O LIXEIRO

Jogávamos muita bola na rua, no final dos anos 50 e início dos 60. A rua era nosso campo de futebol. Afinal, passar um carro era quase um acontecimento. Mais de dois carros ao mesmo tempo, só quando vinha um enterro. Nossos “grandes” problemas eram as vizinhas e a polícia. Morava-se em casas, quase todas com seu jardim e as plantas eram o xodó dessas vizinhas. Quando a bola caia em algum desses jardins, muitas vezes estragavam alguma plantinha. Tínhamos que ser rápidos. Pular o muro, pegar a bola e pular o muro de volta par a rua. Quando a dona da casa era mais rápida, adeus bola e fim do jogo. Se o estrago era grande, a bola só voltava furada. E a polícia? Até hoje não sei por que era proibido jogar futebol na rua. Quando aparecia o fusquinha branco e preto da Rádio Patrulha, era um Deus nos acuda. Corríamos para esconder a bola e ficávamos sentados na porta de alguma casa, fingindo que só estávamos ali conversando. Os rostos afogueados e suados eram a prova do “crime”, que os policiais pareciam não notar. Às vezes a RP chegava despercebida e… “tchau bola”. Mais um jogo chegava ao fim antes do tempo regulamentar. Estranhamente essa bola aparecia após alguns dias, “esquecida” em algum jardim da redondeza. Foi nesse espaço futebolístico que apareceu o Milton. Era um pouquinho mais velho que nós. Ele não era morador da Rua dos Parecis ou redondezas. Também não era nosso colega de escola. Ele entrou na turma por causa do seu trabalho. Milton era… lixeiro! Tudo começou quando o caminhão de lixo trafegava lentamente e as latas de lixo eram esvaziadas na sua caçamba. Enquanto o caminhão passava, fazíamos a parada regulamentar de segurança. Numa dessas vezes, o Milton “roubou” a bola, fez umas embaixadinhas, devolveu a bola para a turma e continuou correndo atrás do caminhão. Mais tarde, saindo do serviço, ele parou para assistir ao jogo que corria solto. Logo alguém lembrou das embaixadinhas e o convidou para entrar no time. Não precisou fazer o segundo convite. Lá estava o Milton, entrosadíssimo com o time e com a turma. Quando os pais souberam da nova “aquisição” do grupo, ficaram de cabelo em pé. Passaram a vigiar de perto essa novidade. Afinal, era um lixeiro! Nós não sabíamos o nome inteiro dele, nem onde morava, nem o que fazia quando não estava trabalhando ou jogando bola. Aos poucos ele começou a aparecer também nos fins de semana, não para jogar futebol, mas apenas para estar com a turma e jogar conversa fora. Nós não estávamos preocupados com outra coisa que não a habilidade como jogador e a alegria da sua conversa. E também tínhamos uma ponta de inveja inocente, na pureza do começo da adolescência: o Milton trabalhava, enquanto todos nós só estudávamos! Pouco nos importávamos com o tipo de trabalho dele. Essa convivência durou alguns meses. De repente o Milton sumiu. Teria saído do emprego? Teria mudado de endereço? Teria morrido? Nunca soubemos. Mas ele deixou, por muito tempo (para mim, é claro, até hoje), uma lembrança forte. Era uma pessoa à frente do seu tempo. Antecipou-se em pelo menos 40 anos à hipocrisia de usar expressões sofisticadas para disfarçar nossos preconceitos. Nessa época, negro ainda não era “afro descendente”; deficiente físico não era “pessoa com necessidades especiais”; cego não era “deficiente visual”, etc., etc… Mas o Milton já sabia se proteger. Quando alguém de fora da turma perguntava no ele trabalhava, ele respondia, com orgulho e muita dignidade: “Sou Funcionário da Limpeza Pública”. Para nós ele sempre foi Milton. Lixeiro. Só.

Escrito em 20/02/ 2008

Publicado em 30/07/2021

ENTENDER OU EXPERIMENTAR

Aniversário da cidade de São Paulo. Vale do Anhangabaú. Meu celular toca. É uma amiga convidando para irmos ao cinema (Nota do autor: era a Viviane, que havia conhecido na excursão do réveillon). Ela fica muito surpresa em saber onde estou e pergunta: “Mas… você gosta de multidão?!…”. Essa pergunta me fez começar a pensar muito sobre a minha presença ali. Entendi, ou melhor, comecei a entender, o quanto aquele momento estava sendo didático para mim. Era um evento gratuito. Acredito que a grande maioria das pessoas que estavam lá só pode mesmo se divertir em eventos gratuitos. É uma situação que faz parte de suas vidas. Era evidente a alegria por estarem ali. Dançando e cantando, aplaudindo e participando. Mas só quando a banda tocou e a cantora cantou “Saudosa Maloca” é que entendi a diferença entre entender e experimentar. A energia e a vibração que senti, vindas daquela multidão, me puseram lágrimas nos olhos. Cantavam a letra da música com entusiasmo. Com verdadeira paixão. E isso me fez entender. Aquelas pessoas experimentam aquela realidade no seu cotidiano. Por isso cantavam com tanto sentimento. E mostravam, como os personagens da música, serem capazes de enfrentar as dificuldades que a vida contém. E encontram meios de vencê-las ou formas de conviver com elas. Que lição! Saí dali muito mais confiante na capacidade do ser humano sobreviver aos mais duros desafios. Experimenta as dificuldades e entende que assim é a vida. E dilui suas lutas nas multidões cúmplices, que só podemos entender se experimentarmos.

Escrito em 25 de janeiro de 2008

Publicado em 28/07/2021

DESFILE DE CIRCO

Como sua família fazia há gerações, Quincas Camargo organizava o desfile do Gran Circus Camargo em uma nova cidade. Como sempre, a banda viria à frente, logo seguida dos trapezistas, malabaristas e contorcionistas. Depois, os animais de porte: elefantes, cavalos, tigres, leões. O próprio Quincas (QC, como alguns o chamavam veladamente) desfilava numa plataforma armada no alto do primeiro elefante, usando o megafone para anunciar as atrações do circo. Bem atrás dos animais, os palhaços e, em seguida, o restante da troupe oferecia aos assistentes uma amostra grátis caprichada dos números que seriam exibidas nas diversas funções a se realizarem a partir de logo mais à noite.

Mais uma vez, QC fazia seu trabalho pensando nos por quês dessa ordem, sempre a mesma há tantas décadas. A banda tinha que abrir o desfile, para despertar a atenção do distinto público. As formosas (ainda que à custa de quilos de maquiagem e roupas extravagantes…) trapezistas, malabaristas e contorcionistas tinham a missão de estimular os marmanjos a levarem seus filhinhos para assistir aos espetáculos. Os grandes animais representavam a força do circo e acenavam com os riscos que seus domadores correriam a cada exibição. E os demais artistas, com o caminho aberto por essa impressionante vanguarda, eram um aperitivo e um estímulo à curiosidade sobre o que seria possível ver sob a lona do Gran Circus Camargo.

