MEDO DE SER FELIZ

Alguém pode ter medo de ser feliz? Por incrível que pareça, muitas vezes temos medo de ser felizes e nem percebemos. Mas, então, quando temos medo de ser felizes?

Quando não provamos uma comida, por medo de não gostar.

Quando não fazemos um passeio, por medo de algo sair errado.

Quando deixamos de cantar no karaokê, por mais que gostemos de cantar, por medo de desafinar.

Quando deixamos de berrar por nosso time, por medo da derrota.

Quando deixamos de fotografar um pôr de sol, por medo de a fotografia não sair bem.

Quando deixamos de tirar alguém para dançar, por medo de levarmos “tábua”.

Quando deixamos de expressar nossos sentimentos, por medo de não sermos compreendidos.

Quando não declaramos nosso amor por alguém, por medo de não sermos correspondidos.

E mais tantos outros exemplos que cada um pode acrescentar. Note-se que, em cada uma dessas situações, se nosso medo fosse infundado, teríamos perdido uma oportunidade de ser feliz. E entenderemos a reflexão seguinte com muita tristeza:

“Veio alguém, bateu-me à porta. Vacilei, não quis atender. Pensei que fosse a Saudade que viesse me perseguir. Bateu uma, duas vezes, mas não insistiu. Desceu as escadas depressa e para sempre partiu. Deixando na porta estas palavras fatais: Sou a Felicidade e aqui não voltarei jamais…” 

(Carmen Andrade)

Escrito em 21/01/2025

 sem medo de ser Feliz

TEXTO FINAL

 Ou inicial?

Depois de muito meditar, aqui estou para meu último texto sobre minha experiência no Residencial para Idosos. Começo pelo encerramento do último texto sobre minhas anotações. Terminei com a questão: FIM (ou será começo?). Houve muitas reações a esta pergunta. Muitas sugerindo que era um recomeço. Acho que não será o FIM, mas também não será Recomeço. Pois só se recomeça algo não terminado, que não sinto ser o caso.  Também não é o FIM, pois a experiência desses dois meses ficou marcada indelevelmente na minha mente. Assim como está sendo marcada a companhia de uma cuidadora, três dias por semana. Então penso que é um começo de algo novo na minha vida. Espero que tenha aprendido muitas lições e espero que possa utilizá-las em benefício de outras pessoas.

Quem seriam essas pessoas? Avalio alguns tipos de público-alvo, todos ligados ao fenômeno mundial de envelhecimento da população (hoje, no Brasil, as pessoas com 60 anos ou mais é de 33 milhões de pessoas, maior que a população de crianças até 9 anos…): Pessoas com 60+

– Com boa saúde física e mental

– Com problemas físicos

– Com problemas mentais

– Que moram em casa, sozinhos ou com alguém da família

– Que moram em qualquer equipamento de atenção especial (residenciais, hotéis para idosos, asilo de qualquer tipo etc.)

– Cuidadores e cuidadoras profissionais

– As famílias desse público, em qualquer dessas situações

– Profissionais da saúde pública, focados nessa população

Você que me lê, se identificar mais algum grupo, fique à vontade para sugerir. O que estou pensando? Identificar, ou iniciar, uma rede atenção para os grupos mencionados. Confesso que ainda não tenho uma ideia sobre como fazer isso. Tenho prestado atenção no noticiário, onde só deparei até agora com duas informações interessantes. Um abrigo beneficente para pessoas 60+ em situação de rua. E uma ONG chamada Instituto Longevidade em https://institutodelongevidade.org.  Mas este instituto é voltado mais a questões financeiras desse público. Baixei também o Estatuto do Idoso em:  https://www.planalto.gov.br/ccivil_3/_Ato2019-2022/Lei/L14423.htm. Ainda não estudei essa lei.

O que eu penso e quero sua opinião:

  • Formar uma comunidade na Internet onde as pessoas possam trocar informações e experiências
  • Estruturar uma ONG para atuar nesse campo
  • Com a colaboração de apoiadores financeiros, montar abrigos beneficentes
  • Encontrar ONG’s, ou similares, ou até mesmo pessoas físicas, e oferecer trabalho voluntário.

Enfim, estou só começando a tratar do assunto, a certeza de que várias cabeças pensam melhor que uma.

Escrito em 12/10/2023

ÚLTIMAS ANOTAÇÕES – 42 E 43

42 – 12/06. A notícia da minha saída já está correndo a boca pequena. A cuidadora Jane disse que está triste, e várias cuidadoras já comentaram comigo. Interessante como foi criado um tipo de laço emocional entre mim e a maior parte das cuidadoras, enfermeiras e até alguns/algumas moradores/moradoras. Por incrível que pareça, acho que vou sentir saudade das coisas boas daqui. Já marquei o celular de algumas cuidadoras e até inclui a Jane na lista de distribuição do blog (mas ela logo saiu). Enfim, mais algumas horas e estarei em casa para mais uma etapa da minha recuperação. Hoje percebi como vai ser complicado na hora do banho. Tenho que ser extremamente cuidadoso. Já comprei duas barras para pôr no box e amanhã peço para o Zé (zelador) fazer a fixação.

