AREAR

Uma coisa que me diverte é encontrar o significado ou a origem de palavras que usamos no dia a dia sem nem sequer perceber. Por exemplo, Obrigado ou Obrigada. É um resumo da frase “Sinto-me Obrigado ou Obrigada a lhe retribuir…” (um cumprimento, um elogio, um favor, um presente). Dito isso, vamos à palavra de hoje. Eu usei a panela de pressão para fazer uma parte do meu almoço. E ela ficou “encoscorada” com restos de alimento. Como não conseguia limpar, tive que pegar um pouco de bom-bril e arear a panela. Enquanto fazia isso me lembrei de como descobri a origem da palavra sem recorrer ao dicionário.

Voltemos sessenta anos atrás, aos meus quatorze anos (pronto, entreguei a idade…). A convite de um colega de escola e vizinho de bairro, entrei no Grupo de Escoteiros Parecis, cuja sede ficava ao lado do prédio onde é hoje a Secretaria da Fazenda do Estado. Meu avô me comprou um uniforme completo: fardamento, chapéu, cantil e mochila. Como o meu grupo era de Escoteiros do Ar, o fardamento era azul e não caqui. Eu nem sabia que os escoteiros se dividiam em do Ar, da Terra e do Mar. Uma das características do meu grupo é que construíamos aeromodelos. O primeiro, enorme, demorou meses para ser construído e fomos inscritos numa competição. Ao soltarmos o avião, com hélice movida a elástico, subiu, avançou cinco metros e caiu de bico no chão, ficando completamente destroçado. Nosso castigo foi remontar o avião sem colocar nenhum componente novo… Outro fato marcante foi participar do desfile de inauguração do Cinerama, na Av. São João, e assistir a primeira sessão.

Mas, chega de divagação e vamos aos fatos. Entre outras coisas, fazíamos acampamento selvagem. Meu primeiro foi à beira da represa Billings. Ali, tudo aconteceu. Além de muitas atividades, tínhamos que preparar nosso próprio alimento. Eram panelões de ferro colocados em cima de uma fogueira para cozinhar. Era tradição que o grupo cantasse um grito de guerra quando a comida estivesse pronta; o Chefe do acampamento ia comer com o grupo que gritasse primeiro.

Via de regra eram os Escoteiros Sênior que gritavam primeiro, porque tinham mais prática; e o Chefe ia comer com eles. A mesma coisa se repetia com a sobremesa. Um dia, o primeiro grito de guerra para a sobremesa foi dado pelo pior grupo do acampamento. Todos se perguntaram: como conseguiram fazer uma salada de frutas tão depressa? E lá foi o Chefe comer a sobremesa com eles. E entendeu a rapidez. Eles, simplesmente, não descascaram as frutas, nem tiraram os caroços do mamão… Bem aqui vem a história de hoje. O Chefe deu ordem para limpar as panelas. Imagine o estado das panelas de ferro tendo ficado horas em cima de uma fogueira. Nós, estreantes em acampamento selvagem, ficamos sem saber como fazer. O Chefe nos mandou levar as panelas para a beira da represa e esfregá-las com areia molhada. Deu trabalho, mas ficaram como novas. Desde então penso que o termo mais correto seria areiar… Pode procurar no dicionário. Arear ou ariar teve origem em lavar panelas usando areia molhada. Foi que assim que aprendi.

Escrito em 20/03/2021

CALEJADO

CALEJADO

O dicionário nos ensina que calo é um espessamento da pele, causado pelo atrito continuado com instrumento de trabalho, sapato apertado ou com o solo. O que o dicionário não explica é que a pele forma o calo para proteger a parte debaixo da derme. A título de exemplo, pensemos num martelo. Se você usar um martelo para pregar alguns pregos e pendurar quadros, é bem capaz que você fique com bolhas nas mãos. Você para de usar o martelo, a bolha incomoda mas, depois de um tempo, desparece. Mas um marceneiro não pode se dar a esse luxo. Ele aguenta firme, sente um imenso desconforto, mas aos poucos forma-se um calo e nem se lembra mais como isso começou. Diz-se que é um marceneiro calejado, experiente.

