SOBRE AS GUERRAS

Nas últimas semanas estamos acompanhando a guerra na Ucrânia. Mas existem outras guerras ou situações similares ao redor do mundo. É o caso do Afeganistão, Mianmar, Sudão e muitas outras. Sem contar com a interminável guerra entre Israel e seus vizinhos. Todas têm algo em comum e é sobre isso que tenho pensado muito. Mas não é de hoje.

Primeiro, se formos olhar a fundo, todas as guerras têm por trás interesses econômicos. Por mais que pareça haver luta pelo poder, pela geopolítica, pela ideologia, pela religião, estes são argumentos para camuflar o verdadeiro interesse. Basta ver como a Rússia está sendo combatida sem haver guerra armada. O combate está se dando pelas sanções econômicas da OTAN. E a reação também está se dando com a Rússia ameaçando a Europa com escassez de petróleo, gás e grãos.

Segundo, quem faz a guerra não é a população. Esta é manipulada pelos detentores do poder, buscando sempre aumentar esse poder. Quem luta, fica ferido ou morre são os jovens, que nem entendem o real motivo da guerra. Enquanto os líderes ficam planejando estratégias em seus palácios. Com toda segurança e, hipocritamente, lamentando as baixas. Então aquela afirmação “motivacional” que, após o jogo de xadrez, os reis e os peões voltam para a mesma caixa não aplica às guerras. Terminada a guerra os mortos vão para a sepultura, os feridos vão para os hospitais e, muitas vezes, com sequelas incuráveis. Os líderes, voltam a seus palácios, para preparar a próxima guerra.

Terceiro, toda guerra gera refugiados. Há um número incrível de refugiados em todo o mundo. A ACNUR, que é o órgão da ONU que trata o assunto, estima que hoje haja cerca de 65,6 milhões de refugiados em todo o mundo. Estamos impactados pelos 4 milhões da refugiados ucranianos, porque isto está acontecendo agora, aos nossos olhos. Talvez porque se trate de refugiados europeus, de um país economicamente forte. Enquanto isso nos esquecemos dos refugiados africanos, asiáticos, etc. O impacto é menor para nós porque afinal “já são mesmo tão desafortunados”… Quando vejo as cenas da guerra na Ucrânia não consigo me colocar no lugar dos que perderam suas casas, parentes e têm que largar tudo, toda sua história em busca uma forma de sobreviver, em busca de abrigo, alimento, água, roupas. Já tentei e não consigo. Me emociono quando vejo crianças inocentes dependendo da caridade de outros povos. Me emociono quando vejo idosos contando tudo que perderam. Me emociono quando vejo mulheres cuidando sozinhas de seus filhos porque os maridos ficaram para lutar na guerra.

E, enfim, o que mais me incomoda. A televisão e a internet banalizam tudo. A violência, a fome, os dependentes químicos. Quando assistimos o noticiário sobre a guerra na Ucrânia e outras guerras, não conseguimos ter muita empatia com os ucranianos. Terminado noticiário a guerra acaba e voltamos para nosso dia-a-dia.

Escrito em 31/03/2022

MUDA LUA

A Lua muda

Inunda, do alto,

Com seus raios de prata

O mundo e sua realidade crua

A Lua muda

Com seus raios transparentes

A cor da terra imunda

No alto, impávida e segura,

A Lua a tudo assiste,

Enquanto muda de fase

Muda, a Lua apenas muda…

Ah! Lua… Lua… Muda, muda!

Escrito em Perequê, 09/07/2006

Publicado em 16/03/2022

A COR FINAL

Água

A chuva é branca

O rio é barrento

E o mar é azul

Firmamento

A nuvem é branca

A fumaça é negra

E o céu é azul

Bandeira

O retângulo é verde

O losango é amarelo

E o círculo é azul

Jardim

O mel é amarelo

A abelha é preta

E a flor é azul

Calvário

A cruz é marrom

O sangue é vermelho

E o olho é azul

Vida

O encontro é azul

O amor é azul

E a saudade é amarga

Escrito em21/09/1968 – 13:45 – aula de Mec Flu

Publicado em 15/03/2022

FIM DE ANO

Só, no meio da multidão. Cercado de risos dos amigos, do olhar desconfiado dos adversários, do ciúme dos inimigos. Os espaços externos tomados. Mas nada ou ninguém suficientemente perto, suficientemente forte para romper a carapaça capricorniana e encher os vazios interiores, com afeição, carinho e amor. Mais um Natal, mais um Ano Novo, mais um espetáculo em que o palhaço faz rir a plateia enquanto na garganta enxuga suas lágrimas recônditas. Será que devo, eu mesmo, romper a barreira e deixar que as coisas aconteçam? Mas, quem entrará? Saberá reconhecer o terreno onde pisa? Dará valor ao que recebeu sem conquistar?

x-x-x-x-x-x-x-x

Nas festas de fim-de-ano,

Nas comidas e bebidas,

Abafamos e afogamos,

As ilusões perdidas

no passar dos anos.

Os glicérides iniciam seu

trabalho, qual abutres,

sobre os destroços do coração.

Escrito em 23/12/1987

Publicado em 14/03/2022

O ESPÍRITO ADULTO E O ESPÍRITO JOVIAL

Não se dirá por aí que eu fiz crítica nem plágio. Nem critico umas “Regras para se tornar um Espírito Adulto”, que andei lendo. Nem quero transcrever aqui a ideia que Victor Hugo transmite no seu “O Homem e a Mulher”. Apenas tomo estes dois trabalhos como incentivo e base, respectivamente, para escrever o meu. Sempre quis escrever algo nesse gênero; porém faltava-me sempre um dos dois requisitos para uma boa composição literária: incentivo e inspiração.

