenso. Iríamos mexer nas relações familiares, nas relações societárias e no futuro da empresa e de dezenas de empregados. Na quinta feira não me aguentei e fui falar com meu amigo, dono da consultoria. Ele era um psicólogo e já tinha percebido que algo não ia bem. Ele me aconselhou a adiar um pouco o trabalho para achar um jeito de lidar com a situação. Dei uma desculpa qualquer para o cliente e mudamos o trabalho para a semana seguinte. Essa atitude não ajudou em nada. Só postergou o problema e acrescentou mais uns dias ao meu sofrimento. Eu já estava fazendo psicanálise, mas não era suficiente. Procurei um psiquiatra, que me receitou um remédio tarja negra. Melhorei um pouco, mas ainda não me sentia em condições de dirigir o workshop. Então resolvemos convidar outro consultor para me ajudar. Com isso, perdi 90% da minha comissão. O trabalho foi feito, mas não com a qualidade que eu estava acostumado.

Ao longo dos quatro meses seguintes fui me recuperando aos poucos. Não me bastaram a psicanálise e a psiquiatria. Tive que usar muita força de vontade para vencer o medo de sair de casa, tomar condução e chegar ao escritório. E era um terror quando eu tinha que visitar um cliente. Mas venci! Foi preciso usar toda minha experiência de vida. O que jovens como a Simone Biles ainda não têm. Por isso não a critico por não participar de todas as provas. E a felicidade que ela demonstrou quando terminou sua prova foi menos pela medalha e mais pela superação de si mesma.

PS. Fiquei muito indeciso para escrever e publicar este texto. Mas me inspirei no grande jornalista Ricardo Boechat. Eu sempre o admirei e suas opiniões ponderadas sempre foram minha referência. Quando ele morreu naquele trágico acidente, senti como se tivesse perdido uma pessoa da família. Pois ele teve um ‘burn out” e ficou um bom tempo afastado dos microfones. Ninguém na Band dizia qual era o problema. Quando voltou, fez questão de contar exatamente o que tinha acontecido, para servir de exemplo. Ele fez diversas palestras em empresas sobre o assunto.

Escrito em 05/08/2021