PERDIZES

Em 1975 comprei um apartamento na Rua Dr. Candido Espinheira, em Perdizes. Mas só nos mudamos em 1977, quando foi preciso mais espaço para os dois primeiros filhos. Hesitamos por que ficaríamos longe das vovós. Então, minha relação com Perdizes já tem mais de 43 anos. Foi uma adaptação razoavelmente fácil. Logo aprendemos que é um bairro com características interioranas ou provincianas, no bom sentido. Meus filhos têm até hoje muitos amigos da época em que residíamos no bairro. Há um sentido de pertencimento a uma comunidade e a existência de laços quase familiares. É muito comum encontrar moradores cuja família já reside no bairro há várias gerações. Morei em quatro endereços diferentes; portanto, após tanto tempo, voltei para um quinto endereço.

Logo nos primeiros dias desta reentrada pude perceber que estava em Perdizes. Quando procurava um tipo especial de máscara, entrei numa loja e perguntei. A vendedora me indicou um ambulante na esquina. Ele também não tinha aquele tipo, mas indicou uma loja – A Japonesa – ali ao lado. E lá encontrei o que queria. Outro fato típico: num sábado, apenas duas semanas após minha chegada, entrei no boteco vizinho do meu prédio e pedi uma feijoada pequena para viagem. Isso dá para eu comer dois sábados. Assim, quinze dias depois, ao entrar no boteco o balconista olhou para mim e disse. “Já sei. Uma feijoada pequena para viagem”!! E assim tem sido, a cada quinze dias. Com os funcionários do prédio, com os entregadores, com os vizinhos, com todos. Mas a maior prova da solidariedade no bairro eu experimentei na última sexta feira, dia 29.

Eu estava indo comprar presente para meu neto, Pietro, que fazia sete anos no dia. Fui para aquela loja A Japonesa, onde já havia comprado os presentes de Natal. Como estou há muito tempo sem andar, ao chegar à loja estava me sentindo muito cansado. Ia entrar na loja e pedir uma cadeira para descansar quando vi uma muretinha logo na entrada. Resolvi me sentar nela. Errei a altura, me desequilibrei e caí de cara na calçada. A batida não foi tão forte, mas foi no supercílio. E como supercílio sangra! Logo havia várias pessoas me ajudando a levantar. Vários diziam “está sangrando!”, “onde o senhor mora?”, “chama os filhos”, a vendedora ou dona da loja logo me trouxe uma banqueta para eu sentar. Alguém me trouxe um copo de água e continuavam dizendo que eu estava sangrando. Peguei meu lenço no bolso e pressionei no lugar do corte; ficou empapado (depois tive que jogar fora). Por um verdadeiro desígnio divino, meu vizinho Noemio estava indo ao banco, me viu e veio acudir. “Vou te levar para o hospital” e o valentão aqui disse que não era preciso… Um rapaz olhou o ferimento e pediu um pano na loja. O pano veio, junto com um copo cheio de gelo. Coloquei o gelo envolto no pano sobre o corte e começou a parar o sangramento. Então esse mesmo rapaz foi até a farmácia e comprou material para um curativo, incluindo luvas. Fez um curativo emergencial e o Noemio me levou para o pronto socorro. Para resumir, levei quatro pontos; fiz tomografia e não havia sangramento interno. Na hora da tomo a Camila já estava lá e depois me trouxe para casa. Já estou bem recuperado, sem o curativo hospitalar e com o hematoma bem diminuído.

Para mim, o foco desta narrativa não é o acidente em si, mas a forma como fui atendido. O jeito Perdizes de ser. A atenção de tantas pessoas que nem me conheciam, o despojamento do rapaz que me fez o curativo (depois me contou que é instrutor de Educação Física), a providencial presença do meu vizinho, etc. etc. Especialmente, agradeço a hora em que meus filhos me convenceram a desistir de mudar para Sorocaba. Se eu estivesse lá, as coisas teriam sido bem mais complicadas. Deus nos coloca em caminhos que só entendemos quando chegamos ao fim.

Escrito em 31/01/2021

PARIQUERA-AÇU

Então, aqui estamos para a segunda e última parte das minhas pequenas aventuras em Pariquera-açu.