E, outra vez, Quincas se perguntava por que os palhaços desfilavam logo após os animais e não no final, fechando o desfile, onde seria o lugar mais correto para seu papel de coadjuvantes. Até que, um dia…, QC entendeu essa lógica. Que não era do seu circo ou da sua família, mas de toda a atividade circense.

Quincas tinha um ego maior que o próprio circo. Não era à toa que ele desfilava no alto de um elefante e usava um megafone. Ninguém poderia ignorá-lo! E foi do alto desse pedestal que ele começou a perceber o que o incomodava nos palhaços que vinham, como já se sabe, bem atrás dele. Percebeu o seguinte: em vários momentos, os populares que, na calçada, a tudo assistiam, riam muito com os palhaços e pareciam não dar a devida atenção ao que ele anunciava. Quando se certificou que isso de fato ocorria, QC tomou uma decisão drástica. E nem discutiu sua idéia com qualquer outra pessoa do circo. Afinal, ele era o dono e ninguém sabia dirigir seu circo como ele.

Simplesmente informou a todos que, a partir da próxima cidade, os palhaços ficaram no final, encerrando o desfile. Alguns artistas não concordaram com isso, mas, por várias razões, preferiram ficar ajuizadamente quietos…

E veio o próximo desfile. Tudo começou bem. Quincas certificou-se que, agora, o público não mais deixava de ouvi-lo por causa dos palhaços. Mas… numa dessas olhadas para trás, para ver como as coisas iam, sentiu que algo esquisito estava acontecendo. O mágico deixara o coelho fugir da cartola. O comedor de fogo não conseguia cuspir aquela enorme chama de sempre. Os equilibristas pareciam… desequilibrados. Com essa amostra, muitos não iam querer pagar para ver a continuação, pensou QC.

E assim, de fato, aconteceu. A venda de ingressos foi diminuindo a cada espetáculo. QC se esmerava cada vez mais na redução de custos. O que – todos reconheciam – ele sabia fazer muitíssimo bem. Mas não adiantava. As dívidas, primeiro foram aparecendo. Depois, deram de ir aumentando! O dono do circo sentiu que poderia perder o que gerações da família Camargo haviam construído.

Numa tarde calorenta e empoeirada, estava sentado à porta de seu trailer, pensando nos problemas do circo, quando o Palhaço Germano se aproximou. Germano era um dos melhores palhaços da região e vinha comunicar sua decisão de abandonar o Gran Circus Camargo. Quincas, que, entre outras coisas, já havia renovado várias vezes a equipe de palhaços, na ânsia de resolver o problema, ficou furioso. Perguntou a Germano, arrogantemente:

– Quanto você quer para não sair?

Ao que Germano respondeu com firmeza:

– Não se trata de “quanto”, mas “o quê” eu quero para ficar aqui mais algum tempo.

– E o que é que você quer? Respondeu QC, mal segurando uma explosão de raiva.

– Basta que o senhor passe a utilizar os palhaços corretamente…

Quincas não acreditava no que ouvia. Como alguém se atrevia a lhe dizer como conduzir o seu circo? Ainda mais um palhaço! Porém, face à situação crítica dos negócios, fez um enorme esforço para se controlar e disse, com a máxima ironia de que foi capaz:

– Então, senhor sabichão, me fale alguma coisa sobre circo que eu ainda não saiba…

Germano, que se afeiçoara aos colegas do circo, respirou fundo e começou a falar, desejando que pudesse de alguma forma ajudar o QC e todos os artistas:

– Se o senhor tivesse trabalhado em outros circos, como eu e tantos outros aqui, já saberia a resposta. Que, na verdade, é muito simples.

– Não me diga!…

– Pois é, o que acontece é o seguinte. Quando os animais desfilam, a natureza continua funcionando… Aqui e ali, um animal ou outro defeca, e as fezes ficam no caminho de quem vem atrás. Por causa disso, os artistas ficam preocupados em não pisar na sujeira e perdem a concentração. Para não pisar nessas armadilhas que o grupo da frente vai deixando, cometem erros que normalmente não aconteceriam. É claro que a exibição fica pobre e o público acha que a qualidade dos números não será lá essas coisas.

– Bem – disse Quincas. E qual é a solução mágica? Fazer os bichos desfilarem de fralda, é?

– Não – respondeu Germano. É muitíssimo mais fácil. Quando os palhaços são posicionados corretamente, logo depois os animais, eles fazem o trabalho de limpeza. Ao perceberem que “a caca está feita” eles improvisam uma palhaçada qualquer e tiram a sujeira do caminho. Assim, os demais artistas podem tranqüilamente demonstrar suas habilidades.

– Ahn!… Foi tudo o que Quincas conseguiu balbuciar.

– Assim são os palhaços. Como o senhor bem sabe, quando algo sai errado no circo, são os palhaços que correm para disfarçar. Em certos momentos fazem isso tão bem que o público fica pensando que tudo faz parte do espetáculo, não é mesmo?

– Mas… mas.. e então?…

– É, senhor Quincas, os palhaços têm uma função mais importante do que só fazer graça. Eles desenvolvem a habilidade de rir quando poderiam chorar; contribuir para corrigir as falhas dos outros; e, principalmente!, colocar-se no papel de coadjuvante quando, de fato, são tão importantes quanto os demais.

Quincas estava absolutamente estupefato. Em poucas palavras Germano lhe dera várias lições. Primeiro, ninguém pode saber tudo. Segundo, é preciso valorizar o papel de cada um. Terceiro, vale a pena ouvir os outros antes de tomar uma decisão.

O Gran Circus Camargo começou a recuperar-se. Germano continuou sendo o Palhaço Germano e, junto com os demais palhaços, desfila agora logo em seguida aos animais.

Quincas já não mais aparece no alto do elefante. Ele desloca-se no meio do desfile, garantindo que cada um cumpra seu papel. Inclusive os garotos que distribuem os vistosos folhetos que falam sobre as atrações do circo. E continua sovina como sempre, no controle dos custos do tradicional Gran Circus Camargo.

Escrito em 04/09/2006

Publicado em 26/07/2021

BEIJOS DE HORTELÃ

Arlindo resolveu abrir os olhos enquanto se espreguiçava lentamente para não acordar Ivete que dormia profundamente ao seu lado. A contragosto, olhou para o rádio relógio que continuava impassível sobre o criado-mudo ao lado da sua cabeceira. Ele mostrava o que Arlindo não queria ver: eram 6 horas da manhã. Pela terceira vez, só naquela semana, a cabeça de Arlindo começava a funcionar muito antes que a música anunciasse o início de um novo dia. Fazia contas e projeções. A matrícula das crianças no próximo mês, o material escolar, a prestação do carro, os débitos das compras de Natal no cartão de crédito, o condomínio, os seguros, as parcelas da próxima viagem de férias, o…, as… Definitivamente, seu salário de subgerente de agência bancária, embora bem razoável, não iria ser suficiente. Mais um mês de cheque especial para cobrir a diferença. Mais algumas noites de sono terminando mais cedo.

