De vez em quando passamos por um vexame do qual nos damos conta somente depois de algum tempo. Tive pelo menos três dessas experiências, todas ligadas a minhas viagens a trabalho.
Acho que já contei a história da minha “ super secretária” Rosa que, para conseguir uma vaga num voo superlotado para o Rio, falou que eu era o Presidente da empresa. Por conta disso, ao fazer o check in em Congonhas, fui direcionado para a sala de espera VIP. Realmente, mesmo que você não seja exatamente um VIP, eles fazem de tudo para que se sinta assim. Quando entra no recinto já te oferecem uma taça de champagne. Há poltronas muito confortáveis, mesinhas com castanhas de caju, amendoim e jornais do dia. E uma televisão mostrando os telejornais. No máximo dez pessoas já estavam refastelados em suas poltronas quando entrei e nenhum se dignou notar minha presença. Afinal um VIP a mais ou a menos não faz diferença. Estava eu também sentadinho quando entrou um jovem e ficou olhando em volta. Eu reparei, porque tinha interesse em saber quem eram os VIP’s da sala. Ele ficou esperando alguma reação, mas não aconteceu nada. Ele não se aguentando, falou bem alto:
– Bom dia pessoal! Sou o Guilherme Arantes!
Nenhuma reação. Cantou um sucesso recente, mas ninguém se abalou. Nem me lembro que música foi…
A segunda situação foi num voo da Ponte Aérea, vindo do Rio. Eu já estava sentado quando entrou uma mulher linda, muito maquiada e cheirosa, vestindo um conjunto de calça e jaqueta de couro negro, com uma blusa branca cheia de babados. Não tinha como não chamar a atenção. Ela sabia disso. Parecia estar acostumada a ser alvo das atenções. Nem se importou. Sentou-se na poltrona à minha frente. Abriu um livro e ficou lendo a viagem toda. No desembarque ficamos lado a lado e eu pude ver bem suas feições. Me pareceu que a conhecia de algum lugar. Mas não quis perguntar, com medo de ser mal interpretado. Fiquei com a imagem dela gravada em minha mente. Mais tarde, vendo TV, assistindo uma chamada para uma novela da moda (devo esclarecer que não assisto novelas) eu a vi… Christiane Torloni, então no auge de sua carreira. Poderia pelo menos ter mentido a ela que era seu fã.
E o maior vexame foi num voo de Salvador para São Paulo. Naquela época eu ia quase uma vez por mês à Bahia, acompanhar a transferência para São Paulo de uma fábrica que a ARMCO tinha comprado em Aratu. Sempre gostei de sentar no corredor, para ter mais liberdade de movimentos. Já estava acomodado quando um rapaz pediu licença e foi se postar na janela. O avião não estava muito cheio e o assento do meio ficou vazio. O avião decolou e eu, como sempre, calado. Quando passou o serviço de bordo ambos pegamos cerveja. E aí ele se demonstrou um bom baiano e puxou conversa:
– E aí, primeira vez na Bahia?
– Não. Já vim muitas vezes.
– A passeio?
– Só vim uma vez a passeio. Venho sempre a trabalho.
– E então. Gosta da Bahia?
– Gosto muito. Da comida, da natureza, da hospitalidade do povo.
– Sim, gostamos muito de receber visitantes.
– E você, vai para São Paulo ou é só uma conexão?
– Estou indo para São Paulo mesmo.
– A passeio a trabalho?
– Basicamente a trabalho, mas sempre tenho algum tempo livre para passear.
– E você trabalha com o que?
– Sou músico.
– Vai se apresentar na cidade?
– Vou sim.
– Que tipo de música você toca?
– Toco num trio elétrico.
Na época os trios elétricos estavam começando a fazer sucesso.
-E em qual trio elétrico você toca?
-Conhece o tio Dodô e Osmar?
– Sim, já ouvi falar…
– Pois é… Eu sou o Dodô…
Ficamos nos olhando alguns segundos, eu surpreso e ele decepcionado. Cada um voltou à sua cerveja e a conversa morreu. No desembarque desejei sucesso a ele e ficou nisso. Até hoje sinto que dei vexame…
Escrito em 28/07/2022