A segunda vez que meu avô me levou para Pariquera (já tinha intimidade com a cidade…) ele tinha achado uma pensão bem familiar e lá ficamos. A dona da pensão tinha um filho, Candinho, talvez uns dois ou três anos mais velho do que eu; logo ficamos amigos. Com ele aprendi como um “esperto” da cidade grande pode ser ludibriado por um “caipira” do interior. Ele me mostrou um pequeno vidro com uma cobrinha dentro, imersa no álcool. Eu fiquei simplesmente encantado, pois nunca tinha visto uma cobra fora do zoológico ou do Butantan. E tão de perto. Fiz de tudo para que ele me desse essa cobra de presente. Ele regateou até o dia em que vínhamos embora. Então ele “não resistiu” e propôs a troca por uma lanterna novinha que eu tinha ganho da minha mãe. Antes que ele mudasse de ideia aceitei a troca! Para resumir: quando cheguei em casa minha mãe ficou furiosa:

– Além de ficar sem a lanterna quero saber o que vai fazer com essa cobra.

Aí me dei conta da bobagem que tinha feito. Não me lembro que fim levou a cobra. Anos mais tarde o Candinho veio para São Paulo e foi trabalhar no extinto Banco Bandeirantes, onde já trabalhava minha irmã Maria Zélia.

A terceira vez que meu avô me levou, meus primos Nelson Junior e Antonio Carlos (Tonino) também foram. Ele nos considerava seus sucessores na fábrica de adubo, o que nossas mães nem queriam ouvir falar.

Um dia ele nos levou para conhecer Cananéia. Pouco depois de estarmos naquela estrada de terra vimos à nossa frente um casal numa Lambretta (hoje seria uma scooter). Meu avô decidiu não ultrapassá-los para que não “comessem poeira”. Pouco mais tarde vimos a Lambretta parada. Meu avô parou:

– Precisam de ajuda?

– Não, obrigado. Ela só foi urinar ali.

Meu avô saiu depressa, porque naquela época não se falava “essas coisas” na frente de crianças… Chegando a Cananéia ele resolveu nos mostrar a Ilha Comprida. O acesso era por balsa. Na volta, quando faltava só um pouquinho para a balsa atracar o Junior começou a pular da balsa para o atracadouro e do atracadouro para a balsa. Meu avô gritava para ele não fazer isso, mas ele não atendia. Quando faltavam poucos centímetros para a balsa atracar o Junior pulou, a balsa inesperadamente bateu no atracadouro e voltou. Por muito pouco meu primo não caiu no vão que se formou. Faltou pouco para meu avô lhe dar uma surra.

Tínhamos permissão ir e voltar à pé do sitio. Eram uns dois quilômetros da cidade. Achávamos o máximo andar cumprimentando pessoas que nunca tínhamos visto:

– “…dia”.

– “…dia”.

Logo na entrada do sítio ficava a casa do caseiro e alguns casebres dos colonos, com suas hortas de subsistência.  Aí começava um leve declive que terminava num riacho. Depois desse riacho ficava o bananal, e as bananas eram embaladas para exportação. Depois do bananal havia uma colina não muito alta onde meu avô plantava café, para fugir das geadas. Para atravessar o riacho a “ponte” era um tronco de árvore, sobre o qual a gente tinha que se equilibrar. Um dia meu avô caiu e ralou a perna. Foi um susto!

À beira desse riacho aprendemos a fumar. Adivinha quem foi o “professor”? Isso, o Candinho!! Ele comprou um maço de EF, um cigarro com filtro, que era mais barato que um sem filtro. Fomos para a beira d’água e começamos a queimar os cigarros. Depois que acabamos, nos demos conta que iríamos chegar em casa fedendo a cigarro. Mas o Candinho sabia como resolver o problema. Pegou uma folha bem larga que havia ali e fez um cone no qual bebemos água e o cheiro saiu. Sábio conhecimento interiorano! Com isso ficamos mais tempo e já começava escurecer quando íamos voltar. Nisso o Junior disse que tinha torcido o pé e não aguentaria ir até a pensão. Então eu e o Tonino fomos sozinhos pedir para o meu avô buscar o Junior. Ele ficou preocupado e logo saímos em busca dele. Estávamos quase chegando quando vimos meu primo caminhando normalmente pela estrada, ao lado de um transeunte. O medo de ficar sozinho tinha sido maior que o de caminhar à noite…

Não sei por que esta foi a última vez que fui a Pariquera…

Escrito em 28/01/2021

SKODA

Essa era a marca do primeiro carro que me lembro do meu avô Bindo. É marca da antiga República da Checoslováquia, hoje dividida entre República Checa e Eslováquia; essa fábrica ainda existe e faz parte do complexo VW. A bordo desse carro (mais ou menos do tamanho de um Etios) vivi muitas pequenas aventuras. Vou contar algumas. Na época desses fatos eu teria, talvez, entre 12 e 14 anos.