Levantou-se com todo o cuidado para não acordar ninguém. Passou pelo quarto da Clarice e do Pedro, que dormiam com aquele ar angelical das crianças que vão se avizinhando da casa dos dez anos. Fez a barba, pôs a mesa para o café da manhã, ficou lendo o jornal até que a música despertadora da 7h ressoou por todo o apartamento. Logo a Ivete chegou à cozinha e lhe lascou nos lábios um longo beijo úmido e apaixonado. As crianças, embora em férias, vieram e lhe sapecaram beijos estalados nas bochechas. Eram beijos de hortelã, como esses momentos sempre o faziam lembrar-se da música “Cotidiano”, do Chico Buarque de Holanda. Era um momento feliz, um modo gostoso de começar o dia. As crianças faziam questão de levantar cedo, mesmo sem precisar ir para a escola, só para estar com o pai que só veriam outra vez lá pelas oito da noite. A Ivete, sem a pressão do horário das aulas, caprichava no suco, nos sanduíches e na frutas para a primeira refeição do dia.

Dali a pouco, já a caminho do trabalho, preso em mais um congestionamento, Arlindo pensava: “Sou feliz, afinal… Eu a Ivete nos amamos. Amamos nossos filhos e eles gostam de nós. Temos uma boa condição de vida, embora a um preço acima do que posso. Se eu resolvesse minhas questões financeiras viveria num verdadeiro Paraíso”. Nesse dia, como fazia sempre que possível, almoçou com vários colegas da sua equipe de trabalho. E durante o almoço surgiu a conversa que era comum em muitas mesas daquele restaurante e de tantos outros restaurantes pelo Brasil todo.

– Nossa! Esse prêmio da Mega da Virada parece que vai passar dos 190 milhões!

– Quanta grana! É difícil até pensar no que fazer com tanto dinheiro…

– Dá para virar um grande empresário. Ou sócio do próprio banco…

– Que tal fazer um bolão na agência? Cada um entra com dois reais, como se fosse fazer o jogo sozinho, e todos juntos fazemos um bolão com mais chance de ganhar.

Arlindo nunca jogava e resolveu nem dar opinião. Mas, no retorno do almoço, em poucos minutos a idéia circulou entre todos e acendeu o interesse geral. Entre 16h00 e 16h30 todos já haviam contribuído para o bolão e definido os números. Só Arlindo continuava absorto no encerramento dos assuntos do dia. De repente, todos vieram à sua mesa:

– Arlindo, queremos que você entre também no nosso bolão.

– Não, obrigado – respondeu ele. Não entendo nada disso.

– Ora chefe, fazemos questão. Você é pé quente. Desde que veio para cá, há menos de seis meses, nossa agência já subiu 15 posições no ranking do banco. E os negócios continuam bombando. Não só queremos que você entre, como pedimos que leve o volante para apostar na lotérica.

Para não bancar o chato, Arlindo acabou aceitando. Pegou o volante e ficou de fazer o jogo no caminho para casa. Quando encostou no balcão de apostas, atrapalhou-se todo e acabou fazendo dois jogos: o do bolão e um com apenas seis dezenas que nada tinham a ver com as demais. Para não criar confusão, pagou esse jogo adicional e foi para casa. Lá chegando, guardou o jogo extra no fundo da gaveta do criado-mudo, fazendo um comentário vago sobre tudo isso com a Ivete. No dia seguinte entregou o volante para o organizador do bolão da agência, que o guardou no cofre, pois valia 190 milhões… Como ainda faltavam duas semanas para o sorteio, Arlindo deixou o assunto meio esquecido, por baixo de suas preocupações do dia-a-dia.

No dia primeiro do ano, como fazia todos os sábados e domingos, Arlindo acordou e foi buscar um pão quentinho e crocante para o café da manhã. E, é claro, deu de cara com as portas fechadas da padaria. Um pouco ainda acordando, foi até o jornaleiro da esquina e perguntou:

– Ei, “seu” José, o que houve com a padaria que ainda está fechada a esta hora?

– Ora, doutor, nenhuma padaria abre no primeiro dia do ano. Esqueceu? No ano passado foi a mesma coisa. Respondeu o José dando uma gargalhada.

Arlindo aproveitou para dar uma rápida olhada nas manchetes dos jornais do dia. Havia uma notícia que tinha destaque em todos eles: “APOSTADOR DE S. PAULO LEVA SOZINHO OS 193 MI DA MEGA DA VIRADA!” Enquanto o elevador subia, ele pensava: “Nossa! Bem que poderia ser o bilhete da turma da agência. Teríamos que fechar por uns dias até que uma nova equipe fosse contratada…” E sorriu ao pensar no problemaço que seria, para o banco e para os clientes. Comentou a notícia com a Ivete e ela lembrou:

– Você já conferiu aquela aposta que você fez sem querer e deixou na gaveta do criado-mudo?

– Nossa! Havia me esquecido. Depois do café vou lá olhar.

Enquanto a Ivete e as crianças davam um jeito na louça do café da manhã, Arlindo foi olhar o bilhete. Como estivesse demorando muito para voltar e ajudar, como sempre fazia, Ivete foi até o quarto ver o que havia acontecido. Encontrou o Arlindo pálido, suando frio, sentado na cama, com o bilhete na mão e o jornal com os números sorteados jogado em cima da cama. Ivete, preocupadíssima, perguntou:

– Arlindo, o que houve? Você está bem?

Arlindo balbuciou, olhando para um infinito confuso:

– Ga… ganhamos… N… não acredito…. Veja aí se é verdade… E estendeu-lhe o bilhete.

Ivete conferiu e era verdade! Ela começou a gritar, pular e chorar, quase histérica. As crianças correram para o quarto assustadas. Demoraram a entender o que tinha acontecido. Enquanto os pais tentavam retornar a um juízo um pouco mais equilibrado, Clarice e Pedro foram para a sala e continuaram a assistir a um filme que tinham começado a ver na véspera. Passada uma hora do choque inicial, finalmente começaram a raciocinar. Arlindo falou:

– Bem, para começar, vamos programar uma pizza para hoje à noite, pois o almoço já está pronto.

– Que legal! – Gritaram as crianças. -Vamos ao Castellões?

– Não, não. Falou Arlindo. Hoje vamos comer no Camelo, para ver como é pizza de gente grã-fina.

– Que pena… Lamentou-se Ivete, apoiada pela cara de desapontamento das crianças.

– Está bem. Na próxima vez vamos ao Camelo, rendeu-se Arlindo.

E a vida deles, como não poderia deixar de ser, começou a tomar novos rumos a partir daquele dia. Arlindo pediu demissão do banco logo na segunda-feira, negociando uma redução no tempo de aviso prévio. Aproveitando sua experiência bancária, abriu uma empresa de Consultoria em Investimentos e Desenvolvimento de Negócios. Logo a empresa começou a ter muito sucesso, pois Arlindo era muito competente no mercado de capitais.