A língua portuguesa estendeu esse conceito para a nossa vida. Dizer que uma pessoa é calejada, é dizer que tem calos formados na alma e na mente. Mas qual é o atrito que gera calos na alma? É o atrito com as nossas emoções, especialmente as doloridas. As perdas irreversíveis. De um filho, uma mãe, um pai, um irmão, um primo, uma esposa ou um marido, uma amiga. No começo a perda dói. Mas não podemos evitar. Cuidamos da bolha até que ela sare e venha outra por cima. Aos poucos vai se formando um calo, para nos proteger dos próximos atritos. E assim, tornar-nos capazes de continuar vivendo. A impressão, preocupante, é que já não sentimos esse atrito. Mas, na verdade, sentimos o atrito, mas estamos calejados. Por baixo do calo sentimos a dor. Mas aprendemos a suportar.

Senti isso quando perdi, no intervalo de uma semana, o queridíssimo primo João Carlos e minha amiga Vera Regina. Chorei pelos olhos, mas chorei muito mais por baixo do calo. Hoje minha cunhada, de 84 anos, está internada com suspeita de COVID 19. Minha terapeuta perguntou se eu precisava de uma sessão extra. Mas eu disse que não. Estou calejado.

Escrito em 27/03/2021

POR EMPRÉSTIMO Nº2

Jamais poderia imaginar que, enquanto eu preparava o post INVEJA BOBA, a Vera Regina estava partindo. Quando divulguei o post, minha irmã Maria Zélia me deu a noticia. Fiquei atônito, Como diz a música, “no ar antes de mergulhar…”. Então esta saudade veio para sempre. Minha homenagem é a publicação de uma poesia do livro, embora ela não gostasse dele.

MEU SONHO ETERNO

O meu sonho de agora

Aliás, também de outrora,

É que o dia em que eu morrer

Seja o mais lindo entardecer…

O sol, no horizonte desmaiando,

Os pássaros, alegres, cantando

As crianças brincando e sorrindo

E eu, num leito branco… dormindo

Depois… morrer feliz

Da vida eu sentirei saudades

Apesar de encerrar muita maldade

No paraíso eu terei ternura

Eu sei que encontrarei candura

Mais do que eu tive aqui na terra

Pois o céu, toda bondade encerra

Dos que aqui ficam eu terei pena

Mas eu sei que morrerei serena

E nos lábios um sorriso de alegria

Iluminando o meu rosto em agonia

Porque foi o que eu sempre quis,

Cerrar as pálpebras, num sorriso feliz…

Escrito em 26/03/2021

INVEJA BOBA

Chamo de inveja boba aquela inveja positiva (quando queremos ter alguma qualidade parecida com a pessoa invejada) e boba por que não sabemos o sentimento da pessoa invejada. É o que vou contar a seguir.

No início dos anos 1960 fui ao casamento de uma prima, em Pindamonhangaba. Não pergunte qual prima; é pedir demais para minha memória. Bem, o casamento foi comemorado com uma festa-baile no Clube Literário. Eu estava por volta dos meus catorze anos e só havia uma menina na mesma faixa etária. Era a Vera Regina. Logo fizemos amizade e dançamos um pouco. Não sei se era parente pelo lado do meu pai ou se eram amigos antigos da família. O fato é que os pais dela, Cloé e Bruno, estavam lá. No dia seguinte, ao nos despedirmos para a volta a São Paulo, os pais me convidaram para ir à casa deles, na rua Albion, na Lapa. Depois de um tempo peguei um ônibus e fui. Foi o começo de uma gostosa amizade. Não, nunca rolou um namoro. Era pura amizade. Tínhamos intermináveis conversas e eu admirava muito o jeito dela falar. Quando fez 15 anos o pai editou um livro com as poesias dela. Intitulado “Minha Lira aos Quinze Anos!”. Fiquei maravilhado! Como eu gostaria de escrever poesias assim (aqui aparece minha Inveja Boba). Tenho esse livro até hoje, com dedicatória para minha mãe, datada de 1964. E nas minhas inúmeras mudanças sempre me lembro da Vera Regina, ao embalar meus livros.

Um pouco mais tarde ela começou a namorar o Douglas, com quem viria se casar. Eu comecei a fazer engenharia em São Bernardo do Campo. Assim cada um fez seu caminho. Passaram-se mais de trinta anos. Há cerca de uns dez anos fui ao coquetel de lançamento do livro do meu primo Armando. E adivinha quem aparece por lá? Isso mesmo. A Vera Regina e o Douglas! Foi um encontro como se tivéssemos nos despedindo no dia anterior. Como toda boa amizade. A conversa estava bem animada, quando me lembrei do livro e disse:

– Vera, ainda tenho seu livro.