Os mais novos não saberão do que estou falando, mas perguntem a seus pais e eles explicam. Quando meu avô comprou o carro, mandou fazer uma retífica no motor. E os motores novos ou retificados tinham que ser amaciados. Essa etapa consistia em andar por alguma estrada onde pudesse ser mantida uma velocidade mais ou menos constante em torno dos 60 km/h. E parar com alguma frequência. E, para evitar buzinas dos impacientes, pregava-se um aviso no vidro traseiro “MOTOR AMACIANDO”. Meu avô me convidou para ir com ele amaciar o motor do Skoda. Escolheu a região canavieira em torno de Capivari, onde seria mais fácil cumprir esse processo. Passamos o dia de alambique em alambique; de vez em quando meu avô fazia uma parada para o motor esfriar e punha um garrafão de pinga no porta-malas. E, às vezes, parava num boteco à beira da estrada para comermos. Depois desse dia, tenho certeza, nasceu meu gosto por pinga de alambique (mas não tomei!) e comida de boteco.

Um dia meu avô me convidou para ir com ele para Pariquera-açu. Ele havia comprado um sitio por lá. Esta cidade parecia aquelas cidades de filme de faroeste. Ficava, literalmente, às margens da estrada que liga Registro a Iguape e Cananéia. A estrada era a única rua da cidade. Ficamos no único “hotel” da cidade, pouco mais que uma pequena hospedaria. Durante os três dias que ficamos lá comemos arroz com marisco no almoço e no jantar e ele jurou que não voltaria mais se não achasse outro lugar para ficar.

Aqui um parêntesis. Ir de São a Pariquera-açu era por si só uma aventura. Ainda não existia Rodovia Padre Manoel da Nóbrega. Então o caminho era pela praia, na areia. Isso exigia habilidade do motorista. Tinha que conduzir o carro pela parte úmida da areia, para não encalhar. De tempos em tempos havia a foz de algum riacho, pela qual tínhamos que passar bem na beira da água para não atolar. Ao chegar a Itanhaém a foz era muito profunda e era necessário entrar na cidade e atravessar pela ponte ferroviária, onde um funcionário sinalizava se podia passar ou se tinha que aguardar o trem passar. Em Peruíbe comíamos tainha recheada no restaurante A Ponte, que tinha seu próprio barco de pesca e servia peixes fresquíssimos. Décadas depois, quando comprei casa lá, o restaurante ainda existia e continuava muito bom. De Peruíbe seguíamos pela rodovia Pedro Taques, de terra, em direção ao que seria, bem mais tarde, a BR-116. Para atravessar o rio Ribeira tinha que embarcar numa “balsa”: vários tambores vazios amarrados a pranchas de madeira. O conjunto era preso a um cabo de aço que era ligado a outro cabo de aço que atravessava o rio. Uma pequena lancha empurrava tudo isso de um lado para o outro.

Bem há muitas outras aventuras em Pariquera, mas vou deixar para amanhã, se não fica muito logo.

Escrito em 27/01/2021

DOCES DAS VOVÓS

(mais uma vez sem inspiração, publico texto de 2014)

Sempre que vou andar no Parque da Água Branca, em São Paulo, passo várias vezes por esta banquinha. Meu primeiro pensamento é experimentar uma dessas delícias. Quase sempre resisto. Mas, como era domingo, deixei minha imaginação ir muito além desse desejo imediato. Comecei a imaginar que doces como o quebra-queixo vão, pouco a pouco, abandonando nosso dia-a-dia e se tornando parte da história. Virando doces lembranças de vidas (primeira foto) menos complicadas. Doces lembranças… Talvez o quebra-queixo seja um dos últimos doces antigos que a geração dos meus filhos ainda conheça. Para quem já não sabe mais do que se trata, aqui vai uma foto (segunda foto)

dessa cocada super apurada e consistente, que pode quebrar o queixo de quem a mastigar com muita ganância. Para os mais velhos o perigo é mais para as pontes, pivôs, coroas e dentaduras…