– Ivete, acho que você poderia parar de dar aulas. É um trabalho desgastante e mal remunerado. Não precisamos mais disso.

– Mas, Arlindo, mesmo assim eu gosto muito do convívio com as crianças e os demais professores.

– Não, Ivete! Não quero que você trabalhe mais.

E Ivete concordou, em nome da preservação da afetividade entre os dois. Algum tempo depois, uma nova proposta do Arlindo:

– Vamos nos mudar para um apartamento nos Jardins. Quando você tem tempo para iniciarmos a procura?

– Arlindo, não poderíamos ficar por aqui mesmo, na Saúde? Iríamos para um apartamento maior, com há tantos aqui no bairro. Já conhecemos tudo e todos por aqui. E as crianças têm tantos amiguinhos na região…

– Não dá, Ivete. Tenho que oferecer muitas recepções, para gente importante da área empresarial, governo, sociedade, etc. E preciso de um lugar com aparência mais impressionante.

E Ivete, mais uma vez cedeu.

Dali a poucos meses, mudaram-se para uma cobertura na Padre João Manuel, quase esquina com Oscar Freire. No primeiro jantar na nova residência, a próxima decisão:

– Crianças, no próximo ano vocês passarão a estudar no Colégio São Luiz. É mais próximo daqui, vários filhos de conhecidos meus estudam lá e os pais estão muito satisfeitos.

Clarice e Pedro responderam quase um coro:

– Ah… pai… Queremos continuar no Arqui. Nossa turma toda está lá. Deixa, vai…

– Não! Está decidido. A matrícula já está feita e na próxima semana sua mãe os levará lá para uma entrevista e para vocês conhecerem o colégio.

Já conhecedores do novo estilo de Arlindo, Ivete, Clarice e Pedro engoliram seus argumentos e seus desejos, que ficaram guardados num cantinho do coração que já não tinha mais quase espaço para novas decepções. E assim foram se sucedendo o carro novo a cada ano, as férias em locais com gente metida e desconhecida, o Clube Pinheiros, o motorista que levava as crianças para o colégio, para as festas, para as compras. Arlindo tornava-se cada vez mais um empresário de sucesso e um destaque no mundo social. Mantinha-se fiel a Ivete, mas era tudo que concedia ao casamento. Sempre ocupado com reuniões, almoços, jantares, viagens e solenidades. As crianças saiam de casa antes de ele  acordar. E quase sempre ele chegava à casa depois que elas estavam dormindo. Ou ele dormia antes que elas chegassem das festas. Levadas e trazidas pelo chofer. Ivete se desdobrava para fazer bem o papel de coadjuvante de Arlindo e ser uma mãe companheira e presente na vida dos filhos. E assim essa vida de glamour foi se arrastando nos anos seguintes àquele primeiro de ano lotérico.

Até que chegou o aniversário de 15 anos da Clarice. Como não podia deixar de ser, Arlindo contratou uma empresa para organizar uma festa retumbante, que merecesse destaque em todas as colunas sociais dos jornais, revistas e TV. Nada escapou da atenção de Arlindo, exceto a atitude passiva e desinteressada da esposa e da aniversariante. Elas se limitavam a aceitar tudo que ele determinava. O dia do aniversário da Clarice cairia na terça-feira e a festa seria no sábado seguinte. No domingo, enquanto almoçavam no clube, Clarice ousou pedir ao pai:

– Pai, será que poderíamos comer uma pizza juntos, na terça? Eu gostaria de ir ao Castellões. É minha pizzaria preferida e nós nunca mais fomos lá.

– Minha filha, não vai dar. Nesse dia tenho um jantar com o presidente da FEBRABAN, para discutir um projeto enorme. Não tenho como desmarcar. Mas o seu presente já está comprado e a comemoração, afinal, será no sábado.

Arlindo olhava para uma mesa onde almoçava o dono de uma grande empresa e acenava para ele. Nem percebeu que os olhos da Clarice se encheram de lágrimas e a Ivete saiu com ela para ir ao banheiro. Coisa de mulher, ele diria se tivesse reparado. Na terça-feira, Ivete, Clarice e Pedro foram levados pelo chofer até o Castellões. Mas, pela primeira vez em sua vida, Clarice não gostou da pizza de lá. Entrava na sua boca úmida e salgada.

Na quarta-feira, Arlindo viajou para New York, onde teria vários contatos de negócio até sexta-feira, quando pegaria o avião de volta para chegar no sábado e participar da festa da Clarice. Mas o destino teima em nos colocar em caminhos que não planejamos. Uma nevasca histórica cancelou todos os vôos por 48 horas. Aflito, Arlindo tentou falar com a família pelo celular, mas caía sempre na caixa postal.

Conseguiu chegar a casa só no domingo à noite. O apartamento estava deserto escuro. Sobre o seu travesseiro, um envelope, com um recado simples da Ivete:

Arlindo, a festa da Clarice foi cancelada, devido a sua ausência. Fui com as crianças passar uns dias na casa de mamãe, na Praia Grande. Peço que, enquanto isso, você pegue suas coisas e desocupe o apartamento. Meu advogado entrará em contato para tratar do divórcio”.

Dois anos se passaram.

Arlindo resolveu abrir os olhos enquanto se espreguiçava lentamente como se a Ivete dormisse profundamente ao seu lado e não devesse ser acordada. A contragosto, olhou para o rádio relógio que continuava impassível sobre o criado-mudo ao lado da sua cabeceira. Ele mostrava o que Arlindo não queria ver: eram 6 horas da manhã. Pela terceira vez, só naquela semana, a cabeça de Arlindo começava a funcionar muito antes que a música anunciasse o início de um novo dia. Lembranças, preocupações, sem planos. No flat, onde morava sozinho, só se ouvia o zumbido da geladeira, o clac-clac do relógio elétrico e o som do trânsito, que filtrava da rua. Nenhum som que ele gostaria de ouvir. Levantou-se, fez a barba e preparou-se para descer e tomar seu café, sozinho entre os demais frequentadores da padoca da esquina. Olhou em cima da mesa da sala, onde uma passagem para Paris o lembrava onde passaria o próximo réveillon, sozinho no meio da multidão no Champs Elisées. Baqueou, afinal. Deixou-se cair no sofá. Rasgou a passagem e deixou cair grossas lágrimas, soluçando de saudade daqueles beijos de hortelã…

Escrito em 28/29 dez 2010

Publicado em 25/07/2021

AMIGA 0CULTA

(Nota do autor: texto apoiado em uma história real que a Viviane me contou)

Ainda a bordo da Aero México, aguardando no corredor da primeira classe o desembarque para sua primeira visita a São Paulo, Dom Miguel Velazquez repassava mentalmente seus planos para os próximos dias. Primeiro, concluir as negociações com Geraldo, para abertura da filial da empresa na Ciudad de Mexico. Depois, um pouco de turismo gastronômico e cultural. E, para encerrar, comprar alguns presentes especialíssimos para amainar a doce saudade que já estava sentindo. Bem, a primeira etapa deveria se concluir naquela mesma tarde e seria comemorada com um jantar na casa de seu novo sócio. As outras, ele comentaria durante esse jantar para ouvir sugestões.

