CACÓFATO

Aquele garoto miudinho estava sentado no primeiro degrau da escada, na saída da cozinha. Gostava de ver, como estava fazendo, a lua cheia, enorme, pintando de prata a roupa no varal, as folhas de couve, cenoura, alface, rabanete na horta e o terreiro vazio porque as galinhas estavam empoleiradas no galinheiro fechado, para onde tinham sido tocadas no final da tarde. Ouviu um ruído, vindo do galinheiro, que não lhe chamou a atenção.

Na próxima lua cheia lá estava ele outra vez observando os raios da lua se derramando pelo quintal. E novamente ouviu o mesmo ruído da lua anterior. Agora sua curiosidade foi despertada. Ficou pensando o que poderia ser aquilo. Resolveu aguardar a próxima lua cheia para ver se o ruído se repetiria. E não é que se repetiu? Ele achou que era uma coincidência mas, como só ouvia esse ruído na lua cheia, resolveu investigar mas de perto quando ela voltasse.

No dia em que a lua ia se levantar em sua plenitude, ele desceu até o muro entre a horta e o galinheiro. Quando ouviu aquele mesmo barulho, levantou-se devagar, olhou para o puleiro e estranhou ao ver que algumas galinhas, mesmo no escuro, estavam dentro da caixa de madeira onde punham os ovos durante o dia. Voltou para dentro de casa disposto a investigar melhor no dia seguinte. De manhã, entrou no galinheiro, abriu a porta para que as galinhas saíssem para comer. Olhou nas caixas de ovos e, para sua imensa surpresa, achou pelo menos dois ovos em cada caixa. Ele sempre achou que todos os ovos eram botados durante o dia. Ao fim do dia, contou os ovos e encontrou três dúzias. No fim do próximo dia contou duas dúzias e meia, como era normal. No mês seguinte a coisa se repetiu. Uma luzinha amarela brotou em seu cérebro: teria a lua cheia algo a ver com tudo isso?

Resolveu ir a fundo no assunto. Procurava uma explicação, mas não conseguia. Resolveu buscar conhecimento onde seria mais provável de encontrar: a Universidade. Rachou noites a fio e conseguiu ser aprovado na Faculdade de Agronomia. Dedicava-se de corpo e alma à sua pesquisa. Formou-se com distinção, como seria de se esperar. Seus colegas foram se casando e constituindo família. Mas ele casou-se com sua pesquisa. Para facilitar seu estudo, empregou-se numa enorme granja. Até que, passados quase quarenta anos daquela primeira lua cheia, chegou à conclusão dos seus estudos. Já era tarde da noite, ele estava cansado e resolveu deixar a última pincelada na sua tese antes de enviá-la para publicação.

Enquanto tomava café da manhã e ouvia o noticiário, uma verdadeira bomba atômica entrou pelos seus ouvidos. Como não é raro acontecer no ambiente de pesquisa, um agrônomo uruguaio publicou um trabalho, comprovando a influência da lua cheia na produtividade das galinhas. Isso ia possibilitar a melhoria da alimentação para bilhões de esfomeados. E ele era candidato ao Prêmio Nobel. Aquele garoto, agora entrado em anos, ficou vários minutos petrificado. Esse outro cientista chegou à sua frente “por una cabeza”. Primeiro ele fez várias referências desairosas sobre “La madrecita” do uruguaio. Depois ficou pensando o que faltou para chegar pelo menos junto com o desconhecido competidor. Mas o que lhe faltou era POR NO GRÁFICO.

Escrito em 25/02/2021

PAIXÃO

Sim, leitor, leitora. Esta é a história de uma paixão. Paixão antiga. Cheguei a uma idade em que não temos receio de confessar nossas paixões, especialmente as antigas. Como quase todas as paixões, esta não começou já como paixão.

Inicialmente, quando estávamos no mesmo ambiente, nem sequer a notava. Depois, quando já sabia quem era, ficava indiferente a ela. Em seguida criei uma certa rejeição. Se pudesse, eu tentava não estar no mesmo ambiente. Na verdade, quando comecei a conhecê-la melhor, não gostava dela. Passei muito tempo com essa sensação, gratuita, de não gostar.

