MEMÓRIAS DE UM ESTUDANTE DE CURSINHO

Antes de entrar no objeto deste texto, devo um esclarecimento aos leitores mais jovens. Os fatos que vou contar aconteceram em 1965. Nessa época eram raras as mulheres se preparando para os vestibulares de engenharia. E, também dessa época, os palavrões eram também chamados de “palavras de baixo calão” e jamais poderiam ser ditos na frente de mulheres. Outros tempos… Ao final todos entenderão o porquê deste início.

Eu estava me preparando para os vestibulares de engenharia. “Os vestibulares” porque cada faculdade fazia o seu. Na época dos exames era uma verdadeira maratona. Cheguei a fazer um exame numa faculdade de manhã e em outra à tarde, do mesmo dia. Para tentar ganhar o ano que havia perdido ao ter que repetir o 1º ano do Colegial, fiz o chamado curso semi-intensivo, de seis meses, junto com o 3º ano do Colegial. Por isso estudava no colégio de manhã e fazia o cursinho à noite. Fui fazer o cursinho Universitário, por indicação do meu saudoso primo Armando, que tinha acabado de se tornar sócio do cursinho e dava aulas de Português. Nessa época o Universitário funcionava num prédio pequeno, de dez andares, em frente ao Mercado da Cantareira, mais conhecido como Mercadão. As classes eram nos dois últimos andares. Tenho muitas boas recordações desse tempo, que precisaria talvez uns quatro a cinco posts para contar a maior parte delas. Então vou me ater às mais interessantes.

Começo pelo Aldo, que dava aula de Física, se não me engano. Ele tinha uma maneira muito sui generis de ensinar a resolver os problemas. Escrevia o enunciado na lousa. Aí fazia três colunas:       DADOS  –  FÓRMULAS  –   PERGUNTAS                         embaixo da primeira coluna íamos colocando os dados, à medida que líamos o enunciado. Em seguida listávamos, na segunda, as fórmulas que contivessem esses dados. Na terceira coluna transcrevíamos as fórmulas que contivessem as perguntas. Acho que era mais ou menos isso. Mas o curioso era o final. Preenchidas as três colunas, o professor dizia: “agora passa para secretária para fazer as contas e pode descansar”…

Outra “figura” era o Gerson Herzkowics (acho que era esse o sobrenome), professor de Desenho. Ele era muito divertido e bem humorado. De vez em quando, acredite, ele dava aula rimando todas as explicações. E, mais de uma vez, ele trouxe o violão e cantou várias músicas, como Hava Nagila.

Mas o que vou contar aconteceu com o Sidney (se não me engano com o nome), que era um dos sócios do cursinho e dava aulas de Álgebra. Como as lousas eram muito grandes e ficavam cheias de coisas escritas pelo professor que o antecedia, ele pedia que alguém apagasse as lousas antes que ele entrasse na sala. Um dia resolvemos fazer uma molecagem com ele. Não só não apagamos os escritos como escrevemos nos poucos espaços vazios que tinham sobrado. Ele entrou na sala, viu aquilo e não falou nada. Com a manga do guarda-pó ele limpou um pequeno pedaço da lousa e deu a aula toda ali. Ficava na frente de modo que mal podíamos enxergar o que ele escrevia. Quando deu o sinal do fim da aula, ele se virou para a classe disse:

– Por favor, meninas, saiam da classe.

Quando as poucas alunas se levantaram e estavam para sair, ele falou:

– Alunos, vão à merda…

Foi um choque!

Escrito em 17/07/2021

2 respostas para “MEMÓRIAS DE UM ESTUDANTE DE CURSINHO

  1. Paulo, seu conto me fez lembrar da época em q prestei vestibular, tbem cursava o 3o.ano de magistério em uma cidade e o cursinho em outra, prestei vestibular em duas faculdades como vc. Qta dedicação e vontade de entrar na faculdade, heim?

    1. Anna, é isso mesmo. Quem nos vê hoje, não imagina a estrada que trilhamos. Se temos algo de bom em nossas vidas (e temos) é por pleno merecimento. Como dizia meu contador: “As pessoas veem ‘as pinga’ que eu tomo, mas não veem ‘os tombo’ que eu levo.

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