ANOTAÇÃO 34

Ontem, 24/05, fiz mais uma sessão de fisioterapia. Hoje minha perna esquerda está bem menos dolorida! Ao mesmo tempo que isso me alegra, me traz o pensamento de como será minha vida depois daqui. Talvez eu precise alguém me cuidando, ao menos algumas horas por dia, alguns dias por semana. Só o tempo dirá. Sair daqui já me dará enorme satisfação. Sentado aqui, na sala de TV, continuo com algumas observações que tenho feito.

Primeira: aqui há muito mais mulheres do que homens. Com certeza pelo menos 80% dos moradores são mulheres. Será que elas adoecem mais, ou vivem mais que os homens? (talvez esta hipótese seja a mais provável).

Segunda: nenhum/nenhuma dos moradores são negros. Será que os negros não adoecem, ou morrem mais cedo? Mas talvez a razão, mais triste, é que a maioria dos negros não têm capacidade financeira para arcar com custo?!…

Terceira: por outro lado, a maioria das cuidadoras e cozinheiras são afrodescendentes. Pode ser que isto também se justifique pela falta de oportunidades de estudos.

Quarta (e última…): acho que mais da metade das cuidadoras são bem gordinhas e algumas definitivamente obesas, embora jovens. Não tenho qualquer hipótese para isso, embora possa parecer uma característica dessa nova geração. Mas todas são muito atenciosas e nos tratam com todo carinho.

Escrito em 31/08/2023

ANOTAÇÃO 33

Hoje, 21/05, engatei um papo muito gostoso com a Cleide, de quem já falei em outra anotação, enquanto esperávamos o almoço. Minha vizinha de quase em frente do meu apartamento no 4º andar. Quer dizer, ela falou e eu ouvi, por quase meia hora. Ela mesma riu e disse que gosta muito de falar. Começou puxando papo sobre se gosto de futebol e qual meu time preferido. Depois enveredou pelo tênis, pois percebeu que tenho assistido ao torneio de Roland Garros. Disse que jogou tênis em vários clubes, incluindo o Clube de Campo do Castelo, na beira da represa Billings, onde também fui sócio por muitos anos. Falou sobre a ala dos barcos, das churrasqueiras e da piscina, demonstrando que realmente conhecia bem o Clube. Falou sobre os grandes jogadores dos últimos tempos: Federer, Nadal e Djokovic. Falou sobre os tipos de quadras: de grama e de saibro. Depois contou que fez muitos esportes no Esporte Clube Pinheiros. Reforçando minha ideia inicial de que é uma pessoa de posses.

Escrito em 29/08/2023

ANOTAÇÃO 32

Hoje, 20/05, tomei o lanche da tarde com minha já conhecida baiana Serafina. O Roberto já tinha me procurado na sala de estar para dizer que o lanche estava sendo servido no 4º andar, mas eu respondi que ia ficar aqui embaixo mesmo. Depois que eu já estava sentado ele entrou no refeitório me procurando. Quando me viu ofereceu para trazer meu lanche e eu recusei. Então ele me disse que ia para a área externa, na mesma poltrona onde conversamos ontem por mais de uma hora. Não falei nada. Depois que ele saiu a Serafina fez um gesto com mãos como dizendo “sai, demônio” … Ela me perguntou se eu sabia por que ele estava aqui. Fiz que não e ela me falou: “ele batia na mulher e os filhos o colocaram aqui”. Então eu entendi a dificuldade para falar com a esposa no dia das mães. Cruz, credo… Tenho que me afastar dele tanto quanto eu puder…

Escrito em 24/08/2023

ANOTAÇÕES 30 E 31

30 – Hoje, 29/05, tomei lanche com minha “colega” Heloisa. Já havia notado que ela anda com o andador, mas sem apoiá-lo no chão. Pendurada no andador, uma sacolinha com cigarro. Toda hora ela vai lá fora para fumar. Parece um pouco desligada. Perguntou meu nome e, quando falei, o rosto dela se iluminou num belo sorriso disse: “Meu marido se chama Paulo. E meu filho também se chama Paulo”. (Parêntesis: o filho vem quase todo dia acompanhar o almoço dela). Ela deve ter sido uma mulher linda e elegante. Cabelos totalmente brancos como neve, de corte Chanel e muito bem cortados. Tem os olhos cor de azeitona, mas inexpressíveis. Veste-se melhor que a maioria das moradoras, muito elegante. Minha cuidadora me disse que o armário dela é cheio de roupas e que ela mesmo escolhe o que vai vestir.

31 – Hoje, 30/05, quando cumprimentei a Heloisa, na sala de estar, ela me olhou como se nunca tivesse me visto e não respondeu ao cumprimento. Poucos dias depois algo aconteceu, pois passou a usar cadeira de rodas. Gosta de andar empurrando a cadeira e toda hora se envolve em confusão por causa disso…

Escrito em 22/08/2023

ANOTAÇÃO 29

Ontem, dia 20/05, como havia carne moída no almoço, comentei com o Roberto que fazia falta uma pimenta. Aí ele me contou que havia ganho, de um ex-morador do Residencial, um vidro de Tabasco e que traria para o almoço do dia seguinte. Hoje trouxe e disse que estava me dando de presente. Foi muito bom, porque o almoço de hoje foi fricassê de frango. Até emprestei o vidro para a Lourdes, baiana cuidadora da Ita, já mencionada em outra anotação. Mas, em troca, ele está cada vez mais procurando se aproximar de mim. Estou tendo muito trabalho para não deixá-lo grudar muito em mim.