São doces de outra época. Lembro do machadinho, um bloco de uma massa em ponto de bala num tabuleiro, que exigia uma machadinha ou talhadeira para arrancar lascas que eram chupadas lentamente. Eram doces de uma época em que doceria era tida como uma palavra errada e doceira era uma mulher que fazia doces quase artesanais. Quase todas as nossas mães eram doceiras e faziam delícias como ambrosia, baba de moça, espera marido, babá ao rum, curau e tantas outras que já nem me lembro. Para os aniversários era produzidos bombocados, queijadinhas, quindim, cajuzinhos de amendoim, beijinhos (com a indefectível folhinha de buxo como enfeite), canudinhos de doce de leite e de cocada, olho de sogra e tijolinhos de doce de leite.E mais, os doces de batata e abóbora que eram pingados ficavam secando por dias em grande tabuleiros.

O auge desses doces, para mim, era o pizen, feito pela minha Vó Cecília. Era um suspiro gigante recheado com doce de ovos. Este é o ícone dos doces que só continuam existindo em nossas lembranças. Os doces de nossas avós – alguns – ainda são feitos por algumas avós de hoje. Mas parecem condenados a sumir dos nossos olhos. Símbolos de um doce tempo que, assim como as doces vovós, não voltarão mais.

Escrito em 22/05/2014

NINA E ZECA

O dia amanhecera garoento e com a temperatura um pouco mais baixa que o normal para dezembro. Nina e Zeca acordaram e trocaram algumas carícias antes de saírem da “cama”. Esta era algumas folhas de papelão para evitar o frio do chão. Levantaram-se e saíram para fora da “casa”. Era uma folha grande plástico amarrada numa árvore nos baixos da passarela que passa sobre o minhocão, formando como que uma cabaninha. Estava começando mais um dia de dura luta pela sobrevivência.

Nina atravessou a rua enquanto um senhor saia pela porta do prédio 23 da Rua Cardoso de Almeida. Nina se dirigiu a ele:

-Oi tio, bom dia. Pode me dar um dinheirinho para o café da manhã? Estou grávida e aquele é o meu marido, apontando para um homem na esquina que mexia numa dessas carrocinhas de coleta de papelão.

Por alguma razão, contrariando seu princípio de não dar esmola, este senhor deu-lhe o trocado que tinha na carteira. Foram cinco reais. Ela entrou no boteco ao lado, enquanto o senhor continuava seu caminho pensando qual a expectativa de uma moradora de rua grávida.

Enquanto isso o marido dela começava seu trabalho diário. Puxava a carroça enquanto procurava restos de papelão. Ele costumava achar bastante papelão resultado das embalagens descartadas pelos comerciantes. Até já sabia quais eram as ruas mais promissoras. Porém, com a pandemia e a mudança dos hábitos de consumo, sua tarefa ficou mais difícil e trabalhosa. Muitas vezes, ao final de um dia inteiro de trabalho, ele não conseguia juntar papelão suficiente para vender e ganhar o dinheiro para o jantar. O almoço dependia da caridade de donos de bares e restaurantes. Muitas vezes ele deixava de almoçar para poder comprar o jantar.

Enquanto isso Nina, perambulava pelas redondezas fazendo pequenos favores em troca de uns trocados. Ajudar uma idosa a atravessar a rua, ajudar uma pessoa a carregar sacolas de compras, etc. Fazia isso com um sorriso no rosto e tratando as pessoas com muita alegria. Nem sempre ela conseguia juntar mais que suficiente para um pão com manteiga e um café com leite. Mas ela continuava a busca do seu sustento, enquanto aguardava a volta do Zeca e torcia para que ele tivesse tido um bom dia.

Quando o sol já estava se pondo ela estava na porta de casa esperando pela chegada do Zeca. Dali a pouco ele chegava. Tinha sido um dia ótimo! Ele trazia trinta reais no bolso. O suficiente para o jantar de hoje e para o dia seguinte, caso o resultado do trabalho não fosse tão. Entraram no boteco e pediram uma quentinha com um comercial. Custava dezessete reais mas o dono fez por dez e ainda colocou um ovo a mais. Foram para a porta da sua casa e comeram seu banquete.

