REMINICÊNCIAS DE UMA VIDA TODA

Eu não poderia deixar de comentar muita coisa que vi e vivi ao acompanhar a carreira do Pelé, que nos deixou ontem com a idade de 82 anos. Só 7 a mais que eu. Portanto, naquela memorável Copa do Mundo em que ele se tornou uma celebridade, eu tinha 11 anos. E desde então acompanhei essa carreira incrível. Tantas recordações! Vou relatar umas poucas.

Na minha adolescência eu costuma passar minhas férias de verão casa da minha madrinha Wilma, em Santos. É, bom para os mais jovens, lembrar que naquela época essas férias eram de 3 meses! Então acabei me enturmando com os amigos dos meus primos Márcio e Mirian. Tanto que passei a considerar Santos minha segunda cidade. Minha madrinha morava a poucos quarteirões da Vila Belmiro, onde jogava o Santos F.C., que passei também olhar como segundo time do coração (sou São Paulino). Como já era fanático por futebol, sempre que podia ia passear em frente ao Estádio Urbano Caldeira. Via um jogador ou outro, entrando ou saindo dos treinos. Um dia, em que haveria um jogo do Santos contra dois times bolivianos (naquela época havia sempre um jogo preliminar, o famoso segundão…), fui para lá. Não se sabia se o Pelé jogaria, pois estava se recuperando de uma contusão. Ele faria um teste à tarde. E lá fui eu me postar na praça em frente ao estádio para saber das novidades. Chegando lá, vi vários jogadores “concentrados” em volta de uma mesa, no bar em frente, tomando cerveja. Logo chegou o Pelé num Simca Chambord branco e lilás, com interior todo branco. Estacionou próximo aos colegas e deixou a porta do carro aberta, com o rádio ligado, e entrou no estádio. Dali uma meia hora o Laércio, goleiro reserva, sai de lá de dentro e fala: “Hoje o negrão joga!” Todos bateram palmas e pediram mais uma rodada de cerveja. Claro, fui ao jogo à noite, assistir desde a preliminar, quando no segundo quadro jogava o Zoca, irmão dele. No primeiro jogo o Santos fez 7 gols e, no segundo 11.

No futebol antigo, a formação tática dos times incluía o que era chamado o quarto zagueiro. A este cabia marcar os meias do adversário, que era o nome da posição do Pelé. E, é claro, havia uma certa disputa para saber quem era o melhor marcador do Pelé. Quem era melhor em evitar que ele fizesse suas ameaçadoras jogadas. Alguns o faziam com técnica, outros com violência O São Paulo tinha um quarto zagueiro chamado Vitor, especialista em marcação truculenta. Pelé, além da habilidade, era conhecido por suas velozes arrancadas. Pois bem, num jogo contra o São Paulo, ele pegou a bola e o Vitor estava grudado nele. Ele tocou a bola para a frente e começou a correr em direção à área. E o Vitor correu com ele, mas rapidamente começou a perder terreno. Pelé percebeu que logo o Vitor o derrubaria, então, quando chegou na intermediária, pisou na bola deixando-a para trás e aumentou a velocidade. Vitor não percebeu a jogada e continuou correndo com ele. E quando entraram na área Vitor o derrubou. Pênalti e expulsão por falta sem bola. Além de tudo o Pelé era incrivelmente inteligente e de raciocínio rápido. Gol do Santos.

Nos primeiros tempos do Brasileirão, naquela época chamado Taça Brasil, o Santos foi jogar com o Náutico, em Recife. Pelé fez três gols e o Santos venceu com facilidade. Para o segundo jogo, no Pacaembu, o quarto zagueiro prometeu “grudar” no Pelé, de modo a anular todo o time do Santos. Fui ao campo assistir esse jogo. Realmente o quarto zagueiro não deixou o Pelé fazer nenhum gol. Mas o Santos ganhou com três gols do Coutinho e um do Dorval. Quatro passes do Pelé. Ela jogava para o time, não para si.

Num jogo contra o Paraguai, no Pacaembu, sentei atrás do gol, uma posição que eu detestava porque na prática só dava ver metade da partida. Mas nesse dia tive a oportunidade de ver a genialidade do Pelé bem de perto. O Brasil, no segundo tempo, atacava exatamente para gol logo abaixo dos meus olhos. Já estávamos ganhando por 4×2 e o Brasil o tempo todo no ataque. Com isso, os escanteios foram se sucedendo. Quem era o batedor oficial pela esquerda era o Pepe, colega do Pelé no Santos. O Pelé que, sempre subia bem de cabeça, ia para o centro da área e pedia a bola para o Pepe. Mas a bola nunca chegava boa para ele. Depois de três ou quatro escanteios o Pelé perdeu a paciência e fez sinal para o Pepe ir para dentro da área e deixar a cobrança para ele. Bateu na cabeça do Pepe, que fez um dos poucos gols de cabeça de sua carreira.

Esse é um resumo resumido do Pelé que conheci. Inesquecível. Eternamente em minha mente e em nossos corações.

Escrito em 30/12/2022