Concluídas as negociações comerciais, Dom Velazquez foi para o hotel, preparar-se para o compromisso noturno. Ao chegar à casa de Geraldo, este o apresentou a sua esposa Vanessa. Miguel ficou instantaneamente impressionado com a beleza e a elegância de Vanessa; após poucos minutos de conversa, já se encantava também com sua inteligência e perspicácia. Ao final da refeição, comentou sobre seus planos e pediu algumas sugestões, especialmente para as compras. Vanessa perguntou:

– O que você pretende comprar?

– Estou pensando, especialmente, em vestidos de festa. Mas não tenho nenhuma idéia sobre o que e onde comprar. Você poderia me ajudar?

Sabendo das posses de Miguel, Vanessa sugeriu:

– Consigo liberar minha tarde de amanhã para acompanhá-lo à Daslu. Ficaria bom apanhá-lo em seu hotel às 14h00?

Miguel pensou que a essa hora já teriam assinado os contratos e aceitou a oferta. Na hora combinada, lá estava Vanessa preparada para ser bem recebida na loja. Isso aumentou ainda mais o encantamento de Miguel. Logo Miguel se interessou por alguns vestidos de Valentino. Quando pediu para vê-los, comentou com Vanessa:

– Não sei como avaliar um vestido pendurado num cabide, nem que tamanho escolher.

– Sua esposa tem mais ou menos o porte de alguém aqui da loja?

Miguel olhou em volta, depois olhou mais detalhadamente para Vanessa e disse:

– Ela tem exatamente o seu porte. Inclusive tem o mesmo tom de pele e a cor dos cabelos. O que ficar bem em você ficará bem nela.

Com toda a cortesia que o novo sócio de seu marido merecia, Vanessa iniciou o “desfile”. Experimentou bem uns dez modelos. A cada um Miguel se dizia deslumbrado. Acabou escolhendo os três que Vanessa avaliou como os mais sensuais. Ele pagou em dólares, agradeceu muito a ela e retornou ao hotel. Na noite do dia seguinte partiu de volta para casa. Vanessa retomou suas atividades e tudo indicava que esse desfile ficaria apenas como lembrança de uma tarde diferente. Até que dois meses depois Geraldo chegou a casa com uma novidade:

– Don Miguel Velazquez vai fazer uma inauguração festiva do novo escritório e nos convida para o evento. Acho que não podemos recusar esse convite.

E, uma semana depois, lá se foram os dois para o México. Lá chegando, havia no hotel um envelope com um bilhete que dizia:

Hoje é aniversário do meu marido. Gostaria de tê-los para o jantar surpresa que estou organizando. Meu motorista os buscará às 21h00. Se não puderem vir é só me avisar pelo telefone abaixo”.

Assinado: Esmeralda

Ao chegarem à casa de Miguel, foram recebidos por ele à porta, que logo lhes apresentou Esmeralda. Vanessa quase não conseguiu disfarçar sua surpresa. Esmeralda era uma mulher tipicamente mexicana. Em relação a Vanessa era uma mulher mais ou menos 10. Dez quilos a mais e dez centímetros a menos… Mas Esmeralda não se conteve:

– Miguel, foi esta mulher que experimentou os vestidos que você me trouxe?!

E, virando-se para Vanessa:

– Quando Miguel retornou do Brasil, suas malas se extraviaram. Uns dias depois elas foram entregues em casa. Ele me pediu para não abri-las, mas eu achei que não me custaria nada já ir guardando as roupas. Achei então os vestidos. Quando ele chegou, à noite, perguntei o que era aquilo.

– São uma surpresa que trouxe para você…

– Fui experimentar e nenhum serviu para mim, é lógico.

Esmeralda continuou:

– Perguntei: Miguel, como você comprou estas roupas?

– É… Eu pedi ajuda à esposa do Geraldo. Ela até vestiu algumas roupas para eu ver. Quando escolhi o que comprar, ela me perguntou seu tamanho. Como eu não soubesse, acabei trazendo estes, imaginando que pudessem ser ajustados, se necessário.

Esmeralda completou:

– Como você percebe, Vanessa, os vestidos acabaram sendo doados para um leilão. Ainda bem que não aconteceu o mesmo com brincos que ele me trouxe, que são exatamente do meu gosto.

Vanessa ia começar a falar, quando notou a expressão de Miguel. Os dedos crispados em torno do copo de whisky, o rosto pálido e olhos suplicantes. Então ela demonstrou toda sua classe, inteligência e habilidade social:

– Pois é, Esmeralda. Foi culpa minha. Nem sequer tive a curiosidade de pedir a Miguel uma foto sua para estimar o tamanho dos vestidos. Eu deveria ter tomado mais cuidado. Os homens são péssimos para compras! Desculpe, foi minha falha.

Geraldo logo conduziu a conversa para outros temas e o jantar transcorreu num ambiente bem descontraído. Ninguém mais falou sobre os vestidos.

Um mês após o retorno ao Brasil, Vanessa recebeu uma encomenda pela FEDEX. Dentro da caixa, enviada por Don Miguel Velazquez, havia um estojo com um lindo e sofisticado colar de prata mexicana. Suficientemente econômico para não despertar ciúmes em Geraldo, mas suficientemente belo para combinar com Vanessa. E um pequeno bilhete que dizia:

“Muchas gracias.

En mi nombre, de míos dos hijos e de los 23 años de mi matrimonio.

Miguel”.

Escrito em 06/05/2008

Publicado em 2307/2021

MADALENA VESTE DASRU

São oito horas da manhã de sexta-feira. Parado na Ver. José Diniz, esquina com Joaquim Nabuco, no coração comercial do Brooklin. Aguardo o sinal verde para continuar meu caminho para o trabalho. Como gosto de fazer, observo os pedestres que passam na sua faixa. Sempre há coisas interessantes. Nem sempre como desta vez. Minha atenção é despertada por uma figura que parece deslocada, no tempo e no espaço. Tentarei descrevê-la.

Sem dúvida, é uma moradora de rua. Afinal, está descalça e aparentemente há muito tempo. Parece uma mulher, mulata, mais por dedução do que por algum indicador óbvio.  E a razão da minha dúvida é que ela está usando um vestido negro. Mas não um vestido negro qualquer. Parece ser composto por três peças diferentes que algum estilista juntou num traje único. Uma saia quase plissada, rodada, larga, que vai até os joelhos. Uma blusa simples, sem qualquer recorte ou detalhe, com decote moderado em forma de “U” e mangas que vão justas nos braços até a altura do cotovelo. E um capuz muito grande e largo, estilo capuchinho, que ela usa sobre a cabeça, escondendo-a completamente. Essa indumentária inusitada, aliada a uma esbeltez diferente da magreza faminta é que me fazem chegar à dedução inicial. Para tornar a aparição ainda mais surpreendente, ela parece flutuar seus cerca de 1,70m sobre o asfalto, com seus passos miúdos e elegantes que transformam a faixa de pedestres numa passarela. E, para arrematar, ela tem um surpreendente pudor. Sob esse vestido, que parece já ter se exibido em cenários sofisticados, ela usa uma surrada bermuda jeans. Conforme ela desfila, isto é…, passa, a saia esvoaça e deixa ver essa bermuda. E ela, nervosamente, puxa a saia para baixo para esconder a bermuda (ou as delgadas pernas?).