Da janela do seu apartamento aquele mesmo senhor obsevava atentamente a cena quando foi surpreendido por algo inesperado. Terminada a refeição, o casal se abraçou e se beijou com muito carinho. Daquele modo que só pessoas de bem com a vida conseguem. E entraram ma casa como estivessem entrando num motel de luxo. E o senhor pensou “como as pessoas podem ser felizes com tão pouco…?”.

Escrito em 25/01/2021

PÉ DE MOLEQUE

Você já sentou numa roda de chopp com vários piadistas no grupo?  É muito divertido. Funciona assim: alguém começa contando uma piada; aí outra pessoa diz “isso me faz lembrar daquela que…”. Assim você pode passar várias horas tomando chopp e ouvindo piadas. Foi mais ou menos o que me aconteceu ontem quando eu escrevia sobre Capivari. Então me lembrei da história a seguir.

Primeiro tenho que explicar aos mais novos que naquela época era muito complicado usar o telefone. De Capivari para São Paulo era preciso pedir a uma telefonista local. Ela então dava uma previsão de quando a ligação seria feita. Geralmente era preciso esperar dois a três dias!… E era preciso ficar de plantão no dia e hora marcados, se não sua ligação voltava ao fim da fila. Mais para a frente você vai entender o por quê desta explicação aparentemente fora do contexto.

Minha mãe era uma excelente cozinheira, como boa Mamma de descendência italiana. Ela fazia um pé de moleque como não se faz mais. Eu tirava a casca dos amendoins que ela mesma torrava. Era um trabalho de muita paciência. Valia a pena pelo resultado. Mas o primeiro pé de moleque foi inesquecível. E foi em… Capivari. Minha mãe e minhas tias Alzirinha e Jandira resolveram fazer pé de moleque. Algo que nunca tinham feito. O pé de moleque é feito numa panela e despejado numa superfície lisa para endurecer e depois ser quebrado. Bem, neste caso, elas julgaram que já era hora de despejar. Viraram a panela e… nada. Aquela massa se recusou a sair da panela. Por mais que fosse puxada, nada! Então a panela foi para cima da mesa e nós fomos autorizados a pegar com uma colher. Chegamos a quebrar o cabo de algumas colheres. Quando conseguíamos um bocadinho ficávamos vários minutos mascando aquele grude até que se derretesse na boca. Agora entra a história do telefone. Durante uma sessão coletiva de degustação imperava o silêncio de todos enquanto esperavam o pé de moleque derreter na boca. Nessa hora tocou o telefone. Era o dia D, hora H (rsrs) para uma ligação de São Paulo. Era meu tio Bindo respondendo ao pedido de ligação. Foi um Deus nos acuda para cuspir o que tínhamos na boca e atender ao telefone.

Mas se você acha que a história acabou assim, está muito enganado (ou enganada). Aquelas mulheres eram determinadas! Resolveram fazer nova receita, ajustando o que tinha dado errado. Na hora de virar a panela, vitória! Aquele melado todo escorreu e se espalhou sobre a mesa de madeira da cozinha. Ainda faltava esperar esfriar para quebrar em pequenos pedaços e irmos saboreando aos poucos. O doce esfriou e chegou a hora de terminar. Tentamos levantar com as mãos e nada aconteceu. Tentamos enfiar por uma faca por baixo daquela rocha e… nada! Tentamos o batedor de carnes e só conseguimos tirar umas míseras lasquinhas. Para resumir, era preciso recuperar a mesa da cozinha. Qual foi a solução? Cada vez que chovia a mesa era levada para fora e ficava na chuva. Depois nós íamos lamber o pouco que a chuva tinha derretido. Não me lembro de quanto tempo demorou para a mesa ficar livre do pé de moleque. Mas seguramente não foram poucos dias.

Escrito em 22/01/2021

CAPIVARI

Hoje, enquanto eu esperava pacientemente (até porque não tinha outra alternativa…) a consulta com a cirurgiã que vai operar minha catarata, me veio a ideia de escrever, de vez em quando, minhas memórias da infância e juventude. Então aqui vai a primeira dessas lembranças.

