MAURICIO

Era uma manhã de primavera e eu caminhava para meu escritório aproveitando o sol ameno, típico da estação, quando ouvi uma voz conhecida me chamando:

– Bom dia, dotô!

Só podia ser ele. Olhei para a direção da voz:

– Bom dia, Mauricio! Quanto tempo que não nos vemos! O que você anda fazendo?

– Estou trabalhando, dotô, como faxineiro…

– Como? Você, faxineiro? Que história é essa?

– Pois é, dotô, as crianças têm que comer…

Eu estava em cima da hora para uma reunião e não podia estender a conversa. Dei a ele um cartão da minha empresa de Síndico Profissional:

– Apareça lá qualquer hora. Mas marque o dia porque paro pouco no escritório.

– Vou sim, dotô. – (ele sempre chamava todos de Dotô…)

Durante o dia fiquei me lembrando do Mauricio. Ele era o Líder da Portaria no prédio para onde eu me mudara há cerca de um ano. Era um angolano típico: estatura acima da média, esguio, negro retinto onde se destacavam os dentes brancos quando dava seu sorriso fácil. E um vozeirão de baixo. Chegara ainda criança com os pais que vieram em busca de uma vida melhor. Há 10 anos fora admitido como faxineiro e fez uma pequena carreira, passando de faxineiro a porteiro e, de porteiro a Líder da Portaria com responsabilidade por três porteiros e um folguista. Eu costumo andar em volta do prédio toda manhã e sempre parava na portaria para dar dois dedos de prosa com ele. Num desses papos, ele me mostrou a foto da esposa, também angolana, e das filhas de 5 e 3 anos, que não negavam as origens. Certa manhã e o encontrei com semblante triste, muito diferente do seu normal. Não consegui me conter e perguntei:

– Algum problema, Mauricio?

– Sim, dotô. Na semana passada o dotô Silvério – (um delegado de polícia que tinha se mudado para o prédio há algumas semanas) – pediu uma pizza e quando ela chegou interfonei para ele. Ele pediu para o entregador levar para a porta do apartamento dele. Eu informei que, pelo regulamento do condomínio, os entregadores não podiam entrar. Então ele pediu que eu levasse. Falei que essa também era a regra, que não podia sair da portaria a não a serviço do prédio. Ele ficou furioso, bateu o interfone na minha cara e desceu para pegar a pizza.;

– E aí, seu negrinho de m* (desculpe, não falo palavrão…), quem você está pensando que é seu filho da p*? Volta para a m* do seu país.

– Ele foi embora bufando. Ontem ele pediu pizza novamente e novamente fui eu que recebi. Avisei pelo interfone e ele disse que estava tomando banho e logo desceria para pegar. Depois de uma meia hora ele desceu e falou:

– Você não perde por esperar, seu morto de fome.

– Hoje cedo o dotô Antônio (o síndico) passou aqui e me falou:

– Ô Maurício, que história e essa de você entregar a pizza para o Dr. Silvério com dois pedaços faltando? Você me espera aqui e na hora do almoço vamos conversar porque agora não tenho tempo.

– Dotô, juro que não mexi na pizza, mas vai ser a minha palavra contra a do dotô Silvério…

– Tenha calma, Mauricio. Fique tranquilo que logo tudo se esclarecerá. Bom dia.

Quando voltei para casa à noite o já Mauricio não estava lá. Perguntei por ele, mas fui informado que ele tinha sido demitido. Com certeza, como ele mesmo tinha previsto, foi sua palavra contra a do delegado. Senti-me revoltado. Como uma pessoa pode ser tão truculenta, racista e xenófoba… Tudo isso me veio à mente quando reencontrei o Mauricio, quase dois meses após sua demissão. Dois dias ele já me ligou. Perguntei que ele horas ele saia do emprego e marcamos para as 18h no escritório.

– Boa tarde, dotô. Obrigado por me receber.

– Bom te ver novamente, Mauricio. Que história é essa de você estar trabalhando como faxineiro?

– Pois é, dotô, o seu prédio foi meu primeiro emprego. Era a única referência que tinha para me candidatar para cargos de portaria. E quando ligavam para o dotô Antônio ele dava más referências. E eu tenho que por comida na mesa para minha família. Então aceitei o emprego numa empresa que terceiriza o serviço de faxina em hospitais.