Ela some do outro lado da avenida e, enquanto continuo meu caminho, dou espaço à imaginação. Quem será Madalena? É,… acabei de batizá-la assim, por uma série de razões que cada leitor pode imaginar. Ela foi uma dessas tantas moças que sonham com o sucesso da Gisele Bündchen. Ralou bastante e descolou uma grana para fazer seu book. Foi para a porta da agência cavar seu espaço. E encontrou o começo do seu destino tão difícil. Um descobridor de belezas a viu e achou que tinha potencial, no que não errou. Convidou-a para um teste. Pena que era o famoso teste do sofá. O teste foi muito bem, mas só ele se beneficiou. E o teste se repetiu muitas vezes. Ela passou a ser conhecida como “a menina do caça talentos”. Com essa imagem ela jamais conseguiu um trabalho como manequim. O mais longe que chegou foi ser ajudante em um atelier de alta costura. Um dia, ela acordou para a realidade. Olhou para tantas como ela, que acabaram indo para a prostituição e as drogas. Ela não quis isso. Tinha a dignidade que recebeu um dia como única herança dos pais. Ganhou, como agradecimento da modelo a quem ajudava, um vestido negro já sem serventia. Esse mesmo que chamou minha atenção. Com ele e uma inesgotável esperança, foi para a rua onde continua na expectativa que um caça talentos bem intencionado a redescubra. Mesmo que esteja desfilando um vestido velho “Das Ruas”, na passarela de asfalto. E imaginando um narrador dizendo: “Aí vem Madalena, que veste DasRu”.

Escrito em 01/04/2011

MEU CASO CARIOCA

Você já teve na vida
Um caso, uma loira,
Pois eu… eu tive também…. 

(Uma loira, Dick Farney)

É… no meu caso, não foi uma loira. Foi como vou contar a seguir.

Em 1996 fui admitido na empresa que havia sido contratada para implantar a loteria on-line da Caixa. Eu era responsável pela área de Administração e Organização, o que incluía os então chamados Serviços Gerais. Meu primeiro – e grande! – desafio era mudar a empresa para São Paulo. Ela estava no Rio de Janeiro e deveria operar em Tamboré, Barueri, SP. A fábrica de terminais ficava em Jacarepaguá e o escritório, na praia de Botafogo. Por conta disso eu vivi como um nômade durante uns 4 meses. Reunião da diretoria em São Paulo, na segunda de manhã. Ponte área para o Rio à tarde. Semana toda no Rio, revezando entre escritório e hotel. E ponte aérea para São Paulo no fim da sexta.

Na primeira semana de Rio, fiquei numa sala provisória, sem janelas, até que minha sala “definitiva” ficasse pronta. Na segunda-feira seguinte estava ansioso ao entrar no Centro Comercial de Botafogo, onde ficava a empresa, para tomar assento na minha sala nova. Era uma sala bastante ampla, com uns 12 m². Uma das paredes, que dava para a rua, era praticamente um grande janelão, com vidro do teto ao chão, de parede a parede. Essa parede/janela era um caminho para a perdição. Ao aproximar-me da janela dei de cara com “ela”. Ela estava lá fora, bem à frente dos meus olhos. Impossível não vê-la. Lânguida, sob a luz do sol quente, mostrava-se despudoradamente para mim. Entre meus olhos e tudo que ela tinha para oferecer, só o frio vidro. Foi uma paixão instantânea. Ela sorriu para mim com aqueles maravilhosos dentes brancos como a espuma do champanhe. E me convidava para ir lá, aproveitar suas delícias. O telefone tocou e eu me lembrei que estava ali para trabalhar. Desviei meus olhos e, o quanto consegui, da minha mente.

Feliz (ou infeliz?mente), os móveis estavam dispostos de modo que ao levantar os olhos da mesa eu podia perceber sua presença com o rabo dos olhos. E antes que eu me desse conta, esquecia o que estava fazendo e ficava olhando-a embevecido enquanto ela sorria para mim um sorriso envolvente, permanente, inebriante. Depois de poucos dias vi que as coisas não poderiam continuar assim, se não meu chefe não aprovaria a próxima passagem para o Rio… Chamei o Luiz Miguel, meu braço direito (e esquerdo) para Serviços Gerais e pedi:

– Luiz Miguel, por favor, mude a disposição dos meus móveis, de modo que eu fique de costas para a janela. O sol está me incomodando.

Ele sorriu marotamente como bom carioca malemolente e respondeu, olhando pela janela através de mim,  com os olhos perdidos em algum lugar lá fora… :

– Pode deixar, Paulo. Amanhã quando você chegar a mudança estará feita.

Dito e feito. Assim que cheguei, na manhã seguinte, ele estava na porta da sala:

– Paulo, veja se ficou do seu gosto.

Ambos entramos e nos dirigimos à janela e ficamos olhando longamente para ela. Ela me deu bom dia e mais uma vez me convidou. E eu, mais uma vez, recusei, a contragosto. Sentei-me à mesa e pus-me a trabalhar ferozmente. Quando me sentia cansado, ia até a copa, pegava um café e voltava para degustá-lo em frente à janela, enquanto a observava, cada vez mais apaixonado. Ela sempre estava lá, me esperando para oferecer uns minutos de relaxamento. Uns dias ela se oferecia com um olhar azul, outros com olhar esverdeado e muito raramente apresentava-se com um olhar acinzentado. Aos poucos percebi que poderia aproveitar a hora do almoço e estar com ela, tocá-la, vivê-la, sentir-me acariciado por sua respiração e aquecido por seu calor. Sempre que eu podia, lá estava ela, me esperando. Emoldurada pelo Pão de Açúcar e pelo tráfego dos bondinhos e dos aviões da Ponte Aérea, cercada pelos barcos do Iate Clube, cortejada por tantos.

Assim, quase sem perceber, os meses se passaram e era chegada a hora de ficar em São Paulo, com vindas esporádicas para o Rio. À medida que começou a desmontagem e embalagem dos móveis para a mudança, começou também um ataque geral de nostalgia. Os cariocas que seriam transferidos já se lamentavam de deixar o Rio e mudar para São Paulo. E eu sentia um aperto no coração ao pensar que em Tamboré eu não a teria mais ao alcance dos meus olhos. Num dos últimos dias antes da despedida, me ocorreu uma idéia. Chamei o Luiz Miguel:

– Luiz Miguel, estou pensando em levar uma lembrança histórica desta fase da vida da empresa (Oh! Quanta dissimulação!). Então te peço o seguinte: traga aqui um bom fotógrafo e peça que tire uma foto dessa janela, em que só apareça a janela e tudo que se vê através dela. Aí, ampliaremos ao máximo e faremos um grande painel para colocar no escritório novo.

