UM ENGENHEIRO GRANDE

Não, você não leu errado. É um Engenheiro Grande mesmo. Por isso está nesta história.

Entrei na FEI em 1966 e saí em 1970. Nesse período aconteceu muita coisa e aos poucos vou lembrando e contando aqui o que eu achar de mais interessante.

Muitos estudantes eram de fora de São Paulo. Tinha gente de Santo Anastácio, Presidente Epitácio, Presidente Prudente, Marilia, Vitória (ES) e outras, incluindo Ribeirão Preto. Foram se acomodando em pensões e repúblicas em São Paulo e São Bernardo do Campo. Esta história é sobre um colega de Ribeirão Preto que, acreditou – como eu – que íamos frequentar o campus tradicional da FEI, no bairro da Liberdade. Ele foi para uma pensão bem próxima desse campus. Quando fomos para São Bernardo, ele optou por ficar nessa pensão. Bem perto de onde eu morava. Por isso, tivemos uma certa convivência. Muitas vezes fui estudar com ele no seu quarto de pensão. Não era muito agradável o odor desse quarto. Ele não tinha costume de tomar banho diariamente. Não tinha ordem com suas coisas. E não usava meias nem sapato; usava uma galocha que gerava um tremendo chulé. Mas não eram esses os traços mais marcantes desse colega. Primeiro, ele tinha um bom humor contagiante, que usava para se safar das situações mais difíceis; ele era um exímio colocador de apelidos. Segundo, era enorme. Cerca de 1,90m de altura e pesava uns 150 kg. Daí o título de desta crônica. Também usava esse porte sempre que necessário. Vou chamá-lo de Aparecido.

Posto esse preâmbulo, vamos aos fatos. Eu já era um calouro, ou “bicho”, como nos chamavam os veteranos. Como parte da recepção tínhamos que usar, no ambiente universitário, um “babador”. Tinha o formato de uma ferradura, com o desenho de uma ferradura como moldura. Servia para nos identificar. Na época a FEI fazia parte da PUC. Então, dentro dessa ferradura estava escrito: ”Eu – NOME – sou filho da PUC”. E, quando não respondíamos corretamente às perguntas mais absurdas ou fazíamos algum ato de “rebeldia”, os veteranos faziam um “x” no babador, para um “banho de rosas” no dia do trote oficial. Depois soubemos que era apenas nos assustar pois esse banho de rosas nunca existiu.

Uma das diversões favoritas dos veteranos era aproveitar os intervalos das aulas para entrar nas classes, munidos de pincel atômico, e pintar os bichos, no rosto ou nos braços. Isso acontecia todo dia e o dia todo. Pois uma vez uma vez, quando os veteranos entraram na minha sala, prontos para mais uma sessão de pintura, tiveram uma surpresa. Mal eles entraram ouviu-se uma voz lá do fundo:

– Hoje não vão pintar ninguém, não!

Um veterano falou:

– Quem é o engraçadinho? Pode vir aqui na frente, que vai ser o primeiro a ser pintado.

– Se eu for aí vocês é que serão pintados!

– Então venha, bicho atrevido.

Meu colega grandalhão, o Aparecido, levantou-se e veio andando. Os veteranos ficaram realmente pasmos e assustados, sem saber o que fazer. Quando chegou à frente da sala, o Aparecido tomou o pincel da mão de um veterano e, efetivamente, o pintou. Enquanto os veteranos fugiam apavorados, o Aparecido gritou:

– Quem chegar perto desta turma vai ser pintado!!

Desse dia em diante, quando entravam na sala da minha turma os veteranos primeiro se cerificavam se o Aparecido estava lá. Quando estava, eles iam embora e nós ficávamos livres da pintura.