O Espírito Adulto encara a vida como uma responsabilidade; o Espírito Jovial, as responsabilidades como a vida.

O Espírito Adulto trata bem porque a razão ordena; o Espírito Jovial, para ser agradável.

O Espírito Adulto pratica a filantropia; o Espírito Jovial, a caridade. A filantropia traz o apoio econômico, caridade, uma mensagem de solidariedade.

O Espírito Adulto é tenaz por convicção; o Espírito Jovial é maleável por natureza. O Espírito Adulto é orgulhoso por natureza; o Espírito Jovial, humilde por convicção.

O Espírito Adulto é a lente; o Espírito Jovial, o prisma. A lente esclarece pelo aumento, o prisma alegra pelo colorido.

O Espírito Adulto perdoa. O Espírito Jovial compreende. Perdoar é esquecer os erros dos outros. Compreender é lembrar os próprios erros.

O Espírito Adulto é o Sol que alimenta a vida; o Espírito Jovial, a Lua que embala a poesia. A vida é dura, como realidade; a poesia, suave como ilusão.

O Espírito Adulto tem um ideal: melhorar o Mundo; o Espírito Jovial tem um destino: melhorar a Humanidade. O Mundo acabará com a matéria; a Humanidade continuará com o espírito.

O Espírito Adulto prima pela austeridade; o Espírito Jovial, pela cordialidade. A austeridade impressiona, a cordialidade cativa.

Enfim, o Espírito Adulto é a maquina e o Espírito Jovial é o sentimento. A máquina traz o progresso; o sentimento, amor.

Escrito em algum dia entre 1960 e 1965

Publicado em 13/03/2022

ESPERA

J. G. de Araújo Jorge

Se tivésseis mandado uma palavra: – “Espera”!

sem mais nada, sem mesmo explicando até quando,

eu teria ficado até hoje esperando…

era a eterna ilusão de que fosseis sincera.

Que importaria vida, o sol, a primavera,

se eras a vida… o sol… a flor desabrochando…

se tivésseis mandado uma palavra: – “Espera”

eu teria ficado até hoje esperando…

Não mandaste… tu nada disseste, e eu segui

sem saber o que fazer da vida que era tua

procurando com o mundo, esquecer-me de ti

Porém, o destino, irônico, mordaz,

ontem fez-me cruzar com o teu olhar na rua

e ouvir-te dizer: – “Espera”… – e ser tarde demais.

Transcrito em 28/10/1962

Publicado em 12/03/2022

MINHAS INVENÇÕES

Inventei a máquina do tempo, mas como ele só nos leva ao futuro, não interessou a ninguém. Todos desejam voltar ao passado. Para consertá-lo.

Inventei a máquina que apitava quando alguém não falava o que realmente pensava, mas tive que destruí-la. O barulho era ensurdecedor e contínuo.

Inventei a máquina que tolda a visão de quem tem pensamentos egoístas, mas ninguém ainda conseguiu vê-la.

Inventei a máquina de ler os pensamentos, mas não tive coragem para usá-la.

Inventei a máquina de fazer amor verdadeiro, mas todos acharam que este era o falso.

Inventei a máquina de fazer caridade e fiquei rico! Todos acham que, quanto menos trabalho tiverem com essas coisas, melhor!!

Escrito em 02/10/1962

Publicado em 11/03/2022

AUTO RETRATO

É difícil falar de mim mesmo, mas vou tentar. Em relação ao físico, vou espelhar o que vi refletido no espelho (sem intenção de realizar trocadilho) enquanto escrevia.

Começando pelo alto, embora eu não tenha certeza se aí seja o começo ou o fim, observo que meus cabelos são castanhos (embora tenham sido bem amarelos até os 12 anos) e um pouco crespos, formando ondas nas quais ninguém até hoje se afogou, felizmente, embora alguém já as tenha afagado!?… Logo abaixo situam-se sobrancelhas regulares, encimando olhos castanhos que pedem ajuda de óculos para qualquer esforço maior que o normal (leituras, cinema, etc.). Quanto à boca, eu a acho pequena, embora se alargue quando rio, e as orelhas eu as classifico como normais a despeito de a esquerda não ser perfeitamente simétrica em relação a sua colega da direita. Deixemos agora a capital (do latim, caput = cabeça) e façamos uma excursão pelos subúrbios.

Minhas mãos são normais de tamanho, mas os dedos são grossos e nodosos devido à mania que tenho de estalá-los. Meus ombros não são tão largos quanto eu gostaria que fossem e a circunferência da cintura tem tamanho maior que o ideal; aliás, eu tenho muita facilidade para engordar e quando não quero que isso aconteça tenho que praticar muito esporte. Minhas pernas são bastante musculosas, ao contrário dos braços, pois, durante vários anos, pratiquei somente futebol e só ultimamente tenho me dedicado ao desenvolvimento dos membros superiores. Tenho boa base de sustentação, uma vez que calço 42 ou 43 (é o número do tamanho e não o número de sapatos), conforme a forma.

Tudo isso que foi nomeado acima está distribuído em 1,78m e um peso de 80kg, a qualquer momento, menos na aula de Física, quando passo a ser um corpo de peso aproximadamente igual a 80kgf, na dura!

Sem data (provavelmente perto de 1962)

Publicado em 10/03/2022