E ela respondeu:

– Paulo, nem me fale desse livro… Foi ideia do meu pai, para me fazer uma surpresa. Mas eu detestei ter minhas poesias divulgadas. Era como expor meu intimo ao mundo. Nem posso ouvir falar sobre ele.

Fiquei muito surpreso e encerrei o assunto por ali mesmo. Esta é minha Inveja Boba. Ter inveja de alguma qualidade de uma pessoa sem saber se ela está satisfeita com isso. Realmente, ainda tenho o livro, que peguei para arrumar minha estante depois da minha última mudança. Talvez um dia desses eu publique uma poesia dela. Lembrei desta história e senti saudade da Vera Regina.

Escrito em 25/03/2021

POR EMPRÉSTIMO Nº1

De vez em quando vou colocar aqui algum texto que gosto, dos meus autores prediletos. Começo com FERNANDO PESSOA. Acho este adequado para nós que estamos atualmente trancados em nosso mundo doméstico.

DA MINHA ALDEIA

Da minha aldeia vejo

quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia

 é tão grande como outra

terra qualquer

Porque eu sou do tamanho

do que vejo

E não do tamanho

da minha altura…

Nas cidades a vida

é mais pequena

Que aqui na minha casa

no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas

fecham a vista à chave.

Escondem o horizonte,

empurram o nosso olhar

para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos

porque nos tiram o que os

nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque

a nossa única riqueza é ver.

24/03/2021

IRMÃOS

Eu queria ter escrito este texto ontem, mas acho não teria conseguido ir até o fim. Ontem, quinta-feira, perdi um irmão. Não de sangue, mas de alma.

Explico. Nunca tive irmãos de verdade. Fui o quinto filho, primeiro homem depois de quatro irmãs. Meu pai morreu pouco depois de eu fazer um ano. Nunca soube se ele tinha planos para mais um filho. O fato é que eu fui o fim da fila. Como diziam alguns amigos das minhas irmãs eu era “bendito és tu entre as mulheres…”. Mas eu tive três irmãos de alma.

O primeiro foi, e é, meu primo Nelson (Junior, na família). Morávamos na mesma calçada e por isso, estávamos sempre juntos. Como dois verdadeiros irmãos, brigávamos muito, mas sempre acabávamos por ficar juntos. Junto com a maturidade ficamos bons amigos. Ele se mudou para Curitiba e faz anos que não nos vemos.

O segundo foi o Márcio, filho da minha adorada madrinha Wilma. Eles moravam em Santos e minha madrinha sempre me levava para passar as férias na casa dela. Às vezes eu ficava os três meses das férias. Com isso passei a me enturmar com a turma dele e da irmã Mirian. Eu até flertava com as irmãs das namoradas dele, ou com as amigas da mesma rua. Depois que ele começou a trabalhar eu continuei indo e ficando com a turma dele. Quando ele entrou na faculdade de Administração e trabalhava um Rudge Ramos ficou um tempo morando em minha casa. Por tudo isso, sempre considerei Santos como minha segunda cidade. Cada um acabou tomando seu caminho. Só voltei a intensificar meu contato com ele quando teve um câncer e sua esposa Zildinha também teve a mesma doença e acabou partindo antes dele. Sempre que eu estava em Santos passava as tardes com ele, conversando e tomando sorvete, que ele adorava. Infelizmente ele também partiu, há muito tempo.

E tive o João Carlos, filho de um irmão do meu pai, tio Carlos (“tio Careca”). No começo morávamos bem perto. Ele morava na mesma casa que minha avó Cecília e nos víamos várias vezes por semana. Depois ele se mudou para o Jabaquara, muito próximo da Igreja de São Judas. Numa rua que nem era calçada e do outro lado da rua era uma chácara. Já não nos víamos tanto, mas a distância não afetou nossa ligação aprendemos a usar o bonde para nos visitarmos. E assim a vida ia seguindo, com visitas e aniversários. Até que eu comecei a jogar futebol de salão toda sexta-feira à noite, no Jardim da Aclimação. Ele veio um dia ver e gostou do ambiente. Passou a vir às sextas-feiras, sempre que possível. Foi quando minha turma pôs nele o apelido de Caravelle. Porque ele vinha do Jabaquara e dizia: “Vim pousar na casa do meu primo”. Passamos tantos fins de semana juntos, que nem sei quantos. No sábado e domingo jogávamos futebol, ping-pong, pebolim; e ficávamos de papo com a turma do larguinho (Praça N.S. da Conceição). E fazíamos pequenas travessuras. Nossa predileta era à noite. Ficávamos no escurinho do quarto ouvindo programas de terror. Aí já não conseguíamos dormir e ficávamos conversando, até que minha mãe vinha acabar com a brincadeira.