Depois, de tanto a ver, comecei a notar nela alguns pontos positivos. Seu aroma, o tempo que gastava para se preparar, sua presença destacada quando se apresentava em público. Aos poucos comecei a gostar de estar com ela. Em seguida passei a procurá-la sempre que podia. E aprendi a gostar dela, cada vez mais. Sua morenice afrodescendente, suas carnes. Macias onde tinham que ser macias, firmes onde tinham que ser firmes, as gorduras nos lugares certos. Quando entendi esse seu modo de ser começou minha paixão. Que cada vez aumenta mais.

Agora, ao contrário do início, eu a procuro sempre que posso. E hoje é um desses dias. Sei que ela me espera ao lado. Irei buscá-la logo mais. Para vê-la apetitosa como sempre. Vestida de branco, verde e amarelo. A trarei para casa e me debruçarei sobre ela com sofreguidão. Minha querida, minha desejada, minha gostosa… feijoada!!

Escrito hoje 20/02/2012, sábado.

LENTES NOVAS

Amanhã vou fazer cirurgia da catarata. Significa que as minhas lentes de fábrica se desgastaram com o tempo e precisam ser trocadas para não me atrapalhar a visão Quanta coisa elas viram ao longo da minha vida… Algumas lembro com saudade, outras gostaria de esquecer. A lente será nova, mas impressões serão para sempre. Coisas que elas viram:

… o quintal da casa da minha mãe, com as galinhas e a horta; eventualmente um peru, patos e coelhos.

… as mães sentadas na porta das casas, vendo as crianças brincando de amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, barra manteiga e tantas outras.

… os tipos da rua, como homem que comprava roupa velha e vinha gritando, com forte sotaque “Roba velha, roba velha” e eu ficava com medo que ele levasse minha mãe…. E o homem das cabras, que eu ficava esperando sentadinho na porta de casa para tomar um copo de leite de cabra tirado na hora.

… o futebol na rua, onde passavam poucos carros.

… no caminho da escola, a saída dos operários da Ramenzoni indo almoçar em casa, todos de chapéu.

… o ônibus para voltar para casa, vindo do Colégio do Carmo e esperando o embarque das meninas do Colégio São José.

… meu nome na lista de aprovados na FEI e na Mauá.

… meu nome no convite de formatura e, logo depois, no convite de casamento.

… o registro de nascimento do Mauro, da Camila e do Edgar.

… o corpo do Mauro no caixão, morto aos 17 anos num acidente de carro em São José do Rio Preto.

… os nomes da Camila e do Edgar nos convites de formatura; ela em Odontologia e ele em Direito.

… a imagem da primeira neta, Sophia.

… a imagem dos primeiros tempos, difíceis, do neto Pietro.

… o teto da UTI em três das minhas cirurgias.

… o velório da Viviane.

Tantas lembranças…! Vão-se as lentes, mas ficam as recordações. Graças a Deus são mais das boas do que das tristes. Mas todas fazem parte da minha vida. Paro por aqui, para não encher volumes e mais volumes. De vez em quando, se alguma surgir mais forte, faço um texto para ela.

Escrito em 16/02/2021

CHUVA MIÚDA

Hoje cai uma chuva miúda. Mas tem chovido forte, causando alagamentos, enchentes e mortes. Como tudo na vida, a chuva pode ser vista de duas maneiras. Hoje esta chuvinha me traz nostalgia e gostosas lembranças.

Lembro do barulho da chuva escorrendo do telhado pela calha e fazendo um ruído agradável, para mim, na meninice, e com gosto por estar quietinho dentro de casa ou na cama. Ainda na casa da minha mãe, essa chuva miúda era bem recebida para molhar a horta cm delicadeza. Ela usava uma palavra para designar esse tipo de chuva – palavra essa que não consigo lembrar – como “chuva boa para a plantação”. É a chuva que os agricultores amam, pois facilita a plantação e favorece uma boa colheita. Durante o tempo que vivi com a Viviane ouvi muitas vezes o som da chuva caindo do telhado e me sentia feliz.

