Na segunda metade dos anos 1980 trabalhei no Grupo Ultra. Inicialmente na Ultratec Engenharia – UTC – braço de engenharia de montagem industrial. Atuava majoritariamente nas refinarias de petróleo e hidrelétricas. Minha chegada já foi, no mínimo, curiosa. O Grupo estava estruturando a área de RH em todas as suas divisões (Gás, Transporte, Química e Engenharia) e encontrava grande resistência na área de Engenharia. Colocaram um requisito que julgavam intransponível: queriam um engenheiro, para entender a linguagem dos engenheiros. Para “azar” deles um headhunter me achou e eu aceitei… Logo nos primeiros dias comecei a entender as particularidades da UTC. As reuniões da direção aconteciam numa grande sala com uma imensa mesa redonda onde se sentavam até 14 pessoas. Logo, o engenheiro mais experiente, Dr. Tácito, que tinha um humor refinado, me explicou que a mesa era redonda, mas tinha cabeceira. Mostrou uma posição onde o tampo estava um pouco riscado. “Aqui senta-se o Dr. Manoel, o Superintende Geral. Os demais lugares são livres”. Na verdade havia, descobri depois, outro lugar reservado. Sentava ali a dona Irena, uma engenheira muito experiente que administrava os contatos. Tinha que ser ao lado da porta, que ficava aberta porque ela tinha claustrofobia… O escritório dela era vizinho ao meu e nos tornamos bons amigos.
Por conta do contato permanente com a Petrobrás, na época já investindo pesado no aumento da produção, percebeu-se a demanda por navios de apoio às plataformas. A primeira lição que aprendi é que o petróleo não jorra sozinho quando a perfuração chega ao poço. É preciso “empurrar” o petróleo para cima. Esta é uma das principais tarefas dos navios de apoio. Por isso foi criada a UTC Petróleo, que comprou dois navios e montou duas bases de operação. Uma em Macaé, RJ e outra em Natal, RN. Esses “navios” eram, na verdade, como dois grandes rebocadores que carregavam tanques de nitrogênio e bombas jogavam esse gás no poço para empurrar o petróleo para cima. Ancoravam ao lado da plataforma e mangueiras eram conectadas ao equipamento de produção e injetavam o gás no poço. Era preciso organizar os Recursos Humanos das bases e contratar as tripulações, que eram marinheiros e técnicos em exploração de petróleo, mais o capitão que deveria entender da operação total. Para comandar a base de Macaé logo achamos um capitão português muito experiente que tocava a base com bastante competência e trabalhava na exploração de petróleo há muito tempo. Só precisei ir lá duas vezes. Duas coisas que aprendi então: Esse pessoal que atua nos campos de petróleo são verdadeiros nômades e tive que lidar com gente de vários países; e o trabalho nesse ramo é tido como uma “verdadeira cachaça”, as pessoas têm orgulho em dizer que são filhos e netos de petroleiros. Por isso o sindicato da categoria é tão forte. O mesmo acontece com os barrageiros (que trabalham nas hidrelétricas) e trecheiros (que trabalham na construção de estradas)
Já Natal foi totalmente diferente. Foi designado para dirigir a base um bom Engenheiro de Obra, o Engenheiro Mello. O que ele havia chegado mais perto do petróleo eram as refinarias onde já havia tocado várias obras. Resultado: tive que ir a Natal muitas vezes para ajudar o Mello. Isso me rendeu experiências incríveis, que até hoje recordo com satisfação. Antes da minha primeira viagem, fui me aconselhar com o Dr. Tácito, engenheiro que carregava na bagagem a construção do campus da USP. Ele me deu uma orientação, a única que jamais segui…: “Consiga uma autorização para visitar uma plataforma. Uma experiência inesquecível. São duas horas de helicóptero.” E arrematou, bem humorado: “Quase todos chegam…”. Não preciso dizer que não fui…
