Aquele garoto miudinho estava sentado no primeiro degrau da escada, na saída da cozinha. Gostava de ver, como estava fazendo, a lua cheia, enorme, pintando de prata a roupa no varal, as folhas de couve, cenoura, alface, rabanete na horta e o terreiro vazio porque as galinhas estavam empoleiradas no galinheiro fechado, para onde tinham sido tocadas no final da tarde. Ouviu um ruído, vindo do galinheiro, que não lhe chamou a atenção.
Na próxima lua cheia lá estava ele outra vez observando os raios da lua se derramando pelo quintal. E novamente ouviu o mesmo ruído da lua anterior. Agora sua curiosidade foi despertada. Ficou pensando o que poderia ser aquilo. Resolveu aguardar a próxima lua cheia para ver se o ruído se repetiria. E não é que se repetiu? Ele achou que era uma coincidência mas, como só ouvia esse ruído na lua cheia, resolveu investigar mas de perto quando ela voltasse.
No dia em que a lua ia se levantar em sua plenitude, ele desceu até o muro entre a horta e o galinheiro. Quando ouviu aquele mesmo barulho, levantou-se devagar, olhou para o puleiro e estranhou ao ver que algumas galinhas, mesmo no escuro, estavam dentro da caixa de madeira onde punham os ovos durante o dia. Voltou para dentro de casa disposto a investigar melhor no dia seguinte. De manhã, entrou no galinheiro, abriu a porta para que as galinhas saíssem para comer. Olhou nas caixas de ovos e, para sua imensa surpresa, achou pelo menos dois ovos em cada caixa. Ele sempre achou que todos os ovos eram botados durante o dia. Ao fim do dia, contou os ovos e encontrou três dúzias. No fim do próximo dia contou duas dúzias e meia, como era normal. No mês seguinte a coisa se repetiu. Uma luzinha amarela brotou em seu cérebro: teria a lua cheia algo a ver com tudo isso?
Resolveu ir a fundo no assunto. Procurava uma explicação, mas não conseguia. Resolveu buscar conhecimento onde seria mais provável de encontrar: a Universidade. Rachou noites a fio e conseguiu ser aprovado na Faculdade de Agronomia. Dedicava-se de corpo e alma à sua pesquisa. Formou-se com distinção, como seria de se esperar. Seus colegas foram se casando e constituindo família. Mas ele casou-se com sua pesquisa. Para facilitar seu estudo, empregou-se numa enorme granja. Até que, passados quase quarenta anos daquela primeira lua cheia, chegou à conclusão dos seus estudos. Já era tarde da noite, ele estava cansado e resolveu deixar a última pincelada na sua tese antes de enviá-la para publicação.
Enquanto tomava café da manhã e ouvia o noticiário, uma verdadeira bomba atômica entrou pelos seus ouvidos. Como não é raro acontecer no ambiente de pesquisa, um agrônomo uruguaio publicou um trabalho, comprovando a influência da lua cheia na produtividade das galinhas. Isso ia possibilitar a melhoria da alimentação para bilhões de esfomeados. E ele era candidato ao Prêmio Nobel. Aquele garoto, agora entrado em anos, ficou vários minutos petrificado. Esse outro cientista chegou à sua frente “por una cabeza”. Primeiro ele fez várias referências desairosas sobre “La madrecita” do uruguaio. Depois ficou pensando o que faltou para chegar pelo menos junto com o desconhecido competidor. Mas o que lhe faltou era POR NO GRÁFICO.
Escrito em 25/02/2021
