VIAGEM DE TREM

A bordo de um vagão, numa composição de quatro vagões, movido a energia elétrica, eu olhava a paisagem que passava suave e rapidamente a caminho do aeroporto de Guarulhos. E me lembrei da minha primeira viagem de trem. Tinha meus 14 anos, numa época em que as férias escolares se iniciavam em meados de dezembro e terminavam em meados de fevereiro. Era um problema para os pais, o que fazer com todo este tempo ocioso das crianças. Pois naquele ano o problema foi resolvido pelo meu tio Armando, irmão do meu pai. No começo de dezembro ele ligou para meu pai e me convidou para passar as férias em Bauru. Tio Armando e tia Eunice moravam num sítio de 4 alqueires, no município de Bauru, com seu filhos Pedro, de 14 anos, e Lúcia, de 12. O convite foi muito bem recebido pelos meus pais, mas principalmente por mim; meu irmão, Henrique, era temporão e tinha 6 anos, na época, e não era companhia para brincadeiras.

Meu pai escolheu que eu viajasse de trem, pois achou que era mais seguro e confortável. Comprou uma passagem para 2 de janeiro. Minha mãe foi ao Juizado de Menores fazer uma autorização para que eu viajasse sozinho. No dia 1º de janeiro ela fez minha mala. Aquela noite quase não consegui dormir, excitado pela expectativa da viagem. No dia da viagem saímos cedo, logo após o café da manhã, e fomos para a estação de trens. A plataforma de embarque estava bem cheia de gente. Alguns embarcando e outros se despedindo. Era um grande burburinho, com choro de saudade antecipada, votos de boa viagem, mil recomendações, mandando recados para quem fossem encontrar em Bauru. Me despedi da minha mãe e do Henrique. Meu pai me ajudou a levar minha mala e achar meu assento. Despediu-se de mim e desceu do trem, fazendo mil recomendações de última hora. Ele, minha mãe e o Henrique ficaram em frente à janela onde eu estava. Em todas as janelas havia gente se despedindo e burburinho aumento. O trem começou a se movimentar, em meio a grande agito de mãos abanando.

Quando o trem chegou a Bauru, o burburinho se repetiu, talvez um pouco mais alto. A plataforma cheia de gente que acenava e gritava assim que viam os conhecidos à janela. Meu tio Armando subiu no trem para me ajudar com a mala. Me abraçou e falou:

– Que belo mocinho você está!

Quando encontrei a tia Eunice ela falou mais ou menos a mesma coisa. Ao cumprimentar meus primos Pedro e Lucia é que percebi como o tempo tinha passado. Se os encontrasse na rua não os reconheceria, pois só estivera uma vez com eles há mais 6 anos. Meu tio acomodou a mala no porta-malas, eu e os primos nos sentamos no banco de trás e começamos a conversar. Eu, querendo saber sobre o sítio e de Bauru, eles querendo saber da viagem e de São Paulo. E já começamos a planejar o que faríamos nesse tempo de férias. Tia Eunice estabeleceu o que faríamos hoje:

– Hoje o Luiz tem que descansar da viagem. Quando chegarmos em casa vamos desfazer a mala e guardar tudo no armário do quarto do Pedro, onde ficará durante estes dias. Depois vamos jantar e sentar na varanda para conversar até que o sono chegue.

Claro, com a agitação da viagem e da chegada, o sono demorou a chagar, mas afinal chegou. No dia seguinte eu começaria a fazer as coisas no tempo do sítio, o que incluía dormir cedo e acordar cedo.

No dia seguinte a tia Eunice nos chamou às 7 horas, mas eu já estava acordado, ansioso para conhecer o sítio. O tio Armando falou o programa do dia:

– Vamos dar uma volta por todo o sítio, para o Luiz conhecer tudo que tem por aqui. Depois os três ficarão livres para fazer o que quiserem, apenas respeitando o horário das refeições.

A primeira parada foi na área próxima à casa. A uma pequena distância havia duas casas. Meu tio explicou que ali moravam duas famílias que trabalham no sítio. No terreno, mais ou menos entre as duas casas havia uma área que meu tio explicou que era onde havia plantações para consumo dos moradores. Um pomar, uma horta, um galinheiro, um curral com 6 vacas e um touro. Apenas o leite das vacas era explorado comercialmente; depois de tirados alguns litros para consumo próprio, o excedente era vendido para uma cooperativa da cidade. Ao lado da casa havia um galpão com churrasqueira, forno a lenha e uma mesa de ping-pong. Depois saímos andando em direção à plantação, que era de onde provinha boa parte do sustento de todos os moradores. O cultivo variava conforme a época e os preços do mercado. Neste mês era época do milho. Colhida a safra iriam plantar mandioca e batata doce. No limite do sítio corria um riacho de onde era tirada a água para consumo das casas. Para irrigação recebiam água da rede pública.