Tomei chuva na praia, que era bem recebida para atenuar o calor. Adorava sentir aqueles pingos batendo no meu rosto. Tomei muita chuva na rua, muitas vezes de terno e gravata. Se eu estava indo para algum lugar de mais cerimônia, simplesmente não ia e me justificava depois. Uma vez estava indo para um exame de imagem inadiável quando tomei uma dessas chuvas. Relaxei e caminhei despreocupadamente até o laboratório. Cheguei lá pingando feito um frango molhado. Fiz o exame e vesti a roupa molhada e cheguei em casa com a roupa ainda úmida.

Já tomei chuva jogando futebol. E também já tive que parar de jogar por causa da chuva. Já fiquei com o carro atolado por causa da chuva. Já vi arco-íris maravilhosos, por causa de chuva. Já tomei chuva no corso de Carnaval, em Santos. Já tive voos atrasados por causa da chuva.

Enfim, já tive bons e maus momentos com chuva. Mas encaro a chuva pelo que ela é para mim a cada momento. Vejo a chuva de hoje em sua essência: chuva é água. Chuva é indispensável à vida. Lembro do livro “Eu, robô” quando o personagem central e narrador descobre que, na verdade, era humano e não seus patrões, ao perceber que gostava de chuva e os verdadeiros robôs, não.

Chuva é água. Água é vida. A chuva miúda de hoje me traz doces lembranças e paz no coração.

Escrito em 13/02/2021

UM PRATO DE COMIDA

Flavio Terracini (nome fictício para um personagem real, de uma história real um pouco fictícia) acordou com o sol batendo em seu rosto. Espreguiçou longamente enquanto lembrava quantas vezes acordou assim e por que.

Flavio estava no 3º ano do Colegial/ Clássico do Colégio N.S. do Carmo, pois seu sonho era estudar jornalismo. Tinha muitos  amigos na escola por ser muito comunicativo. Um dos melhores era o Paulo Celso. Tinha uma vida muito confortável, pois seu pai era dono de uma famosa fábrica de sapatos. Depois da conclusão do Colegial cada qual seguiu seu caminho. Alguns anos mais tarde Paulo estava estudando quando soou a campainha da casa. Ele foi ver quem tocava e era o Flavio na calçada. Mas ele tinha um aspecto estranho, mal vestido e barba por fazer. Paulo o convidou para entrar e sentaram-se nas poltronas que havia na varandinha da casa. Flavio pediu um copo de água e Paulo trouxe. Paulo começou:

– Quanto tempo não Flavio? O que você anda fazendo?

Flavio olhou bem para Paulo e começou a falar:

– Pois é Paulo. Pouco tempo após concluirmos o colegial a minha vida começou a virar de ponta cabeça. A fábrica do meu pai quase foi à falência e foi fechada. Ainda conseguimos sobreviver por um tempo, com a venda dos estoques e o contas a receber, mas até isso acabou. Meu pai não aguentou e cometeu o suicídio. Eu, totalmente desnorteado, saí de casa e fui morar na rua. Claro, não tinha a mínima noção do que era ficar ao relento, pedir esmola e não saber o que teria para comer. Um dia, morto de fome, entrei num supermercado e peguei pão e algumas bolachas. Enfiei em baixo da camisa e fui saindo quando um segurança, alertado pelas câmeras de vigilância, pegou com força no meu braço e disse:

– Seu ladrãozinho de merda. Onde pensa que vai com essas coisas?

– Levou-me para uma sala e chamou a polícia. Fui preso e autuado em flagrante por furto. Fui condenado a dois de prisão. Faz pouco tempo que fui solto. Mas não consigo emprego, pois só Colegial não é suficiente, além de que não ter um endereço te exclui de participar de qualquer processo der seleção. Então voltei a morar na rua, passar fome, dormir ao relento e acordar todo dia com o sol batendo no meu rosto.

