Caro leitor, cara leitora, não se preocupe. Não estou falando do fundo do meu poço, mas de outros poços que vi. Explico.
No dia 29 de março último, ao retornar de uma pequena excursão ao banco, a duas quadras do meu prédio, levei um tombo inexplicável, na recepção do edifício. Caí de lado, sobre o quadril esquerdo. Apesar de ajudado, não conseguia firmar a perna esquerda. O zelador trouxe uma cadeira com rodízios e foi me empurrando até eu sentar no sofá do meu apartamento. Quem me acudiu foi minha nora, Luciana. Ela chamou o SAMU. Mas passou-se uma hora e eles não davam mostras de reconhecer a urgência. Então ela desceu e dali a pouco retornou com uma cadeira de rodas, que achou indo de loja em loja daqui das vizinhanças achar uma que tinha a cadeira. Me pôs no carro e levou para o hospital. Passei por consulta, fiz Raio-X e fui encaminhado para o ortopedista. Foi identificada uma fratura no colo do fêmur. Onde eu já tinha três pinos, fruto de outra queda há alguns anos. A decisão do médico foi por uma cirurgia para retirar os pinos e colocar uma haste no fêmur. No dia seguinte tive que aguardar até as 17h por uma vaga no centro cirúrgico. A previsão foi de duas a três horas de cirurgia. Acordei na UTI, como previsto. Passei lá dois dias. O cirurgião, em suas visitas, disse que estava tudo bem e que eu poderia ir para um leito no setor de cirurgia. Fiz uma série de exames, quando já estava no leito da enfermaria, porque estava com oxigenação baixa, que só melhorava quando fazia uso de oxigênio. O cirurgião disse que, por ele, eu estava de alta, mas a médica do Setor de Clínica Médica ainda estava analisando os resultados dos meus exames. Quando o Edgar estava comigo, a médica entrou no quarto e falou:
– Tenho uma novidade. Voltamos para a UTI, porque identificamos um princípio de pneumonia e uma pequena embolia pulmonar.
Fiquei chocado, por mais que o Edgar procurasse me acalmar, dizendo que era o melhor para mim. Passei a tomar medicação para evitar trombose, diurético e algumas outras medicações, das quais já não me lembro. Também precisei tomar duas bolsas de sangue, porque estava um pouco anêmico pela perda de sangue na cirurgia, o que foi considerado previsível. Acho que passei mais uns dois dias na UTI e fui transferido para um leito no setor de clínica médica de onde eu deveria ter alta em mais um ou dois dias, que viraram três ou quatro… A médica me prescreveu o uso de concentrador de oxigênio, pois eu ainda estava com oxigenação um pouquinho baixa.
Nesse meio tempo o Edgar teve uma conversa comigo:
– Pai, a Cami e eu achamos melhor você ir para um residencial para se recuperar com cuidados adequados. O que você acha?
Foi um alívio para mim, pois já vinha preocupado sobre como seria minha saída. Não queria ir para casa de ninguém, especialmente pela falta de condições de mobilidade.
– Acho ótimo! Eu estava pensando mesmo que essa seria a melhor solução.
– Nós visitamos algumas casas e achamos uma perto de casa e na rua de trás do consultório dela. Amanhã virá uma enfermeira de lá para olhar seu prontuário, fazer uma avaliação do seu caso e definir as condições para sua chegada nesse residencial.
Confesso que entre eu sair da UTI e minha alta, os dias ficaram um pouco nebulosos para mim. Eu me lembro bem que a médica não quis me liberar sem estar ligado ao oxigênio. Então a Lu conseguiu que o residencial emprestasse um balão de oxigênio. Foi uma epopeia, porque o balão era muto pesado e colocá-lo e retirá-lo do carro foi muito difícil. Mas afinal, aos trancos e barrancos, chegamos ao Residencial.
NOTA: daqui para a frente, todas as pessoas e situações são reais, mas os nomes, por razões evidentes, são fictícios. Até o nome da casa será apenas Residencial.
Aí começou minha viagem ao fundo do poço. Se a saída do hospital foi um pouco confusa, a chegada ao Residencial foi, pelo menos, conturbada. Fomos, eu, o Edgar e a Lu para uma entrevista com a Gerente do local, que chamarei de Tania, e o enfermeiro Saulo. Começaram a nos fazer várias perguntas e o Edgar foi ficando irritado, pois eram informações que já haviam sido dadas para a enfermeira que nos visitou no hospital. Já não me lembrou por que, mas as coisas começaram a desandar entre a Lu e a Tania. Foi uma conversa áspera. A uma determinada altura a Tania falou, arrogantemente, ao ser questionada pela falta de comunicação dela com a área de Vendas, que já tinha sido Superintendente de hospital. A temperatura subiu e eu resolvi intervir:
– Gente, não interessa saber quem está errado. Temos que resolver o problema da minha chegada.
