O MUNDO QUE POSSO VER PELA JANELA

Janelas, assim como portas, têm dupla função. Tanto podem nos esconder ou proteger do mundo como podem nos fazer interagir com ele. Com a nova forma dos relacionamentos gerada pela pandemia, a janela tornou-se para mim a principal forma de me relacionar com o mundo real. Tanta coisa se passa aqui embaixo, na rua, sem que eu saiba exatamente o que está se passando. Já que o distanciamento social dificulta o contato direto com as pessoas que enxergo resta-me usar a imaginação para adivinhar o que há por trás do que posso ver. Não é pouca coisa. Moro no segundo andar, com altura de terceiro devido a uma sobreloja. É um prédio de 10 andares de uso misto (residencial e comercial) na esquina da Rua Cardoso de Almeida com Av. Francisco Matarazzo. Bem numa das extremidades da ligação Leste/Oeste, cujo nome oficial é Elevado Presidente João Goulart. Mas aqui em Sampa é conhecido popularmente por Minhocão (acredito que muitos nem saibam o nome oficial, que também já foi Elevado Costa e Silva). E é daqui que vou contar o que se passa neste pedaço de mundo. Muito pequeno, mas cheio de detalhes interessantes.

A primeira coisa que vejo ao sair na janela é uma passarela para pedestres. Ela começa bem aqui em frente, ao lado da banca de jornais e do florista e vai até o outro lado da av. Francisco Matarazzo, passando por cima do trânsito de entrada e saída do Minhocão. Ela termina ao lado do restaurante Ponto Chic e em frente à Igreja Padre Péricles. Este Ponto Chic é filial do Ponto Chic do Largo Paissandu onde foi criado o famoso sanduiche Bauru. Quando eu trabalhava na Votorantim, na Praça Ramos de Azevedo, atrás do Teatro Municipal, comia lá pelo menos uma vez cada quinze dias. Deliciosas recordações… Desde que mudei para cá tenho muita vontade de ir lá e comer o sanduiche de pernil, outra marca registrada do restaurante, e tomar o chopp inigualável. Mas, me perguntarão, porque ainda não fui se é tão perto? O obstáculo é a própria passarela. Tenho um medo quase patológico de altura e não consigo nem pensar em passar para o lado de lá. Então fico olhando para a fachada do restaurante com um olho comprido. Enquanto observo o movimento da rua, vejo que a maioria das pessoas não usa a passarela para atravessar. Preferem aguardar uma brecha no trânsito e ir por baixo. Isso me consola um pouco, por imaginar que essas pessoas também têm medo de altura. Para mim também não resolve porque não tenho agilidade para me esquivar dos carros. Talvez a única solução seja pedir comida por aplicativo.

A igreja que mencionei é a de São Geraldo. No ano passado minha neta Sophia fez lá sua primeira comunhão. Para ir lá a Camila teve que passar aqui e me levar de carro. Essa falta de mobilidade, talvez mais falta de confiança nas minhas pernas, é o que mais aborrece atualmente. Além disso, sinto falta da missa dominical, um momento de paz e introspecção. Para compensar, mesmo que parcialmente, assisto a missa das dez na igreja de São Judas, pelo Youtube. Mas eu quero mesmo é voltar a assistir missa presencialmente. Só uma coisa me intriga sobre essa igreja; não consigo entender por que os sinos tocam na meia-hora e não na hora cheia. Quando eu conseguir ir lá vou procurar esclarecer.