Depois que casamos ficamos um pouco distantes, mas de vez em quando ainda íamos ver um bom jogo do São Paulo. Por coincidência, ambos fomos trabalhar na área de RH. Encontramo-nos algumas vezes em eventos profissionais. Muito mais tarde, quando ele estava há algum desempregado, aceitou um cargo de RH no Projeto Jarí, uma mega fábrica de celulose, do milionário americano Daniel Ludwig, no interior do Pará. Era o final dos anos 1970. Desde então só estive com ele em duas ocasiões. Quando a mãe dele, minha tia Vivinha, morreu. E há alguns, quando veio passar o fim de ano em Santos, com sua irmã Vera Lucia. Fui passar o dia com eles e conheci sua esposa Leila e seu filho paraense Eurico. Desde então estreitamos nossos laços, pela internet. Trocávamos, mensagens pelo whatsapp, Facebook e instagram. Dia de jogo do São Paulo, torcíamos juntos. Ele lá e eu cá, ficávamos trocando mensagens o tempo todo, comentando os principais lances. Parecia que estávamos sentados no mesmo sofá. No domingo, dia 13 de março, ele completou 73 anos. Fizemos uma chamada de vídeo. Ele não estava se sentindo bem, com dor de garganta e febre. Achou que era reação da vacina, que havia tomado poucos dias antes. Mas não era, infelizmente. O coronavirus chegou antes da vacina… Foi internado no dia 17 e faleceu no dia 18 com COVID-19. O que me consola é que todas as reações a sua partida, que li, ou senti, foram de elogio.

Esta foi a forma que escolhi para homenagear esse primo que eu chamava de irmão/primo. Vai em paz João e até um dia. Você deixou marcas importantes por onde passou.

Escrito em 19/03/2021

OLHOS DE ÁGUIA

Com a claridade, vou abrindo os olhos lentamente. Olho para fora do ninho e vejo um maravilhoso céu azul. Percebo que outras águias que habitam esta mesma montanha também vão acordando. Os filhotes ainda estão quietinhos no calor do ninho. Estico as asas num gostoso espreguiçar e saio voando para aquecer os músculos. Está um pouco frio e enquanto vou planando vejo que no vale, lá bem abaixo, ainda há um pouco de nevoeiro. Este primeiro voo da manhã é muito agradável, mas é hora de ir para a luta. Volto ao ninho e vejo que está tudo bem. Lá vou eu.

Nesse caminho em busca de comida achava que meus olhos já tinham visto de tudo, mas ultimamente tenho visto coisas novas que muitas vezes não entendo. E tenho que percorrer distâncias cada vez maiores para achar comida e levar para casa. Aquele lago lindo, bem perto daqui, que refletia as árvores e o céu, onde eu pescava peixes deliciosos, está praticamente seco. A floresta em torno dele também sumiu e agora só vejo animais comendo a relva que sobrou. Continuo meu caminho, em busca de um coelho, um rato do mato ou qualquer outro pequeno animal que eu possa caçar e transportar para casa. Em vez de mato, vejo grandes montanhas de lixo onde imperam os urubus, com os quais não desejo disputar suas presas. Tenho que ir  mais e mais longe.

Nesse caminho vejo cidades cada vez com menos gente na rua, mesmo assim usando máscaras e com ar de preocupadas. Por outro lado vejo muito movimento em locais que, ao longo da minha vida, aprendi a identificar como hospitais e cemitérios. Mais adiante vislumbro grandes grupos de jovens dançando e bebendo, sem máscaras. Não consigo entender o que está acontecendo. Parece que há dois tipos de gente em cada mesma cidade. Entre nós, águias, é diferente. Ou estamos todas tristes e preocupadas, como na estação da seca. Ou estamos todas alegres, como na estação da primavera, quando a comida é abundante e os filhotes nascem.

