Há dias venho hesitando em escrever este texto. Afinal, passei quase uma vida inteira evitando dar opiniões que pudessem ser polemizadas. Só recentemente, com a ajuda da minha analista, Fabiana, estou me livrando deste peso. Quando comecei a acordar de madrugada pensando no que escrever, resolvi desembuchar. Então, se alguém se sentir ofendido por alguma coisa que escrevi, desculpe, não foi minha intenção. Vou procurar me manter isento, inspirado num professor. Entre os anos de 1966 e 1970 fui aluno da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), na época associada à PUC-SP. A FEI foi fundada pelo jesuíta Padre Sabóia de Medeiros, inspirado no modelo norte-americano de escolas de Engenharia. Por isso, a cada ano tínhamos no currículo uma matéria ministrada por um padre. No segundo ano, a matéria era Doutrinas Sociais. O professor conseguiu passar o tempo todo sem demonstrar preferência por esta ou aquela doutrina. Tem sido sempre uma inspiração para mim. Era o Padre Mendes; mais tarde ele se projetou como Dom Luciano Mendes de Almeida, Bispo de Mariana e Secretário Geral da CNBB. Obrigado pelo exemplo, Padre Mendes.
Tenho sentido, estarrecido, o nível de agressividade, por razões político/ideológicas, entre familiares e amigos de longa data. Insuflados por pessoas mais interessadas em destruir do que argumentar. Um duelo inacreditável entre dois candidatos a futuro presidente deste pobre Brasil e seu pobre povo. Debates para saber quem era o mais convincente em classificar seu oponente como ladrão, corrupto, fascista, comunista e outros “elogios”. Pouco ou nada se falou sobre programas de governo ou como tratar tantos problemas que afligem este desamparado povo. Já fui chamado de ladrão, bandido, corrupto, vagabundo, comunista, esquerdopatada. Por pessoas da família e amigos de longa data, que deveriam saber que não sou nada disto. Com pouquíssimas dessas pessoas pude trocar ideias e discordâncias sem ofensas. Onde foi parar aquele Brasil belo e trigueiro, do Carnaval e do futebol, do samba, suor e cerveja? De onde veio este Brasil triste e violento?
Aqui entra minha porção de sociólogo amador. Dizem os historiadores que a melhor leitura da História é feita depois que as paixões arrefeceram e seja possível fazer uma leitura mais isenta dos fatos. Então, tenho procurado achar, no passado, a origem deste nosso país de hoje. Que parece ter estado escondido embaixo do tapete, e que só agora foi revelado.
Comecei minha garimpagem no final da Idade Média. Época da Inquisição, ou Santo Ofício (que de santo não tinha nada…). Foi um instrumento da Igreja (ou igreja?) para calar todos os que fossem contra ela, contra seu poder temporal. Já no fim do século XV os reinos de Portugal e Espanha já tinham uma ideia clara do potencial do comércio com as Índias e da possibilidade da descoberta de novos mundos. Mas não tinham dinheiro para essas empreitadas. Então tomaram imensos empréstimos com banqueiros, já desde então predominante judeus, em troca de participação nos resultados dessas explorações. Quando as descobertas começaram e as rotas para as Índias tornaram-se mais promissoras que o esperado, os olhos dos reis “cresceram” para cima dos resultados e decidiram não pagar suas dívidas com os banqueiros. Como resolveram? Fazendo com que a Inquisição se voltasse contar os judeus. Estes passaram a fugir ou se converterem para o catolicismo, como os conhecidos Cristãos Novos. E, veja só…, as dívidas sumiram… Parece que o nascimento do Brasil de hoje foi por aí. O Brasil foi descoberto, gigantescas extensões de terras “Onde se plantando, tudo dá”. Mas onde arranjar mão de obra para plantar e colher? Fácil; declarou-se que os negros eram uma espécie de animal que poderia ser domesticado e colocado a serviço dos seus donos. E por mais de 300 anos o Brasil cresceu apoiado na mão de obra escravizada, usada inclusive pela Igreja (ou igreja?). E nossos produtos também enriqueceram muitos países da Europa e os Estados Unidos, todos que, hipocritamente, condenavam a escravidão.
Em 1888 foi proclamado o fim da escravatura. Mas nenhuma medida foi tomada para integrar os libertos à sociedade. Os latifundiários ficaram tão revoltados, pela perda do que consideravam seu “patrimônio”, que financiaram o movimento, já em andamento, pela Proclamação da República (ou república?). A condição dos libertos quase não mudou, pois não tinham como subsistir sem emprego, e os empresários passaram a empregá-los muitas vezes em piores condições que durante a escravidão. Eram cidadãos de quinta categoria. Essa condição só começou a mudar, os poucos, em meados do século passado. Mas ainda progrediu muito pouco. Fruto disso são os preconceitos. Contra negros, pardos, mulatos, mulheres e pobres. Todos na mesma panela. Esse preconceito é a chama, na minha opinião, na fogueira que alimenta a violência. Não por coincidência, a região que abrigou o maior número de escravizados foi o nordeste. Origem da população mais discriminada hoje em dia. Quem, da minha geração, não se acostumou a chamar de baianos todo o povo nordestino, dizendo que “acima do Espírito Santo” todo mundo é baiano. E até hoje há gente que acredita que o “baiano” é indolente.
Esse Brasil cresceu e se fortaleceu sob o tapete do “politicamente correto” e da vergonha do preconceito. Mas, os últimos anos esse tapete foi levantado e as mazelas de discriminação vieram à luz. Esse me parece ser o Brasil de sempre, que começou na “Santa” Inquisição, mergulhou na escravidão e agora ressurge na esteira da discussão ideológica e a intolerância.
Pronto, falei. Agora estou pronto para o massacre.
Escrito em 05/11/2022
