MORADOR DE RUA

Acordei com a claridade do dia. Essa foi uma das primeiras coisas com que me acostumei. Pensar o quer fazer, no dia ou na noite, a partir da claridade do sol. Já faz algum tempo que estou morando na rua. O dinheiro que eu recebia de aposentadoria já não dava mais para pagar aluguel. Emprego, na minha idade, é uma ilusão. Então peguei umas poucas coisas, coloquei numa sacola e entreguei o quarto da pensão. Os primeiros dias na rua foram terríveis. Tinha fome e tinha vergonha de pedir. Sentia-me realmente mal, fraco, padecendo de fome, sede e frio. Sentei-me numa calçada e comecei a chorar de desespero. Foi aí que aprendi a primeira e mais importante lição que a rua me ensinou. De repente senti a presença de alguém ao meu lado. Abri os olhos e vi um outro morador de rua que olhava para mim com um misto de curiosidade e pena.

– Qual é seu problema?, falou.

– É que estou na rua há dois dias. Estou com fome, sede e frio.

E aí veio essa lição fundamental. Esse povo de rua, quando não são alcoólatras ou drogados, são muito solidários. Isso é fundamental para a sobrevivência nesse ambiente.

– Onde você mora?

– Moro na rua.

– Claro. Quero dizer onde você mora, onde você dorme?

– Cada dia num lugar, quando não aguento mais andar e a fome é insuportável.

– Bem, o primeiro passo é se juntar a um grupo. Aprendi isso há muitos anos, quando vim para a rua. Preste atenção em lugares onde haja vários moradores se abrigando. Às vezes famílias inteiras. Com barracas, tendas e papelão, colchões, cobertores. Sob um viaduto, num vão de uma igreja. Olhe bem as pessoas que as pessoas que ali “moram”. Chegue devagarinho e pergunte se cabe mais um. Quando te aceitarem, o passo mais importante já estará dado. O resto você vai descobrir aos poucos.

Comecei a prestar atenção nessas comunidades. A primeira que encontrei me assustou. Um grupo claramente de drogados. Continuei meu caminho. Estava surpreso com a quantidade de grupos na rua. Achei uma que me pareceu interessante. Havia homens, mulheres e crianças. Barracas, colchões e até um pequeno fogareiro. Fiquei ali parado, olhando. Logo um dos homens, aparentando uns 40 anos me perguntou:

– Oi, amigo, perdeu alguma coisa?

– Sim e não. Perdi minha moradia, mas não perdi a esperança. Faz poucos dias que estou morando na rua, eu estou perdido.

– Sei como é isso. Todos nós passamos por isso em algum momento. Sei que não é fácil. Você é sozinho?

– Sim.

– Bem vou consultar a galera e ver se há espaço para mais um. Enquanto isso, sente-se, tome esta água e coma esta sobra do pão que consegui ontem.

Depois de uns trinta minutos ele voltou:

– Tudo bem. Pode ficar conosco. Como é o seu nome?

– Paulo. E o seu?

– Osvaldo, mas todos me chamam de Valdo. Então vamos às regras básicas do grupo. Primeira: crianças são sagradas, na se toca nelas. Segunda: as mulheres devem ser respeitadas. Terceira: nada de brigas, álcool e drogas. Quarta: todos ajudam todos. Comida e água devem ser repartidas sempre que alguém estiver com fome ou com sede. Tudo bem?

-Tudo sim. Obrigado.

-Então venha comigo, que vou te apresentar para todos.

E assim, depois de meia hora eu já conhecia todos e todos, me conheciam. Ou quase todos, pois muitos estavam na rua, trabalhando. O trabalho de morador de rua é batalhar pela sobrevivência. Arrumar dinheiro para comprar alimentos; pedir doação de comida nos botecos ou na porta dos fundos dos restaurantes. Quando tudo falha, procurar um restaurante Bom Prato ou o Padre Júlio Lancelotti. Se isso não for possível, deitar com fome. E acordar no dia seguinte para retomar a batalha. Isso sim é matar um leão por dia.

Outra coisa difícil foi a questão da higiene. Não há banheiro nesses locais. Perguntei ao Valdo como fazer.

– Como você fazia antes de chegar aqui?

– Eu me lembrei de um filme onde um veterano de guerra falava que não tinham papel higiênico, então se limpavam com a mão. Então é assim que tenho feito. O xixi, faço em qualquer canto onde eu possa fazer escondido.

– Paulo, aqui é um pouco mais fácil. Muitos botecos, e até algumas lojas, permitem que usemos o banheiro. No metrô também tem banheiro, mas precisa pagar. Os terminais de ônibus podem ser outra opção. Quando tudo falhar, temos um cantinho, ali, ó, atrás daquele pano esticado como se fosse uma cortina. Ali você pode fazer seu cocô sossegado. Leve uma folha de papel, para se limpar e recolher o cocô. Leve tudo para uma lixeira pública.

– E como faço para conseguir comida?

– Você pode recolher latinha de cerveja ou refrigerante e vender para alguma empresa de reciclagem. Uma outra alternativa é recolher papelão para vender; mas para isso é preciso ter um carrinho de supermercado ou uma carroça, o que ainda não é seu caso.

– Ah, outra coisa. Você precisa descolar um colchão e um cobertor. Isso, só com sorte. Às vezes as pessoas jogam fora e quem chegar primeiro leva.

Fui deitar com todas essas informações rodando na minha cabeça e mal consegui pegar no sono. De repente,  escutei uma voz:

– Bom dia, Paulo Celso. São oito horas em ponto.

Era o despertador do meu celular. Foi tudo um sonho. Mesmo assim aprendi várias lições.

Escrito em 17/12/2021