Ele, outra vez olhando perdidamente pela janela, com o mesmo sorriso maroto, agora com um quê da própria nostalgia, respondeu:

– Não faça isso, Paulo. “As pessoas” já estão com dificuldade de deixar “tudo isso” aqui e ir para São Paulo. Se “ficarem” olhando essa foto todo dia acabarão querendo sair da empresa e voltar para o Rio.

Aceitei a opinião dele, pois sentia na pele que tinha toda a razão deste mundo. Era uma despedida difícil, mas eu sabia que não seria o adeus definitivo. Até hoje, sempre que vou ao Rio e os compromissos me permitem, vou vê-la. E ela está lá, linda, maravilhosa como sempre. Se oferecendo morna e aconchegante. E rindo com seus alvos dentes de espuma e seus olhos cor do mar. E está lá, como a “Tereza da Praia”, que “não é de ninguém” e deve ficar entregue “aos beijos do sol, e abraços do mar” (com licença do Tom Jobim). E me lembro daquele último dia quando ao fechar a cortina, que sempre tinha ficado escandalosamente escancarada, acariciei-a mais uma vez com os olhos e me despedi:

– Até breve, minha querida… companheira de tantos meses… meu repouso… minha (?) belíssima…. E…. E…. Enseada de Botafogo!

Escrito em 15/07/2010

Publicado em 20/07/2021

CHICO

Pode ser pequeno ou criança, em espanhol. No caso do meu padrinho Francisco de Assis Affonso, era o apelido. Muito poucas vezes ouvi alguém chamá-lo pelo nome. Até para minha madrinha Wilma ele era o Chico. De “chico” ele só tinha o lado criança. No mais, ele era um homem grande. Corpulento, sempre muitos quilos a mais que o ideal. Cabelos quase sempre desgrenhados e as mãos sujas de graxa e restos de piche. Um coração inocente e enorme o fazia parecer uma criança, mesmo com os cabelos e o bigode fininho logo acima dos lábios já branqueando. Tinha pouco estudo, mas procurava se informar lendo bastante. Li muitos dos livros da sua pequena biblioteca.

Chico trabalhava com restauração de baterias, para carros, caminhões, motocicletas, embarcações, enfim o que aparecesse na oficina e precisasse de energia elétrica para se movimentar. Era um trabalho semi-artesanal, feito nos fundos daquele chalé de madeira na rua Augusto Paulino, bairro do Campo Grande, em Santos. Acho que ele e o sogro Ameleto eram competentes, pois o movimento da oficina era intenso. Eu adorava ficar vendo como aquelas carcaças de bateria iam tomando nova vida, com novas placas e separadores, bornes de chumbo reconstruídos por fusão em micro moldes e, finalmente, o que mais me fascinava: a vedação com piche derretido pelo maçarico e despejado lentamente nos contornos da bateria. Quando eu não estava brincando com meus primos Márcio e Mirian em baixo do chalé, suspenso em colunas de alvenaria estava xeretando o trabalho na oficina. Para desespero da minha madrinha, com medo do possível contato com ácido sulfúrico, chumbo derretido e piche aquecido escorrendo como mel (na época ninguém falava de coisas como ecologia e segurança no trabalho…). Durante muitos anos, passei a maior parte das minhas férias de fim de ano na casa da minha madrinha. Primeiro naquele misto de chalé e oficina. Depois, quando as coisas começaram a melhorar, já adolescente, no apartamento da rua Vergueiro Steidel, no Embaré.

Tenho muitas lembranças gostosas daqueles anos. O jipe Hansa (parecia muito com um Land Rover de hoje) que meu padrinho Chico usava para transportar carcaças velhas de baterias a serem recuperadas. Várias vezes fui com ele em excursões de compra na região do ABC. Era uma verdadeira aventura. A direção do bicho tinha quase uma volta de folga e a viagem era pelas curvas íngremes e fechadas do velho Caminho do Mar. Mais de uma vez o Chico tinha que manobrar (dar ré e tudo!) para conseguir fazer curvas na descida, com a traseira do jipe cheia de baterias sucatadas. Nesse mesmo jipe Chico levava a família para passear e até em viagens. Desse jipe eu cai no meio da rua, quando a porta se abriu numa curva, no dia do casamento da minha irmã Maria Lúcia.

Teve também uma vez que, jogando bola com a molecada na rua de areia, chutou o muro da casa e o dedinho ficou “como um estrupício” (termo que ele usava muito). Ele ficou muitos dias trabalhando e dirigindo o Hansa com esse dedinho atado com um pedaço de pano, até que foi ao médico e descobriu que estava quebrado. Não me lembro que ele tivesse se queixado, embora devesse estar doendo bastante. De outra feita me lembro o quanto se preocupou e correu para atender um empregado da oficina. Chico pediu que o Zé (vou chamá-lo assim para simplificar) verificasse se o piche estava quente. Isto é, o que ele queria saber é se o maçarico já havia derretido o piche a ponto de poder ser derramado para selar a bateria. Pois não é que o Zé enfiou o dedo no piche derretido?! Foi uma loucura de berros de dor e o Chico saiu alucinado com o jipe, levando o Zé para a Santa Casa, aonde chegou em poucos minutos, certamente com  a ajuda daquele anjo da guarda especial que todas as crianças têm.

Mas o Chico tinha um problema. Não um probleminha. Mas um problemão. Ele não sabia resistir a um bom copo de bebida alcoólica. As garrafas e o balcão dos bares tinham um fascínio irresistível sobre ele. Numa época em que alcoolismo era considerado um vício e não uma doença, todos em volta do Chico sofriam com essa compulsão, sem saber como fazer para ajudá-lo. Volta e meia minha madrinha percebia que o Chico sumira da oficina e chamava:

– Márcio!

Ou:

– Mirian!

E, às vezes:

– Paulo!

– Sim?

– Vai buscar seu pai (ou seu padrinho) na padaria.