Escrito em 29/06/2021

FOTOMENSAGEM – 12

Estamos chegando ao fim… Só mais a 13 e a 14. Depois volto aos novos textos. Nestas semanas sabáticas me correram várias ideias. Que bom! Já estou com síndrome de abstinência…

Escrito em 23/100/1985

Publicado em 19/06/2021

UM DOMINGO FELIZ

Ontem eu tive um desses momentos felizes a que já me referi em algum post deste blog. Por várias razões. A primeira é que foi minha primeira viagem de lazer desde 2019. Primeiro pelo estado de saúde da Viviane, depois também pela pandemia. A convite de minha irmã Maria Zélia, fomos passar o dia em Pindamonhangaba, na casa da prima Heloisa e seu marido José Roberto. Como estamos aprendendo a valorizar coisas a que não dávamos muita importância! Já fiz incontáveis vezes esse trajeto, para Pinda e Aparecida. Ontem tudo teve um sabor novo. Os carros, caminhões, ônibus, motos. As placas com o nome das cidades. As fábricas. As paisagens do lindo Vale do Paraíba. O gado pastando. Tudo me parecia novo. Que delícia.

A segunda razão foi exatamente o encontro com a You (carinhoso apelido da Heloisa). Foi o primeiro abraço, cuidadoso, longo e apertado, que dei em alguém que não fossem meus filhos ou meus netos. Que sensação mais gostosa!! E foi um abraço com duplo significado, porque há poucos dias ela, remexendo fotografias antigas, lembrou que fui seu padrinho de casamento, representando meu pai, junto com minha mãe, seus padrinhos de batismo. Repassamos o álbum do casamento e tivemos muitas doces recordações. Além de tudo, trouxe um queijo fresco de fabricação caseira. Tão fresco que parecia um requeijão.

A terceira razão, talvez a maior responsável pela minha alegria que começou ontem, continua hoje e, certamente permanecerá por muito tempo. É que durante as pouco mais de quatro horas de estrada, conversamos. Só nós dois no carro. Como há muitos e muitos anos não fazíamos. Talvez até nunca com essa profundidade. Vale um breve parêntesis. Estou lendo um livro do Bispo sul africano Desmond Tutu e sua filha Mpho, intitulado O Livro do Perdão. O livro exige muita autocrítica e tem que ser pensado a cada página. O primeiro passo para pedir ou conceder o perdão é Contar a História. Dizer o que aconteceu para que a pessoa peça o perdão. Ou o conceda. Pois bem, sem qualquer planejamento, falamos sobre tantas coisas que nos machucaram. Nossos casamentos, as relações com os filhos, a alienação parental, como tudo afetou nossas vidas e como lidamos com isso tudo. Falamos sobre o perdão, quando ela falou sobre a filosofia espírita sobre o assunto. Ao final da viagem eu me sentia leve. Tirei da garganta tanta coisa que estava presa lá e nunca havia dito a ninguém. Sinto que tirei um peso dos ombros. Não posso mudar o passado, mas posso, e é o que estou fazendo, fazer um presente e um futuro melhor.

De fato, um domingo feliz.

Escrito em07/06/2021

POR EMPRÉSTIMO Nº4

Há muitos anos comecei a colecionar textos que eu achava interessantes. Mas não eram quaisquer textos. Estavam guardados numa pasta chamada “Textos que eu poderia ter escrito”, significando que eu gostaria de ter escrito. Não sei se vou localizar essa pasta um dia. Mas o texto a seguir estaria bem guardado lá. Trata-se de um texto do Eduardo Galeano, do livro “O Caçador de Histórias”. Então aqui vai.

Brevíssimos sinais do autor

Eu bem que poderia ser o campeão mundial dos distraídos, se esse campeonato existisse: com frequência erro o dia, a hora e o lugar, custo a diferenciar o dia da noite, e falto a encontros porque fiquei dormindo.

Meu nascimento confirmou que Deus não é infalível; mas, apesar disso, nem sempre me engano na hora de escolher as pessoas de quem eu gosto e as ideias nas quais acredito.

Detesto os choramingões, odeio os que vivem se queixando, admiro os que sabem aguentar, calados, os golpes dos tempos ruins, e por sorte nunca falta algum amigo que me diz que continue escrevendo, que os anos ajudam e que a calvície ocorre por pensar demais e é uma doença profissional.

Escrever cansa, mas consola.”

O livro é de 2016

Publicado em 06/06/2021