Paulo ouviu tudo isso estarrecido. Convidou Flavio para entrar e sentar-se na sala de jantar. Sua mãe preparou um prato de comida, com arroz, feijão e frango ensopado com batatas. Flavio comeu com sofreguidão e pediu para repetir. Quando terminou, ficou em silêncio, olhando para a mesa. Um olhar de desespero.

– Paulo, não consigo aguentar mais esta vida. Entendo meu pai. Estou pensando em seguir o mesmo caminho que ele.

Paulo ficou com preocupado e com pena dele.

– Flavio, não pense em bobagem. Você ainda tem condições de se levantar e construir uma vida melhor. Só precisa de ajuda. Perto daqui tem um albergue, no Glicério. Eles podem te acolher, com cama, banho e comida. Durante o dia você sai e vai à luta. E lá também tem Assistentes Sociais que podem lhe orientar.

Paulo fez um sanduiche e lhe deu para mais tarde. Flavio saiu e se dirigiu na direção do Albergue. Paulo nunca mais soube do Flavio. Até que um dia, ouvindo um jogo de futebol pela radio CBN, o que quase nunca fazia, pois preferia a Bandeirantes, ouviu o anúncio da equipe de transmissão:

– E, nos comentários, Flavio Terracini.

Paulo mal acreditou em seus ouvidos. Ficou muito feliz pelo amigo! O tempo avançou mais um pouco. Um dia Paulo foi ao estádio para ver uma partida de futebol. Já estava sentado quando Flavio apareceu ao seu lado. Abraçaram-se longamente. Flavio falou:

– Eu te vi lá da cabine de radio e fiz questão de vir até aqui.

– Flavio, como estou feliz em saber que você conseguiu dar a volta por cima!

E Flavio, com os olhos marejados de lágrimas:

– Paulo, aquele abençoado prato de comida me salvou.

Escrito em 11/02/2021

INSPIRAÇÕES

Dizem que atingir um objetivo requer transpiração e inspiração. Domingo eu estava disposto a transpirar, mas a inspiração não vinha. Ontem as inspirações vieram, mas eu já não estava muito a fim de transpirar. Só hoje as duas coisas se juntaram e cá estou. Curiosamente as duas inspirações giram em torno da minha mãe. Uma se refere a Ópera e outra a Frango Ensopado. Estranho, mas é real…

No domingo eu estava procurando algo para assistir no Youtube e me deparei com uma gravação da ópera Carmen, de Georges Bizet. Eu gosto de varias árias dessa ópera, mas nunca tinha visto a ópera toda. São 2h50, gravadas no teatro da Ópera de Paris. Decidi assistir inteira. Uma maravilha de encenação para quem gosta do gênero. Figurino bonito, vozes maravilhosas. Mas o que tem isso a ver com a minha mãe? Explico. Reza a lenda que o pai da minha avó materna, Carmen, era um maestro chamado Carlos Felice. O fato é que ele pôs nos filhos nomes de personagens da ópera. Assim, além da minha avó Carmen, os nomes das irmãs eram Ofélia, Lucia, Laura, Desdemona (não sei se me esqueço de alguma) e o único homem chamava-se Ameleto (Hamlet em italiano). E, na peça, várias vezes a personagem central é chamada de Carmencita. Acredito que, por isso, minha avó era conhecida por Carminha. Quando minha mãe nasceu, foi batizada de Carmen (falta de imaginação…) e recebeu o apelido de Carminhdinha. Eu achava muito estranho ouvir os primos e tios chamá-la por esse apelido. Mas finalmente entendo.