Quem era chamado, ia. E, invariavelmente, lá estava o Chico, encostado no balcão tomando alguma. Ele não falava nada. Largava o que estivesse fazendo e voltava ao trabalho. Quando a madrinha Wilma bobeava um pouco esse tempo na padaria se alongava demais, especialmente no finalzinho do expediente, e o Chico ficava embriagado. Mas até aí o seu lado criança aparecia. Ele se tornava um cordeirinho inofensivo. Sentava num canto e “apagava”. Não tenho lembrança de que tenha sido violento algum dia em que eu estivesse presente. Ele sabia que a esposa e os filhos o amavam, mesmo na embriaguez, e se desesperavam por vê-lo naquele estado. Talvez por isso, ele simplesmente desligava, para não machucá-los ainda mais. Quando se mudaram para o Embaré, foi um problema. A oficina continuou no chalé e a madrinha já não tinha mais como mandar buscar o Chico na padaria. E ele fazia um esforço para não exagerar. Quando passava da conta, aproveitava que estava na padaria e encomendava toneladas de frios e queijo e pães para o lanche da família. Ao chegar a casa com tais pacotes a madrinha já sabia:

– Xi… a coisa ‘tá feia hoje…

E assim a vida foi seguindo seu caminho. Eu casei, meus primos casaram e tomamos caminhos que nos afastaram durante muito tempo. Um dia eu soube, pela minha mãe, que o padrinho Chico e a madrinha Wilma haviam se separado e ele foi para alguma outra parte deste mundo. Depois de um tempo, que já não sei quanto, soube que ele partira para outra parte do universo. Fiquei, lá dentro das minhas memórias de infância e juventude, com uma sensação de remorso por ter perdido o contato com ele. Por isso resolvi escrever esta homenagem ao Francisco de Assis Afonso. O Chico, meu padrinho. Um homem bom, de vontade débil mas de um coração enorme.

10 de julho de 2008

A WILMA SE FOI

A Wilma nos deixou no último dia 25. E ontem demos adeus a ela no Cemitério Memorial de Santos. Com ela vai também um pedaço da vida de todos que conviveram com ela. Um pedaço que é de um tamanho diferente para cada um. O pedaço maior, sem dúvida é da minha prima Mirian e seu marido Sérgio (Recebam um beijo especial de agradecimento pela dedicação e cuidado que tiveram com ela até o fim). Mas o meu não é pequeno também.

A Wilma – minha prima em segundo grau – era, acima disso, muito acima, minha madrinha de batismo. Ela foi talvez a última pessoa, que conheço, que incorporou a imagem da madrinha como segunda mãe. Recebi muito carinho e atenção dela, a vida toda. Nunca deixou passar em branco um aniversário, um Natal, um Ano Novo. Ela meu deu um espaço acolhedor no chalé da R. Augusto Paulino e depois no apartamento da R. Vergueiro Steidel. Nesses locais passei momentos inesquecíveis da minha infância e adolescência. Tantas lembranças que dariam para escrever um livro. Uma delas me vem com frequência à mente é uma vez que ela veio me buscar em São Paulo, para passar um tempo em Santos. Eu era bem pequeno, talvez por volta dos meus dez anos. Não sei por que, fomos de trem. Foi a primeira e última vez que desci a serra de trem. Tudo que me lembro é que chovia muito, o trem descia tão devagar (hoje sei que era por causa do sistema de cremalheira) que vendedores de sanduíches desciam de um vagão e iam a pé até o próximo, e eu estava muito tranqüilo ao lado da minha madrinha.

Essa foi uma madrinha especial. Ontem, alguns de seus afilhados estavam no velório: eu, minha prima Regina (Zuca), o Eduardo. Comentávamos, a Zuca e eu, com todos fomos privilegiados por sermos afilhados dela. E havia até um certo ciúme sadio entre nós para saber quem era o afilhado predileto. Isso foi como os filhos disputando o amor dos pais. Simplesmente porque ela foi mesmo como uma segunda mãe para nós.

Hoje fico com a lembrança da minha madrinha, lutadora incansável, vencedora de muitas batalhas. Que me deu tanto carinho, muitas vezes expresso pelas famosas e deliciosas empadinhas de que eu tanto gostava. Vai, madrinha, para o lado do Márcio, da Zildinha, da Juju, do Chico e de tantas outras pessoas importantes na sua vida. Não é adeus. É “até um dia, minha segunda mãe”.

Escrito em 27/11/2010

 DEZ 2006                                            

FEV 2008

MEMÓRIAS DE UM ESTUDANTE DE CURSINHO

Antes de entrar no objeto deste texto, devo um esclarecimento aos leitores mais jovens. Os fatos que vou contar aconteceram em 1965. Nessa época eram raras as mulheres se preparando para os vestibulares de engenharia. E, também dessa época, os palavrões eram também chamados de “palavras de baixo calão” e jamais poderiam ser ditos na frente de mulheres. Outros tempos… Ao final todos entenderão o porquê deste início.

Eu estava me preparando para os vestibulares de engenharia. “Os vestibulares” porque cada faculdade fazia o seu. Na época dos exames era uma verdadeira maratona. Cheguei a fazer um exame numa faculdade de manhã e em outra à tarde, do mesmo dia. Para tentar ganhar o ano que havia perdido ao ter que repetir o 1º ano do Colegial, fiz o chamado curso semi-intensivo, de seis meses, junto com o 3º ano do Colegial. Por isso estudava no colégio de manhã e fazia o cursinho à noite. Fui fazer o cursinho Universitário, por indicação do meu saudoso primo Armando, que tinha acabado de se tornar sócio do cursinho e dava aulas de Português. Nessa época o Universitário funcionava num prédio pequeno, de dez andares, em frente ao Mercado da Cantareira, mais conhecido como Mercadão. As classes eram nos dois últimos andares. Tenho muitas boas recordações desse tempo, que precisaria talvez uns quatro a cinco posts para contar a maior parte delas. Então vou me ater às mais interessantes.

Começo pelo Aldo, que dava aula de Física, se não me engano. Ele tinha uma maneira muito sui generis de ensinar a resolver os problemas. Escrevia o enunciado na lousa. Aí fazia três colunas:       DADOS  –  FÓRMULAS  –   PERGUNTAS                         embaixo da primeira coluna íamos colocando os dados, à medida que líamos o enunciado. Em seguida listávamos, na segunda, as fórmulas que contivessem esses dados. Na terceira coluna transcrevíamos as fórmulas que contivessem as perguntas. Acho que era mais ou menos isso. Mas o curioso era o final. Preenchidas as três colunas, o professor dizia: “agora passa para secretária para fazer as contas e pode descansar”…

Outra “figura” era o Gerson Herzkowics (acho que era esse o sobrenome), professor de Desenho. Ele era muito divertido e bem humorado. De vez em quando, acredite, ele dava aula rimando todas as explicações. E, mais de uma vez, ele trouxe o violão e cantou várias músicas, como Hava Nagila.

Mas o que vou contar aconteceu com o Sidney (se não me engano com o nome), que era um dos sócios do cursinho e dava aulas de Álgebra. Como as lousas eram muito grandes e ficavam cheias de coisas escritas pelo professor que o antecedia, ele pedia que alguém apagasse as lousas antes que ele entrasse na sala. Um dia resolvemos fazer uma molecagem com ele. Não só não apagamos os escritos como escrevemos nos poucos espaços vazios que tinham sobrado. Ele entrou na sala, viu aquilo e não falou nada. Com a manga do guarda-pó ele limpou um pequeno pedaço da lousa e deu a aula toda ali. Ficava na frente de modo que mal podíamos enxergar o que ele escrevia. Quando deu o sinal do fim da aula, ele se virou para a classe disse:

– Por favor, meninas, saiam da classe.

Quando as poucas alunas se levantaram e estavam para sair, ele falou:

– Alunos, vão à merda…

Foi um choque!

Escrito em 17/07/2021