Dizem que atingir um objetivo requer transpiração e inspiração. Domingo eu estava disposto a transpirar, mas a inspiração não vinha. Ontem as inspirações vieram, mas eu já não estava muito a fim de transpirar. Só hoje as duas coisas se juntaram e cá estou. Curiosamente as duas inspirações giram em torno da minha mãe. Uma se refere a Ópera e outra a Frango Ensopado. Estranho, mas é real…
No domingo eu estava procurando algo para assistir no Youtube e me deparei com uma gravação da ópera Carmen, de Georges Bizet. Eu gosto de varias árias dessa ópera, mas nunca tinha visto a ópera toda. São 2h50, gravadas no teatro da Ópera de Paris. Decidi assistir inteira. Uma maravilha de encenação para quem gosta do gênero. Figurino bonito, vozes maravilhosas. Mas o que tem isso a ver com a minha mãe? Explico. Reza a lenda que o pai da minha avó materna, Carmen, era um maestro chamado Carlos Felice. O fato é que ele pôs nos filhos nomes de personagens da ópera. Assim, além da minha avó Carmen, os nomes das irmãs eram Ofélia, Lucia, Laura, Desdemona (não sei se me esqueço de alguma) e o único homem chamava-se Ameleto (Hamlet em italiano). E, na peça, várias vezes a personagem central é chamada de Carmencita. Acredito que, por isso, minha avó era conhecida por Carminha. Quando minha mãe nasceu, foi batizada de Carmen (falta de imaginação…) e recebeu o apelido de Carminhdinha. Eu achava muito estranho ouvir os primos e tios chamá-la por esse apelido. Mas finalmente entendo.
E vamos à segunda inspiração. No domingo, minha vizinha Erenilda me mandou três pedaços de frango ensopado, que estavam uma delícia. Então me lembrei que por um longo tempo eu evitava comer frango ensopado. E aqui vai a razão. A casa onde nasci e vivi até casar não era muito grande, mas tinha um quintal imenso. Parecia uma chácara incrustada naquele cantinho do Cambuci. E minha mãe, nascida em São José dos Campos, manteve a alma interiorana. Tinha horta e terreiro. E eu, que também herdei dela esse gosto caipira, adorava ajudá-la a cuidar desse terreno. Um pedaço desse espaço foi quadra de vôlei, campo de futebol e milharal. Nesse mesmo terreiro minha mãe criava galinhas poedeiras e vendia ovos na vizinhança para ajudar na subsistência da família. Eram talvez umas trinta galinhas e alguns frangos. Eu tenho uma infinidade de lembranças dessa época, mas vou ficar só na questão do frango ensopado. Minha mãe sempre pesquisava como aprimorar o desempenho das galinhas. Com o tempo passou a alimentá-las com uma ração que aumentava a produção de ovos. Tornou-se quase uma verdadeira granjeira. A ração era entregue em casa, em grandes sacos que eram estocados no nosso porão. Jamais esquecerei que esse produto se chamava Avevita. Eram pelotinhas do tamanho de um grão de milho e rescendiam fortemente a farinha e outros aditivos, que certamente continham. Vez por outra, quando as coisas apertavam em casa, o que não era raro, ela matava um frango e o preparava ensopado. Para mim, o frango tinha gosto e cheiro de avevita. Eu comia porque não tinha opção. Por isso, por décadas, eu evitei frango ensopado. Mas, com o tempo, perdi essa cisma e hoje a forma que mais gosto de frango é ensopado.
Escrito em 09/02/2021