E vamos à segunda inspiração. No domingo, minha vizinha Erenilda me mandou três pedaços de frango ensopado, que estavam uma delícia. Então me lembrei que por um longo tempo eu evitava comer frango ensopado. E aqui vai a razão. A casa onde nasci e vivi até casar não era muito grande, mas tinha um quintal imenso. Parecia uma chácara incrustada naquele cantinho do Cambuci. E minha mãe, nascida em São José dos Campos, manteve a alma interiorana. Tinha horta e terreiro. E eu, que também herdei dela esse gosto caipira, adorava ajudá-la a cuidar desse terreno. Um pedaço desse espaço foi quadra de vôlei, campo de futebol e milharal. Nesse mesmo terreiro minha mãe criava galinhas poedeiras e vendia ovos na vizinhança para ajudar na subsistência da família. Eram talvez umas trinta galinhas e alguns frangos. Eu tenho uma infinidade de lembranças dessa época, mas vou ficar só na questão do frango ensopado. Minha mãe sempre pesquisava como aprimorar o desempenho das galinhas. Com o tempo passou a alimentá-las com uma ração que aumentava a produção de ovos. Tornou-se quase uma verdadeira granjeira. A ração era entregue em casa, em grandes sacos que eram estocados no nosso porão. Jamais esquecerei que esse produto se chamava Avevita. Eram pelotinhas do tamanho de um grão de milho e rescendiam fortemente a farinha e outros aditivos, que certamente continham. Vez por outra, quando as coisas apertavam em casa, o que não era raro, ela matava um frango e o preparava ensopado. Para mim, o frango tinha gosto e cheiro de avevita. Eu comia porque não tinha opção. Por isso, por décadas, eu evitei frango ensopado. Mas, com o tempo, perdi essa cisma e hoje a forma que mais gosto de frango é ensopado.

Escrito em 09/02/2021

ANESTESIA

Estou lendo o livro “Escravidão” de Laurentino Gomes. É o primeiro volume de uma trilogia que deve ser publicada ao longo deste ano. Gosto muito dos livros dele, porque aborda temas históricos usando profunda e ampla pesquisa, usando linguagem atrativa. Ao contrário de muitos autores herméticos e de difícil compreensão para leigos.

Estou chocado com o que estou aprendendo. Que a escravidão não começou mo século XV. Já existe desde a Grécia e Roma. Possivelmente até muito antes. Que a escravidão não se limita aos países do Novo Mundo. Países da Europa e Ásia também têm ou tiveram escravos. Que não só negros foram escravizados. Muçulmanos, asiáticos e até mesmo europeus já foram escravizados. Que do século XV ao final do século XIX o tráfico de escravos foi um dos melhores negócios do mundo, envolvendo comerciantes de mão de obra escrava, donos de enormes frotas de navios negreiros, governos europeus e reis africanos. Ao contrário do que eu pensava, eram os próprios africanos que arrebanhavam e vendiam escravos. Havia regulamentação desse mercado e a própria Igreja apoiava e traficava escravos.

Eu lia as informações friamente, como se fossem meramente uma coleção de dados estatísticos. Como que anestesiado. Até que cheguei ao ponto em que o autor descreve os escravos como moeda de troca, tantos escravos por um barril de cachaça do Brasil. Dízimos pagos com escravos, sendo alguns utilizados para trabalho das ordens religiosas (especialmente os Jesuítas, para minha decepção) e outros eram uma poupança para quando fosse necessário comprar alguma coisa. No preço final dos escravos já estava incluída uma previsão de perdas. Por morte, no transporte do interior para o litoral para serem vendidos aos capitães dos navios negreiros, durante a navegação ou nos depósitos em que ficavam “estocados” enquanto aguardavam, às vezes por meses, para embarque. Certos escravos eram descritos como “peças da Índia”. Por séculos, milhões e milhões de africanos foram escravizados.

Então me dei conta que a escravidão era considerada como “um dado do problema”, não um problema em si. As pessoas não tinham qualquer veleidade em ter escravos. Não só na lavoura como nas cidades. Acabei de reler vários contos de Machado de Assis, do século XIX. Todas as casas tinham “negros” para todos os serviços: lavar, cozinhar, arrumar a casa, fazer limpeza, levar recados, etc. (E olha que ele mesmo era da raça negra!).

