SKODA

Essa era a marca do primeiro carro que me lembro do meu avô Bindo. É marca da antiga República da Checoslováquia, hoje dividida entre República Checa e Eslováquia; essa fábrica ainda existe e faz parte do complexo VW. A bordo desse carro (mais ou menos do tamanho de um Etios) vivi muitas pequenas aventuras. Vou contar algumas. Na época desses fatos eu teria, talvez, entre 12 e 14 anos.

Os mais novos não saberão do que estou falando, mas perguntem a seus pais e eles explicam. Quando meu avô comprou o carro, mandou fazer uma retífica no motor. E os motores novos ou retificados tinham que ser amaciados. Essa etapa consistia em andar por alguma estrada onde pudesse ser mantida uma velocidade mais ou menos constante em torno dos 60 km/h. E parar com alguma frequência. E, para evitar buzinas dos impacientes, pregava-se um aviso no vidro traseiro “MOTOR AMACIANDO”. Meu avô me convidou para ir com ele amaciar o motor do Skoda. Escolheu a região canavieira em torno de Capivari, onde seria mais fácil cumprir esse processo. Passamos o dia de alambique em alambique; de vez em quando meu avô fazia uma parada para o motor esfriar e punha um garrafão de pinga no porta-malas. E, às vezes, parava num boteco à beira da estrada para comermos. Depois desse dia, tenho certeza, nasceu meu gosto por pinga de alambique (mas não tomei!) e comida de boteco.

Um dia meu avô me convidou para ir com ele para Pariquera-açu. Ele havia comprado um sitio por lá. Esta cidade parecia aquelas cidades de filme de faroeste. Ficava, literalmente, às margens da estrada que liga Registro a Iguape e Cananéia. A estrada era a única rua da cidade. Ficamos no único “hotel” da cidade, pouco mais que uma pequena hospedaria. Durante os três dias que ficamos lá comemos arroz com marisco no almoço e no jantar e ele jurou que não voltaria mais se não achasse outro lugar para ficar.

Aqui um parêntesis. Ir de São a Pariquera-açu era por si só uma aventura. Ainda não existia Rodovia Padre Manoel da Nóbrega. Então o caminho era pela praia, na areia. Isso exigia habilidade do motorista. Tinha que conduzir o carro pela parte úmida da areia, para não encalhar. De tempos em tempos havia a foz de algum riacho, pela qual tínhamos que passar bem na beira da água para não atolar. Ao chegar a Itanhaém a foz era muito profunda e era necessário entrar na cidade e atravessar pela ponte ferroviária, onde um funcionário sinalizava se podia passar ou se tinha que aguardar o trem passar. Em Peruíbe comíamos tainha recheada no restaurante A Ponte, que tinha seu próprio barco de pesca e servia peixes fresquíssimos. Décadas depois, quando comprei casa lá, o restaurante ainda existia e continuava muito bom. De Peruíbe seguíamos pela rodovia Pedro Taques, de terra, em direção ao que seria, bem mais tarde, a BR-116. Para atravessar o rio Ribeira tinha que embarcar numa “balsa”: vários tambores vazios amarrados a pranchas de madeira. O conjunto era preso a um cabo de aço que era ligado a outro cabo de aço que atravessava o rio. Uma pequena lancha empurrava tudo isso de um lado para o outro.

Bem há muitas outras aventuras em Pariquera, mas vou deixar para amanhã, se não fica muito logo.

Escrito em 27/01/2021

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