Carla chegou com seu carrão importado, zerinho, para ir à cabeleireira. Num relance viu uma excelente vaga, numa rua com raros lugares para estacionar. Além de tudo, praticamente em frente ao salão da Joana. Não pensou duas vezes. Parou ali mesmo. Nem sequer reparou que o lugar estava disponível porque, de fato, não era uma vaga. Era o início do acesso dos carros que buscavam ou deixavam os alunos na Escola Viva, da Vila Olímpia.
Não tardou para que confusão se instaurasse. Os carros que iam entrar na área de embarque e desembarque tinham que desviar daquele veículo estacionado irregularmente. Logo estava formada uma fila dupla, o congestionamento cresceu e com ele o barulho das buzinas e a irritação dos motoristas. Um marronzinho aproximou-se para ver o que estava acontecendo. Foi informado por um segurança do colégio que a motorista daquele estorvo havia entrado no salão da Joana. Tentando evitar maiores confusões, o marronzinho tocou a campainha do salão e mandou chamar a proprietária do veículo. Quando Carla chegou à porta, com o cabelo já preparado para receber a tintura, ele disse:
– A senhora pode, por favor, retirar seu carro? Ali é proibido parar e está atrapalhando o trânsito.
– Olha aqui, seu guardinha – respondeu Carla – eu não posso parar meu tingimento de cabelo por causa de meia dúzia de mães histéricas.
– Mas, senhora, vou ter que multá-la e talvez até solicitar guinchamento do seu veículo!
Carla deu de ombros, mostrando não estar nem um pouco preocupada com o problema que estava causando. Um aglomerado de passantes e alunos começou a gritar:
– Multa! Multa!
O marronzinho não teve alternativa a não ser puxar seu bloco de multas e começar a autuar a motorista. Carla, que ainda estava à porta do salão da Joana, gritou para o agente de trânsito, no outro lado da rua:
– Pode multar. Multa mesmo. É a sua obrigação. Não me importo. Eu tenho dinheiro para pagar quantas multas eu levar. E se o carro for guinchado, peço ao meu motorista trazer outro. Dinheiro não é o meu problema…
Debaixo dos olhares indignados de todos, Carla simplesmente voltou para dentro do salão e continuo a reforçar a cor de seus cabelos. Mas… alguém olhara tudo aquilo com olhar muito diferente daquela pequena multidão que estava se dispersando.
Passada cerca de uma hora, quando toda agitação já havia se encerrado e os portões do colégio já estavam fechados, Carla saiu do salão para ir embora. A rua estava deserta e apenas seu carro continuava ali, estacionado no local proibido. Enfiou a chave e abriu a porta. Foi quando sentiu algo muito duro comprimindo suas costelas e uma voz de homem, vinda de trás, dizendo com muita firmeza:
– Calma, não grite. Não faça nenhum movimento rápido. Sente no carro com cuidado e ponha as duas mãos sobre o volante. Não se mexa, se não quiser levar um tiro agora mesmo.
Então ela o viu. Era um homem de seus trinta anos, branco, alto e musculoso. Nenhuma característica que o destacasse no meio de um grupo de pessoas. Ele tirou a chave que ainda estava na porta e deu a volta no carro, sem deixar um segundo de apontar o revolver para sua cabeça. Sentou-se ao seu lado, passou-lhe a chave e mandou:
– Dirija com cuidado. Não chame a atenção de ninguém. Vá pela marginal Pinheiros e depois pela marginal Tietê até que eu dê alguma outra ordem.
Colocou o revólver no colo e pegou a bolsa dela para escondê-lo. Começou a mexer na bolsa. Encontrou as fotos do filho, da filha e do marido. Um bilhete do colégio das crianças, convidando para a festa do dia das mães. Uma conta de telefone. Uma carteirinha da assistência médica, da empresa do seu marido. Foi separando essas coisas todas e enfiando no bolso do seu casaco.
– Agora entre na Via Anhanguera e saia no trevo para o Horto Florestal.
Depois de alguns minutos, mandou que ela entrasse numa estreita picada e ordenou que parasse o carro. Carla estava absolutamente aterrada, com medo de ser morta. Como que adivinhando seus pensamentos, o homem lhe disse:
– Não tenha medo, não vou matá-la. Vou fazer algo melhor. Algo que eu não conseguiria, mesmo que eu tivesse tanto dinheiro como a senhora. Passe para o banco de trás e tire toda a roupa.
Terminado o estupro, o homem empurrou-a para fora do carro, jogou-lhe a bolsa com o resto do que tinha dentro e disse:
– Vou levar só seu carro. Mas não me denuncie. Não se esqueça que eu tenho no meu bolso coisas que seu dinheiro não compra. Você tem dois lindos filhos, que estudam num bom colégio e um marido rico com quem mora numa casa de um bairro de gente milionária. Cuidado para não perder alguma dessas coisas…
Escrito em 26/058/2008
Publicado em 18/08/2021

Excelente. Sem palavras. Muito, muito bom. Parabéns.
Confesso que me emocionei quando escrevi este texto.
Se toda a arrogância fosse punida, não desta maneira…