A primeira tarefa, e mais difícil, foi contratar um capitão para o UTC II. Os capitães desses navios são muito requisitados e passam uma boa parte do tempo navegando. Não mandam currículo, não são encontrados na rua. E são de todas as partes do mundo. E estão empregados: é preciso “roubá-los”. Eu estava bem perdido na busca, quando o Gerente Administrativo da base me procurou dizendo que o capitão de um navio que estava próximo do fim do contrato com a Petrobrás queria conversar comigo. Agradeci aos céus, mas não era tão simples assim. Natal não era uma cidade tão grande e na comunidade dos petroleiros é muito difícil manter sigilo. Respondi que sim, gostaria de falar com ele; onde e quando? A resposta: “Te encontro amanhã, ao lado da piscina do seu hotel às 2h da manhã”. Como não tinha outro jeito, tive uma longa conversa com o Jim, tomando whisky na beira da piscina. Era um inglês, casado com uma brasileira, que morava em Fortaleza. Ele, como bom inglês tomava todas e eu fiquei numa parte da minha dose. Fechamos ali a contratação e eu fui dormir feliz. Quase sempre que desembarcava marcava um jantar com pessoas da base, antes de ir para casa. E sempre tomava bastante. Uma vez eu perguntei se não tinha medo de dirigir nesse estado. Ele deu uma boa gargalhada e disse: “Já estou acostumado. Chegando em casa minha esposa me espera com um ceviche bem apimentado e fico novo”.
Uma vez o Mello me disse que uma plataforma flutuante estava no porto, para manutenção. Queria que eu fosse visitar. Achei que era minha chance. Nesse dia aprendi duas coisas. Primeira: em Natal ninguém liga para uma chuvinha. Enquanto caminhávamos pelo cais começou a chover. O Mello nem se abalou. Continuamos a andar como se não estivesse chovendo. Em cinco minutos a chuva parou, o sol apareceu e dentro de dez minutos estávamos secos. Segunda: jamais conseguiria visitar uma plataforma de petróleo. Chegando ao local, lá estava ela, imponente, alta, a uns 50m da borda do cais. Perguntei: “Mello, como faz para subir nela?”. A resposta: “É fácil. O guincheiro manda aquela gaiolinha e nos iça até lá”. A gaiola realmente parece uma gaiola: um anel de madeira em cima, unido por cordas a outro anel de madeira em baixo. A pessoa pisa no anel de baixo, agarra-se às cordas e o guincheiro puxa para dentro da plataforma. Não visitei…
Vivi muita coisa boa. Como os tripulantes passavam 14 dias no mar, tivemos que montar uma estrutura para dar apoio às famílias. Graças a Deus nunca aconteceu algo grave. Dizem que Caicó faz a melhor carne de sol do Brasil. Eu adoro. Muitas vezes fui comer num restaurante Carne de Sol do Lira. Pasmem! Era um rodízio de carne de sol. Também tinha a Peixada da Maria, no alto de um morro de onde se avista o espetacular mar azul de Natal, que servia peixes deliciosos, acompanhados por uma pimenta num caldo morno. Visitei várias vezes o Waltencir, gerente de RH da base, no bairro de Ponta Negra. Na casa dele aprendi como faz para colocar o caju na garrafa de pinga. Quando o caju começava a se formar, ele pendurava uma garrafa na árvore de modo que o caju crescia dentro. Depois era só cortar o cabo da fruta, colocar a pinga e deixar pegar o gosto. Naquela época eu tinha uma coleção de pingas, não para tomar, e sempre trazia alguma de lá. Uma vez me ofereceram uma garrafa personalizada com meu nome. Outra coisa que sempre me presenteavam, sabendo do meu gosto, eram uns dois quilos de carne de sol. Como sempre, eu conseguia associar trabalho e lazer.
Estes últimos dias, elaborando este texto na minha mente, me bateu muita saudade dessa época…
Escrito em 28/10/2021
