Jogávamos muita bola na rua, no final dos anos 50 e início dos 60. A rua era nosso campo de futebol. Afinal, passar um carro era quase um acontecimento. Mais de dois carros ao mesmo tempo, só quando vinha um enterro. Nossos “grandes” problemas eram as vizinhas e a polícia. Morava-se em casas, quase todas com seu jardim e as plantas eram o xodó dessas vizinhas. Quando a bola caia em algum desses jardins, muitas vezes estragavam alguma plantinha. Tínhamos que ser rápidos. Pular o muro, pegar a bola e pular o muro de volta par a rua. Quando a dona da casa era mais rápida, adeus bola e fim do jogo. Se o estrago era grande, a bola só voltava furada. E a polícia? Até hoje não sei por que era proibido jogar futebol na rua. Quando aparecia o fusquinha branco e preto da Rádio Patrulha, era um Deus nos acuda. Corríamos para esconder a bola e ficávamos sentados na porta de alguma casa, fingindo que só estávamos ali conversando. Os rostos afogueados e suados eram a prova do “crime”, que os policiais pareciam não notar. Às vezes a RP chegava despercebida e… “tchau bola”. Mais um jogo chegava ao fim antes do tempo regulamentar. Estranhamente essa bola aparecia após alguns dias, “esquecida” em algum jardim da redondeza. Foi nesse espaço futebolístico que apareceu o Milton. Era um pouquinho mais velho que nós. Ele não era morador da Rua dos Parecis ou redondezas. Também não era nosso colega de escola. Ele entrou na turma por causa do seu trabalho. Milton era… lixeiro! Tudo começou quando o caminhão de lixo trafegava lentamente e as latas de lixo eram esvaziadas na sua caçamba. Enquanto o caminhão passava, fazíamos a parada regulamentar de segurança. Numa dessas vezes, o Milton “roubou” a bola, fez umas embaixadinhas, devolveu a bola para a turma e continuou correndo atrás do caminhão. Mais tarde, saindo do serviço, ele parou para assistir ao jogo que corria solto. Logo alguém lembrou das embaixadinhas e o convidou para entrar no time. Não precisou fazer o segundo convite. Lá estava o Milton, entrosadíssimo com o time e com a turma. Quando os pais souberam da nova “aquisição” do grupo, ficaram de cabelo em pé. Passaram a vigiar de perto essa novidade. Afinal, era um lixeiro! Nós não sabíamos o nome inteiro dele, nem onde morava, nem o que fazia quando não estava trabalhando ou jogando bola. Aos poucos ele começou a aparecer também nos fins de semana, não para jogar futebol, mas apenas para estar com a turma e jogar conversa fora. Nós não estávamos preocupados com outra coisa que não a habilidade como jogador e a alegria da sua conversa. E também tínhamos uma ponta de inveja inocente, na pureza do começo da adolescência: o Milton trabalhava, enquanto todos nós só estudávamos! Pouco nos importávamos com o tipo de trabalho dele. Essa convivência durou alguns meses. De repente o Milton sumiu. Teria saído do emprego? Teria mudado de endereço? Teria morrido? Nunca soubemos. Mas ele deixou, por muito tempo (para mim, é claro, até hoje), uma lembrança forte. Era uma pessoa à frente do seu tempo. Antecipou-se em pelo menos 40 anos à hipocrisia de usar expressões sofisticadas para disfarçar nossos preconceitos. Nessa época, negro ainda não era “afro descendente”; deficiente físico não era “pessoa com necessidades especiais”; cego não era “deficiente visual”, etc., etc… Mas o Milton já sabia se proteger. Quando alguém de fora da turma perguntava no que ele trabalhava, ele respondia, com orgulho e muita dignidade: “Sou Funcionário da Limpeza Pública”. Para nós ele sempre foi Milton. Lixeiro. Só.
Escrito em 20/02/2008
Publicado em 30/07/2021
Republicado em 01/06/2026