43 – 13/06 vim para casa e no dia 14 veio a cuidadora, Josy, pela primeira vez. Está sendo uma ótima experiência.

FIM

(ou COMEÇO?)

Escrito em 26/09/2023

ANOTAÇÕES 40 E 41

40 – 12/06. Penúltimo dia. Aproveitei a cuidadora Gê, que me inspira mais confiança, para tomar banho em pé, no chuveiro. Que delícia!! Sempre tomamos banho de chuveiro e raramente nos atentamos como é uma experiência tão prazerosa. Ao voltar para um banho quase normal, depois de dois meses tomando banho na cama ou sentado numa cadeira de banho, percebi como a reconquista de autonomia, ainda que parcial, me fez tão bem!

41 – 12/06. Hoje desci um pouco mais tarde e fui tomar sol ao lado do Roberto. Conversamos bastante e ele me perguntou se eu ia ver o torneio de Wimbledon (que será no início de julho). Então aproveitei para contar que vou sair em algum momento de amanhã. Ele se mostrou um pouco surpreso, mas me desejou boa sorte. Também falou que se admirava de eu não estar preocupado com o horário da minha saída amanhã. Disse que, no meu lugar, estaria bem nervoso, pois dizem que sofre de ansiedade. Eu já havia percebido, pelas atitudes dele durante as refeições. Entrei para ir ao banheiro, antes do almoço, e vi o Valdir sendo atendido pela enfermeira Marta e pela médica de plantão. Ele levou um tombo, se machucou um pouco, mas, graças a Deus, não foi nada grave.

Escrito em 21/09/2023

ANOTAÇÕES 39 E 40

39 – 6 de junho. Hoje o Roberto e eu voltamos a conversar, mas secamente. Hoje o Edgar veio aqui e marcou a próxima terça-feira para eu ir para casa. Mas ele vai passar aqui antes, para levar as coisas que já não estou usando. Disse que vai entrevistar a cuidadora, que irá em casa três vezes por semana. Concordei, porque eu não queria mesmo todo dia. Pediu para eu mandar uma lista de hortifruti, que ele ou a Lu vão providenciar. Graças a Deus minha volta para casa está definida!!

40 – 9 de junho. Hoje, durante o banho, conversava com a Geni, que não é a que geralmente me acompanha. Ela comentou que veio para o meu banho porque sou bem autônomo e ela não pode lidar com pessoas pesadas. Porque está grávida. Perguntei se era o primeiro filho e ela disse que não, que já tinha uma filha de 22 anos! Fiquei muito surpreso, já que ela tem uma aparência bem jovem. Ela explicou que teve essa filha com 16 anos. E já tem uma neta, que vai ser mais velha que a tia. Lembrei da velha história do homem que, por diversos casamentos, acaba sendo avô dele mesmo…

Hoje, conversando com uma sobrinha do Valdir, que veio visitá-lo, falamos sobre a área de projetos de uma construtora, onde ela é líder da equipe de projetos. Comentei, da minha época na Ultratec, quando começou a ser usada a ferramenta CAD (Computer Aided Design – Projeto Auxiliado por Computador) e os profissionais resistiam a usar a nova ferramenta. Para minha surpresa, ela me contou que hoje o CAD é operado por IA e obedece a ordens faladas. Fiquei impressionado.

Escrito em 19/09/2023

ANOTAÇÃO 38

4 de junho. Ontem assisti ao jogo de tênis do Zverev, em Roland Garros. Junto com o Roberto. Mas não até o fim. Hoje eu ainda estava deitado, assistindo a missa das 8 na televisão e ele bateu na porta e abriu; perguntou quem tinha ganhado. Fiquei irritado pela intromissão da minha privacidade; disse que estava assistindo a missa e não sabia (mas eu sabia…). Ele fechou a porta e foi embora. Mais tarde, enquanto eu via a F1, ele entrou no quarto e perguntou outra vez quem tinha ganhado o jogo de ontem. Fiquei muito irritado e disse que estava assistindo a corrida e ele pediu desculpa. Falei que o quarto é a minha privacidade. Ele disse que havia perguntado na enfermagem se podia entrar e disseram que sim. Eu respondi que a enfermeira não era minha mãe. Estou ficando sem paciência com ele. Pediu desculpa e perguntou se ainda éramos amigos. Olhei bem para ele, sem responder. Passei o dia todo evitando novo contato com ele. Tenho pena, porque acho que sou a única pessoa com quem ele conversa. Mas preciso me preservar.