Aí descobrimos que o Saulo não era o titular da Enfermagem. Ele era subordinado à enfermeira. Esta foi chamada e me encaminhou para um apartamento no 2º andar, que ainda estava sendo preparado. Havia sido pedida uma cama hospitalar, que ainda estava sendo montada. Eu cheguei primeiro, na cadeira de rodas. Quando o Edgar e a Lu chegaram o caldo entornou de vez. Estava montada uma cama hospitalar com manivela, de forma que, sempre que eu quisesse reposicionar a cama, precisava chamar alguém. E a cama era tão alta que eu não conseguiria “escalá-la” sem ajuda. Além do mais, estava bem empoeirada e nem se deram ao trabalho de limpá-la. Foi outra confusão. O Edgar começou a fotografar e dizer:
– Prometeram camarão e estão entregando girino…
A enfermeira Marta foi chamada, como responsável por me acomodar. Então me levou para o 4º andar, a um apartamento usado como merchandising para mostrar a visitantes e ofereceu que eu ficasse lá, o que aceitamos. Mas era uma cama normal, sem grades ou ajustes. Resolvi ficar assim mesmo, pois no dia seguinte trariam uma cama hospitalar de verdade. Jantei no quarto e dormi muito bem nessa primeira noite, mesmo com tanta agitação. Estava bem cansado. Assim terminou o dia 12 de abril. Nas minhas orações agradeci muito a Deus pelo Edgar, pela Camila e pela Luciana, que me socorreram e tomaram as melhores decisões possíveis em cada momento. Dormi muito bem, mas precisei tomar analgésico pois estava com dor na perna.
No dia seguinte comecei a entender a dinâmica do Residencial. Demorei mais ou menos duas semanas para me adaptar à nova vida temporária. Medicamento às 6h da manhã. Acordava meio estremunhado e dormia outra vez. Às 8h vinha o café da manhã (uma xícara de café com leite, um pão de leite com manteiga e/ou geleia, uma fruta, em geral banana ou mamão) e os outros medicamentos da manhã. Entre 9h e 10h, banho sentado na cadeira de banho. Nos primeiros dias era muito dolorido mexer a perna esquerda. Tinha que ajudar com a mão. Por volta de meio dia, almoço no refeitório. Inicialmente eu só saia do quarto na horas das refeições, porque eu tomava diurético e achava muito complicado ir ao único banheiro da área de estar, no andar térreo. Aos poucos fui me ajustando, com auxílio das cuidadoras. Então passei a descer depois do banho e ficar até depois do jantar. Mais ou menos às 15h, lanche da tarde (café com leite e pão de leite; de vez em quando, bolo e refrigerante). Perto das 19h, jantar. Então eu voltava para o quarto e ficava assistindo noticiário ou futebol. Às 8h, lanche da noite (café com leite ou chá, pão com manteiga ou bolacha), servido no quarto, e os remédios da noite.
Os remédios merecem uma menção especial. Muitas vezes vinham errado, no horário ou na posologia. Às vezes não vinha um determinado medicamento, outra vezes vinham medicamentos de uso “se necessário” quando não eram necessários. Eu tinha que prestar muita atenção e alertar aa cuidadoras para prestar atenção no que a farmácia enviava. Uma vez, inadvertidamente, tomei um medicamento para pressão quando não era necessário e minha pressão caiu para 9/6 e tive que colocar dois sachês de sal embaixo da língua. Graças a Deus, depois de umas duas semanas, os remédios passaram a vir corretos, mas eu sempre conferia. As cuidadoras já sabiam e traziam os comprimidos na embalagem para eu verificar. Eu ficava pensando, e preocupado com tantos moradores/moradoras que não tinham consciência do que estavam tomando.
Quando comecei a ficar no andar térreo, aos poucos fui percebendo o ambiente terrível em que teria que viver, afortunadamente por um período relativamente curto. Minha preocupação era não me deixar contaminar pelo ambiente, mas isso vou contar aos poucos, nos próximos textos. Com a experiência da pandemia de COVID-19, criei rotinas para me proteger. Procurava sentar isolado, o que nem sempre era possível, como verão. Ficava lendo no Kindle ou no Skeelo, ouvindo música com fone de ouvido, ou usando meu celular para ver programas na Globoplay.
Foi assim que passei a observar o que se passava naquele fundo de poço, tomando cuidado para não cair nele. Depois incorporei nas minhas rotinas, escrever notas para comentar mais tarde, como estou começando agora. Não era todo dia que eu escrevia e inicialmente não registrava a data da anotação, o que passei a fazer um pouco mais tarde. Mas vou seguir rigorosamente a ordem dos dias em que escrevi. Em cada texto será comentada uma anotação.
Escrito em 23 e 24/06/2023