Muitas vezes nós achamos que a nossa vida é muito dura. Mas, quando olhamos os exemplos dos outros, percebemos que a vida é dura para muita gente, que não se deixa abater. Então criamos coragem e também não nos deixamos abater.
Quando entrei na FEI, em 1966, não tinha a mínima ideia sobre como pagar as mensalidades. O que me salvou foi que meu tio Nelson, cunhado da minha mãe, era muito bem relacionado no meio empresarial e conseguiu uma bolsa de estudos no Instituto Roberto Simonsen, da FIESP. Eram dez salários mínimos por ano durante todos os cinco anos, desde que não fosse reprovado em nenhum ano. (Um parêntesis. Anos mais tarde, quando eu já estava trabalhando em RH, fui contratado pela Divisão de Engenharia do Grupo Ultra. Um dos principais diferenciais, segundo meu entrevistador, foi que eu que era o primeiro engenheiro da FEI, que ele conhecia, que tinha feito o curso em cinco anos. Mal sabia ele que eu só tive duas opções: ou fazia em cinco anos ou não seria engenheiro…). Voltando à vaca fria. Nos cinco anos de faculdade aprendi a entender o efeito da inflação. No primeiro ano a bolsa dava par pagar as mensalidades, comprar livros e pagar a condução. A partir do terceiro ano tive que dar aulas particulares, trabalhar no Curso Universitário e fazer estágio, só para complementar as mensalidades. Depois de formado, de acordo com o contrato, devolvi, mês a mês, os cinquenta salários mínimos.
Mas não é sobre isso que me propus a escrever. Perdoem-me a digressão. Bem, como expliquei anteriormente, o dinheiro da bolsa dava para muitas coisas, mas não sobrava para a alimentação. Então minha mãe preparava, todos os dias, três lanches de pão francês com três recheios diferentes. Ela tinha uma criatividade incrível. Os lanches eram de tomate temperado como salada, carne moída, verdura ao alho e óleo, ovo frito, bife, manteiga com mel etc. Na hora do almoço eu ia para o imenso refeitório, onde me sentava em alguma mesa em que os colegas comiam do bandejão ou algum prato à la carte. Enquanto tomavam suco ou refrigerante, eu pegava água do bebedouro. Mas isso, sinceramente, não me incomodava. O que me incomodava mesmo era levar aquele pacote no ônibus e de aula em aula até a hora do almoço. E eu achava que este incômodo era um grande problema. Mas não era.
Alguns colegas tinham uma vida bem mais difícil que a minha. Um amigão era o Caetano. Ele morava a quase 1 Km da minha casa. Para quem conhece S. Paulo: ele morava na rua Apeninos, esquina com rua Pires da Mota e eu, na rua dos Pareceis, no outro extremo da Pires. Ele namorava com uma garota que morava pertinho da minha casa e se chamava Helena Maria e eu namorava a Maria Helena… Por causa disso acabamos ficando mais próximos. Ambos os namoros acabaram em casamento. Pois bem, logo descobri que ele tinha uma situação financeira bem pior que a minha. Então para pagar a faculdade, ele trabalhava de guarda noturno numa agência da Caixa Econômica Federal. E aproveita as horas de trabalho para estudar. Anos depois eu soube que ele tinha feito carreira na Caixa e ocupava um alto posto na área de Informática.
Outro exemplo foi o Silas. Ele era bem mais velho que a maioria da turma e fazia Engenharia Química. Mas nos primeiros anos tínhamos muitas aulas em comum. Como era muito simpático, logo fiz amizade com ele. Um dia perguntei se tinha tido muita dificuldade para passar no vestibular já que era bem mais velho que nós. Então ele contou que os pais não tinham condições de pagar a faculdade e ele resolveu fazer curso técnico de Química Industrial e começar a trabalhar mais cedo para juntar dinheiro para estudar Engenharia Química. Durante cinco anos ele não gastou um tostão que não fosse absolutamente necessário. Não namorava, não ia ao cinema, não fumava. E agora estava realizando seu sonho. Infelizmente, muitos anos depois, eu soube que a esposa dele estava dentro do carro com um filho enquanto esperava a chuva passar para pegar o outro filho. Por causa da chuva, um muro caiu sobre o carro e os dois morreram.
E agora, meu grande amigo, parceiro de estudos e de viagens entre casa e FEI. O José Barbosa. Era um baixinho, pardo como se diria hoje, com algum problema que o fazia claudicar levemente. Na rua Espírito Santo, na Aclimação, havia um terreno inclinado calçado como uma rua. Dos dois lados dessa “rua” havia uma série de galpões. (Mais tarde vim a morar num prédio vizinho desse terreno). Num desses galpões havia uma empresa de tratamento térmico de metais. Do outro lado dessa empresa havia uma casinhola onde moravam o Barbosa e seus pais. O pai dele era operário dessa empesa e o Barbosa o ajudava sempre que necessário. Ficava a poucas quadras da minha casa. Incontáveis vezes eu comi na casa dele e ele na minha, quando estudávamos ou fazíamos algum trabalho. Claro que, quando se tratava de matéria sobre tratamento térmico, todos nos apoiávamos na experiência dele. Já no quinto ano ele comprou um “fusquinha” e sempre que possível eu pegava carona com ele. Ele foi fazer estágio na GM e ali ficou. Mais tarde foi transferido para os Estados Unidos e lá passou um bom tempo. Quando voltou fez doutorado, em metalografia se não me engano, e tornou-se professor. Que exemplo de força de vontade!!
Enfim, como diz, brincando, meu contador: “Oceis sabe as pinga que eu tomo, mas não sabe os tombo que eu levo”.
Escrito em 19/05/2022