Quando eu era um menino, meu avô Bindo tinha uma fábrica de adubo na cidade de Capivari. Ficava um pouco fora da cidade. Chegava-se ao terreno da fábrica por uma rua de terra que passava por uma ponte de madeira. Em frente ao enorme portão de entrada o tráfego (quase nenhum) tinha que dobrar à direita e passar por cima da estrada de ferro e assim entrar na estrada que ia para outra cidade. Antes desse portão, do lado esquerdo, havia com correr de cinco ou seis casinhas geminadas que eram a residência de vários operários da fábrica e suas famílias. Era o costume dos industriais da época. Passando o portão, ao lado esquerdo ficava o escritório e ao lado uma casa muito grande que abrigava os diretores e suas famílias em férias. Para nós, crianças, era o sitio de Capivari onde passávamos muitas férias. Eram muitas coisas diferentes do que estávamos acostumados na cidade grande. Tudo era diferente.

Por aquela rua de terra e na estrada passavam caminhões carregados de cana de açúcar para um engenho da região. Quando os caminhões tinham que parar, para esperar o trem passar, pedíamos cana e o pessoal do caminhão nos jogava algumas. Eram cortadas pelos nós, descascadas e cortadas em palitos, que íamos chupando e mascando. Por esse mesmo caminho passavam boiadas tocadas por vaqueiros a cavalo. Vez por outra um boi escapava e entrava pelo portão. Ficávamos apavorados, corríamos para casa e nos escondíamos até que os vaqueiros entrassem e tocassem o boi de volta.

Esse portão foi palco de algo que não me esqueço: meu primeiro e único banho de lama. Na época da seca a prefeitura fazia circular pela cidade um caminhão pipa com um chuveirinho atrás, para molhar as ruas e diminuir a poeira. Não sei por que cargas d’água um dia esse caminhão parou bem do lado do portão e ficou escorrendo água até formar uma poça de lama. Eu e meus primos, com autorização das mães, entramos nessa lama, só de cueca, e nos esbaldamos em rolar na lama.

Como falei, a estrada de ferro passava ao lado da fábrica. A locomotiva era Maria-fumaça e fazia ligação com a capital. Eu adorava quando o trem passava à noite e podíamos ver as fagulhas saindo da chaminé. Esse trem também era motivo de outra aventura. A fábrica contava com um desvio ferroviário para carga e descarga. Eu adorava ver a locomotiva manobrar, entrando de ré deixando vagões com matéria primas (geralmente ossos de boi ou um produto em pó que vinha do Chile) ou levando vagões com sacos de cimento.

Pois foi exatamente aí que aconteceu o que vou contar. Uma vez meu tio Jairo, irmão caçula da minha mãe, que morava na casa e tomava conta da fábrica, levou eu e meus primos Antonio Carlos (Tonino) e Junior (Nelson) para lá. Tio Jairo era muito brincalhão e punha apelido em todos os sobrinhos. O meu era Paulo Salsa… Durante a viagem ele dizia que estávamos no caminho certo porque sentia um cheiro de papel amassado; depois, que estávamos bem perto porque dava para sentir cheiro de papel rasgado… Então, um dia eu e meus primos entramos no depósito onda havia sido descarregada uma verdadeira montanha daquele produto em pó, que parecia areia. Não deu outra. Passamos a subir no monte e vínhamos escorregando ladeira abaixo. Tínhamos inventado a diversão das dunas do Rio Grande do Norte! Mas alguns operários viram o que estávamos fazendo e foram avisar meu tio. Ele veio muito bravo e nos tirou imediatamente dali e nos mandou tomar banho. E ameaçou: “Isso é adubo! Agora vocês vão ter que cortar a unha três vezes por dia…”. Confesso que passei vários dias observando o que estava acontecendo com a minha unha.

Escrito em 21/01/2021

SANTA OLÍMPIA

Minha vida foi marcada por mudanças e inovações. A maior parte por circunstâncias e nem sempre por meu desejo. Hoje vou contar a primeira dessas mudanças.

Em 1966 fui aprovado no vestibular da FEI. Além do fato da aprovação em si fiquei muito feliz porque a FEI ficava na Rua São Joaquim, no bairro da Liberdade. A 15 minutos a pé da minha casa. E lá fui eu todo lampeiro fazer minha matrícula. Quando cheguei lá, surpresa! A FEI tinha oferecido 300 vagas para o primeiro ano. Por um lado foi bom porque possibilitou minha classificação. Por outro, o primeiro ano teria que ser cursado no campus novo que estava sendo em construído em São Bernardo do Campo. Eu só sabia que São Bernardo ficava no caminho de Santos. Bem longe… E só os veteranos continuavam no campus da Liberdade.

