GANGORRA

 José tomava sua cervejinha de toda tarde de sexta-feira, enquanto olhava o movimento da rua, pela janela do seu apartamento. Como sempre, muitas lembranças vieram à sua mente. Nesse dia lembrou com muita saudade quando ainda era o Zézinho. Adorava ir à casa de seu avô. Ele morava numa casa que tinha um imenso quintal, desses que quase não existem mais. Nesse quintal, entre tantas coisas interessantes, havia uma gangorra. Era o passatempo preferido do Zézinho. Quando era bem pequeno sentava-se numa ponta e o avô empurrava a outra ponta para que ele subisse. Depois de alguns segundos o avô fazia ele abaixar. Por ele, ficaria horas brincando assim. Claro que o avô não aguentava tanto tempo.

Conforme foi crescendo passou a brincar na gangorra com outras crianças. Mas o avô estava sempre ao lado, para evitar acidentes. Quando ele brincava com seu irmão mais velho era um problema. O irmão era mais pesado e se ele não desse um impulso o Zezinho ficava parado no alto. O irmão sabia disso e quase sempre emburrava para cima. Quase sempre. Porque nos dias em que tinham brigado por alguma bobagem, como acontece com todos os irmãos, ele ficava um tempão pendurado lá em cima e tinha que pedir por favor para que o irmão o fizesse descer.

Por outro lado, quando brincava com seu primo, menor que ele, o primo é que ficava pendurado nas alturas. Até que ele pedisse alguma coisa ao primo e este concedesse. Do tipo: “Me dá aquela figurinha do Pelé”. O avô observava e um dia ensinou ao Zézinho:

– Zézinho, o melhor que você pode fazer é escolher para balançar uma criança com mais ou menos o mesmo peso que você. Assim ninguém levará vantagem. Acontece que nem sempre haverá alguém que se equilibre com você. Então você terá que aprender a lidar com as diferenças. Assim você aprenderá a ajudar quem está no alto e aceitar ajuda de quem está embaixo. Estar em cima nem sempre é vantagem.

Zézinho em tendeu bem o que seu avô explicou. E desse dia em diante nunca mais teve dificuldade para aproveitar a gangorra. Qualquer que fosse seu companheiro ele sabia como aproveitar a brincadeira.

Enquanto pensava assim, com o olhar perdido ao longe, ele repassou muito da sua vida. De um apartamento de um por andar, três carros na garagem e casa na praia agora morava num apartamento de 45 m² e dependia dos outros para se deslocar. E pensou como seu avô lhe deu uma lição importantíssima.

A vida é uma gangorra…

Escrito em 17/09/2022

PEQUENOS GRANDES MOMENTOS

É… Eu sei que se conselho fosse bom não seria dado e, sim, vendido. Eu mesmo, durante meu trabalho, recebia meu salário para, entre outras coisas, oferecer conselho. Espero que tenham valido a pena. Mas não estou aqui para dar conselhos não solicitados. O que eu quero é compartilhar algumas experiências que minha vida me proporcionou. Se foram úteis, ótimo! Se não, espero que pelo menos tenham representado alguns minutos de distração. Mas, chega de colóquio flácido (também conhecido como conversa mole…).

Eu tenho um princípio, ou aforisma talvez, que não sei se me apropriei da ideia de alguém ou eu mesmo formulei. Há décadas penso assim e já dividi esta ideia com muita gente. A Felicidade não está nos grandes acontecimentos da nossa vida e sim em pequenas coisas que nos agradam, em nosso dia a dia. O fato é que grandes acontecimentos não ocorrem toda hora. Se esperarmos por eles, seremos pouco felizes. E será uma felicidade efêmera, porque o efeito dos grandes acontecimentos se dissipa rapidamente. Se olharmos para nossa vida, temos muito exemplos. O primeiro dia na escola, que logo nos esquecemos porque temos que pensar nas lições e nos estudos. A formatura, que logo esquecemos porque tivemos que pensar no trabalho. O primeiro carro, alegria da qual nos esquecemos no primeiro pneu furado ou na primeira visita ao mecânico. Ou aquele réveillon na praia, assistindo a queima de fogos com uma taça de champagne na mão. Depois de poucos dias esse momento já tinha se dissipado no meio da vida que prosseguia.

As pessoas que irradiam felicidade e alegria aprenderam, voluntária ou involuntariamente, a aproveitar as pequenas coisas das quais nossos dias estão cheios. A criança, no colo da mãe enquanto esperam o horário da consulta, lhe dá acenos; e na hora de ir embora a mãe fala: “Dá tchau pra o tio”. A bebezinha que toma o elevador com você e se joga na sua direção pedindo colo. A pomba que pousa no parapeito da janela na esperança de encontrar algo para comer; olha bem para você, desiste e vai embora. A vendedora da loja de produtos naturais que dá bom dia e pergunta: “Que vai ser hoje, seu Paulo?”. O chapeiro da lanchonete que olha para você e pergunta: “Hoje é dia, né?” e já vai embalar uma feijoada para viagem. A banca de flores aqui em frente, sempre com lindas flores expostas. E tantas outras coisas que me aconteceram nas últimas horas que seria enfadonho ficar listando aqui.

Tudo isso para contar algo que me deixou feliz ontem. Eu tinha que fazer exames de rotina, tomografia e sangue. Até aí, nada demais. Já fiz tantas vezes esses exames. Mas ontem foi diferente. Pela primeira vez eu não podia ter a companhia do meu vizinho, que se mudou há uma semana. Então fui sozinho. Ida e volta de Uber. E ainda aproveitei para tomar um café com pão de queijo que o laboratório oferece para quem faz exame de sangue. A felicidade que experimentei ao chegar de volta a casa foi muito grande e vai durar bastante tempo, me animando a sair sozinho mais vezes. Já fiz esses exames tantas vezes e nunca me havia dado a perceber como é gostoso poder sair de casa, fazer os exames, e voltar.

Como falei no início. Isto não é um conselho. É apenas o compartilhamento de um momento feliz. Espero que você tenha muitos Pequenos Grandes Momentos.

Escrito em 10/09/2022