Escrito em 17/08/2023

ANOTAÇÃO 28

15/05 – Já fazia um tempo um tempo que vinha reparando nele. Chama-se Roberto. Sempre sozinho, anda um pouco penso para o lado esquerdo. De bermuda e chinelo croc. Ou ficava na área externa ou subia para o quarto. Quando entravamos para as refeições ele já estava lá. Sempre na mesma mesa e servindo-se por si próprio. Usa garfo, faca e colher. Mas o garfo só serve para empurrar a comida para a colher, com a qual leva o alimento à boca.

Hoje fui tomar banho de sol na área externa e calhou que a poltrona vazia era ao lado dele. Conversamos bastante tempo. Sobre viagens e futebol. Ele conhece muito do futebol “antigo”. E sabe muito sobre outros países e estados brasileiros. Trabalhou na Alitalia, na Braniff e numa empresa italiana de navegação. Conversa longa e agradável, suficiente para estabelecermos algum vínculo. Desse dia em diante ele procurou sempre estar comigo. Reservando a poltrona na área externa, ou se sentando ao meu lado na área interna e até guardar para mim um lugar à mesa “dele”. No sábado me pediu para usar meu celular para falar com a filha e combinar de falar com a esposa pelo dia das mães. Perguntei se ele não tinha celular e ele respondeu que a filha achava muito caro… Não lembrava o número da filha e me fez pesquisar na internet. Não consegui. Ele subiu para o quarto e voltou com o número. Pediu para eu digitar e passar o celular para ele. Comecei a sentir que havia algo errado. Ontem ele, me convidou para ir tomarmos sol, mas eu preferi não ir. À tarde me pediu para ver o jogo no meu quarto. Aquela “pulga atrás da orelha” começou a pular novamente. Descobri que, além do celular, também não tem televisão. Respondi que preferia ver sozinho. Depois disso, toda hora ele passava ao meu lado e perguntava: “O que aconteceu? Falei alguma coisa errada?” Hoje perguntei à cuidadora durante o banho, por que ele mora aqui. Ela disse que ele é esquizofrênico. Contei a história do celular e ela me disse que ele está proibido de se comunicar com a família. Para eu não me fiar nele, pois vive pedindo celular emprestado. Preciso dar um jeito de me afastar dele. Comecei evitando sentar-me ao lado dele para tomar sol e comer na mesma mesa que ele. Ia sempre um pouco mais tarde para o refeitório, para que já não houvesse mais lugar na mesma mesa. Tenho pena, porque sou a única pessoa aqui com quem ele conversa. Mas preciso me preservar do desconhecido.

Escrito em 10/08/2023

ANBOTAÇÕES 26 E 27

26 – Hoje tomei lanche da tarde com a Cleide. Minha vizinha de andar. Sempre que ela passa nos cumprimentamos, mas nunca havíamos conversado. Falou pelos cotovelos e ela mesma reconheceu que gosta de falar. Disse que mora aqui há quatro meses, mas já morou em outros lugares, inclusive um perto da PUC. Acho que sei onde há um hotel residencial, na rua Monte Alegre. Contou que sua casa é em Alphaville e que teve um apartamento no Guarujá. Aparenta ser pessoa de posses. Várias vezes saiu para almoçar com parentes. Quando eu estava assistindo o torneio de Roland Garros ela se juntava para assistir com a turma. Contou que jogava tênis e, realmente, demonstra conhecer os jogadores. Quando ela sai no meio de uma partida, na volta vem direto perguntar o resultado.

27 – Hoje, 12/08, foi um dia ruim. Acordei antes das 6h, com forte refluxo. Muita náusea, mas sem vômito. Depois do banho medi a pressão e estava 16/10. Tomei Dramin e melhorei um pouco. Deu para comer um pouco no almoço: arroz, feijão, purê de abóbora cabotia, carne de panela e salada de rúcula. Sobremesa foi flan de chocolate. Não tomei o lanche da tarde, pois estava enfastiado. No jantar comi duas bisnaguinhas com carne louca. Sobremesa foi gelatina. Não sei se vou tomar o lanche da noite, porque ainda estou enjoado. Tomei Vonau e estou melhorando.

Escrito em 03/08/2023

ANOTAÇÃO 25

25 – Almoço de hoje, 12/05. A mesa “dos meninos” estava completa. Além do Ricardo (que voltará em várias anotações), estávamos eu, o Valdir (que também aparece em outros momentos) e o Heitor, o ex-juiz de direito.  Ele sempre briga por lugares que julga serem só seus. Hoje o “seu” lugar, na “sua” mesa estava ocupado e ele veio para a nossa mesa, reclamando muito. Quando nos sentamos, o Rubens já estava comendo. O Heitor veio para a nossa mesa, se queixando que haviam pegado seu lugar. Ele ficou indignado. Depois veio o meu prato e ele continuou reclamando da demora em ser servido. Até o Valdir lhe disse: “Com pressa para fazer o quê?”. Na hora da sobremesa continuou se queixando; tivemos que arrastar a mesa para que ele tivesse espaço para se levantar.

Escrito em 01/08/2023

ANOTAÇÃO 25

25 – Almoço de hoje, 12/05. A mesa “dos meninos” estava completa. Além do Ricardo (que voltará em várias anotações), estávamos eu, o Valdir (que também aparece em outros momentos) e o Heitor, o ex-juiz de direito.  Ele sempre briga por lugares que julga serem só seus. Hoje o “seu” lugar, na “sua” mesa estava ocupado e ele veio para a nossa mesa, reclamando muito. Quando nos sentamos, o Rubens já estava comendo. O Heitor veio para a nossa mesa, se queixando que haviam pegado seu lugar. Ele ficou indignado. Depois veio o meu prato e ele continuou reclamando da demora em ser servido. Até o Valdir lhe disse: “Com pressa para fazer o quê?”. Na hora da sobremesa continuou se queixando; tivemos que arrastar a mesa para que ele tivesse espaço para se levantar.

Escrito em 01/08/2023