Escrito em 14/09/2023

ANOTAÇÃO 37

2 de junho. Ontem foi um dia cheio. O banho atrasou e nem precisei despistar o Ricardo, pois desci quase na hora do almoço. Quando entrei no restaurante, recebi sinal de três mesas para me sentar. Acabei indo para o “Clube do Bolinha”: Ricardo, Valdir, Gerson e eu. Quando já havia terminado e estava saindo, a Cleide me chamou para dizer que ia pegar o celular no quarto para tirar uma foto minha e mandar para a irmã, que gosta de saber com quem ela anda… Como sai pouco depois, consegui escapar… Quando o Roberto me perguntou se eu ia assistir o tênis, eu respondi que não, porque ia ao médico. Ele me perguntou se “aquela moça” que veio me ver ontem era minha filha. Era a Camila. Ele quis saber quem ia me levar ao médico, se era ela. Respondi que não. Ele quase me perguntou: “então que ia?”, mas eu não responderia. Fui com me ex-vizinho, Noemio, que desistiu de arrumar emprego e pode me levar quando for preciso. Ele me ajudou muito com a burocracia do hospital, onde fui fazer Raio-X. O melhor de tudo é que o médico me liberou do andador e marcou retorno em dois meses. Ainda não sinto segurança em andar sem o andador. Então estou caminhando sem apoiar o andador no chão, mas apoiando quando sinto cansaço ou desequilíbrio, mancando da perna esquerda que ainda me dói muito, especialmente nos primeiros passos. Já combinei com a Bianca, fisioterapeuta, para terminar o atendimento a domicílio. E combinei com o Noemio como pagar cada vez que ele me ajudar. Ele propôs   R$ 150,00 cada vez. Ontem, pelo critério antigo, teria ficado em R$ 140,00. Então, acho que é uma boa proposta.

Escrito em 12/09/2023

ANOTAÇÃO 36

27 de maio. Entrei na área de convivência para ir ao banheiro (urino muito, por causa do diurético que tomo para evitar trombose) e logo o Valdir me indicou uma poltrona ao lado dele. Saindo do banheiro, fui me sentar com ele. Falou como nunca. Contou sobre sua carreira como bancário e sua tentativa de se tornar jogador de futebol profissional. Depois me falou da morte da esposa, com quem foi casado por 72 anos. Está aqui por decisão dos filhos. A esposa faleceu um mês após uma queda em casa. Bateu a cabeça no chão, perdeu a visão e nunca mais se recuperou. Disse que isso foi há 7 meses. Ficou com os olhos cheios de lágrimas. Depois fomos para o refeitório e nos sentamos numa mesa onde já estavam o Roberto e o Gerson (novo no pedaço). Roberto, como sempre, comeu antes de todo mundo. Logo foi embora porque alguém ligou o celular com música alta e ele disse que isso o incomoda. O Gerson parece bastante lúcido. Repetiu o almoço, o parece explicar o fato de ele ser bem “redondinho”. Vou procurar conversar um pouco com ele, num ambiente menos barulhento.

Escrito em 07/09/2023

ANOTAÇÃO 35

27 de maio. Estou sentado na área externa, tomando sol e aproveitando os últimos dias do veranico. Muita gente por aqui. Olho para as pessoas e penso em algo que, se é cisma minha ou não, tenho notado. Muitos “colegas” têm procurado se acercar de mim. A Cleide procura sempre se sentar perto de mim, às refeições ou na área de lazer. Agora mesmo, enquanto eu vinha para cá, ela me mostrou uma poltrona ao lado dela. Como eu disse que eu vinha tomar sol, ela disse que viria depois, para papear. O Valdir já estava tomando sol, mas já entrou. Também me procura quando entra no refeitório e, se tiver uma cadeira vazia, ele senta comigo. Pena que escuta muito mal e não dá para conversar muito. A Alba sempre fala alguma coisa para mim, quando passo por ela. Às vezes puxa minha malha que está dobrada na parte de trás. No refeitório sempre me mostra uma cadeira vazia na mesa dela. Às vezes aceito o convite. Tudo isso sem contar o Roberto, que fica me rondando e me convidando para vir aqui para fora. Diz que gosta de conversar comigo e que quer continuar alguma conversa. Enfim, para meus momentos de leitura ou música, procuro algum isolamento, o que nem sempre é possível.

Escrito em 05/09/2023

ANOTAÇÃO 34

Ontem, 24/05, fiz mais uma sessão de fisioterapia. Hoje minha perna esquerda está bem menos dolorida! Ao mesmo tempo que isso me alegra, me traz o pensamento de como será minha vida depois daqui. Talvez eu precise alguém me cuidando, ao menos algumas horas por dia, alguns dias por semana. Só o tempo dirá. Sair daqui já me dará enorme satisfação. Sentado aqui, na sala de TV, continuo com algumas observações que tenho feito.

Primeira: aqui há muito mais mulheres do que homens. Com certeza pelo menos 80% dos moradores são mulheres. Será que elas adoecem mais, ou vivem mais que os homens? (talvez esta hipótese seja a mais provável).

Segunda: nenhum/nenhuma dos moradores são negros. Será que os negros não adoecem, ou morrem mais cedo? Mas talvez a razão, mais triste, é que a maioria dos negros não têm capacidade financeira para arcar com custo?!…

Terceira: por outro lado, a maioria das cuidadoras e cozinheiras são afrodescendentes. Pode ser que isto também se justifique pela falta de oportunidades de estudos.

Quarta (e última…): acho que mais da metade das cuidadoras são bem gordinhas e algumas definitivamente obesas, embora jovens. Não tenho qualquer hipótese para isso, embora possa parecer uma característica dessa nova geração. Mas todas são muito atenciosas e nos tratam com todo carinho.

Escrito em 31/08/2023