Em 1975 comprei um apartamento na Rua Dr. Candido Espinheira, em Perdizes. Mas só nos mudamos em 1977, quando foi preciso mais espaço para os dois primeiros filhos. Hesitamos por que ficaríamos longe das vovós. Então, minha relação com Perdizes já tem mais de 43 anos. Foi uma adaptação razoavelmente fácil. Logo aprendemos que é um bairro com características interioranas ou provincianas, no bom sentido. Meus filhos têm até hoje muitos amigos da época em que residíamos no bairro. Há um sentido de pertencimento a uma comunidade e a existência de laços quase familiares. É muito comum encontrar moradores cuja família já reside no bairro há várias gerações. Morei em quatro endereços diferentes; portanto, após tanto tempo, voltei para um quinto endereço.
Logo nos primeiros dias desta reentrada pude perceber que estava em Perdizes. Quando procurava um tipo especial de máscara, entrei numa loja e perguntei. A vendedora me indicou um ambulante na esquina. Ele também não tinha aquele tipo, mas indicou uma loja – A Japonesa – ali ao lado. E lá encontrei o que queria. Outro fato típico: num sábado, apenas duas semanas após minha chegada, entrei no boteco vizinho do meu prédio e pedi uma feijoada pequena para viagem. Isso dá para eu comer dois sábados. Assim, quinze dias depois, ao entrar no boteco o balconista olhou para mim e disse. “Já sei. Uma feijoada pequena para viagem”!! E assim tem sido, a cada quinze dias. Com os funcionários do prédio, com os entregadores, com os vizinhos, com todos. Mas a maior prova da solidariedade no bairro eu experimentei na última sexta feira, dia 29.
Eu estava indo comprar presente para meu neto, Pietro, que fazia sete anos no dia. Fui para aquela loja A Japonesa, onde já havia comprado os presentes de Natal. Como estou há muito tempo sem andar, ao chegar à loja estava me sentindo muito cansado. Ia entrar na loja e pedir uma cadeira para descansar quando vi uma muretinha logo na entrada. Resolvi me sentar nela. Errei a altura, me desequilibrei e caí de cara na calçada. A batida não foi tão forte, mas foi no supercílio. E como supercílio sangra! Logo havia várias pessoas me ajudando a levantar. Vários diziam “está sangrando!”, “onde o senhor mora?”, “chama os filhos”, a vendedora ou dona da loja logo me trouxe uma banqueta para eu sentar. Alguém me trouxe um copo de água e continuavam dizendo que eu estava sangrando. Peguei meu lenço no bolso e pressionei no lugar do corte; ficou empapado (depois tive que jogar fora). Por um verdadeiro desígnio divino, meu vizinho Noemio estava indo ao banco, me viu e veio acudir. “Vou te levar para o hospital” e o valentão aqui disse que não era preciso… Um rapaz olhou o ferimento e pediu um pano na loja. O pano veio, junto com um copo cheio de gelo. Coloquei o gelo envolto no pano sobre o corte e começou a parar o sangramento. Então esse mesmo rapaz foi até a farmácia e comprou material para um curativo, incluindo luvas. Fez um curativo emergencial e o Noemio me levou para o pronto socorro. Para resumir, levei quatro pontos; fiz tomografia e não havia sangramento interno. Na hora da tomo a Camila já estava lá e depois me trouxe para casa. Já estou bem recuperado, sem o curativo hospitalar e com o hematoma bem diminuído.
Para mim, o foco desta narrativa não é o acidente em si, mas a forma como fui atendido. O jeito Perdizes de ser. A atenção de tantas pessoas que nem me conheciam, o despojamento do rapaz que me fez o curativo (depois me contou que é instrutor de Educação Física), a providencial presença do meu vizinho, etc. etc. Especialmente, agradeço a hora em que meus filhos me convenceram a desistir de mudar para Sorocaba. Se eu estivesse lá, as coisas teriam sido bem mais complicadas. Deus nos coloca em caminhos que só entendemos quando chegamos ao fim.
Escrito em 31/01/2021