– Bem – falou meu tio – já está quase na hora do almoço. Vamos chegando que logo, logo a Eunice vai tocar o sino avisando que a comida está pronta.

De fato, assim que chegamos ao pomar, a tia Eunice tocou a sineta, ao lado da cozinha. Nas outras casas também se ouviu o som das respectivas sinetas. Depois do almoço meus primos sugeriram irmos ao pomar, para comer a sobremesa. Fiquei curioso sobre que sobremesa seria. Lá chegando o Pedro e a Lucia foram me mostrando as árvores frutíferas. Havia mangueira, abacateiro, goiabeira, laranjeira, jabuticabeira, limoeiro, pé de mexerica e uma grade com maracujá. Fiquei espantado, pois só tinha visto essas frutas nas feiras e nas quitandas. Pedro pediu para eu escolher uma fruta. Escolhi minha preferida de todas elas: manga! A árvore estava carregada de mangas, muitas maduras no ponto de colher. Lucia pediu para eu escolher uma e apanhou a que eu indiquei. Com uma bela e enorme manga na mão eu não sabia o que fazer. Pedro ria muito e falou:

– Aposto que você nunca descascou uma manga, certo?

– Com certeza! Minha mãe já põe os pedaços no prato.

– Primeiro devo dizer que sempre é bom trazer uma faquinha ou canivete quando viermos apanhar frutas. Mas, de propósito, não trouxe para te ensinar como descascar manga sem faca.

Então ele mordeu a manga numa das pontas, segurou a casca com os dentes e puxou. A casca se desprendeu de alto a baixo e ele arrancou. Depois mordeu outro pedaço da casca e puxou, da mesma forma. E assim ele descascou a manga toda. Pegou outra e me deu para descascar. Meio desajeitado fui mordendo e puxando. Depois de um tempo tinha conseguido descascar a manga e me lambuzar todo. Mas foi a melhor manga que eu já havia comido. Ao final, nós três havíamos comido nossas mangas e nos lambuzarmos todos. Então Pedro falou:

– Agora vamos lavar as mãos e o rosto no tanque. Mas levamos as cascas e os caroços para colocar num caixote que tem ao lado tanque, onde se transformarão em adubo orgânico.

Voltamos para o pomar. A goiabeira tinha dois galhos quase horizontais, onde estavam pendurados dois balanços onde começamos a nos balançar. Fizemos até uma certa competição de quem balançava mais alto. Mas eu perdi feio, pois era a primeira vez que me balançava desse jeito. Ouvimos o som da sineta e eu estranhei. Já era hora do jantar!!?? Não, era hora do lanche. Na grande mesa da cozinha havia um bolo de milho, suco de laranja e leite. Adorei esse costume. Passamos o resto da tarde conversando na varanda, até a hora do banho e do jantar. Meu tio chegou, tomou banho e jantamos. Ficamos conversando na sala e fomos dormir cedo, porque no dia seguinte íamos nos levantar muito cedo para uma atividade muito especial.

Tio Armando nos acordou às 5 horas da manhã. Colocamos um agasalho porque ainda estava bem fresquinho. Ele deu a cada um uma caneca grande, com açúcar e saímos. Fomos em direção ao estábulo. Lá chegando encontramos um dos funcionários ordenhando uma vaca. Ele pegou cada caneca e esguichou o leite dentro. Formou uma espuma grossa e quente. Meu tio falou para bebermos. Fiquei um pouco receoso, mas tomei. Uma verdadeira delícia! Muito diferente do leite que eu estava acostumado. Mais grosso, mais saboroso. O funcionário encheu um vasilhame de 5 litros, que aprendi se chamar tarro, para consumo dos moradores do sítio. Iam ser enchidos outros 4 tarros de 25 litros cada, que seriam entregues à cooperativa de laticínios. Enquanto voltávamos para casa, saboreando o leite, meu tio explicou que a cooperativa ia extrair uma boa parte da gordura, para fazer laticínios, como manteiga, e uma parte do leite seria usada para fazer queijo e outros laticínios. Mais da metade do leite, já com a gordura diminuída, seria embalado para uso dos consumidores. Meu tio acrescentou:

– Como você não está acostumado com este leite gorduroso, pode ser que tenha um pouco de desinteria. Não se preocupe, é normal.

