ANOTAÇÃO 1

A primeira pessoa com quem tive uma “conversa” foi a Alba. Conheci essa moradora quando estava subindo para meu quarto, depois do almoço. Foi um contato rápido, enquanto eu entrava no elevador. A cuidadora perguntou para onde ela estava indo.

– Estava indo para casa, mas tive que voltar porque esqueci minha bolsa.

Claro que achei estranho, mas fiquei quieto. (Pensei comigo: será que tem Alzheimer?) Alba é uma senhora de, talvez, uns 70 anos. Corpulenta, gorda mesmo, alta, sempre com um croc estampado, cabelos curtos cacheados (Afrodescendente? Pele mais para jambo). Rosto simpático, sorridente, já havia reparado nela enquanto esperava o almoço e ela sorriu para mim. Sentou para almoçar na mesma mesa que eu. Tudo ia bem até que atrasaram para trazer o prato dela. Uma outra senhora, que depois descobri que se chama Carmen, fez um sinal pedindo que trouxessem a comida dela. Para minha enorme surpresa ela se enfureceu:

– DA MINHA VIDA CUIDO EU! NÃO PEDI PARA ME AJUDAR!   

Fora esse momento, sempre mostra doçura. Hoje jantei com ela. Conversou normalmente. Na hora da sobremesa, não conseguia abrir o pote da gelatina e eu abri. Ela agradeceu e comeu tudo. Quando chegou a minha sobremesa, ela achou que era dela. Falei que era minha e ela já tinha comido a dela; disse que estava distraída e não se lembrava. A cuidadora trouxe outro pote. Quando fui abrir ela disse que não, pois ia levar para o neto. Logo saiu da mesa. Quando fui levado para o salão de estar, ela estava terminando de comer o segundo pote de gelatina. Olhou bem para mim e sorriu como se nada tivesse acontecido.

Este primeiro contato mais próximo com uma moradora me fez começar a pensar o que se passa na mente de tanta gente aqui. Como não têm consciência da realidade, tendem, talvez, a serem mais felizes do que se estivessem em casa sem autonomia, observando suas limitações e dependendo mais claramente da família. Esse pensamento ficou me rondando o tempo todo em que estive no Residencial e ainda se faz presente na minha mente.

Escrito em 26/06/2023

2 respostas para “ANOTAÇÃO 1”

  1. Pois é Paulo, por essa convivência, ninguém está livre de passar
    Creio q de td o q vivemos, extraímos o bom e o desagradável e se n ocorre, mtos “transformam o limão em limonada” – sábia resiliência.
    Espero q esses dias nessa morada, tenham acrescentado positivamente à sua vida.

    1. Anna, realmente foi um desafio para minha saúde mental. Meu objetivo, ao escrever sobre esta experiencia, foi mostrar um mundo que pouco conhecemos. E valorizar a decisão de uma família ao colocar uma pessoa nesses locais como a melhor opção. E também reconhecer o trabalho de cuidadoras e cuidadores (sim, também há homens atuando nesse trabalho).

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