15/05 – Já fazia um tempo um tempo que vinha reparando nele. Chama-se Roberto. Sempre sozinho, anda um pouco penso para o lado esquerdo. De bermuda e chinelo croc. Ou ficava na área externa ou subia para o quarto. Quando entravamos para as refeições ele já estava lá. Sempre na mesma mesa e servindo-se por si próprio. Usa garfo, faca e colher. Mas o garfo só serve para empurrar a comida para a colher, com a qual leva o alimento à boca.
Hoje fui tomar banho de sol na área externa e calhou que a poltrona vazia era ao lado dele. Conversamos bastante tempo. Sobre viagens e futebol. Ele conhece muito do futebol “antigo”. E sabe muito sobre outros países e estados brasileiros. Trabalhou na Alitalia, na Braniff e numa empresa italiana de navegação. Conversa longa e agradável, suficiente para estabelecermos algum vínculo. Desse dia em diante ele procurou sempre estar comigo. Reservando a poltrona na área externa, ou se sentando ao meu lado na área interna e até guardar para mim um lugar à mesa “dele”. No sábado me pediu para usar meu celular para falar com a filha e combinar de falar com a esposa pelo dia das mães. Perguntei se ele não tinha celular e ele respondeu que a filha achava muito caro… Não lembrava o número da filha e me fez pesquisar na internet. Não consegui. Ele subiu para o quarto e voltou com o número. Pediu para eu digitar e passar o celular para ele. Comecei a sentir que havia algo errado. Ontem ele, me convidou para ir tomarmos sol, mas eu preferi não ir. À tarde me pediu para ver o jogo no meu quarto. Aquela “pulga atrás da orelha” começou a pular novamente. Descobri que, além do celular, também não tem televisão. Respondi que preferia ver sozinho. Depois disso, toda hora ele passava ao meu lado e perguntava: “O que aconteceu? Falei alguma coisa errada?” Hoje perguntei à cuidadora durante o banho, por que ele mora aqui. Ela disse que ele é esquizofrênico. Contei a história do celular e ela me disse que ele está proibido de se comunicar com a família. Para eu não me fiar nele, pois vive pedindo celular emprestado. Preciso dar um jeito de me afastar dele. Comecei evitando sentar-me ao lado dele para tomar sol e comer na mesma mesa que ele. Ia sempre um pouco mais tarde para o refeitório, para que já não houvesse mais lugar na mesma mesa. Tenho pena, porque sou a única pessoa aqui com quem ele conversa. Mas preciso me preservar do desconhecido.
Escrito em 10/08/2023