Já estou bem mais longe do ninho do que costumo e ainda não achei comida. Baixo um pouco mais a altura e aguço a vista. E me surpreendo. Há uma pessoa deitada numa calçada, mal vestida e com cara de faminta, quando algumas pessoas se aproximam, lhe dão comida e roupas. Mais à frente vejo um homem, uma mulher e um filhote humano parados na frente de uma casa, acenando para dois velhinhos. De um lado e outro da casa todos riem e choram. Vejo grupos que guardam distância entre si e só se cumprimentam com os cotovelos. Vejo muita gente nas janelas, como muita vontade de sair e passear, mas não indo. Então, existe um terceiro tipo de gente em cada cidade? Que bom!! Não sei qual tipo vai prosperar, mas espero que sejam aqueles que respeitam a vida. E assim nós, águias, também sejamos beneficiadas.

Pronto, consegui pegar um bom coelho. Já estou voltando para casa. Devo chegar por volta do pôr de sol. Lá irei alimentar meus filhotes e dividir as sobras com outras águias que não tenham conseguido uma boa caça. É assim nosso costume. No caminho de volta, o céu continua azul, há lindas paisagens e eu estou feliz porque ainda há esperança de dias melhores para todos.

Escrito em 14/03/2021

DIA DA MULHER

Sou muito crítico dessas comemorações. Dia disso, dia daquilo. Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia das Crianças, etc. etc. Basicamente por duas razões. Primeiro, por que acho essas comemorações criadas com objetivos comerciais. Segundo, por que acho que esses homenageados merecem consideração o ano todo. Tem gente que só lembra dos mortos no Dia de Finados. Aí compra flores, leva ao cemitério e chora lágrimas de crocodilo. Poucos se recordam de seus mortos ao longo do ano. É o que eu digo: dia das mães é todo dia. E assim por diante.

Mas o Dia das Mulheres é diferente. Não vejo apelo para presentear as mulheres, a não ser, eventualmente, um buquê de flores ou um texto de homenagem. A outra coisa diferente é que continuo achando que não deveria haver Dia da Mulher. Mas reconheço sua necessidade, até que um dia não seja mais necessário. As mulheres, desde sempre, têm que lutar bravamente por seus direitos. Têm que conquistar, diariamente, o lugar que merecem no mundo. Têm que passar por violência física ou moral, só porque são mulheres. São assassinadas Um pouco menos a cada dia, mas têm fazer jornada dupla de trabalho: no ganha pão e no lar. E muitas vezes têm que suprir a ausência do pai.

Enfim, as mulheres devem lutar até que, um dia, esta comemoração na seja mais necessária. Eu, que me criei, cresci e vivi no meio de muitas mulheres quero aqui agradecer a todas vocês. Mãe, filha, avós, irmãs, tias, primas, sobrinhas, amigas, colegas e conhecidas. Obrigado por tudo e tenham muita força para continuar sua luta.

Escrito em 08/03/2021

NEANDERTAL

Dias atrás ouvi o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, dizer que os governadores dos estados que tinham determinado o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras, do lockdown e do isolamento social, como sendo de um comportamento Neandertal em plena pandemia. Para minha surpresa, foi a primeira vez que ouvi uma pessoa pública expressar tal opinião. Isto porque já falei, inúmeras vezes, talvez até para você que me lê agora, que o Homem evoluiu muito em conhecimento e tecnologia mas, em seu comportamento, continua sendo o Homem das cavernas, ou seja, um Neandertal. Vejamos como é meu raciocínio.

Em milhares de anos o gênero humano evoluiu. Aprendeu a fazer utensílios e ferramentas, a cultivar, a domesticar os animais, a usar o fogo. Quando evoluiu para Adão e Eva e recebeu uma inteligência superior, essa evolução foi acelerada. O Homem foi aprendendo a construir seu próprio abrigo, a fazer embarcações que o podiam levar para longe, descobriu a roda e pode passar a transportar coisas impossíveis sem esse recurso. Assim, começou a conquistar novas terras e novos povos. Depois da Idade Média seu progresso em termos de Arte e Cultura, Ciência e Tecnologia, etc. foi acelerando cada vez mais. Até que chegamos ao que temos hoje. Medicina, ciência, comunicação, computadores e tantas outras coisas que se criam com velocidade cada vez maior, enquanto escrevo este texto ou você o lê.