Extinta a escravidão explícita, herdamos escravidão implícita: o preconceito. E, embora os negros sejam face mais visível, não é a única. Tendemos a aceitar, mesmo que inconscientemente, alguns fatos/rótulos como “naturais”. O nordestino preguiçoso, o baiano que só quer fazer festa, o português que é padeiro, o japonês pasteleiro, o chinês da lavanderia. Pode pensar em muitos etc. etc. E as cidades, especialmente as grandes, têm uma multidão de Pessoas cuja condição de vida é similar ou pior que a dos escravos. Os negros escravos, como força de trabalho, tinham que ser abrigados, vestidos e alimentados. Os “escravos” modernos, dos quais muitas vezes nem nos damos conta, são os invisíveis. São os moradores rua… Eles não têm onde morar, diariamente têm que batalhar por comida e quando ficam doentes dependem de almas caridosas para chamar auxílio (no mais das vezes, a polícia ou os bombeiros).  Não podemos fazer muito, e há gente, graças a Deus, que faz. Como o Padre Júlio Lancellotti. O que podemos fazer é ter compaixão por eles. Prestar atenção por que estão nos pedindo alguma coisa. Se é um morador habitual da sua vizinhança, cumprimente-o (a) quando passar; depois de um tempo pode ser que ambos se sintam familiarizados um com o outro. Você pode perguntar algumas coisas (“melhorou do resfriado?”, “como vai seu filho?”, “já comeu hoje?”). E talvez você descubra que pode dar alguma coisa antes que seja solicitada. Talvez atenção seja o que mais precisam.

Escrito em 05/02/2021

FRUTOS DO MAR

Depois das massas e do churrasco, meu prato predileto são os frutos do mar. Mas é uma competição cabeça-a-cabeça. Hoje vou falar um pouco das doces lembranças que tenho desse meu gosto pelas coisas do mar.

Quando estou, ou estava, na praia sempre dou prioridade aos peixes & Cia. Na época de Peruíbe eu me deliciava. Já contei sobre a tainha recheada, uma delícia inesquecível. Mas em primeiríssimo lugar está o Marisco Lambe-lambe. Perdi a conta de quantas vezes comi esse prato no restaurante Mar Del Plata, na Ponta da Praia de Santos. Não sei se ainda existe. Esse prato fica na lista de entradas, mas eu pedia meia porção e comia como prato único. Trata-se de uma espécie de risoto, muito úmido e rico em cebola e tomate. O marisco, na casca, vem dentro desse risoto. E é impossível comer com garfo e faca. Então se pega com a mão e chupa o marisco com o risoto que estão dentro da casca. E chupa; e depois chupa os dedos. Deu para entender porque lambe-lambe?

Também na Ponta da Praia, há (ou havia?) o Clube dos Pescadores tinha um fantástico self service, com muito peixe. Quando era época, faziam o festival da tainha. Era tainha de tudo quanto era jeito. Adivinha quem não perdia essas festas?

Um dos pratos mais fantásticos da culinária espanhola é a Paella. Sempre que posso, como. Lembro-me de três especiais. Uma é do Restaurante Los Molinos, numa travessa da rua Cel. Diogo, no Ipiranga. Outra é a que comi da casa do meu colega Alfério, numa comemoração da formatura da FEI. Eram cerca de 40 pessoas e ele fez a paella numa paellera enorme. E a terceira, comi na casa da minha prima Mirian, de Santos. Ainda tínhamos a companhia da minha madrinha Wilma e da minha irmã Maria Rita. Quem fez foi meu primo Sérgio, casado com a Mirian. Foi indescritível. Basta dizer que mal se via o arroz, totalmente coberto com os camarões!! De comer ajoelhado como costumo dizer de algum prato muito especial. E ainda ele me explicou que o nome do prato significa “para ela” em espanhol. O inventor teria dedicado o prato a sua amada…

Durante uma época tive um chefe escocês que adorava um bom prato e um bom whisky. Quando estava com ele, aqui, no Rio ou em Rhode Island, as noites eram gastronômicas. Uma dessas noites ele quis ir ao Dom Curro (como pessoa jurídica…). Ali me ensinou a comer “hilo”. É um peixe comprido, como uma manjuba, mas bem mais fininho, como diz o nome. É servido como aperitivo, imerso no azeite de oliva espanhol.

Enfim, para relembrar minhas rodas de piada, vou contar uma piada antiga cujo tema é peixe. Desculpe se eu escandalizar alguém.