E lá fui eu para aquela lonjura. Saia de casa muito cedo para pegar o ônibus para São Bernardo. Ou ia a pé até a Av. do Estado ou tomava o ônibus elétrico e fazia baldeação na Av. Nazaré. (Uma curiosidade: na Nazaré passava um ônibus da Viação Urubupungá, com destino a São Sebastião. Ao lado, externamente, levava penduradas pás e picaretas…). Em São Bernardo descia ao lado do paço municipal e começava a aventura de verdade. Tomava uma jardineira que passava ao lado da FEI. Tínhamos ainda que andar uns 100 metros por um caminho de terra. E quando chovia a jardineira parava mais longe, para não atolar. E aí íamos todos amassando barro e chegávamos imundos para a aula. Esse campus ficou conhecido como Santa Olímpia. Porque a área tinha sido doada pelo dono do Haras Santa Olímpia que estava bem ao lado.

Para se ter uma ideia sobre quanto era longe, aconteceu a história mesmo que eu quero contar. Acho que eu já estava no segundo ano quando a antiga TV Excelsior, canal 9, decidiu encenar a novela “As Minas de Prata”, de José de Alencar, escrita em 1865. Para locação externa eles procuraram o lugar mais perto de São Paulo que não tivesse sons modernos. E adivinha? Alugaram o Haras Santa Olímpia… Além de tomarmos ônibus com vários artistas (como a Débora Duarte…), todos os dias convivíamos com os artistas caracterizados, que vinham almoçar no imenso restaurante do campus. Tudo ia bem até que… A FEI ganhou alguns ônibus para fazer a linha de Santa Olímpia para São Paulo. Os ônibus ficavam estacionados nos fundos do campus, bem próximos do Haras. E na hora da saída, tocavam estridentemente a buzina para chamar os alunos. Se, nessa hora, estivesse havendo gravação o trabalho era perdido. Foi preciso negociar o horário exato para tocação das buzinas para que as gravações fossem interrompidas por alguns minutos. Até hoje me divirto com essa lembrança.

A EVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

Charles Darwin formulou essa teoria bem conhecida. De uma forma extremamente simplificada ela diz que os seres vivos competem pela sobrevivência. E vence o que for mais forte. Para escrever este post fui pesquisar no Google. Fiquei impressionado com a profundidade da teoria e da sua interpretação em quase todos os campos do conhecimento e do debate acadêmico. Mas o que eu queria era saber sobre o negacionismo. Mais uma vez vou ser superficial, pois não me sinto preparado para analisar o assunto em sua profundidade.

Basicamente, o negacionismo significa negar a validade de um determinado conhecimento para validar uma tese contrária. No caso da teoria de Darwin, no que se refere à vacina em geral, a informação é simplesmente chocante! E esse chamado negacionismo vacinal é ou foi incentivado por um descendente de Darwin. Segundo esse movimento, que já existe há décadas na Europa, a aplicação de vacinas contraria a lei da evolução das espécies. Porque a vacina faz com que nem sempre o mais forte vença. Ou seja, a vacina protege os mais fracos das doenças que os matariam!!! É uma teoria terrível, que deseja a morte dos mais fracos para a melhoria da raça humana. Esse movimento tem influenciado a diminuição da vacinação, acarretando a volta ou recrudescimento de algumas doenças, muitas fatais ou incapacitantes. Nada mais nazista, né?

Então vejamos o que está acontecendo nos nossos dias com a vacina contra a COVID-19. Vamos deixar à parte as questões políticas e nos concentrar nos “negacionistas de carteirinha”. Eles estão atuando através de fake news e outros recursos alarmistas, que estão deixando todos em dúvida sobre a qual a melhor vacina ou qual a melhor origem das vacinas. Um enorme número de pessoas está em dúvida se devem ou não ser vacinadas. É isso que os negacionistas querem e, se deixarmos, vão conseguir fazer com que não nos protejamos adequadamente. Levam o debate paro campo da  discussão sem nenhuma base científica. E disseminam o medo.