Depois do café decidimos voltar ao pomar, apanhar alguma fruta e balançar na goiabeira. Tia Eunice falou:

– Levem uma cesta e quando vierem para o almoço passem no galinheiro e colham os ovos.

Comemos algumas jabuticabas, nos revezamos no uso dos balanços durante algum tempo e fomos para o galinheiro. Esta era outra coisa que eu não conhecia. Havia um puleiro onde meus primos explicaram que as galinhas ficavam durante a noite. Embaixo do puleiro havia uma camada de fezes das galinhas, que eram aproveitadas como adubo. Uma série de caixotes da madeira, forrados com palha, formavam um ninho onde as galinhas botavam os ovos. Mas, de vez em quando, alguns ovos eram botados em outros locais do terreiro. Então era preciso procurar. Nesse dia mesmo achamos dois ovos fora dos ninhos. Notei que havia uma galinha que continuava no ninho. Meus primos me explicaram que estava choca e ficava ali, em cima dos ovos, até que os pintinhos nascessem. Quanta coisa eu estava aprendendo!

Após o almoço, descansamos um pouco, esperando o sol baixar um pouco e meus primos foram me apresentar a horta. Eram vários canteiros onde havia plantação de verduras, legumes e temperos. Alguns pés estavam prontos para serem colhidos, outros estavam ainda crescendo e outros ainda não tinham ainda sido germinados e havia uma plaquinha indicando oi que estava plantado. Nos canteiros de verduras havia alface, almeirão, couve, couve-flor, repolho, acelga e rúcula. Nos canteiros de legumes via-se, ou podia-se ver a plaquinha indicativa, que havia tomate, cenoura, beterraba, abobrinha, beringela e pimentão. No setor de temperos: salsinha, cebolinha, orégano, coentro, tomilho, manjericão, pimenta de dedo de moça, salsão, erva doce. Quase todo dia minha tia Eunice pegava alguma coisa na horta, ou nos mandava pegar.

Conhecidos os principais pontos do sítio, passamos a gastar nosso tempo em visitar esses pontos, brincar, jogar jogos de tabuleiro, ler e conversar. Mas ainda havia algo a descobrir. No sábado, depois do café da manhã, meu tio falou:

– Vão se trocar e ponham roupa de banho. O Luiz pega um maiô emprestado do Pedro. Vamos fazer um piquenique na beira do rio.

Enquanto nós nos vestíamos os tios encheram duas sacolas com comidas e bebidas. Chegamos ao rio, nos instalamos ao lado do rio, num local em que havia uma espécie de praia. Ali nos acomodamos e passamos a manhã brincando e, de vez em quando, entrando na água. No fim da manhã nos sentamos para o almoço, que era vários tipos de sanduiche, frutas e suco de laranja. Limpamos praia e voltamos para casa. Meu tio falou que poderíamos vir até o rio quando quiséssemos, mas só entrar na água se tivesse um adulto junto.

Com tantas coisas para fazer, passaram-se voando os 40 dias de férias e era hora de voltar para casa e me preparar para início das aulas. Minha tia arrumou a mala e fomos para a estação. Ali se repetiu a cena de São Paulo. Um burburinho na plataforma, das pessoas se despedindo e depois acenando pelas janelas. Abracei meus tios e meus primos, já sentindo saudade desses dias maravilhosos. Ficou combinado que nas próximas férias o Pedro e Lucia iriam para São Paulo.

O trem apitou e começou a viagem de volta. Chegando a São Paulo, repetiu-se a cena das pessoas se abraçando, perguntando quais eram as novidades. Quando abracei meus pais, eles falaram que estava com ótima aparência e até havia engordado um pouco.

Enquanto eu relembrava aquelas férias maravilhosas o trem chegou ao aeroporto. Tudo muito quieto. A maioria das pessoas estavam viajando a trabalho. Então quase não havia despedidas. E acabaram quando os passageiros se dirigiram-se para a área de embarque. Lá chegando, a grande maioria dos viajantes se isolou do ambiente, voltados para seus celulares e notebooks. Um ou outro lendo. Ninguém conversando.

Senti saudade de Bauru…

Escrito em fevereiro/2024