Mas, infelizmente, esse progresso todo, na grande maioria das vezes, tem por objetivo a dominação do Homem pelo Homem. Comprovando tristemente a Teoria de Charles Darwin. Talvez um dos primeiros artefatos usados pelo Homem das cavernas fosse o tacape. Que servia para caçar a comida da semana mas também servia para defendê-la dos outros homens, e até para tomar a caça dos outros. Depois veio Caim que matou Abel, primeiro fato relatado de uma disputa pelo poder. As conquistas de novas terras tiveram objetivos puramente econômicos e desencadearam a barbárie da escravidão. E assim vamos observando o uso do progresso por alguns em detrimento de muitos. Os veículos automotores que representam comodidade mas também podem ser armas de guerra. Os aviões, que nos permitem ir cada vez mais longe e mais rápido. Mas também permitem levar bombas, igualmente mais longe e mais rapidamente. Os remédios, além de seus efeitos sobre a saúde, também servem como a criação de um mercado muito rentável e massa de manobra política, por políticos que só pensam em seus próprios interesses , pouco se preocupando com as necessidades da sociedade. Essa é a minha teoria: O Homem evoluiu em tecnologia e conhecimento, mas em termos de comportamento, continua sendo o mesmo homem das cavernas. Um Neandertal.

Desculpe-me leitor, leitora, a amargura deste texto. Mas hoje as notícias são muito ruins, incluindo, pela primeira vez, a perda de pessoa mais próxima para a COVID-19. Mas nem tudo está perdido. Há ilhas de exceção, graças a Deus. Que todos que temos a visão piedosa e solidária dos nossos semelhantes permaneçamos firmes em nossas convicções.

Escrito em 06/03/2021

FORMIGA-RAINHA

Numa pequena cidade do Vale do Ribeira havia um sitiozinho habitado por uma única família. No começo a família começou a criar galinhas, para sua subsistência. Aos poucos foram sendo adicionados outros animais. Dois patos, um peru, três coelhos, uma cabra, uma vaca e um burrinho. E, é claro, onde tem vida tem formiga. Logo se formou um grande formigueiro. Na medida em que a população foi crescendo começaram a aparecer problemas de convivência. Quem tinha preferência para comer, para beber água e até desfrutar da sombra de uma rara árvore. Então os animais se reuniram e decidiram eleger um deles para comandar o espaço. Fizeram uma eleição e ganhou uma galinha. Afinal, as galinhas eram maioria e os outros animais demonstraram pouco interesse em assumir essa responsabilidade pelos próximos dois anos. E assim o tempo foi passando e a cada eleição ganhava uma galinha.

Depois de um tempo, os outros animais começaram a ficar incomodados com os privilégios das galinhas que, como já se disse, eram maioria. Mas um dia os outros animais começaram a discutir entre si como poderiam tirar o poder das galinhas. As discussões eram intermináveis. Numa delas, como ninguém se dispunha a enfrentar, criou-se um impasse. Qual animal iria enfrentar as galinhas? Nesse momento uma formiga saiu do formigueiro para buscar comida. Foi quando o burrinho teve a ideia. Por que não a formiga? Afinal ela era bem organizada, trabalhadora e esperta. Imediatamente a convidaram para concorrer ao cargo. A formiga, toda cheia de si, só colocou uma condição. Queria, como as abelhas, ser chamada de Formiga- Rainha. Todos concordaram e lançaram a candidatura da formiga.

Quando as galinhas souberam ficaram cacarejando e rindo. Como uma formiga poderia desafiá-las? Mas estavam redondamente enganadas! Todos os outros animais se uniram e, para grande surpresa das galinhas, a formiga foi eleita. Prometeu mundos e fundos, na expectativa de se reeleger várias veze para ser a Formiga-Rainha. Mas, então aconteceu o inesperado. Uma rigorosa seca se abateu sobre a região. Os animais pediram à formiga para ajudá-los a achar comida e bebida e sombra. Mas a formiga só coseguia fazer isso para si mesma. Jamais nas quantidades necessárias. Então começou a caçoar: “Vocês estão se queixando por nada. Eu me satisfaço com a água do orvalho nas folhas que corto e levo para dentro do formigueiro. E me alimento muito bem com um ou outro vermezinho que encontro. Estou muito bem. Vocês é que são fracotes.”

Então os animais se deram conta da bobagem que tinham feito ao não pensar sobre a proposta do burrinho. E resolveram, por unanimidade, cassar a Formiga-Rainha e mandar sua insignificância de volta para dentro do formigueiro, de onde nunca deveria ter saído. Elegeram a vaca e assumiram o compromisso de nunca mais aceitar megalômanos como a formiga.

MORAL: Nunca confie seu destino a quem nunca saiu da toca.

Escrito em 02/03/2021