– Te entendo. Mas você pode achar coisa melhor. Por coincidência um pequeno prédio que administro – são apenas 10 apartamentos – está precisando de um Zelador. Vou apresentar seu nome para o Conselho de Administração e serei sua referência. Acho que na próxima semana já terei boas notícias para você. Boa noite.

– Boa noite, dotô. E obrigado por tudo.

De fato, com as minhas referências o Conselho de Administração aprovou a contratação dele como Zelador. Depois do primeiro mês de experiência verifiquei que ele estava aprovado! Quando fui falar com ele sobre sua efetivação e verificar se estava tudo em ordem com o salário ele abriu aquele sorriso de dentes brancos, realçados pela negritude da pele, e me falou:

– Dotô, com esse salário melhorzinho tomei a decisão de me matricular num curso Técnico de Administração e depois vou fazer um curso de Síndico Profissional.

Saí daquela conversa com a alma leve, por ter conseguido ajudar uma pessoa a ter o que merece.

Escrito em 05 de novembro de 2024

HÁ MALES QUE…

…que vêm para o bem. Recentemente vivi, na prática, uma experiência da validade deste ditado. Há pouco mais de quatro anos, quando minha esposa Viviane faleceu, resolvi me mudar para Sorocaba, como havia combinado com ela. Era a concretização de um velho sonho de morar no interior, especialmente para a cidade de origem da minha família. Mas, poucos dias antes dessa mudança, tive uma queda e fraturei a patela. Durante os três meses de semi-imobilização da perna, na casa do meu filho Edgar, ele me convenceu a desistir da ideia porque seria complicado me socorrer em caso de alguma necessidade. Aceitei a ponderação, aluguei um pequeno apartamento no bairro de Perdizes, e fui morar sozinho.

Tudo corria bem até que sofri uma queda, na entrada do meu prédio, e tive que colocar uma haste no fêmur esquerdo. Minha recuperação foi num hotel residencial para idosos. Lá fiquei durante dois meses e voltei para casa. No início tinha uma cuidadora que ficava comigo durante o dia, três dias por semana. Como eu continuava inseguro, a cuidadora passou a vir de segunda a sexta. Até que chegaram as férias de verão, quando tanto o Edgar como a Camila iriam viajar. Então avaliamos a situação e chegamos à conclusão que, para minha segurança, seria melhor que eu me mudasse definitivamente para um residencial para idosos onde eu teria atenção 24 horas por dia. Desmontei meu apartamento, me desfiz da grande maioria das minhas coisas, de enorme valor sentimental. Foi um momento muito difícil. Mas aqui estou, há mais de dez meses, morando no Residencial para Idosos Elite.

No começo foi uma adaptação difícil, mas consegui, até porque não me restava outra alterativa. Só não conseguia me conformar por ter que desistir de tantos sonhos que tinha para a etapa final da minha vida. Passear nos parques, ir ao cinema, ao teatro, viajar etc. Mas, nos últimos dias, entendi por que quebrei a patela e terminei por vir morar aqui no Elite.

Na terça-feira, passei a noite indisposto e assim acordei. Quando a cuidadora do plantão veio medir meus sinais vitais ela se assustou com minha baixa saturação de oxigênio. Ela recomendou que eu procurasse atendimento médico de urgência. Como nem o Edgar nem a Camila tinham condição de atender com a urgência necessária, quem me acudiu foi minha nora Luciana. A Lu tem uma característica que sempre admirei: ela é muito assertiva. Me levou para o PA do Hospital Samaritano. Lá, na triagem fui encaminhado rapidamente para a Emergência, devido à minha saturação crítica. Em poucos minutos eu estava com um catéter de O², acesso venal instalado, coleta de amostras de sangue para gasometria e hemograma e vários fios ligados ao peito. Fui direcionado para uma unidade de terapia semi-intensiva, para onde fui transferido às 4 horas da madrugada de quarta-feira. Tive alta nesta última quarta-feira. E aqui estou, plenamente recuperado.

Durante esse período de recolhimento compulsório tive a oportunidade de rever tudo que me levou até aqui. O que me marcou mais profundamente foi a avaliação da fisioterapeuta. Ela disse que seu eu tivesse demorado mais um pouco teria ido direto para a UTI e teria sido intubado. E talvez eu não estivesse aqui escrevendo este texto… Ou seja, um mal (fratura da patela) que veio para o bem (estou vivo!) Tenho tanto a agradecer para tanta gente, mas, principalmente, agradeço a oportunidade enxergar a vida com mais otimismo.

Escrito em 01 de novembro de 2024