UM PRATO DE COMIDA

Flavio Terracini (nome fictício para um personagem real, de uma história real um pouco fictícia) acordou com o sol batendo em seu rosto. Espreguiçou longamente enquanto lembrava quantas vezes acordou assim e por que.

Flavio estava no 3º ano do Colegial/ Clássico do Colégio N.S. do Carmo, pois seu sonho era estudar jornalismo. Tinha muitos  amigos na escola por ser muito comunicativo. Um dos melhores era o Paulo Celso. Tinha uma vida muito confortável, pois seu pai era dono de uma famosa fábrica de sapatos. Depois da conclusão do Colegial cada qual seguiu seu caminho. Alguns anos mais tarde Paulo estava estudando quando soou a campainha da casa. Ele foi ver quem tocava e era o Flavio na calçada. Mas ele tinha um aspecto estranho, mal vestido e barba por fazer. Paulo o convidou para entrar e sentaram-se nas poltronas que havia na varandinha da casa. Flavio pediu um copo de água e Paulo trouxe. Paulo começou:

– Quanto tempo não Flavio? O que você anda fazendo?

Flavio olhou bem para Paulo e começou a falar:

– Pois é Paulo. Pouco tempo após concluirmos o colegial a minha vida começou a virar de ponta cabeça. A fábrica do meu pai quase foi à falência e foi fechada. Ainda conseguimos sobreviver por um tempo, com a venda dos estoques e o contas a receber, mas até isso acabou. Meu pai não aguentou e cometeu o suicídio. Eu, totalmente desnorteado, saí de casa e fui morar na rua. Claro, não tinha a mínima noção do que era ficar ao relento, pedir esmola e não saber o que teria para comer. Um dia, morto de fome, entrei num supermercado e peguei pão e algumas bolachas. Enfiei em baixo da camisa e fui saindo quando um segurança, alertado pelas câmeras de vigilância, pegou com força no meu braço e disse:

– Seu ladrãozinho de merda. Onde pensa que vai com essas coisas?

– Levou-me para uma sala e chamou a polícia. Fui preso e autuado em flagrante por furto. Fui condenado a dois de prisão. Faz pouco tempo que fui solto. Mas não consigo emprego, pois só Colegial não é suficiente, além de que não ter um endereço te exclui de participar de qualquer processo der seleção. Então voltei a morar na rua, passar fome, dormir ao relento e acordar todo dia com o sol batendo no meu rosto.

Paulo ouviu tudo isso estarrecido. Convidou Flavio para entrar e sentar-se na sala de jantar. Sua mãe preparou um prato de comida, com arroz, feijão e frango ensopado com batatas. Flavio comeu com sofreguidão e pediu para repetir. Quando terminou, ficou em silêncio, olhando para a mesa. Um olhar de desespero.

– Paulo, não consigo aguentar mais esta vida. Entendo meu pai. Estou pensando em seguir o mesmo caminho que ele.

Paulo ficou com preocupado e com pena dele.

– Flavio, não pense em bobagem. Você ainda tem condições de se levantar e construir uma vida melhor. Só precisa de ajuda. Perto daqui tem um albergue, no Glicério. Eles podem te acolher, com cama, banho e comida. Durante o dia você sai e vai à luta. E lá também tem Assistentes Sociais que podem lhe orientar.

Paulo fez um sanduiche e lhe deu para mais tarde. Flavio saiu e se dirigiu na direção do Albergue. Paulo nunca mais soube do Flavio. Até que um dia, ouvindo um jogo de futebol pela radio CBN, o que quase nunca fazia, pois preferia a Bandeirantes, ouviu o anúncio da equipe de transmissão:

– E, nos comentários, Flavio Terracini.

Paulo mal acreditou em seus ouvidos. Ficou muito feliz pelo amigo! O tempo avançou mais um pouco. Um dia Paulo foi ao estádio para ver uma partida de futebol. Já estava sentado quando Flavio apareceu ao seu lado. Abraçaram-se longamente. Flavio falou:

– Eu te vi lá da cabine de radio e fiz questão de vir até aqui.

– Flavio, como estou feliz em saber que você conseguiu dar a volta por cima!

E Flavio, com os olhos marejados de lágrimas:

– Paulo, aquele abençoado prato de comida me salvou.

Escrito em 11/02/2021

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