Ao longo dos últimos cinco anos meu estado de espírito tem oscilado bastante. Por causa da dissonância entre projetos que imaginei para minha vida, logo após minha viuvez, e os obstáculos que foram aparecendo para realizá-los. Ora eu estava entusiasmado com o projeto, ora estava triste com a impossibilidade de concretizá-lo.
Nas últimas semanas de vida, a Viviane me falou que eu poderia morar no apartamento que ela tinha em Sorocaba pelo tempo que eu quisesse, o que foi depois ratificado pelo Renato, seu único filho e herdeiro. Era algo que eu sempre sonhei: morar fora de São Paulo, preferencialmente numa cidade menor. Pois na véspera de eu iniciar minha mudança, tive uma queda e fraturei a patela do joelho esquerdo em três pedaços. Cheguei a passar uma semana em Sorocaba mas sentia muita dor e, para resumir, passei três meses morando na casa do Edgar, com a perna imobilizada. Ao final desse tempo fui convencido a desistir de mudar devido ao risco de não ter como ser acudido rapidamente pelos filhos, no caso de problemas com minha saúde.
Aluguei um apartamento no bairro de Perdizes, muito próximo do primeiro endereço em que residi quando vim para o bairro, há mais de 35 anos. Era um prédio misto de residencial e comercial. Assim eram também as quadras próximas. Tinha toda facilidade para compras durante o dia e tranquilidade durante a noite. Logo comecei a me relacionar com alguns vizinhos do prédio e comerciantes das redondezas. Quando entrava na lanchonete ao lado, sábado sim, sábado não, o chapeiro já sabia: “Já sei, uma feijoada pequena, para hoje e para o próximo sábado”. Tinha de tudo por perto: farmácia com entrega em domicílio, agência bancária, hortifruti, casa de ferragens, jornaleiro, supermercado Dia%, loja de produtos naturais que acompanhei a montagem e me tornei amigo dos proprietários, loja Japa (de guloseimas), lotérica, lojinha de miudezas como, por exemplo, capa para celular e outros acessórios para celular e informática, restaurante Ponto Chic, onde nasceu o sanduiche Bauru, papelaria cujos donos eram meus vizinhos de andar, lojas de roupas e sapatos. Eu me sentia como numa cidade de interior, onde todos se conhecem. Ainda não me sentia seguro para pegar ônibus e passear pela cidade. Isso porque, devido à fratura do joelho, ainda usava bengala para dar segurança ao caminhar. Antes que eu estivesse pronto para dispensar a bengala, levei um tombo, na entrada do prédio, e fraturei a cabeça do fêmur esquerdo, onde foi colocada uma haste.
Durante minha convalescência, já em casa depois de dois meses num Residencial para idosos, foi contratada uma cuidadora para trabalhar durante o dia às segundas, quartas e sextas feiras. Pela avaliação das minhas limitações físicas pelos meus filhos, a cuidadora passou a ir a semana toda. Eu só ficava sozinho à noite e aos fins de semana. Depois de algumas semanas, num consenso com os filhos, mudei-me para o Residencial onde já moro há um ano e meio. Mais uma vez aparecia um obstáculo para a concretização dos meus desejos.
Passado um período de adaptação, comecei a me sentir infeliz com a ideia de que eu nunca mais sairia daqui. Por várias razões. Mas, principalmente, porque me sentia com energia e disposição para fazer muito mais do que comer, dormir, ler, ver televisão; comer, dormir, ler, ver televisão; comer, dormir, ler, ver televisão. Só consigo conversar com as cuidadoras que quase nunca, lógico, têm tempo para conversas. Eu estava sentindo cada vez mais necessidade de sair deste ambiente, mesmo que por algumas horas por dia. Comecei a fazer força para me recuperar fisicamente e poder ir mais para a rua. Progredi bastante. Fazia fisioterapia, subia dois andares pelas escadas para exercitar as pernas. Andava pela casa toda sem apoiar a bengala. As cuidadoras até brincavam que eu só levava a bengala para passear. Andei várias vezes na rua, fui a um café a duas quadras daqui e cheguei a dar uma volta no quarteirão, em duas oportunidades. E só não fui mais vezes por falta de acompanhante. Mais ainda não era tudo que eu precisava, Eu precisava de companhia para conversar. Recebi, já não lembro como, um convite para participar de um grupo da Terceira Idade. Entrei, escolhi algumas pessoas que achei interessante e comecei a troca de mensagens. Saí do grupo depois de ter começado conversas com algumas pessoas, com algumas das quais troco mensagens até hoje. Pelo menos eu tinha ampliado um pouco o número de pessoas com quem conversar.
E aí começou meu novo sonho. De forma muito inesperada, com uma dessas pessoas as conversas começaram a se tornar mais constantes. Ela era de fora de São Paulo, pois eu dei preferência a fazer novas amizades de fora de São Paulo para não ter nenhuma outra conotação. Mas, neste caso, o contato foi evoluindo e se intensificando ao longo dos meses. Conversas por vídeo foram se tornando cada vez mais frequentes e longas. Logo nos pareceu que poderíamos pensar numa vida compartilhada, não apenas pela internet. Eu estava me preparando para passar uns dias com ela, para termos certeza das nossas afinidades e disposição para tolerar nossos pontos difíceis. Eu estava só aguardando a festa de 15 anos da minha neta Sophia, no começo de maio. E apareceu um obstáculo absolutamente inesperado. Poucas semanas antes do aniversário levei um tombo idiota e fraturei o cotovelo esquerdo. Poucos dias depois, possivelmente devido ao desequilíbrio causado pela tala no braço esquerdo, torci fortemente o tornozelo esquerdo e fraturei. Para resumir, estou com um fixador externo no tornozelo, chamado de “gaiola”. Acabei nem indo no aniversário. Novamente o projeto dos meus sonhos, de sair daqui do Residencial e mudar para uma cidade menor, associado à possibilidade de construir uma vida nova e agradável está, pelo menos por enquanto, suspenso.
Então, nos últimos dias, para superar minha frustração, comecei a pensar no que deu origem ao título deste texto. Geralmente ficamos aborrecidos quando não podemos fazer o que queremos. Normal. A questão me propus é: será que um dia poderei o que quero? Devo me conformar ao que posso e não pensar no que quero? Depois de me debater com essas questões cheguei a uma decisão que me aliviou e tem até me feito dormir melhor. Se eu quero algo que não posso, é possível vir a poder algo que quero? Sim, digo a mim mesmo, devo buscar condições que me tornem possível o que quero. Vou fazer todo os esforços que estiverem ao meu alcance para tornar possível o que quero. Mesmo que seja necessária alguma adaptação. Faz parte do meu espírito capricorniano. Não desistir enquanto houver esperança.
Escrito em 26/06/2025