Um laboratório farmacêutico resolveu montar um restaurante para funcionários e, eventualmente, visitantes. Encarregou o RH e o Marketing dessa tarefa. O Gerente de Marketing pediu para o RH contratar um chef para montar o cardápio. E teve a ideia de batizar os pratos com nomes de produtos farmacêuticos. Que bela sacada!!

Quando o cardápio estava pronto, o chef levou para o RH aprovar. O Gerente ficou surpreso com a lista de pratos:

VitaminC

Nivalgina

Cebion

Etc. etc.

E o último era Hipoglós. O Gerente de RH achou muito criativo mas estranhou este último. E perguntou o que era. O chef explicou:

– Hipoglós é Pacu Assado…”

Escrito em 03/02/2021

O REI ARTUR

Muita gente se surpreenderá com este texto. Mas eu precisava escrever para tirar a história de dentro de mim. Uma das minhas dificuldades é a timidez. Tenho certeza de que esta minha faceta foi prejudicial em minha vida, pessoal ou profissional. Tenho uma luta antiga e árdua para vencer esta limitação. Já progredi muito, mas ainda me considero longe do que gostaria. Até meus netos já comentaram que sou muito quieto, ao contrário do outro avô que é falante e brincalhão. Certamente a timidez me dificultou as relações, sejam afetivas ou profissionais. Sempre tive tendência para a inovação e para a liderança. Mas nunca para o protagonismo. Quase nunca deixei transparecer minha inibição.

Dei aulas, em cursos técnicos, em cursos de graduação e pós-graduação. Mas entrar na sala e me postar na frente de todos exigia de mim renovada superação. Quando acabava a aula eu ficava mais contente que os alunos (rsrs). Talvez por isso nunca desenvolvi uma carreira docente.

Dei muitos treinamentos, sozinho ou com meu parceiro e amigo Marcio Zenker. E ao fim de cada dia eu estava extenuado pelo esforço mental. Fiz muitas palestras que procurava evitar, mas nem sempre conseguia. Embora tenha trabalhado décadas com Desenvolvimento de Pessoal, na maior parte do tempo eu desempenhava o papel de planejador ou coordenador, poucas vezes como instrutor. Sem dúvida isso me impediu de despontar, como muitos consultores com quem trabalhei e dei suporte.

Fico pensando se minha timidez nasceu comigo ou foi desenvolvida. Sei que me lembro da minha inibição desde a infância. Por exemplo: no Colégio N.S. da Glória, onde estudei os primeiros oito anos de minha vida escolar, era preciso pagar uma mensalidade para jogar futebol durante os recreios. Minha mãe pagava, sei hoje que com muita dificuldade, pois sabia como eu adorava o futebol. Mas eu passava pelo acesso ao campo e ficava fora, atrás do gol, com vergonha de entrar. Mas o maior exemplo para minha timidez foi a história do Rei Artur.

Os maristas resolveram montar uma peça chamada “O Rei Artur”, a ser encenada no auditório, para todas as famílias. Não sei como fui escolhido para representar o Rei Artur, logicamente o papel principal. Logo nos primeiros ensaios, devido a minha dificuldade em me identificar com a personagem central, trocaram o artista e me puseram num papel secundário. Mesmo assim eu não conseguia ficar à vontade. Mas os irmãos gostavam de mim e queriam que eu participasse de alguma forma. Então tiveram a ideia de escrever um texto para ler na abertura do espetáculo. Eu ficaria na frente das cortinas, antes que abrissem, e leria o texto. Percebendo minha dificuldade, o texto passaria a ser lido “em off” como se diz hoje. Eu ficaria a trás da cortina, escondido do público, e diria o texto para um microfone. Fiquei todo gabola e fiz o que tinha que fazer, com o papel tremendo em minha mão.

Não se lamente. Escrever esse texto foi uma espécie de libertação. Foi bom para mim dividir estes sentimentos com o papel (na verdade com o computador…rs). Espero que seja útil para quem precisa superar alguma limitação.

PS. Hesitei muito em escrever e publicar este texto, mas agora estou tranquilo.

Escrito em 01/02/2021