Qual o antídoto? Não acreditar em tudo que está na Internet sobre o assunto. Tem que acreditar nos cientistas, muito competentes. Afinal, há mais de um século temos recebido vacinas que salvaram talvez bilhões de vidas. Sempre tomamos vacinas, levamos nossos filhos e netos para cumprir o calendário de vacinação. Nunca nos perguntamos se as vacinas vinham da China, da Índia, da Alemanha, do Japão. (Aliás, a Índia e a China são os maiores produtores mundiais de insumos para vacina). Nunca analisamos os resultados das pesquisas clínicas, seja para vacinas, seja para qualquer remédio.

 Então, EU me recuso a assumir o papel do mais fraco que vai sucumbir a uma doença por falta de vacina!!!!

Escrito em 18/01/2021

O CIRCO MAMBEMBE

EXPLICAÇÃO: hoje eu deveria falar sobre a vacina, né? Mas foi tanto tempo acompanhando o assunto que me faltou inspiração para o blog. Prometo que amanhã vou abordar o tema vacina. Então estou republicando um dos poucos textos que me sobraram do antigo blog. Foi escrito em maio de 2016 e eu estava começando a criar a personagem – Joca – que eu pretendia usar em certos textos. Então ai vai Joca falando sobre O CIRCO MAMBEMBE.

Pois é, ontem foi Dia dos Pais e é inevitável que as lembranças do meu flutuem novamente nos meus sonhos de olhos abertos. Enquanto eu assistia a um jogo de futebol (Futebol??? Isso??) pelo Campeonato Brasileiro eu lembrava dos tantos jogos que eu vi ao lado dele. Neste domingo me veio à mente a história do circo mambembe. Tínhamos acabo de ver um jogo da UEFA e estávamos olhando uma partida do Brasileirão (quando ainda havia bons jogos). E ele começou:

– Joca, você já ouviu falar de circo mambembe?

– Pai, já ouvi a expressão mambembe, mas não tenho certeza se sei o que significa.

– Circo mambembe era um tipo de circo bastante comum nas cidades do interior e nos arrabaldes das cidades maiores. Tinham pouca estrutura. Uma lona pequena, arquibancas de madeira, alguns trailers onde moravam os artistas (troupe), algumas jaulas onde se guardavam animais injustamente anunciados como “feras”. O circo era transportado de maneira mais ou menos fácil e rápida, em função do sucesso ou insucesso em cada praça. O que manteve os circos ao longo dos séculos foi a habilidade e a genialidade dos seus artistas. Malabaristas, domadores, equilibristas, contorcionistas, mágicos, palhaços e outros. Cada um na sua especialidade, embora muitos exercessem mais de um papel. Era um mundo ao mesmo tempo duro e fantástico, alternando entre sonhos e desilusões. Alegrou tardes e noites de muita gente, como eu mesmo, que adorava ir ao circo.

Depois de um longo suspiro, meu encerrou:

– Pena que tudo isso acabou… você nem chegou a ver um circo mambembe…

Claro, logo perguntei:

– Que aconteceu, pai? Por que o circo sumiu?

– Não, Joca, o circo não sumiu. Ele se transformou. O que sumiu foram os circos mambembes, com suas troupes que trabalhavam por amor, quase em troca de casa e comida, em nome de tradições familiares. Hoje o circo se apresenta como um espetáculo plástico maravilhoso, amparado por produções milionárias, com estrutura profissional incomparável, empresas estruturadas, com orçamentos a cumprir e metas a serem atingidas. É a era do Cirque du Soleil. Os artistas trabalham com as mesmas técnicas milenares: mágicos, palhaços, trapezistas, etc. Hoje, no circo, talento ainda é fundamental, mas não basta. Os artistas precisam se reinventar, achar novas formas de usar seus talentos, treinar com afinco. São profissionais muito bem remunerados, em troca do espetáculo maravilhoso que entregam a um público muito exigente, todas as noites.

– Pai, acho que estou entendendo por que você me contou isso agora.

– Sim, Joca, você é bem esperto. O que acabamos de ver, a UEFA, é o Cirque du Soleil do futebol. Esse jogo medíocre que estamos vendo pelo Brasileirão, infelizmente, é o futebol brasileiro se tornando um circo mambembe…

Hoje, pensando na última Copa do Mundo no Brasil, e olhando a pobreza dos jogos que tenho assistido, fico pensando como meu pai era sábio e visionário em suas análises…