Ontem eu estava ouvindo música quando foi anunciado que a orquestra, de algum país da Europa que não me lembro qual, ia tocar O Tico Tico no Fubá. Aliado à minha agradável surpresa, veio à minha mente uma história quer minha mãe contava. E junto com essa lembrança vieram várias cenas da minha infância e juventude na Rua dos Parecis, no Cambuci. Vou contar algumas.
Começo pela história que minha mãe contou. A família tinha se mudado recentemente de São José dos Campos para o Largo N. S. da Conceição (que depois foi rebatizado como “larguinho”), onde começa a Rua dos Parecis. Minha tia Jandira era concertista de piano e um dia tocou a campainha tocou e era um jovem vendendo partituras de suas músicas. Minha tia o convidou para entrar e tocar algumas. A primeira que tocou era O Tico Tico no Fubá. Isso mesmo. Era o Zequinha de Abreu. Na época um ilustre desconhecido. A partir dessa lembrança comecei a recordar como era essa rua, onde vivi meus primeiros 26 anos.
Numa época em que nada era descartável, havia uma sapataria. Dois irmãos italianos, que falavam muito mal o português, atendiam lá. Faziam de tudo: sola, meia sola, tintura, etc. Quando o conserto era rápido a gente ficava sentado aguardando. Eu adorava vê-los trabalhando. Batendo tachinhas, cortando e pintando o couro.
Depois vinha um terreno com um correr de casinhas e um espaço de terra ao lado. Lá morava uma costureira de cujo filho eu era amigo e com quem muitas vezes joguei bola nesse terrão. Ela fez as cortinas do meu primeiro apartamento.
A seguir o cortiço. Era um lugar misterioso no qual entrei pouquíssimas vezes. Tinha uma família muito estranha. O pai e o irmão – Haroldo – passavam quase o tempo todo sentados na frente da casa, que era a primeira, logo na entrada. A Dirce era irmã dele e trabalhou um tempo na minha casa. Ela tinha algum problema mental, mas era uma boa empregada. Lembro de duas “proezas” dela. Ela guardou um aeromodelo, que eu havia montado a duras penas, de volta na caixa. Claro, destruindo o aviãozinho. Um dia cheguei da rua morto de sede, fui direto para a geladeira e peguei uma garrafa de água mineral dei um grande gole. Logo cuspi tudo. A Dirce havia guardado uma pinga na garrafa de água e colocou na geladeira…
Havia uma casa muito diferente. Era construída totalmente de madeira e ficava no meio de um terreno bem alto. Tinha que subir uma escada com uns vinte degraus. Morava lá uma família de americanos que, provavelmente a construíram no etilo dos EUA. Mais tarde mudou-se para lá uma família de espanhóis e eu fiquei muito amigo de um dos filhos, que jogava futebol comigo. Não lembro o nome dele. Só o conhecia como Espanhol, claro.
Vizinha a essa estava uma fábrica de lustres. Lembro bem dos operários sentados na calçada, almoçando (que época!…). Um deles, que parecia ser o líder, vinha de carro. Um Citroen antigo daqueles que a tampa do motor era aberta como uma asa, uma de cada lado. Esse operário me inspirou um grande desejo que carreguei comigo por muitos anos. O almoço dele costumava ser uma garrafa de guaraná com café com leite e uma baguete enorme com muita mortadela. Até hoje não troco mortadela por presunto…
Em frente a minha casa tinha uma porta de garagem que inicialmente era um salão de barbeiro, onde eu cortava meu cabelo estilo americano. Depois o salão se mudou para o larguinho e seu Calábria abriu uma tipografia. Ao lado da tipografia morava uma família de japoneses e eu fiquei muito amigo do Acácio. Eu ficava sentando na porta de minha casa e ele na frente da dele, tomado conta do irmãozinho Dirceu. E assim conversávamos, na minha primeira “rede social “. Um pouco depois ficava a professora de piano. Era o dia inteiro ouvindo aquele solfejo. la LALA lá LALA lá….
Em seguida ficava a casa dos feirantes. Chegavam da feira, estacionavam o caminhão dentro da casa e já o carregavam para o dia seguinte. Vou encerrar com mais um vizinho, antes que você se entedie e pare de ler. Era a enorme casa do Dr. Brandão. Moravam lá pelo menos três irmãs e suas famílias. Eu era muito amigo do João Carlos e o pai deles nos dava aulas particulares de matemática. Depois a casa foi vendida para uns chineses que tinham uma fábrica de grampinhos nos fundos. Mais tarde, quando minha mãe já morava sozinha eles compraram a casa. E venderam as duas para uma igreja coreana. As casas foram demolidas para construção da igreja. Foi o fim da Rua dos Parecis, nº 95.
Tenho muito mais lembranças que talvez eu traga aqui, quando tiver uma razão que não sejam apenas reminiscências. Obrigado pela paciência.
Escrito em 29/05/2021