Outra coisa que observo este pedaço de mundo são os “trabalhadores da rua”. Não, não me enganei. Não estou falando dos moradores de rua. Sobre estes até já falei em outro texto. Explico. Primeiro, são os catadores. Alguns passam com um saco de plástico na mão, remexendo as lixeiras à procura de latas, garrafas PET e outra miudezas que possam render alguns trocados. Depois aparecem, quase diariamente, os carroceiros. Eles puxam enormes carroças onde vão acumulando papel e papelão, restos de embalagens descartadas pelas lojas, itens achados nas caçambas de entulho. Nessas caçambas acham de tudo: vidros quebrados, portas, esquadrias e já vi até móveis e fogões. Imagino que eles levem tudo isso para ser vendido nos eco pontos ou empresas de reciclagem. O que mais me admira é que eles andam junto ao meio-fio, mas de vez em quando têm que desviar e vão para o meio da rua ou têm que atravessar um cruzamento e aí percebo que, geralmente, são muito respeitados pelos motoristas. Mais duas figuras que trabalham na rua: o vendedor de pamonha (passa de vez em quando, mas para bem aqui em frente; quando posso, desço e compro pamonha ou curau); e o amolador de facas. Eu pensei que esta era uma profissão extinta, mas não. Talvez uma vez por mês escuto o som daquela gaitinha característica, saio na janela e o amolador está passando com o equipamento montado numa bicicleta. Imagino que seus maiores fregueses sejam as lanchonetes da região. Então me dá saudade da minha infância, lá na Rua dos Parecis.

Outra cena bastante comum neste pedaço de mundo à frente da minha janela são os cachorros, levados por suas donas ou seus donos para passear. Começa que cachorro agora é chamado de PET (essa denominação inclui uma série de outros animais: gatos, peixes, cacatuas, etc. etc.). Sou da época que cachorro era cachorro. Comiam restos da comida da casa onde moravam e eram levados para vacinar contra algumas poucas doenças, especialmente a raiva, e tomavam banho em casa. Hoje com uma Pet Shop quase em cada quarteirão, todos sabemos que grande indústria é essa de artigos para os pets. Sempre gostei da animais. Já tive cachorros, gatos, passarinhos, já fiz aquarismo. Mas não consigo me acostumar a tratar os pets como “meu filho” ou “minha netinha”. Meus netos têm cachorro, minha filha tem uma cachorrinha, mas não consigo me acostumar a ser avô deles. Hoje eu aceito quando falam assim, mas não me acostumo. Muitas vezes me pego pensando quando e por que os animais de estimação viraram pets e passaram a ser tratados como gente. Tenho minhas ideias, mas não vou contá-las para não me indispor com esse universo pet.

Bem, vou parando por aqui este longo texto para não cansar quem me lê. Não sem antes falar sobre os sons que entram pela janela. Bem em frente de casa tem uma árvore enorme. De vez em quando vejo pássaros voando, mas o trinado deles é inaudível, infelizmente. E mesmo as pombas, que vez por outra estacionam aqui no parapeito, parecem mudas. É que os sons do trânsito são altos e praticamente contínuos. Ambulâncias passam sempre com a sirene ligada. Talvez umas trinta, ou mais, por dia. Cada vez que passam fico pensando em qual será a urgência. Estará dentro da ambulância ou à espera dela? Sempre me causa um pouco de aflição e às vezes, me impede de ouvir algo muito interessante na TV. Por falar nisso, outro som que me incomoda muito são os motoqueiros que passam com suas irritantes buzininhas ou o escapamento totalmente aberto. É simplesmente neurotizante. Por falar nisso, buzinadas são muito frequentes. Será que esses motoristas acham que a buzina vai fazer os carros à frente desaparecerem? Graças a Deus o minhocão fica fechado à noite. Então fica um silêncio quase total e posso dormir sossegado. Mesmo o pessoal que fica na calçada do boteco aqui ao lado, meu fornecedor de feijoada, nunca faz grande alarido e nunca além das 22h.

Não vejo a hora de pegar uma caravela e visitar outros mundos…

Escrito em 4, 5 e 6/05/2022

4 respostas para “O MUNDO QUE POSSO VER PELA JANELA

  1. Você me transportou até a sua casa onde lhe fiz uma visita e ouvi de viva voz como é o seu dia a dia.
    Muito legal.
    Parabéns

  2. Te superastes Paulo!!! Daqui de p Poa, me senti frente ao minhocão!!! Vou tentar novamente mandar a Eclair!! Ela anda meio “ manhera” para novos ares.Mais vou insistir!!

    1. Obrigado pelo carinho. Insista mesmo por que quero ter mais um laço com o RS. Tinha tio que era de Quaraí, com quem aprendi a fazer churrasco e um colega do trabalho, com quem aprendi muitos termos regionais.

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